sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja e Missão


Por Wellington Pinheiro (*)

Muitas vezes, quando discutimos assuntos como o aumento ou diminuição da membresia de uma determinada comunidade, ou o compromisso ou a falta dele nos fiéis, acabamos sendo levados por uma lógica mercantilista, que nos leva fácil a um caminho cheio de equívocos e incompreensões.


Em nossas discussões e reflexões, em tempo de expressões como “missão integral”, de seminários para motivação, de receitas sobre como construir uma igreja com propósitos, sobre como fazer crescer a comunidade cristã, acabamos embarcando na lógica do número de fiéis como medida do sucesso de uma comunidade. Essa não deve ser o índice para se avaliar o sucesso de uma comunidade, mas sim o quanto essa comunidade é fiel ao Evangelho.A fidelidade ao Evangelho deve ser entendida como fidelidade à missão de Deus.

Portanto, é fidelidade aos quatro pilares da missão, digamos assim: martírio (testemunho), liturgia (adoração), diaconia (serviço) e comunhão (vida fraterna e em comunidade). É claro que, embora sejam desejáveis comunidades que exerçam todos os quatro pilares fundamentais citados, haverá algumas comunidades que serão mais marcadas por um do que pelos outros três. Sendo assim, podemos tentar sistematizar as experiências que nós conhecemos da seguinte maneira:

- Em geral, comunidades de tradição pentecostal podem ser consideradas exitosas no exercício da ênfase na adoração e na comunhão. São comunidades onde o louvor, os dons do Espírito, a música, a oração espontânea, são bastante valorizados. Na medida em que esses aspectos da adoração são conjugados à oferta de pertença a um grupo firme, moral e eticamente bem desenvolvido, o cristão se sente contemplado e se identifica com a comunidade. São portanto comunidades fiéis à adoração e à comunhão.

- Comunidades neopentecostais, apesar da manipulação psicológica e das influências da chamada Teologia da Prosperidade, têm demonstrado um tipo de ação voltado para a diaconia, que se mostra na forma de serviço e na oferta de soluções para a vida do crente, embora saibamos das limitações das ações desses grupos.

- As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais e populares, o trabalho missionário no meio popular, junto aos grupos que lutam por libertação ou em contexto de opressão e perseguição, são comunidades marcadas pela ênfase no martírio, ou testemunho, dado seu caráter profético.

Portanto, podemos considerar que algumas decisões podem ser tomadas, visando a fidelidade da Igreja ao Evangelho, expressa dos quatro pilares anteriormente citados:

1) Na eclesiologia anglicana e da Igreja Primitiva, a Igreja Católica é a Igreja local, a diocese, como já dizia Santo Irineu. Sendo assim, é preciso que os bispos pensem e planejem, junto com presbíteros, diáconos e fiéis, as formas de atuação da Igreja, buscando fidelidade ao Evangelho e à missão.

Assim, como a diocese exercerá o testemunho, a diaconia, a comunhão e a adoração dentro do contexto correspondente ao episcopado em vigência? E os centros diocesanos de formação estão levando essa preocupação com a fidelidade ao Evangelho para além do episcopado em vigência, por meio de uma formação consistente dos fiéis e dos futuros ministros da Igreja de Cristo?

2) Nas comunidades locais, é importante que os pastores reúnam e organizem seus fiéis para tentar descobrir as vocações presentes na comunidade. Que tipo de ação ou ações minha comunidade poderá exercer, no rumo da fidelidade ao Evangelho e explorando todas as suas potencialidades como comunidade? Que nível de compromisso devo esperar dos fiéis? A dimensão da comunhão está presente na minha comunidade a partir da união entre os fiéis que a freqüentam?

O pastor e a comunidade podem vir a decidir diversas coisas, totalmente diferentes. Podem descobrir juntos que a comunidade tem um caráter predominantemente de comunhão, e assim enfatizar o acolhimento fraterno, o aconselhamento pastoral, a escola bíblica dominical, a freqüência aos sacramentos e, por conseguinte, exercer a diaconia a partir dessas dimensões. Podem ainda se ver contemplados no exercício da adoração, com liturgias eucarísticas bem preparadas ou montando louvores, ministérios de música, corais, grupos de dança litúrgica, teatro de evangelização, grupos jovens, células, e a partir disso ir ao mesmo tempo enfatizando mais a comunhão.A comunidade pode ainda dar uma ênfase maior à diaconia, organizando pastorais, grupos para levar os sacramentos àqueles que não podem ir ao culto dominical, fundar ONGs a partir dos talentos individuais dos profissionais que sejam paroquianos e outros que podem, ao longo do movimento, ser ganhos para os objetivos determinados por essa busca de fidelidade evangélica. Há muitas possibilidades que não se esgotam aqui. Mas em geral a ênfase em um pilar da missão, por parte da comunidade, pode levar ao desenvolvimento dos outros três, desde que isso seja bem trabalhado pelo pastor e sua comunidade, organizada em grupos e com responsabilidades bem estabelecidas.É fato que essa abordagem por ênfases não está relacionada à quantidade de fiéis na celebração dominical, mas como disse antes, o tamanho da membresia não é uma boa medida do sucesso de uma comunidade, e sim a fidelidade ao Evangelho.

3) A última dimensão é a do cristão individualmente. É importante, na comunidade local, provocar os fiéis a uma reflexão:- Será que eu estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da comunhão, se não estou em verdadeira comunhão com meu pastor nem com meus irmãos? Semeio fofocas? Constranjo o pastor? Gero intrigas? Sou verdadeiro com meus irmãos? Busco aconselhamento com freqüência? Frequento os sacramentos? Participo das atividades da igreja? Contribuo para a sustentação material da minha comunidade? Qual o meu nível de compromisso com ela?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da adoração, se julgo o sucesso do culto pelas sensações estéticas ou psicológicas que a celebração pode gerar em mim, e não pela dignidade com que a Santíssima Trindade é adorada? Será que é certo ficar querendo que as coisas sejam da maneira que me apetece, com a cerimônia que me agrada, as músicas que aprecio, as pessoas que são minhas amigas e não estranhos, quando na verdade o culto é de adoração a Deus, e não amaciante psicológico para meu ego?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da diaconia, se estou sempre ocupado para dar meu tempo pelos semelhantes? Tenho medo de entrar em comunidades carentes e uso meu preconceito como desculpa para não participar? Integro a pastoral apenas para ter um conforto moral por ter ajudado um irmão, ou mesmo por uma suporta obrigação, e não como resultado do amor pelo meu irmão, próprio dos que têm fé verdadeira em Jesus o Cristo?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão do testemunho ou martírio, se não proclamo as maravilhas que Deus fez em minha vida? Estou sendo fiel quando condeno aqueles cristãos comprometidos com a dimensão profética da igreja, presentes nos movimentos sociais e populares, nas ONGs ou nos partidos políticos de esquerda, excluindo a dimensão do profetismo? Será que uma visão do Reino por demais espiritualizada não exclui o profetismo do meio da Igreja?

Essas foram algumas das reflexões possíveis sobre o tema. Elas não encerram o assunto, mas refletir sobre essas questões candentes nos ajuda a entender melhor o papel da Igreja no exercício da missão que não é dela, mas de Deus mesmo, que se encarnou como um de nós, lançando com sua prática as bases que podem nos orientar para o exercício da nossa missão como cristãos.

Um cristão é um outro Cristo. É esse o melhor paradigma para nos tornarmos mais fiéis e efetivos para realizar a missão.

(*) membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Diocese de Recife.

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