terça-feira, 22 de abril de 2008

Sermão do mandato

Por Pe. Antônio Vieira

Pregado em Lisboa, na Capela Real, no ano de 1645.

Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.

"Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim." (Jo. 31,1).

Considerando eu com alguma atenção os termos tão singulares deste amoroso Evangelho, harmonia e correspondência de todo seu discurso, tantas vezes e por tão engenhosos modos deduzidos; vim a reparar finalmente (não sei se com tanta razão como novidade) que o principal intento do Evangelho foi mostrar a ciência de Cristo, e o principal intento de Cristo mostrar a ignorância dos homens.

Sabia Cristo (diz S. João que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Padre: Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem. Sabia que tinha depositados em suas mãos os tesouros da onipotência, e que Deus viera e para Deus tornava: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus, er quia a Deo exivit, et ad Deum vadit. Sabia que entre os doze que tinha assentados à sua mesa estava um que lhe era infiel, e que O havia de entregar a seus inimigos: Sciebat enim quisnam esset qui traderet eum. Até aqui mostrou o Evangelista a sabedoria de Cristo. Daqui adiante continua Cristo a mostrar a ignorância dos homens.

Está proposto o pensamento, mas bem vejo que não está declarado. Em conformidade e confirmação dele pretendo mostrar hoje, que só Cristo amou finamente; porque amou sabendo: Sciens: e só os homens foram finamente amados, porque foram amados ignorando: Nescis: Unido-se, porém, e trocando-se de tal sorte o sciens com o nescis, e o nescis com o sciens; que estando a ignorância da parte dos homens, e a ciência da parte de Cristo, Cristo amou, sabendo, como se amara, ignorando: e os homens foram amados, ignorando, como se fossem amados, sabendo. Vá agora o amor destorcendo estes fios. E espero que todos vejam a fineza deles.

Primeiramente só Cristo amou, porque amou sabendo: Sciens. Para inteligência dessa amorosa verdade, havemos de supor outra não menos certa, e é, que do mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem conta si o exemplo de Jacó com Raquel, o de Jônatas com Davi, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os Sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei de acertar a causa. Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacó, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afetos, e um entendimento sem uso.Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância: e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama, porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinqüente; quem ignorando, amou, em rigor não é amante.

É tal a dependência que tem o amor destas duas suposições, que o que parece fineza fundado em ignorância, não é amor; e o que não parece amor, fundado em ciência, é grande fineza.

Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante que, diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor. Ou porque não se conhece a si: ou porque não conhecesse a quem amava: ou porque não conhecesse o amor: ou porque não conhecesse o fim onde há de parar, amando.

Se não conhecesse a si, talvez empregaria o seu pensamento onde o não havia de pôr, se se conhecera. Se não conhecesse a quem amava, talvez quereria com grandes finezas, a quem havia de aborrecer, se o não ignorara. Se não conhecesse o amor, talvez se empenharia cegamente no que não havia de empreender se o soubera. Se não conhecesse o fim em que havia de parar, amando, talvez chegaria a padecer os danos a que não havia de chegar se os previra.

Todas estas ignorâncias que se acham nos homens, em Cristo foram ciências, e em todas e cada uma crescem os quilates de seu extremado amor. Conhecia-se a si. Conhecia a quem amava, conhecia o amor, e conhecia o fim onde havia de parar, amando. Tudo notou o Evangelista.

Os homens amam muitas coisas que as não há no mundo: amam as coisas como as imaginam; e as coisas como eles as imaginam, havê-las-á na imaginação, mas no mundo não as há.

Pelo contrário, Cristo amou os homens como verdadeiramente eram no mundo, e não como enganosamente podiam ser na imaginação: Cum dilexisset suos, qui erant in mundo. Não amou Cristo os seus, como vós amais os vossos.

Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum. O amor fino não busca causa nem fruto.

Se amo porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há de ter porquê, nem para que.

Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, pra que me amem, é negociação, busco o que desejo.

Pois como há de amar o amor para ser fino?

Amo, quia amo, amo, ut ame: amo, porque amo, e amo para amar.


Quem ama, porque o amam, é agradecido, quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino. E tal foi a fineza de Cristo, em respeito de Judas, fundada na ciência que tinha dele e dos demais discípulos.

Questão é curiosa nesta filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo?

Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogênito do coração, o morgado dos afetos, a flor do desejo, e as primícias de vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo.

O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado: o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor.

Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor.

É verdade que o primeiro amor é o primogênito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior.

Quem diz que ama mais, desacredita o seu amor, porque ainda que o crescer seja aumento, é aumento que supõe imperfeição. Amor que pode crescer não é amor perfeito.

E somos entrados sem o pretender na quarta consideração.

A quarta e última circunstância em que a ciência de Cristo afinou mais os extremos de seus amor, foi saber e conhecer o fim onde havia de parar, amando: Sciens quia venit hora ejus.

De muitos contam as histórias que morreram, porque amaram; mas porque o amor foi só a ocasião, e a ignorância a causa, falsamente lhe deu a morte o epitáfio de amantes. Não é amante, quem morre porque amou, senão quem amou para morrer.

Que quem amou porque não sabia que havia de morrer, se ou soubera não amara. Não está o merecimento do amor na morte, senão no conhecimento dela.

E senão façamos esta questão: Que é o que mais deseja, e mais estima o amor: Ver-se conhecido ou ver-se pago?

É certo que o amor não pode ser pago, sem ser primeiro conhecido: mas pode ser conhecido, sem ser pago: e considerando divididos estes dois termos, não há dúvida que mais estima o amor e melhor que lhe está ver-se conhecido, que pago.

O mais seguro crédito de quem ama, é a confissão da dívida no amado: mas como há de confessar a dívida quem a não conhece! Mas lhe importa logo ao amor o conhecimento, que a paga; porque a sua riqueza é ter sempre endividado a quem ama.

Quando o amor deixa de ser credor, só então é pobre.

Finalmente, ser tão grande o amor que se não possa pagar é a maior glória de quem ama: se esta grandeza se conhece, é glória manifesta: se não se conhece, fica escurecida, e não é glória: logo muito estima o amor, e muito mais deseja, e muito mais lhe convém a glória de conhecido, que a satisfação de pago.

Baste de razões, vamos à Escritura.

Muito custou a Cristo amar-nos, muito padeceu, amando-nos; porém a mais rigorosa pena a que O condenou seu amor, foi que amasse a quem O não havia de conhecer. Isto é o que mais sente, isto é o que mais lastima quem ama.

No Salmo 34 conforme o texto grego, diz assim o Filho de Deus: Congregata sunt super me flagella, et ignoraverunt: Caíram sobre mim tantos açoites e ignoraram.

Para inteligência deste afeto, havemos de supor que de todos os tormentos da sua Paixão, nenhum sentiu Cristo tanto como o dos açoites.

Em todos os outros tormentos, e na mesma morte, falou só uma vez; porém o tormento dos açoites repetiu-o duas vezes: Flagellabitur, et postquam flagellaverint, porque o que mais sente o coração, naturalmente sai mais vezes à boca.

Diz pois o Senhor: Congregata sunt super me flagella, etb ignoraverunt Caíram sobre mim tantos açoites e ignoraram.

Afligido Jesus; que termos de falar são estes? Se foram os açoites o tormento de Vós mais sentido, parece que havíeis de dizer: Caíram sobre mim os açoites. Oh como os senti! Oh como me atormentaram!

Mas em vez de dizer que os sentiu, e que O atormentaram, queixa-se somente o Senhor, de que os ignoraram; porque, no meio dos maiores excessos do seu amor, o que mais atormentava o coração de Cristo não era o que ele padecia, senão o que os homens ignoravam: Et ignoraverunt.

Não se queixa dos açoites e queixa-se da ignorância; porque, os açoites afrontavam a Pessoa, a ignorância desacreditava o amor.

E porque esta falta de conhecimento é o que mais sente e mais deve sentir quem ama, por isso ponderou Cristo a fineza de seu amor, não pela circunstância da sua ciência, senão pela de nossa ignorância: Quod ego facio, tu nescis.

Muito mais realça o amor de Cristo este nescis, que o sciens de S. João tantas vezes repetido.

Porque se foram grandes circunstâncias de amor, amar, conhecendo-se a si, e conhecendo a quem amava, e conhecendo o amor, e conhecendo o fim em que havia de parar, amando sobre todas estas considerações se levanta, e remonta incomparavelmente empregar todos esses conhecimento e todo esse amor por quem o não havia de conhecer: Tu nescis.

Este foi, cristãos, o amor de Cristo, esta a ciência e as ciências, com que nos amou, e esta a ignorância e ignorâncias, sobre que somos amados".