terça-feira, 10 de março de 2009

Limites





“Então, recomendou a seus discípulos que sempre lhe tivessem pronto
um barquinho, por causa da multidão, a fim de não o comprimirem”
(Marcos 3.9)






Não era iate, apenas um simples barquinho. Não se tratava de luxo, apenas o escape do assédio exagerado. Não era por conforto, apenas garantia de alívio na hora de aperto. Não se tratava de fuga, mas tão-somente um indício de cuidado pessoal.

A sugestão não partiu de nenhum dos seguidores, tampouco de amigos mais íntimos. Não foi recomendação da segurança pessoal, que Ele nunca precisou. Ao que quis usar a espada para defendê-lO, Ele o aconselhou a desistir da idéia. Mas curiosamente o próprio Jesus identificou a necessidade de cuidados especiais consigo mesmo e ordenou um barquinho de plantão.

Ele amava Se relacionar. Sua passagem por este planeta é uma sucessão de relacionamentos. Sua vida sugere o lema: Com todos, em todo o tempo, o tempo todo, para todo o sempre.

Ele incluía literalmente todos. De todas as camadas sociais, sexo, raça, credos, filiação político-partidária. Encontros individuais e coletivos. No meio de multidões ou solitariamente com alguém, até mesmo os que podiam representar ameaça à Sua reputação. Entregou-se de peito aberto ao relacionamento.

Porém, Ele sabia que Sua humanidade reclamava limites. Era preciso conhecer a hora de dar um tempo, sem que isso maculasse, de modo algum, Seu compromisso com gente. Daí a recomendação aos discípulos para que mantivessem um “barquinho de plantão”.

Enganam-se quem entende que líder não deve nem pode pensar nele próprio. Aquele que o faz corre o risco de ser implacavelmente rotulado de egoísta, de “folgado”, que apenas quer “sombra e água fresca”.

No resumo de Sua mensagem, feita por Ele próprio, como sendo o “princípio do amor a Deus e ao próximo”, a ênfase é clara: não pode amar o outro, quem não aprendeu a se amar.

Por paradoxal que pareça, Jesus pensou em si mesmo. Para não anular Seu ensino, Ele dá demonstração, ainda que rara, que cuidar de si mesmo é imperioso para continuar a serviço de outros e de todos.

O barquinho de plantão é instrumento de socorro quando a multidão apertasse além da conta, para Quem aceitava ser oprimido, mas não comprimido.

E aí estava, balançando ao ritmo das águas do mar-lago, lembrando que o Mestre dos mestres Jesus sabia observar limites!


Sergio M. Fortes