quinta-feira, 16 de abril de 2009

Uma teologia da morte de Deus...


Alguns dentre nós tem afirmado que Deus morreu...

Referem-se todavia não ao Deus encarnado da fé, mas ao Uno Transcendente ou ao Deus da metafísica...

Entretanto se não existe, como pode ter morrido?

Como o que é desprovido de ser ou existência real pode vir a perde-la?

Por outro lado se existe Deus, como pode ter morrido se é Espírito puro, isento de corpo e de matéria e para além das categorias finitas de tempo e espaço?

Referem-se certamente a idéia de Deus... querendo dizer com isto que a idéia de Deus esteja sendo cada vez mais abandonada...

Que as religiões e formas religiosas estejam perdendo cada vez mais adeptos parece-me assaz evidente...

Isto porém não quer dizer que as pessoas estejam deixando de admitir a existência de um Ser Supremo ou fduma força transcendente que ordenou este universo, o que elas estão deixando de admitir - na medida em que a instrução vai se alargando - são as estonteantes parvoices que a maioria das religiões tem afirmado sobre tal Ser...

Fatigaram-se elas dos livros e pregadores que costumam descreve-lo como um ser antropomorfico e imperfeito, com paixões, mutações, vícios, limitações, etc Fatigaram-se desse deus que castiga com raios, que tem ciumes, que se vinga, que se irrita, que manipula a vontade humana, que pune com punições perpétuas, etc Fatigaram-se das falsas imagens e descrições que os homens tem feito do Artífice supremo atribuindo-lhe seus próprios defeitos...

A idéia de Deus - e uma idéia muito mais justa e depurada, muito mais sã e racional, muito mais digna e perfeita - tem permenecido viva e pujante nos corações de milhões de pessoas que vivem a margem das religiões e seitas...

Refiro-me aos agnósticos.

Não aos agnósticos de Huxley que exitam entre a afirmação e a negação como verdadeiros céticos, mas ao agnosticismo tradicional e racionalista tributário já de Aristóteles, ja dos iluministas, ou seja, aqueles que reconhecendo a existência do grande ser, permenecem contudo indiferentes a religiosidade convencional ou sobrenatural.

Refiro-me aos indiferentes em matéria de crenças, que não professam teoria algum e que não frequentem quaisquer espécies de templos.

Refiro-me a essas milhões e milhões de criaturas que o vulgo fanatizado afirma como atéias mas que de forma alguma regeitam a idéia de um Ser Supremo, mas, como escrevemos acima, apenas e tão somente as milhares de caricaturas desengonçadas que dele tem sido feitas desde os alvores da História.

Quanto aos verdadeiros ateus só o Santo e Bendito conhece seu número mas eu creio que sejam justamente aqueles que mais mencionam o nome divino: os lideres e chefes das religiões ditas 'reveladas' ou seja aqueles que ousam inferir lucros da religiosidade alheia, comprando e vendendo bençãos em seu nome...

Uns negam a Deus com a boca, outros exploram pura e simplismente seu nome e sua figura obtendo toda sorte de vantagens. Os primeiros são pessoas confusas e equivocadas, os demais são os verdadeiros ateus que enchem os templos e igrejas sobre a face da terra... Ocupando seus altares e púlpitos e segurando cruzes ou livros...

Se as idéias mesquinhas a respeito da divindade estão a morrer, não nos cabe entoar 'requiem' mas 'gaudeamus', pois elas partirão tarde e sem deixar saudades...

É necessário que os antropomorfismos todos pereçam para que a verdadeira noção sobre a Natureza possa brilhar cada vez mais sobre a terra...

Apesar disto cremos que Deus de fato morreu...

Mas como Deus pode ter morrido?

Deus de fato teve uma mãe humana, nasceu, viveu, comeu, bebeu, sofreu e morreu porque se encarnou.

O deus dos infiéis, dos hebreus, dos agarenos e dos mazdeus jamais teve mãe, jamais nasceu, jamais viveu entre nós, jamais comeu, bebeu, sofreu e muito menos morreu porque é um ser puramente transcendente...

Os verdadeiros Cristãos entretanto não prestam culto a um Ser puramente transcendente como os infiéis, a Cristandade adora ao Transcendente imanente ou ao Transcendente que se fez imanente... Transcendente enquanto sua eternitude e imanente enquanto sua vida mortal...

Pois os Cristãos não glorificam a um espirito descarnado mas a um Espírito eterno que no tempo se fez carne assumindo nossa natureza finita e condição precaria.

Nosso Deus é um Deus humanado, que se fez verdadeiro homem, em tudo semelhante a nós menos no pecado.

Temos mães? Ele também teve porque ter mãe não é pecado.

Nascemos? Ele também nasceu verdadeiramente porque nascer não é pecado.

Vivemos? Comemos? Bebemos? Sofremos e morremos?

Assim também o Deus verdadeiro viveu entre nós, comeu, bebeu, sofreu e morreu, porque em nada disto a pecado...

Ademais porque não poderia se fazer homem aquele que concebeu a existência do homem?

Porque não poderia se fazer carne aquele que deu vida a toda carne?

Porque o autor na natureza mortal não poderia se fazer mortal também ele?

Qué é impossivel a Deus?

Se Deus existe de fato tudo é possivel, exceto que ele execute o mal, pois sua vontade santa esta imutavelmente fixa no bem...

Encarnar-se entretanto não é executar um mal senão ter em vista o bem duma enorme multidão de seres desviados...

Encarnou-se para nos ensinar a viver divinamente, para nos revelar os mistérios do Reino e sobretudo para morrer e morrendo atrair-nos a si.

Desgraçadamente a Cristandade barbarizada tem vinculado certos poderes ou efeitos de natureza mágica a morte de Jesus e desta forma descaracterizado completamente o mistério.

Cuidam alguns que havia dissenssão de vontades entre as consciências divinas do Pai e do Filho, que o Pai estava irritado com os pecados dos seres humanos desejando castiga-los enquanto que o Filho misericordioso desejava encarnar-se e morrer para assim aplacar a fúria do Pai...

É a velha história de Deus matando Deus para agradar a Deus, verdadeira sandice que só presta para firmar o ateismo e a incredulidade. Pois Deus fazendo Deus morrer é masoquista e Deus matando a sí mesmo é suicida... de qualquer forma um ser problemático, um ser ou uma idéia errônea de ser que deve morrer para a maior glória do Deus verdadeiro.

Como ja dizia Origenes: no Deus Trino não há apenas unidade de natureza mas igualmente unidade de vontade, a vontade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é única e identica.

Portanto se admitimos que o Pai estava irritado com os seres humanos e que desejava puni-los devemos admitir que tal vontade era partilhada pelo Filho e pelo Espírito Santo, que com o Pai são um só Ser.

Por outro lado se o Filho é repleto de misericórdia e de compaixão devemos concluir que o Pai e o Espírito Santo também são complacentes e misericordiosos em unidade com o Filho.

Admitir que uma é a vontade do Pai, outra a do Filho e outra a do Espírito Santo é meio caminho para o Triteismo ou seja para o politeismo, pois se há vontades diferentes entre as três pessoas já não são pesoas, mas seres, entidades ou deuses distintos...

Toda a base desta teologia Ocidental de oposição entre o Pai e o Filho e de expiação vicária é uma base podre e carcomida que conduz os homens pela senda da blasfêmia, do sacrilégio e da incredulidade...

Não pode haver expiação alguma onde jamais houve ira, cólera, irritação ou desejo de vingança...

Por isto nossos padres congregados no V Concilio Congregado pela segunda vez em Nicéia proclamaram tendo em vista tais desvios:

"Toda a economia divina é obra comum das três pessoas divinas. Pois da mesma forma que a Trindade não tem senão uma única e mesma natureza, assim também, não tem senão uma única e mesma operação" (DS 421)

Ou seja se Jesus demonstrou misericórdia e compaixão pelos seres humanos foi porque seu Pai e sua Sabedoria são igualmente complacentes e misericordiosos.

É unicamente por meio de Cristo Jesus o Filho feito homem que conhecemos a vontade do Pai e da Sabedoria.

Se os patriarcas ou profetas dos tempos antigos apresentaram o Pai como se fosse não um Pai mas um carrasco, atribuindo-lhe sentimentos incompativeis com sua natureza e pessoa, como vingança, cólera, prepotência, etc fizeram-no de motu próprio, porque estavam mal informados a esse respeito partilhando das falsas concepções e preconceitos da época.

Temos pois não só o direito mas a coragem de regeitar a tais testemunhos e ficar unicamente com o testemunho daquele que habitando no seio do Pai desde toda a eternidade e sendo gerado na sua natureza baixou dos céus estrelados com a sublime missão de nos informar verdadeiramente a respeito daquele que o gerou, de sua natureza, de sua personalidade e de sua vontade.

A quem ouviremos: aos emissários humanos, inda que inspirados ou a inspiração?

Aos representantes ou a própria pessoa?

A criaturas contigentes ou ao Eterno Filho?

Basta-nos o Testemunho do Filho eterno e incriado gerado no silêncio!

Contentamo-nos com o testemunho do unigenito sobre o qual ordenou a voz descida dos céus: Ouvi-o!

E que diz o Filho: Diz Deus amou o mundo de tal modo que enviou o Unigenito para reconcilia-lo!

Deus é amor!

Se tratais assim vossos Filhos, como não procederá o Pai do céu para com aquele que lhe pedir a força do bem.

Deseja ele que todos os homens se salvem pelo conhecimento da Verdade.

Etc, etc, etc, etc...

Jamais o Filho Bendito apresentou seu amado Pai como um ser irritado, como um carrasco, um déspota, um tirano, um insensivel...

Outros certamente teem maculado o cárater do Pai luminoso atribuindo-lhe defeitos que o Filho condena até mesmo nos mortais...

Porque voltam suas costas para o Filho e cavam poços de água salobra no meio do deserto...

Nós porém contamos com um instrutor supremo e autorizado: Jesus de Nazaré, por cuja ação, atuação e operação conhecemos a vontade única de Deus.

E a vontade única de Deus é esta: Buscar, chamar, resgatar, recuperar, reunir, congregar...

O Pai, o Filho e a Sabedoria sempre desejaram recuperar sua imagem e semelhança...

Tal e qual desejamos conservar os quadros, gravuras e fotografias que nos representam, o Supremo artífice sempre quiz readquirir suas gravuras e imagens vivas que dele se afastaram por ignorância.

Por isso foi preparada a Encarnação do Verbo que se chama Filho e por moção da Sabedoria eterna, emissários, profetas e videntes foram enviados a todos os povos da terra e todos foram informados sobre o grande amor de Deus para com eles, ainda que precariamente, pois todos esses enviados eram homens e a condição do homem é precária...

Todavia, na plenitude dos Tempos manifestou-se o Verbo que se chama Filho, na carne duma Virgem Pura, por obra e graça da divina sabedoria, e se fez um de nós, homem perfeito, para perfeitamente anunciar o amor de Deus e dele dar testemunho irrecusável, perecendo livre e voluntariamente num madeiro, para atrair-nos a sí como uma espécie de iman espiritual...

Morreu como sabiamente disse Abailard não por necessidade, constrangido pela natureza do Pai ou pelo destino, mas constrangido por nossa natureza egoísta e obstinada, pereceu tendo em vista a dureza de nossos corações e desejando quebranta-los, entregou-se a morte para infundir em nós o amor a e gratidão por sua pessoa...

Morreu para dar testemunho de seu amor, o amor de Deus, o amor do Pai, o amor da Sabedoria por nós seres humanos!

Morreu para atrair-nos a sí e transformar-nos em sí!

Morreu na carne de sua humanidade para que pudessemos viver em espírito!

Foi vendido para que não nos vendessemos aos poderes deste mundo!

Traido para que lhe sejamos sempre fiéis!

Abandonado para que permaneçamos sempre em sua companhia.

Julgado para que aprendessemos a julgar nossas ações em verdade!

Condenado para que condenassemos o mal!

Torturado para que nossas consciências refletissem!

Acometido de sofrimentos para comover-nos!

Coroado de espinhos para se converter ele mesmo em espinho na carne dos que lho servem.

Humilhado para nos chamar a humildade!

Despojado de suas roupas para que nos despojemos de nossos vícios!

Pregado na Cruz e suspendido para nos revelar sua benevolência infinita!

Baixou a caverna da sepultura para que abandonando a sepultura da iniquidade viessemos a luz do eterno dia e imarcessivel claridade.

Teve de beber fel e vinagre para que tivessemos sede da vida eterna e quizessemos beber das águas vivas e cristalinas de sua graça.

Em cada um de seus trabalhos há abundancia de mistérios espirituais tendo em vista a educação dos seres humanos.

Não existem poderes mágicos em seus sofrimentos mas lições divinas de imensa profundidade.

Pois sendo Deus Santo e puro, encarnou-se e entregou sua humanidade inocente para nos afastar do mal e do pecado.

Tudo fez ele para que traissemos, regeitassemos, abandonassemos, crucificassemos e sepultassemos para sempre nossos pecados passando a viver uma vida de pureza e santidade como a que foi vivida po sí.

Não sofreu nem morreu Deus em sua deidade eterna, infinita e espiritual, QUE É IMPASSIVEL, MAS SOFREU E MORREU VERDADEIRAMENTE em sua verdadeira humanidade, em intima união com ela e sem dela apartar-se; assim por comunhão de bens na unidade teandrica do unico Cristo podemos dizer que nosso Deus sofreu e morreu...

Não para pagar pecados como dizem os que estimam o pecado e que gostam de viver pecando, morreu para que abandonassemos o pecado e não pecassemos mais.

Não se diga que não pecar é impossivel ao homem, se o encarnar-se foi possivel a Deus.

Pois é o Deus encarnado que por sua encarnação a todos concede a graça da impecabilidade verdadeira.

Aquele que tem vontade boa e que deseja viver em Cristo, com Cristo e como Cristo, para que Cristo nele nasça, cresça e habite eternamente, não lhe faltará certamente a graça do Santo Cristo ao qual não agrada nem o mal nem o pecado.

Afinal se se encarnou numa Virgem preservada e isenta do mal, tomando para sí um corpo puro, imaculado e sem vestígio de pecado, para viver uma vida santa e ilibada como dizem alguns que Cristo habita atualmente em moradas sujas, cheias de todo o pecado e que se deleitam em praticar o mal?

Como podem o Logos divino e a Santa Sabedoria habitar em homens que amam a iniquidade e afirmam a soberania do pecado?

Cremos todavia que a morte do Deus Cristão é um vatícinio, vatícinio da morte do mal e do pecado, pois se Deus morrendo ressucitou para não mais morrer e para encarnar-se diariamente em tantos quantos a ele se submetem na verdade, o Império do mal e do pecado esta fadado a morte e de fato se extinguirá no momento em que todas as coisas forem restauradas.

Mesmo porque tendo todas os seres vindo a luz tendo em vista a encarnação e a morte de Cristo - por isso esta escrito que para ele foram criados - a morte de Cristo só será completada quando todos os seres se submeterem ao seu senhorio, regeitando o mal e aderindo ao bem, quando todos aderirem ao bem, o mal terá deixado de existir, pois não passa dum desvio de vontade encetado pelos homens...

A natureza criada toda ela é boa.

Existe o mal apenas na vontade desviada dos seres humanos, entrento a morte de Cristo chama o homem a correção e prepara desde já a aniquilação e a destruição completa do mal.

Por isso a morte de Cristo não é uma derrota mas uma arma poderosa e um triunfo eficaz sobre o mal e o pecado.

As cordas com que o amarraram são nossa libertação espiritual.

O peso que carregou fardo suave que nos salva.

Sua agonia nosso júbilo.

Sua ressurreição prenuncio de nossa ressurreição gloriosa.

Cristo vivendo é nossa lei e regra de conduta.

Cristo sofrendo é nosso conforto nos momentos díficeis.

Cristo morrendo é nossa vida.

Cristo sepultado é nossa vitória e Cristo levantado dos mortos nosso triunfo.

Tal a morte de Deus.

Porque Deus realmente morreu para que o homem realmente pudesse viver e viver para sempre.

Por isso não negamos a morte de Deus.

Antes afirmamos a morte de nosso Deus e nela nos gloriamos...

Pois a morte de Deus significa justamente seu imenso amor por nós...

Seu amor, sua bondade, sua misericórdia, sua complacência...

Bendita seja para sempre a morte de Jesus Cristo Nosso Pedagogo e Médico verdadeiro. Mil vezes bendita sejá sua morte base de toda nossa fé e fundamento de toda nossa teologia.

Pois nossa teologia é a da morte de Deus!

Deus morreu verdadeiramente! Exultemos e festejemos hoje a morte de nosso Deus.



Postado na sexta feira santa ortodoxa de 2009.