terça-feira, 20 de novembro de 2007

Negros e Pentecostalismo

Por Carlos Seino

Recentes estudos, como o do Marco Davi de Oliveira, demonstraram que o Pentecostalismo é a religião “mais negra do Brasil”, onde há o maior contingente de negros bastante ativos em suas comunidades, bem como em posição de liderança. Em seu livro, o referido estudioso lança luzes do porque o pentecostalismo se tornou um segmento evangélico tão atrativo para os afro descendentes, mas sem esconder também muitos problemas oriundos de tal movimento, principalmente para a herança e cultura africana.

Conheço pessoas de boa parte dos os segmentos cristãos, e, algo que vejo nos mais tradicionalistas dentre as igrejas históricas, sejam ortodoxas, católica romana e protestantes, é uma constante crítica ao pentecostalismo e ao movimento carismático, como algo que veio, de algum modo, “estragar” a igreja.


Há seminários evangélicos tradicionais que não permitem a presença de pessoas que de algum modo expressem o tal de “dom de línguas”. Curiosamente, também conheço muitos representantes da dita “teologia liberal”, com seu discurso sobre inclusão, tolerância, etc; mas que, na prática, dá a impressão de que têm igual ou maior repúdio ao movimento pentecostal do que a qualquer outra religião. Dá a impressão que preferem outras religiões que o próprio movimento carismático dentro do cristianismo.

Curiosamente, o movimento pentecostal parece ter início entre aqueles que não tinham espaço dentro do cristianismo “oficial”, histórico e institucionalizado. Sim, o pentecostalismo não começa pela elite branca, mas sim pelo negro excluído, proibido de sentar-se aos bancos dos seminários, e foi um movimento de massas, e há pouco tempo atrás poderíamos até dizer que não se tratava da religião para o pobre, mas sim da religião do pobre, que cresceu às margens do cristianismo organizado. José Comblin, padre católico, não exclui o catolicismo deste processo quando afirma que “os pentecostais de hoje divulgam entusiasmados sua nova religião, porque sentem que ela melhorou e transformou sua vida – experiência que nunca haviam feito quando eram católicos
[1]” e que a própria Igreja Católica, através de suas políticas, “abandonou os pobres – e esses foram buscar refúgio nas Igrejas pentecostais[2]”.

Fico a me perguntar se os cristãos históricos nunca se fizeram esta meditação, a de verificar que, seu “ethos”, seu modo de expressar o cristianismo, ainda que teoricamente inclusivo, não seja, na prática, eletista, e exclusivista; e, pasmem, liturgicamente fundamentalista? Há ainda espaço para pescadores, pessoas simples do povo nas fileiras da liderança das igrejas históricas, de origem européias e bem organizadas? Talvez, no último século, somente no pentecostalismo tal coisa foi realmente capaz de ocorrer, o da ascenção de grande contingente de pessoas economica e culturalmente mais humildes.

O fato é que parece que estamos muito longe da tal democracia racial tão pregada e desejada em nossas igrejas. Talvez o erro de muitas igrejas seja justamente o de tentar ajustar o negro, o pobre, o latino, dentro de um “ethos”, uma forma de ser, que foi também historicamente condicionada e elevada ao status de sagrada.
Fato é que, o pentecostalismo, por ter crescido fora e a margem do cristianismo histórico, acaba por desenvolver talvez, alguns erros teológicos muito conhecidos; mas nada do que já não houvesse ocorrido na atribulada e abençoada igreja de Corinto, mostrando que o movimento pentecostal é carecedor sim de toda a produção teológica feita antes de seu surgimento (precisamos de uma maior reconciliação entre ambos); mas, penso, não deixou também de ser um movimento profético contra uma igreja que talvez não tenha logrado total êxito em comunicar o evangelho aos mais desfavorecidos, que se tornou eletista e que, de certa forma, os excluiu, e que congelou suas formas, e não percebeu as mudanças históricas de seu próprio contexto, que deixou de ser “a Igreja reformada sempre se reformando”; talvez, o pentecostalismo tenha sido o vinho novo que “arrebentou” com os odres velhos. Por isso, fico feliz (sem fechar os olhos a outros problemas) em saber que no movimento evangélico tenha crescido a participação e o número de lideranças de pessoas afro descendentes, de mulheres (estas, em ministérios pentecostais mais recentes), de jovens; enfim, gente que talvez não tenha tido muito espaço dentro de outras expressões cristãs mais tradicionais.


[1] In “Quais os desafios dos temas teológicos atuais”, Editora Paulus, pág. 71.
[2] In “O que é a verdade”, Editora Paulus, pág. 77.