quarta-feira, 9 de julho de 2008

Exposição ao salmo 22 - IV

"Refrigera minhalma junto aos ribeiros de águas calmas."

Noutro passo, declara o salmista: Minha alma tem sede de Deus e anseia por sua remissão.

Afirmação que o hiponense intrepreta da seguinte maneira: Nosso coração foi feito para vós o Senhor e somente em vós é capaz de encontrar repouso.

Conforme nossas faculdades naturais são um reflexo da natureza divina, é necessário que o homem esteja em sintônia com seu propótipo para que esteja em paz consigo mesmo. É necessário que o homem esteja ligado a seu Criador sob pena de fragmentar-se ele mesmo e tornar-se neurótico.

Feito a imagem e semelhança de Deus enquanto ser racional e livre o homem sente uma necessidade inata de estar em contato ou em comunhão com seu supremo artífice.

O homem sabe ser incapaz de satisfazer-se a si mesmo, de completar-se, de encontrar-se. Ele sabe que lhe falta algo e sai em busca desse algo mesmo sem ter uma idéia fixa e definida do que seja ele.

Afastado do Senhor ou ignorante de sua presença o homem carrega em sím mesmo o maior de todos os abismos: um vazio espiritual, uma nostalgia, uma inquietude que lho desconserta e aflige.

Na ânsia de superar este grande dilema, o grande dilema de sua existência, o homem lança mão de todos os meios e recursos possiveis batendo a todas as portas: bate a porta do prazer sexual, mas, após a consumação desse ato, no qual depositou todas as suas esperanças de realização, vem a melancôlia; bate a porta dos prazeres da mesa, mas após o deguste de cada prato ou a apreciação de cada drink, a melancolia ressurge triunfante... para provar novos sabores ele vomita ou multiplica as dozes ao infinito sob pena de perder a saúde, mas a inquietude permenece a seu lado, como fiel companheira.

Bate a porta dos jogos e diverssões, mas, tal e qual a embreaguez cede a sobriedade, a distraçãop cede a realidade, e ambas aumentam aquela terrivel inquietude, aquela inexplicável prostração... e passando pelos delírios do sexo, do paladar e dos jogos, o homem segue em busca de Deus!

Passando por toda uma série de amores fugazes ele segue em demanda do amor dos amores, do amor eterno e infinito que alimenta a alma.

Pede socorro as artes e ciências todas, encerra-se num ateliê ou num laboratório e consagra toda sua existência aos misteres mais dignos e elevados de que se tem notícia, mas, nem mesmo assim encontra a almejada paz!

Desesperado o homem chega ao mais fundo do abismo que é a acumulação de riquezas e bens materiais ou a aquisição da fortuna. Assim o trabalho que deveria dignifica-lo avilta-o! Assim a econômia que deveria enobrece-lo se converte na mais sórdida avareza e corrompe-o!

Infeliz daquele que tenta atingir a infinitude pela matéria, pois a infinitude é apanágio exclusivo do espírito! Desgraçado daquele que, apartado de Deus, crê ser possivel encher-se e satisfazer-se com objetos materiais...

Tal a origem do sistema de coisas em que vivemos: a alienação de Deus, a ignorância de Deus, a distância de Deus...

O materialmente ambicioso procede como aquele marinheiro ingenuo que pretendendo amenizar sua sede com a água do mar, só fez por intensifica-la, até que veio a morrer afogado com o objetivo de matar sua sêde...

O mesmo se dá com aqueles que pretendem substituir a comunhão com aquele que é infinito pela aquisição, pela posse ou pelo acúmulo de bens materiais, os quais são finitos por natureza!

Eis a verdadeira matriz das grandes fortunas!

O homem separado de Deus anseia por monopolizar o universo inteiro como Alexandre, o qual chorou como uma criança ao saber que haviam homens na lua que não se sujeitavam ao seu poder! O homem separado de Deus não conheçe medidas ou limites porque deseja realizar o infinito neste plano finito em que vivemos, e assim dá início a mais abominavel das inersões já urdidas pela mente humana...

Assim o homem soberbo junta casa a casa, campo a campo, herdade a herdade cuidando satisfazer sua sêde pelo infinito na mesma proporção em que essa sede vai aumentando cada vez mais e se tornando mais abrasadora e cruel! Então se sucede que o nosso homem morre cercado por uma multidão de bens materiais, de bens que seriam suficientes para satisfazer as necessidades de milhares de seres humanos como ele, mas, oh paradoxo funesto: sua alma continua vazia, tão vazia como quando veio a luz deste mundo! Juntando tudo nosso nababo não adquiriu nada!

Pois o homem só adquire verdadeiramente aquilo que conserva e só conserva aquilo que transporta para a eternidade!

Por isso esta escrito: Benditos os que morrem no Senho pois as suas boas obras lhos acompanham! E essas obras são como que um tesouro espiritual e um tesouro incorruptivel, fora do alcançe das traças, das ferrugens, dos cupins...

Felismente essa desgraça não se sucede igualmente com todos os seres humanos!

Felismente muitos acabam por encontrar uma fonte no meio do deserto pela comunhão espiritual firmada com seu Criador. Mais cedo ou mais tarde muitos de nós acabam percebendo que o verdadeiro prazer, o prazer da alma nada mais é que o conhecimento do Ser e do Ser enquanto fim último de todas as existências.

Pois não foi apenas para tranzar, comer ou beber que o homem veio ao mundo, mas, para realizações maiores. Embora todos esses prazeres façam parte de nossas vidas nem por isso constituem sua parte mais importante, nobre e elevada...

Pelo sexo o gênero humano se perpetua sobre a face da terra, mas... dia virá em que o gênero humano deixará de existir e depois a própria terra.

Pelo comer e pelo beber mante-mos nossos corpos vivos, mas, somos incapazes de mate-los vivos para sempre...

Por isso que a finalidade dos prazeres sensiveis é limitada pelo tempo.

Tampouco juntar bens materiais de fortuna pode constituir o objetivo da vida humana, por mais cedo ou mais tarde somos forçados a deixar todos estes bens e a sair deste mundo com as mãos completamente vazias.

Assim muitos chegam a conclusão de que o fim de todas as suas esperanças e anseios está em sua origem, ou seja em Deus, daquele Ser do qual se desprenderam e para o qual tendem. Esses sabem ter vindo a luz da existência para conhecer as infinitas riquezas que jazem ocultas no seio na natureza divina e esse conhecimento é como que uma fonte de água viva borbulhando em suas almas.

Por isso esta escrito: e alguem tem sede venha a mim e beba pois de sua alma manarão rios de águas vivificadoras.

E também: E bebendo da água que eu lhe der jamais vira a ter sede novamente.

Ora essa água é o conhecimento de Deus e a consequente união que tem seu ponto de partida neste conhecimento.

Quanto aos ribeiros de águas calmas simbolizam o sacramento do batismo que é a porta de entrada na igreja de Deus.

Ao entrar na casa de Cristo logo vos deparais com a pia batismal ao lado esquerdo da porta, esta localização da pia junto a porta quer significar que é pelo Santo batismo que o homem passa a fazer parte do povo sacerdotal de nosso Senhor Jesus Cristo.

Não são águas turbulentas porque esse mistério foi estabelecido por Emanuel e não pelos homens. Por isso são águas calmas, porque significam verdadeiramente a purificação dos pecados e porque trazem paz e calma ao espírito oprimido pela culpa.

Por isso João escolheu para batizar os meandros junto a Enon e Salin, porque ali as águas calmas simbolizavam melhor o mistério desse lávacro espiritual.

Pois que significa a água senão lavagem? E seu cárater incolor, insipido e inodoro senão pureza?

Assim quando juntamos a lavagem do corpo e invocação do Mistério trinitário essa lavagem do corpo se prolonga a alma e purifica o espírito do verdadeiro penitente. Pois pelo ódio ao pecado e o vivo desejo de não mais pecar torna o homem apto a ser acolhido por Deus.

Outra não foi a razão pela qual nosso divino Mestre, impecavel e perfeito quiz ser batizado por seu primo e precursor senão para santificar as águas todas do universo e para nos dar exemplo de submissão.