domingo, 4 de janeiro de 2009

Do cristianismo ao ateísmo

DO CRISTIANISMO AO ATEÍSMO


Há boas chances do ateísmo moderno ser uma espécie de descendente, ou até mesmo de um produto da religião judaico cristã, principalmente do seu aspecto protestante, visto que foi em meio a esta cultura que ganhou maior força e estrutura. Provavelmente possa ter existido na Antiguidade pessoas que não tenham acreditado na existência de um ser superior, entretanto, salvo melhor juízo, não há nada documentado neste sentido.

Existem religiões milenares no oriente, como o budismo e o confucionismo, entretanto, nunca se houve notícia de que tais religiões ou formas de pensamento tenham gerado alguém ou um grupo de pessoas que atacassem diretamente as formas do pensar religioso e negassem radicalmente a existência de Deus (ou de deuses) e das realidades espirituais.

Também na filosofia grega não se tem notícia de algum filosofo ou pensador que tenha negado a existência da divindade, mesmo nas mais gloriosas elucubrações “científicas” do gênio grego. Nem Epicuro, que herdou o atomismo de Demócrito, e que ensinava um certo distanciamento dos deuses em relação aos homens, e cujo pensamento foi objeto dos primeiros estudos filosóficos de Marx, negava a existência de Deus. Sócrates também, apesar de ter contra si a acusação de ateísmo, de forma alguma negava a existência de Deus. Na verdade, sempre quando algum filósofo tinha contra si tal acusação, era justamente por combater certas superstições existentes na sociedade de seu tempo e por ensinarem um tipo que consideravam superior de espiritualidade.

Também não temos notícia, pelo menos até o presente momento, se o islamismo, a outra religião monoteísta por excelência, tenha produzido alguma forma de ateísmo sistemático. É provável que não, apesar de não ser totalmente impossível que tenha existido um ateu de origem islâmica aqui ou acolá. Se existiu, tal provavelmente possa ter se dado pelo contato com a cultura européia, mas não como fruto da própria religião em si. Alguém pode argumentar que o fato do Islã ser majoritariamente fundamentalista, não haver liberdade para que exista alguém que chegue a tal reflexão. Entretanto, mesmo nos períodos mais ativos de opressão cristã (quando esta ainda tinha o poder coativo jurídico para condenar os hereges inclusive a morte), já existiam vozes que se levantavam do seio do cristianismo para propor a aniquilação completa da idéia da existência de Deus. É interessante notar que o primeiro ateísmo sistemático e argumentativo parte justamente da pena de um padre. Seu nome era Jean Meslier (1664-1729), e se destacou por ser o primeiro a expor sistematicamente uma linha de argumentos em favor da inexistência de Deus e da falsidade da fé judaico-cristã. Enfatiza o fato da igreja cristã a séculos fazer orações para o fim da miséria, da heresia, da dor, e nunca conseguir o resultado almejado, apesar de na Bíblia haver promessa no sentido de que a oração do crente é sempre atendida. Enfatiza também o fato de as principais promessas das Escrituras nunca são cumpridas. Ataca a religião institucionalizada por perpetuar a miséria e a exploração. Movimentos populares, como jacobinos, comunistas, operários e comunistas chegaram a utilizar os textos deste padre em sua causa revolucionária[1].

Alguns podem querer argumentar que o ateísmo na verdade tem como ponto de partida o desenvolvimento das ciências e não uma reação a alguma espécie de religião. Não parece ser isso que a história tenda a demonstrar. A ciência moderna como tal tende a ser mais positiva, ou seja, não teve o condão e o objetivo de negar a existência de Deus, mas parece sim ter sido usada com tal ou qual propósito por pessoas que de alguma forma assumiram tal ou qual posição ideológica. De qualquer modo, estamos trabalhando com hipóteses e não com proposições absolutas, o que mantém esta discussão extremamente aberta para a solução das questões que aqui se propõem. Portanto, analisemos sucintamente os principais expoentes do pensamento ateu moderno para que possamos, talvez daí, tiramos alguma conclusão.

O ateísmo moderno está fundamentado na vida e obra de, pelo menos quatro autores principais. São eles Ludwig Feuerbech (1804-1872), Karl Marx (1818-1883), Sigmund Freud (1856-1939)
e Friedrich Wihelm Nietzsche (1844-1900).

Interessante notarmos que a maioria destes autores (talvez até mesmo todos, tendo em vista as diversas biografias a seu respeito) teve estreitas ligações com a religião judaico-cristã.

Feuerbach por exemplo, queria se tornar pastor luterano. Estudou teologia em Heidelberg. Foi discípulo de Hegel (outra personalidade que talvez tenha que ser incluída em um estudo mais profundo das origens do ateísmo moderno). Entretanto, em determinado momento optou pela filosofia, e passou a declarar que, em realidade, a essência de Deus não passava da essência do próprio homem, e que, as virtudes deste na verdade eram projetadas para a idéia da existência de um ser superior. Alguns dizem que Feuerbach é um tipo de “João Batista” do ateísmo, pois “preparou o caminho” para os outros três. Para ele, o homem deve parar de projetar-se a si mesmo na divindade, e deve amar ao próximo sem a necessidade de um intermediário (Deus) e só é completo em relação estreita com toda a humanidade. Toda a teologia não passa de antropologia, e, para que o homem não seja mais um alienado de suas mais gloriosas virtudes, deve abolir a religião deísta, e substituí-la por uma espécie de religião humanista.

Karl Marx tem raízes no judaísmo e no cristianismo. Se pai era advogado, e também o jovem Marx foi obrigado a iniciar os seus estudos em Direito, optando posteriormente para o curso de Filosofia. Era de uma família de judeus, mas que, de acordo com algumas biografias a seu respeito, sua família, para que pudesse ter maior prestígio social, converte-se ao cristianismo protestante da Alemanha. Ou seja, Marx tem desde cedo uma experiência bastante pragmática da religião. Não faltam vozes que afirmam que Marx de fato chegou a sinceramente chegou a, em algum momento de sua existência crer na religião judaico-cristã. De qualquer modo, o seu ateísmo também faz uma oposição sistemática a religião, principalmente a judaico-cristã, chegando a acusa-la de ópio do povo, e de que também esta religião não passava de um reflexo, de um aspecto da superestrutura fundamentada em uma base econômica que, de certa forma, determina o modo de ser da sociedade. Marx também teve o seu pensamento influenciado por Hegel, pegando dele o método dialético, mas, ao contrário do idealismo hegeliano, o que movimenta a existência não é a Idéia em si, mas sim os modos concretos de sobrevivência do gênero humano, daí Marx ser um materialista, e não um idealista[2]. Quando da instauração da sociedade comunista, as causas que deram origem ao pensamento religioso estarão vencidas, e portanto, a religião estará superada.

Freud foi criado em meio a uma família judaica ortodoxa, recebendo dela a sua educação. A religião judaica, como sabemos, pela dependência das Escrituras assume uma forma consciente e racional de investigação dos textos sagrados. Dizem alguns que, em sua infância, Freud teve algumas experiências negativas em relação à religião, visto que, havia um certo anti-semitismo por parte dos cristãos da Moravia, local em que cresceu. Há relatos no sentido de que Freud nunca expressou alguma fé em Deus ou na imortalidade da alma; entretanto, suas obras tratam do assunto religioso do começo ao fim de sua carreira, o que o torna, de certa forma, dependente da religião, e talvez até um produto dela. Na mesma esteira de pensamento de Feuerbach, Freud entendeu que Deus é uma criação do pensamento humano, entretanto, enquanto para aquele se tratava de uma projeção do ser sobre a idéia de divindade, este aprofundou o conceito da necessidade psicológica, creditando a força da religião aos desejos mais fortes da humanidade. Entretanto, assim como Feuerbach, Freud provavelmente concordaria com a tese de que “quanto mais pobre o homem, mais rico o seu Deus”. A exemplo dos outros, Freud também pregava a “necessidade da superação da fase religiosa, dando primazia á inteligência sobre a vida dos instintos[3]”. Somente o homem destituído de religião estaria assim deixando a sua infantilidade.

O início da história de Nietzche também não deixa de causar perplexidade, tendo em vista o rumo que a sua vida tomou. O seu pai era pessoa culta e delicada, pastor luterano, bem como seus avos, sendo que o próprio Nietzche pensou em seguir igual carreira. Era “aluno modelo, dócil e leal, seus colegas de escola o chamavam de pequeno pastor[4]”. Era ainda brilhante em estudos de grego bem como em estudos bíblicos. Entretanto, conforme progredia em seus estudos, ia se afastando do cristianismo até chegar ao momento de proclamar que o cristianismo só havia gerado “conformismo e mediocridade[5]”. Ele desprezou a piedade cristã, pois esta é “deprimente, pois enfraquece as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver[6]”. Declarou guerra aos teólogos, pois “todo aquele em cujas veias corre sangue de teólogo fica logo numa posição falsa diante de tudo e de todos, numa posição que carece de dignidade[7]”. O cristianismo então é irracional, pois “acha-se em contradição com toda a boa constituição intelectual: só pode servir de razão enferma como razão cristã, interessa-se por tudo aquilo que carece de inteligência e pronuncia o anátema, contra o espírito, contra a soberba do espírito são[8]”. Daí a declaração da morte de Deus e conseqüentemente da vida do “super homem”. Ao analisar o pensamento de Nietzche, Urbano Zilles afirma que, para o aclamado filosofo, o cristianismo é uma espécie de platonismo popular, e que fora envenenado por Paulo de Tarso, o judeu que distorceu a mensagem de Jesus, este sim, o único cristão que existiu, mas que levou o cristianismo com a sua morte, e que representou uma espécie de sublimidade patética, mas bem intencionada em sua existência. Deus precisa morrer para que a humanidade possa se emancipar. A morte de Deus será “ocupada pelo nada” (niilismo), e todos os valores serão “desvalorizados” e os valores projetados pela religião, como para ele, não estavam fundamentados na vida, são contra a própria vida. A religião cristã não deixa de ser niilista pois venera o nada como se fosse Deus, mas o niilismo pleno está a caminho, com a morte de Deus. Todo o ser humano “quer ser Deus”, e quando o homem e Deus se separam, aí está a religião. Por isso, o homem deve declarar que “Deus está morto” para que possa surgir um “super homem”. O homem necessariamente passará então pelo niilismo, para após, poder existir a “transmutação de todos os valores”, que serão valores criados a partir do físico, do ser que os cria, e não no metafísico. Entretanto, acredita no “eterno retorno do ser”, sendo que tudo o que foi voltará a ser, tendo em vista que “a finitude da quantidade de energia impede o surgimento do novo, mas o tempo é eterno, sendo este a forma extrema do niilismo, o nada eterno[9]”. De qualquer modo, se Deus está morto, a adesão ao ateísmo e somente uma questão de tempo. No artigo segundo da sua lei contra o cristianismo, Nietzche ainda declara: “Seremos mais duros para um protestante do que para um católico, mais duros para um protestante liberal que para um puritano. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de ser cristão[10]”.

Tudo o quanto aqui foi exposto acerca destes grandíssimos pensadores da humanidade só nos dá uma pequena, e talvez pálida noção de sua opinião acerca do fenômeno religioso. Entretanto, podemos todos perceber que eles pregavam uma espécie de emancipação do homem em face da destruição e fim da religião, principalmente a judaico cristã. Partimos do pressuposto de que tal ateísmo é de alguma forma, possivelmente, produto de uma cultura judaico-cristã. Podemos verificar tal parentesco em algumas características do pensamento destes filósofos.

Podemos verificar na maior parte destes pensadores um espécie de trabalho “apologético” muito parecido com o que fizeram os primeiros padres do cristianismo. Havia uma necessidade nestes de demonstrar, com apoio na filosofia, a superioridade da religião cristã sobre as formas pagãs de pensamento, tanto no campo espiritual como no filosófico. Os atuais pensadores do ateísmo também vão fundo em seu arcabouço teórico para demonstrar, com a apropriação do modo de pensar científico, que o cristianismo também de alguma forma está superado, seja como projeção da humanidade em Deus, seja como ópio do povo (mero subproduto das forças de produção), seja como infantilidade do ser, ou como pura doença. É contra o judaico cristianismo que todos estes pensadores levantam suas armas.

O moderno pensamento ateu também, a exemplo da religião judaico-cristã, uma necessidade bastante “proselitista”. Há a necessidade de se convencer, há a necessidade de se conseguir adeptos, ainda que alguns deles queiram negar tal postura. Os homens precisam ser convencidos de que só irão ser plenos quando pararem de projetar os seus mais nobres valores nesse ser inexistente a que chamaram Deus. Também precisam ser convencidos que durante os séculos as formas de produção é que geraram toda a superestrutura da qual a religião faz parte, e que esta é ainda uma das formas pelas quais o proletariado é oprimido, pois, ópio que é, impede que as coisas sejam vistas como realmente são. O apelo psicológico pode ter um caráter talvez menos agressivo em sua divulgação, mas é igualmente certo de que, a humanidade como um todo só alcançara a maioridade quando da superação do pensamento religioso. Também é preciso convencer de que a religião inverteu os verdadeiros valores, que o cristianismo é a coroação da mediocridade e do ressentimento, e que o super-homem só poderá surgir quando da morte de Deus, que, profeticamente, já se encontra invariavelmente morto.

Ora, ao analisarmos o pensamento ateu moderno, há uma clara referência a uma espécie de “novo nascimento” ou conversão do ser que abraça tal forma de pensamento. É a religião do humanismo em Feuerbach, em que o homem, agora pleno, pode proclamar a religião do humanismo. O amor à humanidade é aceito como expressão de uma vida autêntica, mas é um amor sem Deus. A revolução do proletariado (uma figura do povo escolhido no Antigo Testamento?) levará necessariamente ao homem novo (um novo nascimento conforme preconizado por Jesus?), e com esse, o fim da luta de classes (o paraíso?). Ou então, com o fim da religião teremos a humanidade plenamente madura, ou até mesmo o super-homem, que, finalmente, será Deus para ele mesmo. Interessante que tal homem, antes de se tornar super, passa por uma espécie de crise, muito parecida com a que passaram muitos santos do cristianismo, para que pudessem finalmente abraçar novos valores.

Há também uma esperança escatológica no pensamento ateu. Claro que não dizem que a mera “crença” no ateísmo iria resolver os problemas do mundo, mas o ateísmo indubitavelmente seria uma característica dos seres em um estágio mais desenvolvido. Para Freud, seria a humanidade finalmente madura. Nietzche chegou a profetizar, pela boca de Zarastustra, o fim da religião, e que, sua vinda (representada por um personagem em A gaia ciência) havia ocorrido antes do tempo, mas que Deus já estava morto e que só faltava os homens se aperceberem disso. No marxismo então facilmente iremos encontrar os vestígios de um pensamento escatológico judaico cristão, e que o reino finalmente se concretizaria em um mundo de iguais, com a abolição da propriedade privada e a implantação de uma sociedade plenamente comunista e atéia, visto que, os motivos que fizeram com que o homem adquirisse um pensamento religioso estariam finalmente eliminados.

Podemos perceber então que os clássicos do pensamento ateu nos parecem muito com filhos rebeldes, adolescentes, que negam a sua paternidade, mas que indubitavelmente exibem características de seu parentesco. Surgem sempre para superar os seus progenitores, fazendo por si mesmos aquilo que seus pais parecem nunca ter conseguido cumprir. Não dizemos que este tem sido sempre o comportamento de todos os ateus confessos, mas que esta tem sido uma tendência dentro do pensamento e prática ateísta.

Entretanto, apesar de demonstrarmos algumas características do pensamento ateu com seu antecedente religioso, ainda assim, nos falta indagar o porque de ser justamente o pensamento judaico cristão a permitir a possibilidade de um pensamento ateu elaborado e sistematizado. Repita-se, com este trabalho ousamos apenas iniciar uma reflexão acerca deste assunto, tratando-o de forma generalista, sem de forma alguma esgotá-lo, e nem mesmo excluir a possibilidade de estarmos equivocados em nossas conclusões.

O judaísmo rabínico, com seu radical monoteísmo, não deixou de ser de certa forma, uma forma de desmistificação do mundo. Com o judaísmo, temos um Deus que ainda influencia nos rumos da natureza, mas pela primeira vez, o Deus não se confunde com ela nem com as forças místicas que muitos pagãos julgavam existir e move-las. Pelo contrario, é no judaísmo mais desenvolvido que vemos uma completa abstração da idéia de Deus. Deus está fora da natureza. Sobre ela e nunca a ela submetido. Não há forças autônomas de espiritualidade na natureza.

Ocorre que tal judaísmo nem sempre prevaleceu, e quando tal ocorreu, tal se deu de forma bastante restrita, tendo em vista a característica nacionalista de tal povo, além do mais, não tardou para que tal judaísmo, mesmo antes do surgimento do cristianismo, já ser influenciado por elementos vindos do helenismo.

E é deste judaísmo que vemos a maior parte dos elementos que vieram a dar forma ao pensamento cristão institucional. O próprio catolicismo que veio a dominar a Idade Média era repleto de elementos mágicos e míticos, o que vem a refletir até mesmo na forma de ser da igreja romana até os dias atuais. E mesmo quando surgem vozes adeptas de um certo ateísmo, já há mudanças de cunho estrutural e econômico na sociedade que vão possibilitando este tipo de pensamento.

Entretanto, é sem dúvida nenhuma com o protestantismo que vemos uma espécie de secularização da existência que vai possibilitar, no nosso modo de entender, o surgimento de um ateísmo mais elaborado, mais sistematizado. Isto pode ser apontado por diversos motivos. Um deles, provavelmente, foi a rejeição praticamente total de todo o sistema sacramental do catolicismo, que acompanhava o ser desde o nascimento até para depois da morte. Todo aquele mundo “mágico” e místico do catolicismo foi plenamente rejeitado pelo protestantismo, ainda que de forma diferente e momentos diferentes nos diversos locais em que imperou a Reforma. O protestantismo, com a volta do estudo do Livro, contribuiu também para um certo racionalismo, pois deslocou a autoridade da estrutura institucional para a Palavra, o que implicou também no relativismo da estrutura romana, não vista mais como a única verdadeira; pelo menos, não pelos protestantes. Poderia haver diversas formas da verdade se manifestar, indiferente das estruturas institucionais que pudessem vir a ser criadas. Também quando da ênfase à questão da fé, rejeita-se também a tentativa da escolástica, principalmente tomista, em se buscar alguma guarida na relação fé-razão. Não se quer dizer que a razão tenha sido abandonada. Ao contrário disso. O que ocorre na verdade é o fato de que somente através da fé se poderia chegar a um pleno conhecimento das verdades divinas, e a razão, de certa forma, era um modo de organiza-las. Entretanto, ao se fazer tal cisão, não se deixa dúvida de que se passa a ter a opção puramente para a razão, visto que, no protestantismo, muito cedo o povo deixou de estar sob o jugo do clericalismo, sendo historicamente conhecido o fato de que os países que aderiram à Reforma propuseram uma liberdade de pensamento que muito contribuiu para a evolução do cientificismo secular. W. E. Hartpol e Lecky, citados por Lecompte, fazem a seguinte observação acerca do movimento reformista: “Certamente, nunca houve um movimento que, em seus últimos resultados, tenha contribuído tão amplamente como a Reforma para a emancipação do espírito humano de todos os terrores supersticiosos. Formou um grande número de igrejas nas quais o espírito de ceticismo temperado e suavizado, que por muito tempo foi fonte de anarquia, pôde expandir-se livremente e aliar-se ao espírito da ordem. Rejeitou boa parte das concepções dogmáticas e rituais que tinham abafado o campo inteiro da religião, e tornou possível o movimento contínuo pelo qual a teologia evoluiu em direção à moral, desde aquele tempo. Sobretudo, diminuiu o poder do clero e, dessa forma, preparou o caminho para a secularização geral do espírito europeu, marca mais característica da civilização moderna[11]”. É claro que seria um exagero atribuir o secularismo europeu tão somente ao movimento da Reforma, entretanto, conforme já demonstrado, grande foi a sua influência. Usemos para nos explicar melhor de uma linguagem mais evangelical e, de certa forma, agora situada no contexto brasileiro. Grosso modo, pelo menos em um catolicismo popular, diga-se de passagem, o cidadão médio atribui poderes praticamente mágicos à ordem sacramental romana. Existe a questão da veneração/adoração aos santos e às suas imagens, que não deixa de ser uma espécie de mistificação da existência. Tendo em vista a não existência de um pastorado mais efetivo junto às massas, é comum o espírito sincretista do católico mediano, que também acredita no poder dos espíritos, em doutrinas espíritas, orientais, entre outras coisas. Quando tal indivíduo se converte a um protestantismo moderando, principalmente de linha mais histórica, toda essa herança é abandonada. Tudo o que resta ao indivíduo é sua união mística com o Espírito Santo e sua comunhão com a comunidade. Tudo o mais, repetimos, absolutamente tudo o mais deixa de ter algum elemento espiritual per si, de modo que todo o universo passa a ser secularizado. É certo que o protestantismo calvinista atribui um certo espírito de sacralidade ao mundo criado por Deus; entretanto, como se disse, por ser criação divina. Entretanto, quando da perda da piedade do ser protestante, aquela noção passa a ser mera lembrança do passado. Apesar de ser esta uma visão tipicamente do catolicismo brasileiro, não temos motivos que tal era o comportamento do católico médio nos tempos da Reforma européia. Portanto, repetimos, para um protestante, que não esteja influenciado pelos aspectos mais radicais de uma experiência espiritualista como a dos evangélicos radicais da Reforma e dos neopentecostais, tudo o que resta é de fato a sua própria experiência mística com Deus; perdida esta, o caminho ao ateísmo parece ser o mais lógico, visto que, dificilmente se irá voltar àqueles elementos de caráter supersticioso e mágico do catolicismo popular.

Este foi o mundo dos principais fundadores do pensamento ateu atual. Todos eles viveram neste tipo de sociedade secularizada, em que o cristianismo parece ter se tornado sem muito espírito, talvez extremamente racionalista pela herança principalmente de Kant e Hegel (estes, filósofos protestantes), e a igreja uma espécie de instituição, talvez, descomprometida com as principais promessas que o evangelho parecem fazer em relação à humanidade.

Concluímos, pois, esta reflexão, que nós, herdeiros de uma forma protestante de pensar, temos que nos atentar para não perdermos os aspectos místicos, espirituais e simbólicos de nossa fé. É interessante notar que o catolicismo romano, por exemplo, nas chamadas festas cristãs, promovem muitas festas, teatros populares, missas ao ar livre, verdadeiros episódios de uma certa comoção popular, enquanto que em boa parte das igrejas evangélicas atuais, muitos destes aspectos simbólicos foram praticamente deixados de lado. Devemos também nos atentar para verificar se nossas comunidades têm espelhado um pouco daquela vida abundante que Cristo promete em sua palavra, além do que, verificarmos em nossas próprias vidas se tal experiência tem se verificado. Afinal, é justamente contra o cristianismo secularizado, institucionalizado, que parece se voltar toda critica, consciente ou inconsciente, feita pelos críticos do cristianismo, principalmente pelas promessas mais singelas de justiça e amor que este parece ter feito, mas não se demonstrou muito interessado em cumprir, visto que a institucionalização da religião muitas vezes ocupa o lugar central que deveria ser o da mensagem e do próprio ethos cristão. Conforme já pudemos verificar, todas as propostas feitas pelos pensadores demonstrados, de um ser humano maduro, igualitário, pleno, já foram de certa forma, promessas feitas pelo cristianismo, mas que muitas vezes se perderam no caminho da história.

E àqueles que são ateus, ou se sentem atraídos por algum tipo de ateísmo, fica o apelo para que verifiquem que as mais belas aspirações à humanidade se encontram no evangelho e em Jesus Cristo, este sim, um humanista no verdadeiro sentido do termo, visto ter amado a humanidade com todo o seu ser, e ensinado e vivido o amor como homem algum jamais o fez, e que o ateísmo, ainda que tente se apoderar de uma certa ética cristã, não têm fôlego para vive-la, tendo em vista que tal espírito não é alimentado nem habitado pelo verdadeiro Espírito.


[1] LECOMPTE, Denis. Do Ateísmo ao retorno da Religião. Sempre Deus? Loyola, p. 96/104.
[2] A direita hegeliana buscava uma forma de enxergar em Hegel uma filosofia da qual se concretizava uma forma sublime de se “comprovar” a veracidade da religião, sendo que esta absorve a filosofia. Na esquerda hegeliana, ocorre justamente ao contrário; a religião é absorvida pela filosofia. Feuerbach e Marx foram adeptos desta segunda corrente.
[3] ZILLES, Urbano. Op. Cit. p. 142,
[4] Coleção Os Pensadores, p. VII.
[5] ZILLES, Urbano. Op. Cit., p. 163
[6] NIETZCHE, Friedrich. O Anticristo. p. 41
[7] Ibdem. P. 43.
[8] Idem. P. 91.
[9] Op. Ci. P. 171-174.
[10] Nietzche, Friederich. O Anticristo. Ed. Martin Claret, p. 91.
[11] In History of the Rise and Influence of Rationalism in Europe, citado por LECOMPTE, Denis. Op. Cit. P. 85.


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