sábado, 21 de março de 2009

Amartiologia?!?

Amartiologia...

Não pense o caro leitor que estamos a dissertar sobre amartiologia...

Amartiologia...

Curioso fenômeno este que faz medrar demonologias e amartiologias a sombra da teologia Cristã.

As águias deleitam-se em explorar a imensidão dos espaços e em respirar a pureza dos ares elecados, os urubus deleitam-se em chafurdar na carniça e em aspirar odores putrefatos...

Jesus falou tanto na justiça, no amor e nas demais virtudes... e ninguém se lembrou de criar as disciplinas da dikelogia, da agapelogia ou da agatiologia...

Parece até que a mentalidade redimida se esforça por permanecer presa ao mal e ao pecado...

Penso que não valorizamos devidamente os bens que recebemos. Pois só temos os olhos voltados para o que é negativo...

Fomos regenerados e feitos novas criaturas, coisas há que deveriamos esquecer ou pôr de lado. E revestir nossas mentes de Cristo.

Não pretendo pontificar no terreno da amartiologia, vanglorio-me de conhece-la pouco e de longe. Não é um assunto que me atrai...

Prefiro meditar sobre Cristo, sua encarnação, seu sacramento, a regeneração, a graça, a satificação, etc acho mais produtivo...

Sem querer lançar farpas... a ortodoxia é criticada porque cultiva um ramo de estudos dedicado aquela Criatura por meio da qual Deus se fez homem e veio até nós: a mariologia. E sem embargo, nossos críticos, desprezando esse ser pelo qual operou-se a encarnação de Deus, porfiam-se em estudar o pecado e o demônio... Mais uma vez não entendo nada e não quero entender...

Mas... Vamos ao pecado.

Para inicio de conversa é bom salientar que existem duas vertentes teologicas bem distintas sobre o pecado: uma de matiz semi-pelagiano que remonta aos primeiros séculos e outra de matiz agostiniano, cujas raizes mergulham no maniqueismo e convergem para o judaismo...

A primeira caracteriza a teologia oriental e em parte a teologia papista, enquanto a segunda caracteriza a teologia protestante.

Uma encara o pecado como uma parte ou faceta da divina revelação e a outra como uma parte ou faceta bastante ampla da mesma. Temos pois um conceito estrito de pecado e um conceito amplo de pecado...

Para os adeptos da primeira corrente mesmo na vida dos ímpios há uma alternancia entre atos pecaminosos e atos de fidelidade a consciência ou de virtude, porquanto não é dado ao pecado o poder de destruir completamente a consciência humana, mas de domina-la e destrui-la progressivamente... Segundo esse enfoque o pecado ou o mal se encarnariam gradativamente nos pecadores obstinados...

Já para a segundo corrente tudo é pecado e apenas pecado nas vidas daqueles que optaram pelo pecado e regeitaram a graça de Cristo...

Da mesma forma que a teologia romana a teologia oriental costuma assentuar a diferença que existe entre concupiscência ou pecado original, tentação, inclinação e pecado... Já a outra teologia considera tanto a concupiscência, quanto a tentação e a inclinação como verdadeiros pecados, conferindo-lhe, segundo nossa opinião uma abrangência, um domínio e um significado que ele não possui.

Lutero afirma-o explicita e categoricamente em seus primeiros escritos nos quais caracteriza as tentações porque passou e passava como pecados...

Se a fé sem obras já é em si mesma uma virtude salvífica, a lógica nos obriga a admitir que o simples pensamento pecaminoso ou teoria do pecado já é, em si mesmo um pecado que dispõe o homem para a condenação. Quem se redime e salva pela fé, se agir, pode pecar igualmente pelo sentir ou pensar sem consentir ou agir...

Ora se confundirmos a concupiscência, a tentação e a inclinação com o pecado não há como fugir da conclusão luterana de que o Cristão é um derrotado e que vive pecando sempre; pois nenhum Cristão, por mais santo e piedoso que seja é isento de concupiscência, tentação ou inclinação para o mal.

Nós entretanto não concebemos a concupiscência, a tentação e a inclinação como pecados.

Conforme cremos para que haja pecado é necessário que haja assentimento livre e deleite. Ora os santos sofrem a tentação como um martírio, a ela resiste, dão-lhe combate e não de delitam nela de forma alguma, antes a aborrecem porque amam a virtude que é a lei de seu Senhor. Como pois podemos afirmar que ao resistir e sofre pecam?

Não disse o Cristo que é suficiente pensar no mal para pecar?

Não, não o disse... Disse que há pecado de pensamento e não que todo pensamento mau seja pecado.

Referindo-se a luxúria especificamente ou melhor ao adultério e a promiscuidade afirmou que se alguém deter seu olhar sobre pessoa do sexo oposto, e sentir algo por ela ou seja deleitar-se ao invés de desviar o olhar cometeu pecado. Talvez pecado leve, de imprudência, mas que poderia lava-lo a cometer um pecado de morte...

Não esta escrito que esse pecado de olhar ou pensar seja idêntico ou tão grave quanto o de fazer...

Cristo quiz dizer certamente que o princípio de todo pecado são os sentidos e que devemos mortifica-los... Não é o corpo que constrage o homem a pecar ou os orgãos sexuais, mas as impressões que permanecem na mente e são relembradas nas oras de ócio. Evidentemente que se o homem deleitar-se em pensar no mal, cometerá o mal...

Cristo não afirma que pensar no mal é tão grave quanto faze-lo; mas nos alerta quanto ao risco de virmos a praticar o mal depois de pensar nele e deleitar-se neste pensamento...

O pecado de pensamento não é da mesma gravidade que o pecado posto em pratica, mas conduz quase que fatalmente a ele... evita-lo seria como cortar o mal pela raiz...

Mas, a raiz não é o tronco ou o fruto, é a raiz...

Uma coisa é eu pensar em matar, outra é deleitar-me nesse pensamento e planejar e outra é matar efetivamente. O mandamento de Deus só é violado quando efetivamente mato... se parar nas fases anteriores, peco certamente, mas não com a mesma gravidade.

Do contrário quem já pensou e matar ou planejou, sendo tão culpado como se já tivesse matado, não teria motivo algum para parar ou voltar atrás...

Tal discussão, em torno do pecado original ou da concupiscência, da tentação, da encarnação e das faltas, conduzem-nos irremediavelmente a problemática da distinção entre os pecados.

Nós ortodoxos acatamos com toda reverência os pronunciamentos dos sínodos de Jassy e de Jerusalem, bem como a exposição de Pedro Moguila, sobre a distinção entre pecados graves e leves; mortais ou veniais, de modo analogo a da teologia romana, porquanto encaramos tais afirmações como expressões verídicas da doutrina evangélica e neotestamentária.

Ao contrário dos antigos estóicos não cremos que roubar seja igual e matar ou que contar uma mentira para o pai ou a mãe seja igual fuzilar vinte companheiros de classe. Percebemos uma certa conexão, orgânica, entre os diversos atos morais, mas, nem por isso, nivelamos o valor dos mesmos...

Já a teologia protestante, especialmente a puritana, afirma a absoluta igualdade entre todos os pecados ou ações más. Existem apenas pecados graves ou de morte e toda ação má é suficiente para separar-nos de Deus...

Aparentemente tal teoria, rigorista, sabe ser mais conforme a virtude... Pois parece exigir mais do homem...

Mas é só aparência, como todas as doutrinas de tudo ou nada.

As doutrinas rigoristas acabam sendo contraproducentes pois ao invés de tornarem o homem cada vez mais virtuoso e impecavel, fazem-no desesperar do bem e conformar-se com todo tipo de pecados, foi o que aconteceu justamente com Lutero.

Admitamos que todos os pecados são igualmente mortais e que nos separam de nosso Salvador.

Fosse assim, que deveria fazer a Cristandade?

Esforçar-se em comunhão com Cristo para não cometer pecado algum, para não pecar, para atingir a impecabilidade - auxiliado pela graça do Senhor - e jamais separar-se dele...

Foi o que se sucedeu na prática quando tal doutrina foi enunciada?

Não, não foi.

Sucedeu-se justamente o contrário: se todo pecado é grave e não consigo viver sem cometer pecados graves, é inutil resistir ao mal. Conclusão: Cristo deve salvar-nos, nos nossos pecados... inclusive assasinatos, assaltos, estupros, adultérios, corrupções, etc

A nivelação de todos os pecados desesperou a Cristandade protestante e até o advento de Wesley produziu uma Cristandade mundana e conformada com o pecado. Uma Cristandade que até hoje só sabe clamar e tartamudear orações... uma Cristandade de tartufos que encarou Wesley, seu mais nobre representante como um herege e emissário do anti-Cristo.

Ao ler a vida de Wesley conclui que o Cristo bentido é assaz misericordioso e que Wesley foi uma graça que seus confrades não mereceram. Duzentos anos depois só conheço luteranos e calvinistas proclamando já a redenção fetichista e facil, já a predestinação e o inferno, wesleyanos conheço pouquíssimos.

Quando me entrego aos estudos teologicos me divirto muito e me pego a gargalhar, pois o arminianismo acabou se refugiando antre as execrandas adventistas e testemunhas de Jeová. Apesar de ortodoxo, desde quando era romano simpatizava com tais sectários, odiados pelo protestantismo ortodoxo, pois por experiência própria e pessoal tenho verificado como esses sectários se esforçam para viver certos valores do Evangelho.

Consultemos pois os oráculos divinos para nos certificar-mos a respeito dos pecados e suas categorias.

Jesus disse a Pilatos: Maior pecado tem quem me trouxe a tí.

Se há pecado maior há pecado menor - pois maior e menor são relativos um ao outro e não absolutos - logo Jesus distingue os pecados em mais e menos graves tal e qual a teologia ortodoxa.

Mas distingue de que modo?

Para sabe-lo precisamos recorrer a sabedoria do apóstolo João, o teólogo.

Ouçamo-lo: ean tiV idh ton adelfon autou amartanonta amartian mh proV qanaton aithsei kai dwsei autw zwhn toiV amartanousin mh proV qanaton estin amartia proV qanaton ou peri ekeinhV legw ina erwthsh. I Jo 5, 16

Traduzido: Se observas teu irmão fazer um pecado, pecado que não é para a morte pede, há intecessão, efetivamente pecado existe, que feito é para a morte. Pecado há que é para a morte, não é deste que falo. (literal)

Se vôce percebe que um irmão peca de pecado que não é mortal, peça por ele; de fato existe um pecado que é mortal. Pecado há que é mortal, não me refiro a ele.

"Se alguém vir pecar seu irmão pecado que não é para a morte, orará e Deus dará a vida aqueles que não pecaram para a morte. Há pecado para a morte pelo qual não digo que ore." JFA - 1900

"Si algumo viere a su hermano cometer pecado que no sea de muerte, pedira, y Dios le dará vida, esto es para los que cometem pecado que no sea de muerte. Hay pecado de muerte, por el cual no digo que se pida." Valera.

Fica patente que o sentido é o mesmo: Existem duas categorias de pecados > mortal e não mortal, grave e leve, tal e qual é ensinado até hoje pela igreja de Deus.

Certamente que não se trata da morte do corpo, pois segundo Paulo a morte do corpo tem origem noutro pecado e por isso todos morrem...

Só nos resta admitir que se trata da morte da alma... ou da morte espiritual...

Mas morre mesmo a alma?

A alma separada de Deus por uma ação ímpia e cruel é como um galho separado da árvore ou um membro do corpo. Não recebendo mais a graça, a seiva ou o sangue, morre, murcha e se putrefaz.

Existem pois opções gravíssimas que apartam o home de seu Senhor dando morte a seu espírito. Pois só é verdadeiramente vivo aquilo que esta ligado ao Vivente.

Por isso continua o hagiografo:

pasa adikia amartia estin kai estin amartia ou proV qanaton. V 17

Todo mal praticado é pecado, mas há pecado que não há mortal.

Ou seja sempre que o homem pratica o mal ou faz algo de errado certamente peca, todavia seu pecado só se torna mortal quando ultrapassa uma certa medida.

Existem pois dois tipos de pecado: um que é mortal, por matar a alma, separando-a de Cristo e privando-a de sua graça e outro que não é capaz de matar a alma ou seja que não é mortal, mas venial. Um é grave porque nos converte em cadaveres espirituais outro é leve porque não nos priva da comunhão com o Senhor.

Ouçamos o prof Champlinn (in Loc): "Antes, o autor sagrado estaria pensando em pecados deliberados (com consentimento) e vícios de imoralidade... Nesse caso, ELE ESTARIA PENSANDO EM TIPOS MAIS SÉRIOS (graves) DE PECADOS, COMO ADULTÉRIO, IDOLATRIA, BLASFÊMIA, ASSASSINIO, ETC SE PORVENTURA O CRENTE CHEGAR A PRATICAR TAIS PECADOS, PERDERÁ A SEMENTE DE DEUS (graça) QUE FOI IMPLANTADA NELE E ASSIM SE ENCAMINHA PARA A MORTE ETERNA."

A tal doutrina costuma objetar-se Tg 2,10: Quem violar um preceito violou todos.

Segundo o contexto Tiago se refere aos preceitos da lei abolida dos judeus, alguns Cristãos ao que perece desejavam continuar observando os preceitos mosaicos, tal e qual os fariseus, Tiago então lhes diz que se esmerassem em observar a todos pois caso pecassem um inciso ou regulamento dessa lei, estariam ferindo a lei mosaica como um todo.

Pode-se certamente aplicar o juizo de Tiago aos pecados mortais no sentido de que a violação consciente de um único ponto da lei moral é suficiente para dar morte a alma ou expelir a graça de Cristo. Não preciso violar todos os pontos da lei moral ou toda ela - assassinando, roubando, fraudando, etc - para morrer espiritualmente. Eis a mensagem do apóstolo, a qual - ao contrário do que afirmam Sactis e Moreno (controv.) - em nada se opõe a doutrina orodoxa.

Que a igreja tenha dividido os pecados por categorias desde seus primórdios e adotado uma disciplina ultra-rigorosa ouçamos os mesmos Sanctis e Moreno (de Controv p 230 imprensa metodista - 1931):

O Bispo determinava o grau de gravidade dos pecados. A de primeiro gráu, a mais grave, consistia e se vestir de saco, cobrir de cinza e atirar-se a porta da igreja para ser pisado (copiado da sinagoga provavelmente pelos apóstolos). Essas pessoas ficavam fora do nartex ou adro, ao relento, chorando seus pecados, eram os Fletentes.

O segundo gráu era o dos ouvintes, que podiam entrar no nartex ou adro para ouvir o sermão ao lado dos catecumenos ou gentios. Terminado o sermão e iniciados os mistérios deviam retirar-se do lugar santo.

O terceiro gráu era o dos prostarados, que podiam ouvir as leituras das epistolas e do sagrado evangelho mas de joelhos ou prostrado com os braços abertos em cruz. Também eram postos para fazer serviços na igreja como varrer, lavar os altares, rebocar, pintar, etc

O quarto grau era o dos consistentes que podiam assistir de pé a sinaxe, abstendo-se todavia de comungar.

Tais penitências podiam durar um, dois, cinco, dez anos ou até a morte do penitente. Só eram reiteradas três vezes em nome da Trindade adoravel e não eram aplicadas a certos pecados gravíssimos como assassinato e adultério, cujos culpados a igreja entregava na mão de Cristo, mesmo que vivessem honestamente pelo resto da vida.

Os Bispos ortodoxos determinavam ainda peregrinações aos tumulos dos apóstolos e mártires diante dos quais era costume flagelar-se com quarenta chibatadas, jejuns e abstinencias que também se prolongavam por anos a fio, a obrigação de se cantar tantos salmos ou o saltério inteiro num santuário, etc

A igreja antiga empregou uma disciplina férrea com o objetivo de destruir o pecado e aterrorizar os apóstatas, como geralmente os pecadores eram rotulados.

Tal disciplina foi magnificamente descrita pelo romano Louis Ellie Dupin na "Disciplina da igreja antiga" e pelo protestante Holstenius na "História da penitência nos primeiros séculos do Cristianismo.".

Tenho para mim que a maior desgraça que se sucedeu a Cristandade foi o abandono gradativo dessa salutar disciplina. Ela esta na base de nossa apostasia em face a ortopraxia...

Uma verdadeira reforma procedente dos céus deveria ter começado por restabelecer tais coisas em seu lugar - como disse Kierkegaard - tornando o Cristianismo mais rigoroso e fazendo reviver o terror do pecado. Infelizmente Lutero meteu os pés pela cabeça e lançou os fundamentos e bases duma Cristandade mais conformista...

Penso que uma tal reforma disciplinar esta por ser feita e que será feita, ou o Cristianismo desabará como uma estrutura arruinada.

Admitida a divisão dos pecados em duas categorias devemos ser intransigentes tendo em vista os que produzem a morte e indulgentes para com aqueles que não lha produzem. Enfim equilibrados e sóbrios tendo em vista a graça do Senhor.

Desta forma fica fácil compreender a noção de impecabilidade. Não se trata duma impecalibidade absoluta e utopica mas duma impecabilidade concernente aos pecados graves que nos privam da graça de cristo e nos levam a morte espiritual.

Não se tratam de defeitos, faltas ou picuinhas mas de ações que atingem já o outro já a sociedade, no próximo artigo desenvolveremos esta concepção de pecado que prentendemos opor a noção individualista e maniquéia de pecado.