domingo, 31 de maio de 2009

Pentecostes



"Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Rom 8.14)

Algumas comunidades seguem o calendário litúrgico das Igrejas cristãs. Outros, não. Para as que seguem, hoje é dia de Pentecostes, que, resumidamente, comemora a efusão do Espírito Santo sobre os primeiros discípulos que fundaram a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.


Pela leitura dos Atos dos Apóstolos (que alguns sugeriram que deveria se chamar os Atos do Espírito Santo), vemos a importante atuação da terceira pessoa da Santíssima Trindade na divulgação do evangelho e edificação das primeiras comunidades cristãs. O extraordinário crescimento das igrejas, desde aqueles tempos, deve-se, sem dúvida nenhuma à atuação do Espirito de Deus, o que, no mínimo, deveria levar algumas igrejas que têm perdido seus membros a um auto-questionamento, no sentido de se perguntarem se têm dado a devida atenção à atuação do Espírito de Cristo em seu meio. O Espírito de Cristo não está preocupado na manutenção do "status quo" de igreja nenhuma, suas tradições humanas, seus regramentos, mas sim em levar homens e mulheres ao conhecimento de Cristo. Se as instituições começam a se tornar o fim em si mesmas, orgulhosas do que são, entendo de que "de nada têm necessidade", o Espírito, que sopra onde quer, e ninguém sabe para onde vai, pode novamente "encarnar-se" nos desertos da Palestina, manifestar-se em uma família pobre da Galiléia, e fazer todas as coisas novas, quiça até suscitando das pedras novos filhos de Abraão, que não gozam de sucessão hereditária, ou mesmo sucessão institucional. Aí, os novos fariseus se levantarão novamente, com seus dogmas religiosos e com toda a sua tradição, para novamente perseguirem e matarem as criancinhas, ou crucificando novamente o Senhor que os resgatou...

Entretanto, nesta data de Pentecostes, quero meditar tão somente em um aspecto da Pneumatologia, cadeira esta que pertence aos estudos da Santa Teologia, encarregada de estudar o Espírito Santo. O aspecto que quero enfatizar, e que infelizmente é pocuo estudado em nossos seminários, diz respeito a relação entre o crente e o Espírito Santo, mais restrito a questão da teologia mística, ou do "cultivo da presença de Deus". Nada adianta estudarmos teoricamente tal doutrina, se, na prática ela não se efetivar.

Damos muita atenção, e, em nossos discursos, há muita ênfase naquilo que o Espírito Santo pode fazer por nós, o poder que em nós pode operar, e, nós, que somos deste universo pentecostal, sabemos o quanto isso é objeto e causa de inflação do ego de alguns irmãos; porém, pouco damos atenção a questão dos frutos do Espírito de Deus em nossa alma, aquilo que tal comunhão produz em nosso caráter.

Naquele santo dia, segundo as palavras do nosso mestre, haverá muitos que, apesar de exercerem os chamados dons carismáticos de profecia e expulsão de demônios, não entrarão no reino e escutarão as terríveis palavras: "jamais vos conheci"; entretanto, aqueles que foram misericordiosos, humildes, cheios de amor e de benignidade, certamente se achegarão aos braços do mestre. Portanto, é preciso prestar atenção se não estamos dando, muitas vezes, ênfase ao que é secundário, e deixando o que é principal.

De qualquer modo, o que eu quero meditar neste Pentecostes é que deveríamos dar mais ênfase àquilo que os místicos chamaram de "cultivo da presença de Deus". Estarmos atentos aos impulsos (moções) do Espírito Santo de Deus que existem dentro de nós. O Santo Evangelho nos adverte que o Reino de Deus "está dentro de nós". Jesus nos ensinou também que os que fizessem a sua vontade, ele, o próprio Cristo, e o seu Pai, viriam ao tal e "nele fariam morada". A teologia mística nos ensina, com base nestas palavras que todo o conselho da Trindade está no crente, pois nossa comunhão é com o Pai e com o Filho, pelo Espírito Santo. Há, então, um verdadeiro reino de Deus em nós, que, deseja operar a união tranformante em nosso ser.

Portanto, um dos temas mais instigantes, e uma dos assuntos mais interessantes e importantes em nossa vida cristã, no meu entender, é este desafio de se cultivar, ora no silêncio, ora na adoração, ora na comunhão, ora na solidão, ora na leitura, ora na oração, ora na caridade, ora no receber da caridade, a presença de Deus em nosso ser e em nosso meio. Adquirir uma percepção tal que nos conduza a sermos, conforme ensinou o santo apóstolo, conduzidos pelo Espírito de Deus, por sermos filhos de Deus.

Para tanto, é preciso nos disassociarmos das obras das trevas, do pecado, da falta de luz e de perdão, dos vícios que nos afastam da santa comunhão, da preguiça e da murmuração, da insîstência em querer policiar e ficar julgando os irmãos. "Que serã deste", perguntou o impetuoso e recém recuperado discípulo. "Que tens tu a ver com isto?", respondeu-lhe o seu mestre. "Vem tu e me segue!" Muitos gastam tanto tempo na análise e no julgamento do outro que se esquecem da sua própria vida espiritual.

Siga tu o mestre. Faças tu as obras de Deus. Dizem que uma alma unida a Cristo faz mais bem pelo mundo do que milhares que se perdem em seus desvaneios e vãs vaidades.

Que o Senhor me ajude, te ajude, e nos ajude, a cultivar esta santa presença, e sermos agraciados pela união transformante decorrente da atuação de seu Santo Espirito em nosso ser.

Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo.
Amém.

Por C.S.