quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Médico, Saúde e Deuterocanônicos...


Por Carlos Seino


Honra ao médico por seus serviços, pois também ele o Senhor criou.
Pois é do Altíssimo que vem a cura, como presente que se recebe do rei.
A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.
Da terra, o Senhor criou os remédios, o homem sensato não o despreza.
(Eclesiástico 38,1-4).


Esta verdade expressa no versículo citado parece ser um tanto quanto simples, e na verdade, é mesmo. Nenhum ser humano racional desprezaria a medicina, e, de acordo com o sábio, a medicina é don de Deus também.

Este livro, o “Eclesiástico” faz parte daquele conjunto de escritos conhecidos como “Apócrifos”, pelos evangélicos, e “Deuterocanônicos”, pelos católicos. Pode-se dizer que para os cristãos é antiga a dúvida se tais livros deveriam ou não ser considerados inspirados, sendo que, São Jerônimo opinara que não deveriam ter o mesmo status que os demais livros; opinião esta que não foi acatada pelo catolicismo. Séculos depois, os Reformadores vieram a considerá-los literatura muito edificante, mas não inspirada.

Fato é que, tanto o posicionamento dos católicos, quanto dos antigos reformadores, foi ignorado pelos novos evangélicos. Pelo fato da América Latina ser fruto basicamente de missões norte-americanas, fato é que, as versões evangélicas das Escrituras sequer contém os mencionados livros, sendo negado, portanto, a grande parcela dos cristãos a oportunidade de ler esta literatura que foi chamada por Lutero, Calvino e companhia, de literatura edificante. Ou seja, acabou sendo negado aos evangélicos a oportunidade para que tirassem suas próprias conclusões.

Durante muitos anos isto não fez muita diferença, visto que, protestantes históricos, geralmente mais cultos, supriram a ausência de tais livros com seu próprio bom senso e inteligência. Além do que, quem quisesse, poderia ter acesso a uma Bíblia católica, facilmente de ser encontrada, ou então às excelentes traduções ecumênicas, feitas por protestantes e católicos, e que atualmente, podem também ser encontradas.

O problema é que, surgiu no meio evangélico alguns grupos ultrapentecostais que passaram a ensinar coisas, no mínimo estarrecedoras acerca de determinados assuntos, e, este é o motivo do versículo citado no início deste artigo.

Alguns começaram a ensinar que não se deveria procurar o médico, pois isto seria falta de fé; e que se deveriam fazer abstenções inclusive a remédios, pois isto demonstraria falta de confiança na capacidade de Deus em curá-las. Obviamente, se o fiel morresse ou padecesse, os propugnadores de tal teologia diziam que, foi o coitado que não teve fé. Pura picaretagem. Se pesquisarmos, veremos que não poucas pessoas perderam suas vidas, confiando nestas falsas promessas. Penso que, certamente, é o desespero e a desinformação que leva muitas pessoas a aceitem este tipo de engodo.

Interessante e trágico é, que há mais de dois mil anos, um sábio judeu disse que o médico era uma benção de Deus, que a medicina é dom de Deus, e talvez (digo talvez, porque nunca se pode ter certeza quanto a estas coisas) a mera leitura deste versículo e o seu assentimento teria evitado muitas mortes. Talvez, muitos dos defensores desta teologia teriam ficado constrangidos em criar uma doutrina destas se tal texto estivesse em nossas Bíblias, ainda que como literatura edificante.

De minha parte, considero os “apócrifos” e “deuterocanônicos” como leitura bastante edificante, e não preciso considerá-los inspirados para tanto. Na verdade, considero muitas partes de tais livros como inspirados mesmo, verdadeiros ensinamentos divinos. Outras partes, nem tanto; nem as considero tão úteis para os dias atuais. De qualquer modo, penso que todos deveriam ler tais livros e tirarem suas próprias conclusões.

Talvez tais livros contenham alguma passagem que possa salvar a sua vida, ou ao menos fazer com que você não faça nenhuma bobagem, como deixar de ir ao médico quando estiver doente...