segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Inveja




"Os escribas e os fariseus observavam-no, procurando ver se ele faria a cura no sábado, a fim de acharem de que o acusar" (Lucas 6,7).

Segundo as Escrituras, Jesus curou um homem com a mão ressequida, e isto em um dia de sábado.

Fez isso a vista de todos.

Uma obra maravilhosa, diga-se de passagem.

Mas os líderes religiosos o acusaram de descumprir a lei, justamente por causa do dia em que a cura foi realizada, qual seja, o sábado.

O sábado, na verdade, foi apenas um desculpa. Jesus já estava, há muito tempo, chamando a atenção de todos, não somente pelos dons que estava exercendo no meio de todo o povo, com curas (Lucas 5,13), expulsão de espíritos imundos (Lucas 4,35), e maravilhando a todos com os seus ensinos (Lucas 4,22). E isto estava despertando a inveja dos líderes religiosos de sua época.

Há uma aspecto muito sombrio e muito infernal no sentimento de inveja.

A inveja nos impede simplesmente de ver as maravilhas de Deus, quando são operadas em nosso meio.

Uma obra maravilhosa, e muitas outras, foram realizadas por Jesus; algo que há muito não era visto em Israel. Entretanto, a inveja cegava alguns de tal forma que, não reconheciam o milagre, se fechavam para a alegria da cura de um aflito, eram incapazes de reconhecer o bem.

Mas no meio religioso, isto é muito mais complicado, pois o sentimento de inveja é disfarçado com uma desculpa de justiça. Isto porque, não fica bem, no meio religioso (e em meio nenhum) admitir pura e simplesmente a inveja. Por isso, no caso em questão, Jesus não poderia curar, afinal era sábado!

Muitos outros casos parecidos temos nas Sagradas Escrituras. Ora; não foi o ladrão Judas que dizia que não se deveria ter desperdiçado o perfume naquela mulher, sob a justificável, justa, e louvável desculpa que se deveria ter dado tudo aos pobres? Não foi o irmão mais velho do chamado "filho pródigo" que, sob a justa desculpa de sempre ter trabalhado a vida inteira, reeprendia o pai por festejar a volta de seu irmão mais novo?

Certa vez, um líder do grupo de jovens reeprendeu um rapaz porque ele era muito paquerador, ensinando-o como um jovem deve se comportar respeitosamente na casa de Deus. O problema é que, anos depois, ele confessou a inveja que sentia daquele rapaz, pois ele, líder, gostaria de ser querido entre as jovens e se relacionar com mais facilidade com o sexo oposto.

Penso, inclusive, que é a própria inveja (misturada com nossa intolerância, entre outras coisas), que muitas vezes, nos impede de perceber as coisas que Deus opera em grupos religiosos diferentes dos nossos.

Por isso, a inveja entre os religiosos é sempre muito complicada, pois o discurso que o disfarça é sempre um discurso de justiça (ou de "ortodoxia").

É bom, então, nos examinarmos, e verificarmos se os impulsos que movimentam nossos atos são impulsos de inveja, ou de amor. Se acaso forem de inveja, é melhor se recolher, ficar em silêncio, e nos entregarmos a oração.