sexta-feira, 6 de março de 2009

As fontes da Teologia Sistemática no pensamento de Paul Tillich





O teólogo sistemático não pode reivindicar validez para a norma que ele usa, apontando para os pais da igreja, concílios, credos, etc. A possibilidade de que todos estes tenham incorrido em erro dever ser mantida pela teologia protestante com tanta radicalidade quanto Roma afirma o contrário em sua doutrina da infabilidade papal (Paul Tillich).

Por Carlos Seino

Este artigo tem como interesse básico refletir sobre o que o autor supramencionado entende que deve servir como fonte do teólogo sistemático protestante em seu trabalho de expor os conteúdos da fé cristã. Em meio a tanto fundamentalismo e radicalismo existente hoje no meio protestante/evangélico, talvez seja interessante fazermos uma reflexão sobre o tema supracitado tomando como base o pensamento deste renomado teólogo alemão em sua grande obra Teologia Sistemática, que no Brasil foi publicada pela primeira vez pela Editora Sinodal em parceria com as Edições Paulinas.


Segundo Paul Tillich, a teologia “é a explanação metódica dos conteúdos da fé cristã
[1]”, e a teologia sistemática tem como principal tarefa “explicar os conteúdos da fé cristã[2]” cabendo, obviamente, tal trabalho ao teólogo, que, em sua busca, tem uma “preocupação última” que, em certo sentido, impulsiona o seu próprio trabalho. Para realizar tal tarefa, o teólogo terá que consultar diversas fontes, conforme será a seguir explanado.


Uma das fontes para o teólogo sistemático, no entendimento de Tillich, são as Escrituras. Isto porque, segundo, a Bíblia é a “fonte básica da teologia sistemática
[3]”, porque é o “documento original sobre os eventos que a igreja cristã se fundamenta[4]”. Cumpre esclarecer que o autor, ab initio, já rejeita o postulado evangélico/fundamentalista de que a Bíblia é a única fonte para a teologia, e o faz tendo em vista diversos motivos, dentre os quais é o fato de que “a Palavra de Deus não está limitada às palavras de um livro[5]”.

Outra fonte apontada por Tillich que deve servir de base para o teólogo sistemático, é a história da igreja
[6]. Isto porque, nas palavras do renomado autor, “toda pessoa que encontra um texto bíblico é guiada em sua compreensão religiosa do mesmo pela compreensão das gerações anteriores[7]”. Entretanto, Tillich faz questão de observar que o teólogo não romano não pode aceitar a atitude de “sujeição da teologia sistemática às decisões dos concílios e dos papas[8]”; isto porque, a atitude romana se torna superficial quando “pressupõe dogmaticamente, com ou sem provas a posteriori, que aquelas doutrinas cuja validez está garantida pela lei canônica concordam essencialmente com a mensagem bíblica[9]”. Tillich observa este como o grande motivo pelo qual há grande esterilidade da produção teológica da igreja romana, em contraposição com sua criatividade litúrgica e ética.

Entretanto, Tillich não encerra por aqui o que entende por fonte da teologia sistemática, mas acrescenta ainda que a histórias da religião e da cultura de modo geral também deve compor a presente lista. Isto porque toda a religião está inserida em determinada cultura, e dela recebe influências. Sugere ainda que é possível uma análise da teologia que está por traz de todas as expressões culturais, que seria sua preocupação última.

Portanto, Tillich nos informa que a riqueza das fontes do teólogo sistemático é praticamente ilimitada, sendo as tais a Bíblia, a história da igreja, a história da religião e da cultura, indicando ainda que a maior ou menor importância de tais fontes está em ligação direta com “o evento central no qual a fé cristã está baseada, que é o aparecimento do Novo Ser em Jesus Cristo
[10]”.

Passemos, neste momento a uma reflexão acerca das fontes propostas por Tillich para o trabalho do teólogo sistemático.

Primeiramente, meditemos na Bíblia como primeira fonte. Quando Tillich chama a Bíblia de fonte original, não está a se referir que temos os documentos conforme foram escritos. Entretanto, as Escrituras, mesmo que tenha havido acréscimos posteriores, ainda assim revelam as primeiras experiências da comunidade cristã primitiva acerca do Querigma apostólico. Tillich parte da compreensão de que o centro do evangelho é o novo ser em Jesus como o Cristo, cuja mensagem está contida nas Escrituras. Cristo é a Palavra de Deus revelada, fonte de toda a revelação, donde as Escrituras dão seu testemunho. Neste aspecto, entendemos que Tillich se mantém de certa forma fiel ao posicionamento de Lutero que também via em Cristo o centro de todo o testemunho canônico, ainda que nem tudo nas Escrituras levasse a este fim (a famosa doutrina do cânon no cânon que não pode, a nosso ver, ser negado por nenhuma mente razoável). Entretanto, Tillich rejeita o biblicismo (assim como Lutero rejeitou) por questões óbvias; entre elas a de que mesmo as Escrituras são historicamente condicionadas por uma série de fatores que não podem escapar da analise atenta do teólogo sistemático. Tillich, mantendo coerência com o pensamento e postura protestante de não atribuir uma infabilidade “fechada” em todas as questões que envolvem a religião opina que “a abertura parcial do cânon é uma salvaguarda da espiritualidade da igreja cristã”.

O evangelicalismo radical moderno tem a obrigação de refletir seriamente nesta questão, visto que, em certo sentido, se desviou da tradição reformada. Ao se creditar, como o biblicismo fundamentalista o faz, uma infabilidade na lista canônica está a se creditar, pela via indireta, a infabilidade de quem escolheu tal lista, seja a de um concílio católico, seja a de um protestante, contrariando frontalmente os próprios postulados da Reforma, de modo que, no fundamentalismo protestante parece estar a gênese de sua própria negação. Portanto, as Escrituras são fonte, “sacramento”, apontam o caminho, mas não são o caminho em si. Servem de testemunho, e de “ponte” para a verdadeira revelação em Cristo Jesus, mas não são o Cristo em si.

Sobre a fonte “história da Igreja”, sem dúvida, Tillich mantém a coerência com o que expôs acerca da primeira fonte. Isto porque, conforme dissemos, a lista canônica também foi condicionada por fatores históricos (não é um corpo estranho que cai do céu, como o Corão ou o livro de Mórmon), além do impacto da revelação em Cristo Jesus, de modo que são estes fatores que servem de fonte para a sua própria elaboração. O teólogo protestante, não obstante considerar as Escrituras sua principal fonte, não se comporta diante destas como se fosse um ídolo. Muito pelo contrário, a teologia protestante se faz com coragem de inclusive questionar alguns aspectos destas mesmas Escrituras, e até atribuir a outros documentos valor inclusive maior do que alguns outros constantes da lista canônica. Por exemplo, não obstante o respeito que o teólogo deve demonstrar à II e III epístola de João, poderá entender que uma obra como a do Didaquê contém muito mais informação histórica, doutrinária e ética sobre a igreja primitiva do que os documentos citados. Certamente, muitos representantes da ortodoxia dirão que o documento mencionado não preenchia os requisitos de apostolicidade, catolicidade, entre outros para integrar o cânon; mas tampouco as mencionadas epístolas, além de outros documentos no Novo Testamento, hoje, a luz da crítica histórica, preenchem tais requisitos. Aliás, através de analise crítico-histórica de tais muitos textos se percebe as suas diversidades, e às vezes, até entendimentos e relatos inconciliáveis.

Também é através da história da Igreja (e quando se diz igreja, talvez Tillich tivesse sido mais feliz se utilizasse a expressão “história do cristianismo”) entender os aspectos históricos que levaram ao fim de uma igreja baseada nos dons e nos carismas e o surgimento de uma igreja totalmente hierárquica, e que os defensores deste sistema sempre formam justamente os homens que estavam no topo desta mesma hierarquia. Deve ainda buscar entender os movimentos considerados heréticos como o gnosticismo, o montanismo, entre outros, e verificar se realmente estes movimentos representam um “pacote” que deve ser inteiramente rejeitado, ou se há aspectos realmente justos em sua crítica (por exemplo, ao lermos Elaine Pagels, alguns podem chegar à conclusão de que a eclesiologia gnóstica poderia estar muito mais próxima de Paulo do que da chamada ortodoxia). Portanto, para o teólogo protestante “não há transito em julgado nas decisões da igreja” de modo que tudo serve de base para o seu trabalho.

Pensemos também agora na história das religiões e da cultura como fonte do teólogo sistemático, principalmente se tiver um viés mais ecumênico, tanto intra, como extra cristão. O teólogo talvez poderá se perguntar se as similitudes entre o cristianismo e outras religiões foram, na verdade, sincretismo helenístico ou uma declarada tentativa de absorção do maior número de elementos possíveis por um movimento que tendia ao universalismo. Além do que, o teólogo sistemático deverá perceber que mesmo os concílios, quando vão a minúcias de uma definição teológica, também estão condicionados a uma cultura e uma linguagem própria de seu tempo, não tendo sido o dogma também um “corpo estranho” que caiu no colo dos bispos, mas que teve suas características moldadas na base de muita discussão, filosofia e cosmologia da época, de modo que também apontem um caminho, mas não são o caminho em si, fazendo com que o teólogo sistemático possa repetir como o apóstolo que “hoje vê como que por um espelho”, ou seja, não tem ainda a capacidade de vislumbrar o quadro todo, mas enche-se de fé, esperança e amor no seu trabalho. Verificaremos que Jesus se manifestou em uma cultura que provavelmente não é a mesma que produziu o Novo Testamento como um todo, que não é a mesma que produziu os concílios, e que não é a mesma em que vivemos hoje, sendo que, talvez, a radical insistência nas fórmulas do passado possam acabar como que determinando a derrocada do próprio cristianismo, em todas as suas vertentes.

Portanto, concluímos que o teólogo protestante prima por uma radical liberdade, o que certamente sempre causará espanto dos mais tradicionalistas católicos e mesmo dos representantes de uma ortodoxia protestante, entretanto, nem por isso é um total subjetivista, visto que seu trabalho não esta fundamentado sobre algo que só a ele foi revelado, mas sim com toda a argumentação retirada das mencionadas fontes, bem como não será também um solitário, uma vez que tal trabalho se dá em comunidade (a comunidade hermenêutica) e diante de uma nuvem muito grande de testemunhas. Nunca será também um trabalho totalmente definitivo, pois sempre há algo de Deus que possamos aprender, e estão sempre sujeitos à verificação de quem quiser, mas apesar de tudo, é um trabalho extremamente pessoal e experimental, visto que toda a sua obra está também fundamentada no evento Cristo e sua experiência pessoal com tal evento, de modo que, sempre há uma carga de emoção, “sentimento de dependência” (Schleiermacher), e total devoção posto que se trata, como Tillich mencionou, da sua preocupação ultima.

[1] In Teologia Sistemática, p.33.[2] Op. Cit. P. 37[3] Ibdem, p.38.[4] Ibdem.[5] ibdem.[6] Ibdem, p.39[7] ibdem.[8] Ibdem.[9] Ibdem.[10] Ibdem, p. 42.