sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sobre a Reparação a Deus por nossos pecados


Por Carlos Seino

Vejo muitos até hoje que se escandalizam mesmo nas fileiras do cristianismo, contra a doutrina pela qual Jesus se oferece a Deus em sacrifício para o perdão dos nossos pecados.

Dizem que tal doutrina é abominável, e que não são capazes de acreditar em um Deus que exige que o filho morra para que possa perdoar o pecador; que um Deus de misericórdia simplesmente perdoaria, não levando em conta os pecados cometidos; que este sim seria um ato digno de um Deus que merece ser adorado e propagado.

Entretanto, a meu ver, algumas coisas (dentre tantas outras) precisam ser levadas em consideração nesta questão, antes de descartarmos a doutrina da expiação feita por Cristo a Deus pelos pecadores.

A primeira questão é a doutrina da Santíssima Trindade. Deus não exige o sacrifício de seu Filho para a remissão de nossos pecados, mas é o próprio Deus, que no Filho, oferece-se a si mesmo, por nós os pecadores. Então, trata-se de um ato de entrega do próprio Deus, e não de alguém, que está sentado em um alto e sublime trono, assistindo desinteressadamente o espetáculo ocorrido na cruz. Não há Deus exigindo derramamento de sangue por si só, mas é Deus derramando o seu próprio sangue.

A segunda questão é que se trata de um sacrifício vicário, ou seja, oferecido pela parte ofendida, e não pela parte ofensora, ao contrário do sacrifício pessoal. Neste segundo tipo de sacrifício, ou de expiação, a parte ofensora tenta fazer algo para reparar a parte ofendida pelo pecado que cometeu. Entretanto, à humanidade, era impossível fazer isto a Deus, de modo que, o próprio Deus se oferece em sacrifício, sendo este sim um ato de misericórdia. Portanto, não se pode acusar o Deus que nós cremos por falta de misericórdia, mas no seu ato, há puríssima misericórdia. Por isso, nas Escrituras, a entrega do Filho é um ato de puro amor (João 3.16).

A terceira questão que precisamos levar em consideração é que os atos de justiça de Deus são irrevogáveis. “A alma que pecar, esta morrerá”, já havia dito o Senhor, e a morte nada mais é do que a separação eterna da alma de Deus, e o pecado faz esta separação. Por isso, segundo as Escrituras, na cruz, Deus em Cristo, além de uma ato de misericórdia, realiza também um ato de justiça. Parece que não temos uma dimensão real das conseqüências do pecado na vida da humanidade, e de que os pecado precisam ser punidos por Deus.

E em quarto lugar, o que precisa ficar claro, e também não é uma idéia envolta em um grande mistério, mas que aceitamos pela fé, é o fato de que, na cruz, Cristo toma sobre si os pecados de toda a humanidade. Somente um Deus poderia fazer isso. O pecado que está sobre nossas vidas é colocado sobre Jesus. Por isso, não se trata de somente uma expiação penal e jurídica (esta não está excluída), mas também real e existencial. O pecado da humanidade é realmente colocado sobre ele na cruz. Um mero ato de perdão sem derramamento de sangue não resolveria o problema do pecado, que permaneceria.

Portanto, são inúmeros os argumentos que podem ser levantados e favor da nossa fé, mas o que neste texto, eu gostaria de dar ênfase justamente no primeiro argumento, o de que, não há somente um Deus exigindo derramamento de sangue para perdoar, mas sim um Deus que oferece-se a si mesmo, que da e doa a sua vida para a salvação de todo aquele que crê.