sábado, 16 de agosto de 2008

Da absoluta necessidade da cruz

Por Carlos Seino*

Desde o início, Satanás tentou tirar Jesus do caminho da cruz. E o fez de modo mais terrível, talvez, através dos membros da própria comunidade de discípulos. Ora, se eu gosto de alguém, não quero que este alguém sofra. Não quero que este alguém morra. Se meu irmão, minha mãe, meu amigo, meu filho me disserem um dia que terão que morrer de forma violenta, é lógico que ficarei escandalizado e tentarei de todas as formas dissuadi-los de tal intento. Eis ai a artimanha terrível de Satanás. Ele utiliza argumentos invencíveis e insofismáveis para tentar remover Jesus do caminho da cruz. Utilizou dos argumentos de um discípulo, de um amigo, alicerçado no legítimo interesse de que seu mestre não sofresse males. Talvez por isso Jesus tenha tido uma reação tão agressiva, tão dura em relação a Pedro. “Arreda de mim, Satanás, pois cogitas das coisas de homens”. Este é o problema sempre. Cogitamos das coisas dos homens. Pensamos como o homem pensa, e pensamos de forma legítima. Mas às vezes, a verdadeira fé, a fé genuína deve cogitar e aceitar o absurdo. “Creio porque é absurdo” disse um certo filósofo dinamarquês. O meu mestre vai a cruz. O meu amigo vai a cruz. Isto é um absurdo, mas eu o creio. Creio porque é a vontade de Deus. É a loucura da pregação, mas ela é mais sábia do que a sabedoria dos homens.

Por isso a atitude moderna de tentarmos fazer do cristiansimo algo mais inteligível ao homem moderno pode ser somente uma sombra pálida do que é a verdadeira essência do evangelho. Talvez ainda nos envergonhemos da loucura da pregação. E o diabo tentou até o fim. Tentou tirar Jesus da cruz. “Se é quem tu dizes ser, desce daí”. “Guarda a tua preciosa vida. Não vale a pena morrer deste jeito. Deus quer te dar vida e vida em abundância. Para que sofrer? Para que morrer”. Tal é o discurso atraente de Satanás, e pela reação violenta de Jesus, podemos entender que de fato ele foi tentado, afinal, Jesus não tinha obrigação nenhuma de ir a cruz a favor dos homens, visto que, terrível coisa era se separar de seu Pai ao levar sobre si os nossos pecados. Mas ele continuou. Ele perseverou, e por isso nós estamos aqui.
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Nas o diabo persiste. Ele tentou tirar a cruz de Cristo, o Cristo da cruz, e agora persiste em tentar tirar a cruz da igreja. Jesus bem mencionou que temos que carregar a nossa cruz. Bonhoeffer cita que o sofrimento é condição necessária para o discipulado. Ora, se a humanidade esta em franca desobediência e revolta contra Cristo, também estará em revolta contra os que servirem ao Cristo. Não é que o cristão queira o confronto, a inimizade, mas tal surgirá do seu próprio estilo de vida. Se assim não ocorre conosco, bem pode ser pelo fato de que a nossa práxis em modo algum tem incomodado o mundo, afinal, todos os que quiserem viver piamente Cristo Jesus não irão necessariamente padecer perseguições? Pois seja Deus verdadeiro e mentiroso o homem. Que dizer então destes que pregam a vitória total do cristão em meio a um sistema iníquo? Estará ele com a razão? Vencemos do sistema, ou vencemos no sistema? Esta é a pergunta que não quer calar.
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A cruz é o símbolo da nossa conformidade com os passos que seguiu Jesus. Alguém rejeitado pelo sistema. Alguém rejeitado pela religião oficial de seu tempo. Pelo império. Mas não é só isso. Jesus também foi rejeitado pelos modernos pensamentos revolucionários de sua época. Os militantes da revolução não queriam Jesus ao seu lado. Jesus não tinha o glamour de um revolucionário político. Portanto, na cruz, Jesus é rejeitado por tudo e todos. É engraçado como hoje muitos modernos intelectuais cristãos tentam se passar muitas vezes por intelectuais de respeito, até mesmo no meio acadêmico. E talvez, até sejamos mesmo. Mas será que ao fazermos isso, estamos sendo verdadeiramente cristãos? Estamos com vergonha da loucura da pregação?
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Até hoje buscamos aprender do significado do carregar a nossa própria cruz. Bem disse Bonhoeffer que não se trata de um sofrimento natural. Ora, se a minha sogra é uma chata, não quer dizer que ela seja a minha cruz (na verdade, isto é só um exemplo, pois minha sogra é gente boa). Talvez nem mesmo uma doença possa ser considerada como uma cruz, no sentido que Jesus falou, visto que, tal pode ocorrer tanto para bons como para maus (não descartamos a possibilidade de Jesus utilizar fatos naturais da existência para cumprir em nós alguns de seus propósitos). Entretanto, a cruz no sentido que Jesus nos deixou, provavelmente se dá como uma forma de identificarmos o nosso estilo de vida com o dele, visto que, quem está nele, deve procurar andar como ele andou. Por isso, não podemos deixar que Satanás obtenha vitória contra a igreja, retirando dela, a sua cruz.


* Carlos Seino é cristão evangelical, formado em Direito e em Teologia.