domingo, 27 de julho de 2008

Da Leitura Devocional das Sagradas Escrituras

Por Carlos Seino


Todo cristão, de qualquer confissão, de qualquer igreja, deveria separar um momento do dia para oração e leitura das Sagradas Escrituras. É o chamado momento devocional, para nós, protestantes, ou “lectio divina”, para os católicos.

Independente do nome que se dê, o objetivo é basicamente o mesmo, qual seja, o de aprofundarmos o nosso conhecimento, não somente da Palavra de Deus, mas principalmente do Deus da Palavra, fazendo crescer a nossa comunhão com Ele, transformando nossas vidas e influenciando a vida dos que estiverem ao nosso redor.

O momento devocional foi uma das primeiras lições que aprendi no discipulado cristão, e, posso dizer com segurança que, minha vida espiritual se eleva ou decai a medida que faço ou deixo de fazer tal exercício.

Deste modo, gostaria de dar umas dicas ou sugestões para aqueles que quiserem aplicar o momento devocional em suas vidas. Ressalto que estou escrevendo principalmente para pessoas que não dispõem de muito tempo para se dedicarem a leitura e oração privada. Gente que trabalha o dia inteiro, estuda, entre outras atividades; ou seja, a maior parte de nós.

Outra coisa que precisa ficar consignado é o fato de que, a disciplina visa exatamente a disciplinar-nos, e não criar uma espécie de “mecanismo mágico” pelo qual a graça de Deus necessariamente se manifestará. Não é assim. A disciplina visa a nossa própria organização, e não a organização de Deus. Não se trata de dar passos infalíveis para que aconteça isto ou aquilo. Deus não é manipulável. Mas, posso garantir que a organização é algo de que nós mesmos necessitamos e nos fará bem.

Deste modo, aplicada um pouco de minha própria experiência (não sou religioso tempo integral) tentarei dar algumas sugestões de como organizar o nosso próprio tempo devocional. Vamos lá!

Em primeiro lugar, a escolha de um local é primordial. Recomendo a utilização de uma mesa e de uma cadeira. Não adianta fazer deitado, ou segurando a Bíblia no colo. A desatenção e o desconforto farão com que percamos a concentração. Além do que, sugiro que utilize lápis de cor ou marca texto, um caderno para anotações, e, obviamente, caneta. Iremos, literalmente, garimpar a Palavra de Deus! Se for possível, recomendo também que tal lugar, além de confortável, seja silencioso, e isento de interrupções.

Sobre a escolha do texto que será lido, não poderá, obviamente, ser um trecho muito grande, talvez dois a três capítulos por dia. Se for necessário, pode-se ficar inclusive dias em um único capítulo. Particularmente, sugiro que se persevere no livro, epístola ou evangelho escolhido, lendo-o até o final, visto que são documentos com introdução, desenvolvimento e fim.


Antes da leitura do texto escolhido, recomendo um momento de silêncio e oração. Uma oração que se inicie com um pequeno ato de adoração, de reconhecimento da grandeza de nosso Deus, e pedindo para que Ele “fale” conosco e nos “ilumine” durante a leitura. Deus é o autor das Escrituras, e, portanto poderemos ter um melhor entendimento se auxiliados pelo Espírito Santo.

Após esta breve oração, iremos ler o texto escolhido. Uma leitura normal, sem muita pressa, grifando partes que entendermos pertinentes, ou copiando-as em um caderno pessoal (a medida que copiamos, ajudamos a internalizar o conhecimento). Poderemos utilizar a ajuda de um dicionário, de um comentário bíblico de algum autor de nossa confiança. A técnica, como a exegese, a hermenêutica, em meu entender, não é o mais importante aqui. Eu até sugiro que, caso se queira, leia-se alguma introdução à parte escolhida para a leitura para que se tenha algum conhecimento do contexto em que tal livro ou epístola fora escrito, mas isso, fora do momento devocional. Isto porque, esta não é a hora de se perder muito na leitura científica do texto. Caso você já tenha tal conhecimento de antemão, ele irá auxiliá-lo bastante no momento devocional, mas, durante a devocional não haverá muito tempo para tal aprofundamento. A leitura devocional é a leitura também feita com o coração, por assim dizer.

Algo que é primordial para se fazer nesta leitura, em meu entender, é o auto-exame da própria vida. Examinar-se a luz das Santas Palavras; verificar se estamos cumprindo a vontade divina. O pastor que me discipulou ensinou-me a fazer pelo menos duas perguntas para o texto que eu estiver lendo no momento devocional: o que o texto diz sobre Deus, e o que o texto diz para mim. Estas duas perguntas criam a possibilidade de se conhecer mais ao próprio Deus revelado na Palavra e de se fazer o próprio auto-exame da vida. John Wesley ensinou que, para tirarmos o máximo proveito do texto, ele deve ser lido “contra nós”.

Uma sugestão que eu dou, particularmente, é que se tente, com espírito de oração e de humildade, procurar entender que lição Deus possa estar querendo te dar através da leitura daquele texto. Em um pequeno trecho das Escrituras pode se tirar muitíssimas lições; às vezes, somente em uma oração ou frase, inclusive. Entretanto, por se tratar de um momento devocional, curto na vida da maioria de nós, é melhor procurar extrair somente uma lição so texto, a lição do dia, que pode ser até mesmo um versículo bíblico, e ficar o dia inteiro, meditando, “ruminado” tal lição, rogando ao Espírito Santo que a Palavra seja “encarnada em nós”, faça parte de nós.

Após a leitura, é o momento de uma nova oração (orações curtas podem ter sido feitas durante a leitura), agradecendo por tal momento, e pedindo que o Espírito Santo nos ajude a viver de acordo com o que aprendemos. Talvez seja também o momento de pedir perdão a Deus por alguma falta cometida, ou por uma falta de conformidade à sua Palavra. É o momento adequado para pedirmos que o Senhor tenha misericórdia de nós. Pode-se também interceder por algum motivo especial, para que o Senhor abençoe o seu dia (caso seja de manhã).

Conforme já mencionado, durante o dia, é interessante que se vá “ruminando”, meditando na lição aprendida no período da devocional (já deu para perceber que prefiro ter tal momento no período da manhã). A intenção, sem dúvida nenhuma, é “reter” a presença do Espírito Santo, “cultivar” tal presença, preservar a comunhão. O período devocional te dará possibilidade de rejeitar todo o pecado (condição necessária para o cultivo da comunhão bendita com Deus), ou de se já pedir perdão imediato por algum pecado cometido. Tal momento também faz com que sua mente seja renovada, e fique mais “fixa” em Deus. A finalidade é fazer com que não nos distraiamos do sentimento da presença de Deus, ficando atentos (mas sem tensão), pois é esta bendita comunhão que irá produzir em nós o fruto do Espírito.

Enfim. A idéia do momento devocional é realmente fazer com que nossas vidas sejam uma explosão de ação de graças, de alegria, de santidade, de tranqüilidade. Os antigos padres falavam em “imperturbabilidade” da alma. Que não tenhamos mais prazer no pecado, mas somente na comunhão com Deus. Tentar cumprir os requisitos evangélicos sem o preenchimento do Espírito Santo, sem a transformação interior faz cair rapidamente em legalismo destrutivo. Por isso, é muito importante cultivar esta prática. Penso até que é por meio desta devoção que cristãos das mais diversas tradições poderão se encontrar.

Portanto, prezados amigos, mãos a obra, permitam vosso coração se encher de entusiasmo por esta obra, e não deixem de meditar e orar sobre as Sagradas Escrituras.