sábado, 16 de maio de 2009

Hospitalidade Eucarística




Há algumas Igrejas, geralmente herdeiras da Reforma, que, durante a celebração eucarística, fazem questão de informar que todos os cristãos batizados, inclusive de outras denominações, são bem vindos à mesa do Senhor. Há algumas que, admitem inclusive a participação de visitantes católicos romanos, como é o caso dos anglicanos e luteranos.

Isto é o que podemos chamar de hospitalidade eucarística; ou seja, a recepção por parte da Igreja celebrante, de fiéis pertencentes às outras Igrejas, permitindo que estes, caso sintam o desejo, participem plenamente da comunhão.

Há alguns anos atrás, mais precisamente em dezembro de 1998, a Igreja Evangélica da Confissão Luterana do Brasil (IECLB), juntamente com a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) realizaram um seminário conjunto sobre o tema “Hospitalidade Eucarística” e chegaram a uma definição comum que entendemos ser relevante mencioná-la aqui:

“Hospitalidade eucarística é a possibilidade de participar nas ceias celebradas por outra confissão. Não é a concelebração e a participação não é constante. Acontece onde cada igreja celebra o sacramento a seu modo, admitindo em situações especiais, membros de outras igrejas ”.

Na referida conceituação, podemos perceber que se deixa bem claro que não se trata de dois ministros de confissões diferentes realizarem conjuntamente a celebração (intercomunhão), nem mesmo da participação constante de um fiel em outra igreja, mas tão somente em ocasiões especiais (o que o referido documento não define o que seja), permitir que o membro de outra igreja participe da comunhão.

Talvez, só façamos uma pequena observação acerca de tal documento, que é justamente a falta de conceituação do que seriam estas “situações especiais” (que em nossa compreensão somente viria a criar mais burocracias a respeito de tal tema), portanto, na práxis, seria, a nosso ver, muito mais viável, uma vez admitida a hospitalidade eucarística, seja ela realizada em qualquer celebração a que estejam presentes pessoas de diversas confissões.

Nos parece que é neste sentido que pastoralmente a IEAB tem se posicionado atualmente, ou seja, não se exige uma situação especial. Basta o desejo de participar. Ensinando pastoralmente acerca dos sacramentos, assim se pronunciou o Reverendíssimo Dom Sumiu Takatsu:

“A nossa hospitalidade eucarística ecumênica que adotamos decorre de nossa percepção de que a Mesa é do Senhor ”.

Portanto, faríamos uma breve, por assim dizer, “correção”, ficando com a primeira parte da definição dantes mencionada, no sentido de ser a hospitalidade eucarística “a possibilidade de cristãos de confissões diferentes participarem de uma mesma comunhão”.

Entretanto, sabemos o quão é difícil este tema, e que os cristãos ainda encontram muitas dificuldades em se aproximarem uns dos outros em uma mesma celebração. De qualquer modo, entendemos que a plena recepção eucarística em todas as denominações cristãs é um caminho digno de ser buscado entre todos os cristãos, tendo em vista à fraternidade e unidade que devem caracterizar a Igreja de Jesus Cristo espalhada em todo o mundo.

Em relação às Igrejas que de algum modo foram influenciadas pela Reforma, entendemos não haver motivos para a não receptividade eucarística, e isto por diversos motivos, dos quais seriam impossíveis de serem enumerados. De qualquer modo, apresentamos alguns deles.

Em primeiro lugar, sabemos que, das grandes Igrejas da Reforma, nenhuma delas se considerou como a totalidade de toda a cristandade, muito pelo contrário. Todas se consideraram parte do Corpo de Cristo espalhado pelo mundo, relativizando assim, de certa forma, a idéia de uma Igreja como uma instituição única.

Os luteranos, por exemplo, no Artigo VII da Confissão de Augsburg confessam que “A igreja existe onde o evangelho está sendo pregado de maneira pura e os sacramentos são administrados corretamente”.

A Confissão de Westminster, de forte orientação calvinista não restringe a Igreja Católica a uma unidade visível quando reza que a Igreja Católica ou Universal sob o evangelho constam de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, conforme seu capítulo XXV.

No artigo XIX dos artigos de religião da Igreja da Inglaterra também consta que “A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual é pregada a pura palavra de Deus, e são devidamente administrados os sacramentos conforme a instituição de Cristo em todas as coisas que necessariamente se requerem neles”.

Henri Strohl, explicando o sentimento reformado a respeito desta questão eclesiológica, ensina que, no pensamento dos reformadores, notadamente em Lutero, a Igreja visível não poderia ser identificada totalmente com a Igreja verdadeira, pois naquela contém em seu seio pessoas que não possuem fé verdadeira, sendo que, é pelos crentes verdadeiros que a Igreja permanece durante todos os séculos, se formando assim uma verdadeira “sucessão apostólica dos fiéis ”. Continua ainda adiante dizendo que, segundo o ilustre Reformador, a Igreja “é unicamente a comunhão dos crentes” é que não é uma assembléia de corpos, mas uma “reunião de corações”, e que “mesmo que seus membros vivam a mil léguas de distância um dos outros, ainda assim constituem uma mesma comunidade espiritual ”.

Pensamos que este modo de pensar acaba por influenciar de algum modo todas as Igrejas reformadas, de modo que, uma vez rejeitada a idéia de que somente uma igreja institucionalmente falando seria a única verdadeira, também não haveria mais motivo para não haver comunhão eucarística entre elas.

Outro motivo, que também, em nossa opinião, colabora para a plena comunhão eucarística, se dá no fato de haver bastante flexibilidade na forma de se estruturar a igreja no pensamento dos reformadores; ou seja, o episcopado não era mais questão inegociável, mas reconhecia-se que esta poderia existir sob outras formas eclesiásticas também. É o que na Igreja Anglicana talvez possamos comparar com a noção de que o episcopado é questão de “ben esse” da Igreja, e não de “esse” , afastando-se assim da tradição inaciana.

Talvez, historicamente, alguns problemas somente tenham surgido entre as igrejas surgidas da Reforma em relação à igrejas e comunidades influenciadas pelo anabatismo, e alguns movimentos evangélicos que dificilmente podem ser catalogados. Não é incomum se deparar com algumas comunidades que utilizem um método fechado de participação da ceia do Senhor, permitindo-o somente a membros da denominação. Tal denominação recebe o nome de “ceia fechada”, conforme é adotada por algumas igrejas batistas, e só permitem a participação de pessoas da igreja local. Outras, celebram de foram “semi-aberta”, (ou semi-fechada, conforme se preferir), e só aceitam àqueles fiéis que aceitam a doutrina da segurança da salvação em Cristo (um dos famosos cinco pontos do calvinismo), excluindo praticamente todos os pentecostais, boa parte dos metodistas, entre outros, e os que aceitem o batismo tão somente por submersão, o que excluiria boa parte dos congregacionais, e que sejam tais batizados somente membros que tiveram alguma condição de exercer a própria vontade, o que excluiria todos os que batizam crianças, como presbiterianos, luteranos, anglicanos, entre outros . É ocioso dizer que boa parte dos evangelicais não admite a participação de católico-romanos.

Entretanto, entendemos que tais posicionamentos radicais não se coadunam com o melhor do espírito da Reforma, que não visava romper com o cristianismo histórico, mas sim reformá-lo. Além do que, salta às vistas uma certa incoerência com as igrejas que mantém este tipo de postura, pois, se a salvação é somente pela fé, e boa parte delas certamente conservou tal princípio reformado, é completamente estranho que fatores exteriores se tornem barreiras entre os cristãos, ainda mais se considerarmos que o batismo e a ceia não são considerados verdadeiros sacramentos nestas igrejas. Portanto, na prática, acabam “absolutizando” àquilo que a Reforma, de certa forma, relativizou, ou seja, a própria instituição Igreja, deixando de reconhecer verdadeiros irmãos em Cristo fora de seus limites institucionais.

De qualquer modo, ficamos muito satisfeitos a verificar notícias de avanço ecumênico entre as Igrejas oriundas da Reforma, como a que se realizou entre a Igreja Anglicana e as Igrejas Protestantes da França, em que “assinaram a declaração de Reuilly que reconhece a unidade das Igrejas assinantes e reconhece que a’ forma de episkopé’ da outra Igreja é válida e convida expressamente ‘as Igrejas a ir além da hospitalidade eucarística, incluindo cada uma o clero da outra Igreja na celebração ’”.

Por outro lado, a dificuldade em se estabelecer uma comunhão eucarística não está somente entre os irmãos evangélicos, mas também com o catolicismo romano (neste pequeno trabalho, não trataremos da comunhão com os cristãos Ortodoxos).

Isto pelo fato do próprio entendimento que a Igreja de Roma tem de si mesma como única Igreja plena, tendo em vista a sucessão apostólica e o ministério petrino, exercido pelo bispo de Roma.

A Igreja Católica só admite que existe verdadeira eucaristia nas Igrejas Ortodoxas, em virtude da sucessão apostólica, dando uma maior abertura para que seus membros, cumpridos determinados requisitos, participem dos sacramentos em geral. Mas o Vaticano não ignora que geralmente a Ortodoxia pode ser mais restritiva ainda em relação a tais comunhões .

Em relação aos cristãos de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais, em circunstâncias excepcionais pode admitir fiéis destas à comunhão, desde que “essa pessoa se encontre impossibilitada de recorrer, para o sacramento desejado, a um ministro de sua Igreja ou Comunidade Eclesial; (curiosamente, Roma ainda fazia esta distinção há algum tempo- entre Igreja e Comunidade Eclesial no Ocidente - o que parece não ser mais aceito nos tempos de Bento XVI, reservando o vocábulo Igreja somente às Igrejas Orientais) que solicite este sacramento de sua livre vontade; que manifeste a fé católica neste sacramento e que esteja devidamente preparada ”.

Em relação à participação de um católico em uma comunhão em outra Igreja, assim se pronuncia o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos: “...só pode solicitar estes sacramentos a um ministro de uma Igreja cujos sacramentos são válidos ou a um ministro que, segundo a doutrina católica da ordenação é reconhecido como validamente ordenado ”.

Ou seja, se analisarmos gramaticalmente tal pronunciamento, veremos duas condições para que um católico possa participar, tendo em vista a utilização da partícula “ou”, que fizemos questão de grifar. Logo, poderá participar da comunhão quando os sacramentos de determinada Igreja forem válidos ou a um ministro que segundo a doutrina católica é validamente ordenado (o que implicitamente já significa sacramentos válidos).

Entendemos, pois, que à guisa de outros posicionamentos que a Igreja Romana vêm tomando durante os últimos anos, pelo menos gramaticalmente, este documento vislumbrou uma pequena possibilidade de que um católico participe da comunhão de uma Igreja (termo utilizado pelo próprio documento, e isto referente ao Ocidente), ainda que não tenha ministros validamente ordenados, mas que tenha sacramentos válidos, caso contrário não faria sentido a utilização do termo “ou”.

Portanto, duas conclusões poderiam ser tiradas de tal passagem do referido documento: Houve uma remota possibilidade de se reconhecer a existência de uma Igreja, ainda que não tenha clérigos devidamente ordenados de acordo com a fé católica, e reconhecer que em tais Igrejas haja sacramentos válidos. Talvez tenham sido tempos de otimismo ecumênico pós Vaticano II. Tal documento é de 1993. Talvez nossa leitura esteja completamente equivocada; mas não o está pelo menos do ponto de vista gramatical (poderá estar em relação a interpretações mais sistemática, lógica e teleológica do referido documento analisado em conjunto com demais documentos do Magistério).

De qualquer modo, documentos mais reacionários como a “Declaração Dominus Iesus”, de Agosto de 2000, e o mais recente pronunciamento de Bento XVI sobre o tema causou alguma repercussão inclusive nos meios de comunicação e que acabaram por baixar tal possível otimismo ao se impor sobre o Concílio Vaticano II uma interpretação mais restritiva do sentido de Igreja, inclusive sendo mais restritivo inclusive que o próprio Diretório para Aplicação dos Princípios e Normas sobre o Ecumenismo, em nossa opinião.
Nos espantamos quando este atual pronunciamento declarou que o Vaticano II não utilizou o termo Igreja à algumas comunidades oriundas da Reforma , quando uma leitura singela do “Unitatios Redintegratio”, parece não ser bem assim:
“19. As Igrejas e Comunidades eclesiais, que se separaram da Sé Apostólica Romana naquela grave perturbação iniciada no Ocidente já pelos fins da Idade média, ou em tempos posteriores, ...” (grifo nosso).
E conforme vemos, o termo Igrejas também foi utilizado no Diretório sobre ecumenismo, de modo que, a aparente abertura que vinha se seguindo sofreu um retrocesso sob o atual Papa e últimos documentos magisteriais.
De qualquer modo, não é nosso trabalho nem nossa obrigação tentar apontar discrepâncias terminológicas em relação à Igreja Católica, nem querer forçar uma interpretação que só cabem a eles fazer, mas sim, apesar de tais acontecimentos, continuar a buscar a plena comunhão eucarística em relação a todos os cristãos.
Em relação a Roma, entendemos não fazer muito sentido nos considerarmos irmãos em Cristo pelo batismo e ainda assim não podermos participar juntos da mesma comunhão. Concordamos com aqueles que entendem que “o que nos une é maior do que o que nos separa”, no caso, a fé em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Por outro lado, os fatores que implicaram a separação institucional das várias Igrejas é decorrência de causas muito diferentes do que ocorrera ao tempo da Patrística ou dos Apóstolos (ausência de poderes políticos eclesiásticos por parte da Igreja, além de muitos outros dogmas), de modo que fica de fato a dúvida se o que pensaram autores mais antigos possa ser realmente aplicado para resolvermos o estado de coisas conforme se encontram.
Alguns entendem que, por parte de Roma, aceitar a comunhão eucarística com outras igrejas implicaria em “implícita profissão de fé no que outra igreja acredita”, ou mesmo “indiferentismo ”.
Associados a estes fatores, outros entendem que “não é possível celebrar conjuntamente o sacramento da unidade da Igreja, quando estamos divididos precisamente na própria concepção da unidade da Igreja ”.

Talvez outros entendam que é o próprio entendimento acerca do sacramento que não possa proporcionar a nossa comunhão eucarística.
Em relação ao indiferentismo ou adesão tácita à doutrina de outra confissão, a hospitalidade eucarística não poderia, ao invés, significar outra coisa, como por exemplo, que apesar de nossas diferenças, podermos nos considerar verdadeiros irmãos no Senhor (aliás, como o próprio catecismo daquela Igreja reconhece)? Será que não é a ausência de tal comunhão que tem tornado os cristãos e demais pessoas no mundo indiferentes à religião? Não seria este um testemunho para o mundo muito maior de nossa tolerância e mútua compreensão no Senhor? Talvez tal tolerância tenha um efeito diante do mundo muito maior do que se estivéssemos unidos debaixo de uma única instituição visível, que não deixa de inspirar, muitas vezes, a desconfiança de que se está debaixo na verdade de um certo autoritarismo e centralismo.

Além do que, ainda que se considere que, tudo o que as Igrejas do mundo possuem de bom, por assim dizer, sejam decorrência daquilo que receberam de Roma (conforme entende o Magistério), porque não considerar que o sacramento seja um destes elementos, possibilitando assim a comunhão eucarística? Sabemos que é a ausência de ministério devidamente ordenado do ponto de vista de Roma, que leva à esta concepção (ausência de eucaristia plena, se bem que a ausência de tal ministério não impede, segundo este mesmo Magistério, que tais comunidades apresentem elementos de santificação e salvação). Mas, ainda que assim se considere, conforme já se pronunciou a Igreja Católica, quando as chamadas “comunidades eclesiais” celebram a Ceia do Senhor, não é algo mal que realizam, muito pelo contrário. Se Roma não considera que há verdadeiro sacramento nestas igrejas, tudo o que elas possuem são memorial, ou algo meramente natural (de qualquer modo, algo bom). E se é assim, não faz sentido os católicos serem proibidas de participarem livremente de tais celebrações, afinal, o que nestas celebrações se rememoram e se comemoram estão em concordância daquilo que crê a fé católica. Talvez valha aqui um velho adágio jurídico: “quem pode o mais, pode também o menos”. Ou seja, se um católico participa de um verdadeiro sacramento em sua igreja, porque não poder participar em uma comunidade de um “simples memorial”?

Em relação a estarmos divididos quanto ao conceito de unidade, sabemos que muitos entendem que a eucaristia não é meio para a unidade, mas expressão dela, e em certo sentido, não precisamos discordar disso. Há que se respeitar o pensamento Católico quando se diz que enquanto não houver unidade plena (que certamente implicará em submissão a uma autoridade comum, qual seja, a do Papa), não é possível haver hospitalidade eucarística. Não podemos forçá-los a que mudem de idéia, mas tão somente dialogarmos no sentido de se tentar chegar a algum conceito de unidade que possa levar a concordância de ambos. Conforme já demonstramos, o pensamento Reformado vai a outro sentido, qual seja, a de entender que não obstante as formas eclesiais poderem variar, o importante é a disposição do coração de cada qual em se aceitar como irmão no Senhor, independente de poder haver alguma diferença de pensamento em relação a assuntos considerados secundários. Esta é uma questão que ainda deverá ser muito debatida, e passará, certamente, pela discussão em relação às formas como o Magistério Papal deverá ser exercido e aceito para que de algum modo as Igrejas da Reforma, inclusive as Ortodoxas possam voltar à plena unidade com Roma. Pensamos que, se formos aguardar este dia chegar para podermos nos unir ao redor da mesa, muitas riquezas em termos ecumênicos deixarão de ser usufruídos pelos cristãos de tais confissões. Enquanto tal dia não chegar (e talvez não chegue), pensamos que, os mesmos fatores que levam à possibilidade de haver hospitalidade eucarística entre os cristãos oriundos da Reforma devam ser os mesmos que possibilitem ao convite à comunhão àqueles que pertencem a Igreja Católica, ou ainda, Ortodoxa, por mais que os tais possam não querer participar. Não podemos, e nem devemos legislar pela Igreja alheia, mas ninguém pode nos impedir de sermos o que somos, e agir conforme aquilo que cremos. Os Reformados devem sempre estar abertos à tal possibilidade.

Em relação a não nos entendermos em relação à própria teologia eucarística, entendemos que realmente é difícil haver consenso absoluto em termos de fé. A Igreja Anglicana, por exemplo, tem entendido a presença real de Cristo nos elementos, não obstante evitar definir como se dá esta presença, por considerá-la um mistério de Deus. Tal postura vem também da sabedoria em se perceber que definições infalíveis tendem a criar divisões entre os cristãos. Há algum consenso que, nos primórdios do cristianismo, não se explicava exatamente como se dava a presença de Cristo nas celebrações, mas tão somente se afirmava tal presença . Mas mesmo entre aqueles que entendem os elementos somente de forma simbólica, ainda assim não negam a própria presença do Cristo em tais celebrações. Talvez a postura correta seja a de não impor mais tais explicações humanas sobre o mistério da fé, que geram barreiras entre os homens, mas sem deixar de haver um esforço no diálogo para que a prática de cada Igreja venha de algum modo ao encontro das expectativas de outra.

Penso que é sempre curioso nos lembrarmos que, quando o Apóstolo Paulo enfrentou problemas decorrentes da falta de unidade em Corinto (que não obstante não estarem institucionalmente divididos, enfrentavam problemas de unidade com graves conseqüências), não condicionou a participação à Ceia à submissão a determinado líder, seja um apóstolo, seja a um bispo diocesano, como quase cinqüenta anos depois fez Inácio de Antioquia. Vemos também que naquela Igreja não havia consenso doutrinário acerca de diversos elementos, tendo quem duvidasse inclusive da ressurreição do Senhor, mas nem a esses foi proibida a mesa da comunhão, pois Paulo tão somente demonstrou que era o dom do amor que deveria ser buscado a qualquer custo por parte dos cristãos. E com base neste mesmo dom do amor é que perguntamos se não daríamos um testemunho melhor ao mundo quando finalmente podermos nos unir novamente a uma mesma mesa eucarística, todos os cristãos que confessam o nome de Cristo como Senhor e Salvador.



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