quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Festa nos céus


"Há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende" (Lc 5,10).

Porque será que há festa nos céus quando um pecador se arrepende (isto, para aqueles que acreditam em anjos)?

Podem ser vários os motivos; mas um deles, certamente, é porque é muito difícil um pecador se arrepender sinceramente dos seus pecados (esta, vale inclusive, para os que não acreditam em anjos).

Fico pensando em minha conversão, e, o quanto eu era rápido em reformar a minha vida à luz da Palavra de Deus. A exercer a auto-reflexão, e, converter-me, buscando-me amoldar "Àquele que me chamou das trevas à sua maravilhosa luz".

Com o passar do tempo, curiosamente, vamos ficando mais complacentes com nossas próprias mazelas, deixando para depois aquilo que devemos emendar e corrigir hoje. E, certamente, são estas coisas verdadeiras causas de tropeços para o nosso progresso na fé e em nossa própria vida.

Mas, o que quero refletir realmente é esta dificuldade de nos arrependermos. Arrependimento não tem a ver com gritaria, lamúrias, emocionalismo, nem ficar mecanicamente cantando o "Kyrie" no início das missas ou cumprir liturgicamente o momento de contrição em nosso cultos, etc; mas sim uma profunda auto-análise sobre nós mesmos, e uma radical decisão de mudarmos de atitude, de mudarmos de mente, de nos convertermos. É uma atitude violenta, pois envolve um negar-se a si mesmo todos os dias de nossas vidas, a tirar costumes arraigados, alguns dos quais nos acompanham durante anos; e, arrancarmos de nós algumas ilusões que povoam nosso imaginário, talvez durante décadas. É, conforme nas palavras do nosso Senhor, o Reino de Deus tomado à força, pela violência. Talvez por isso, o caminho seja estreito e difícil, sendo poucos os que passam por ele... Envolve, inclusive, muitas vezes, desagradarmos pessoas do nosso círculo social, de nossa família, que não entenderão muito o que está acontecendo...

Por isso, talvez por causa de todas estas dificuldades, o arrependimento seja mesmo um milagre de Deus, o maior dos milagres; muito maior do que curar paralíticos, do que fazer cegos enxergarem. Pois tais milagres geralmente dizem respeito a somente um indivíduo, o beneficiário do milagre. Mas o arrependimento pode curar o mundo. Pode curar uma nação. Uma pessoa arrependida e transformada trará muitos benefícios a todo o seu círculo social. O que é que pode acabar com as guerras e lutas que existem em nosso mundo? O arrependimento que tranforme o ódio em amor, a fúria em perdão. O que é que pode curar toda a miséria do mundo? A conversão da ganância e avareza em disposição para a partilha. O mundo será curado quando deixarmos de dar ouvidos ao nosso egoísmo, e darmos lugar ao amor, ao Totalmente Outro, que está para além do ser, mas ao mesmo tempo, no ser, em nós. Conta-se a história de pessoas avarentas que, quando se converteram, deram todos os seus bens aos pobres, e transformaram para sempre o mundo. Zaqueu, quando viu o Senhor, deu metade dos seus bens aos pobres, e restituia quatro vezes mais àquele que porventura defraudasse economicamente. Bastou isso para Jesus dizer que a salvação havia chegado àquela casa, e que aquele também era um filho de Abrãao (Lc 19,9).

É por isso que, quando alguém se arrepende verdadeiramente, há júbilo nos céus, pois coisa difícil é se arrepender de todos os nossos pecados. Arrepender-se também é um dom de Deus, é a bondade de Deus que nos leva ao arrependimento. Você já provocou alguma festa nos céus?