sábado, 23 de fevereiro de 2008

Outra Reflexão sobre a Quaresma.

Por Carlos Seino.


Estamos no período do calendário cristão denominado de “Quaresma”. Não irei entrar em detalhes teóricos sobre este tema, pois ele já foi magistralmente tratado pelo meu amigo Confrade Paulo, que bem enfatizou, é um tempo de conversão e penitênica.

Lutero já havia ensinado os seus seguidores que “toda a vida do cristão é uma vida de penitência”, e de que devemos nos arrepender todos os dias de nossos pecados, e sempre fazer a análise de nossas vidas à luz da vida de Cristo. Com tantas “luzes” por aí, talvez sejam bem poucos que meditem diariamente na vida e nos ensinamentos de nosso Senhor.

De qualquer modo, e tendo em vista o período do calendário pelo qual passamos, convido, mesmo os que não seguem a risca o calendário cristão (maioria esmagadora dos evangélicos brasileiros) a fazermos a seguinte reflexão.

Em meu dia a dia, que é bastante movimentado, vejo que é comum as pessoas se lamentarem por algum fato de suas próprias vidas, seja no emprego, seja no casamento, seja no ministério, seja nas relações de amizade, seja na faculdade, enfim, seja em qualquer área da existência.

Entretanto, me ocorre que, de modo geral, estamos hoje exatamente no local em que escolhemos estar um dia. Estamos apenas colhendo as conseqüências, boas ou ruins, das decisões que tomamos no passado. Se o casamento não vai bem, se o ministério não anda, se o emprego é ruim, pense bem até que ponto eu e você somos responsáveis por isso.

Ocorre que nós fazemos geralmente ao contrário. Buscamos alguém para colocar a culpa de nossos aparentes fracassos. Ou é o cônjuge, o padre, o pastor, o chefe, o empregador, enfim, buscamos um bode expiatório. Entretanto, será que estamos de fato preparados para aceitarmos a nossa própria culpa em todo este processo?

A quaresma, neste sentido, é o período que nos convida a fazemos uma meditação sobre nossas vidas à luz da vida de Cristo, e fazermos um “ajuste” em nossa caminhada. Talvez seja o momento de se retirar um pouco do movimento extremo da vida, de se recolher em solidão, ou com poucos amigos, de se desafiar a viver como Cristo viveu, a eliminar de nossas vidas aquele movimento de morte (pecados) que tenhamos cometido. Não adianta reclamar, colocar a culpa em outro, julgar o nosso próximo, pois isto não resolverá os nossos problemas.

Mas alguém pode perguntar: e se a culpa de eu estar assim é realmente do outro? Ora, o evangelho responde: perdoa, perdoa e perdoa. A radicalidade da mensagem do evangelho é justamente de que nossa suficiência deve estar em Cristo, a fonte de nossa vida, e não naquilo que nosso próximo faz ou deixa de fazer em favor ou desfavor de nós mesmos.

Conversando esta semana com alguns amigos que praticam religiões mais animistas, os ouvi atentamente no que diz respeito a sua prática de vida. Para se “descarregarem”, por exemplo, colocam sal grosso atrás da porta, e depois precisam trocar aquele sal todos os dias. Tomam “passe” todas as semanas, inclusive seus filhos, além de terem uma série de outras práticas que considero “mágicas”, por assim dizer. Não sou eu que vou questionar o valor ou não de tais práticas, mas o que percebo é que as pessoas estão atrás de soluções rápidas, mágicas, instantâneas para a solução de seus problemas; poucos querem fazer uma profunda reflexão sobre si mesmos, poucos querem pensar mesmo. Aí, vale tudo, tudo é bonito e exótico, menos a mensagem do radical arrependimento (metanóia) que nos é proposto pelo evangelho.

Não há soluções mágicas. Não há soluções fáceis, sem sofrimentos. Não há mudança sem renúncia, sem arrependimento. Não tem mecânica, ritual, mandinga, nada que dê jeito. Cada um que se considera cristão deve se analisar a luz da vida de Cristo e de seus ensinamentos, a fazer uma reflexão sobre sua própria vida, a para de colocar a culpa no outro, na situação, no emprego, etc, abandonar a murmuração o julgamento, e viver a vida dos justos de Deus, que buscam cada vez mais conformarem sua vida e seus pensamentos á luz do Espírito de nosso Senhor.