quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Desinteresse e justiça

Por Carlos Seino


Atendei agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão.

As vossas riquezas estão corruptas e as vossas roupagens comidas de traça;
O vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos, e há de devorar como fogo, as vossas carnes. Tesouro acumulastes nos últimos dias
. (Tiago)


Ouvi semana passada, que há uma intenção do governo em aumentar o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal para vinte e sete mil e quinhentos reais...

Como se o salário deles hoje já não fosse alto...

Isto causaria um efeito cascata no país inteiro, visto que o salário de um ministro do Supremo serve de teto para o de muitos outros membros do governo.

Não sou contrário a idéia de alguns membros da sociedade, por causa do cargo que ocupam, do bom êxito que conquistam, tenham direito a um salário maior. Não acho que um sistema que imponha artificialmente a igualdade material, por uma regra absolutamente heterônoma possa solucionar os problemas de uma sociedade, qualquer que seja (até porque, os que impõem tais regras, geralmente a ela não se submetem).

Mas isso não significa fechar os olhos para aquilo que podemos considerar como abuso, tremendo fruto da injustiça, haja vista o enorme, pecaminoso, detestável, lastimável, vergonhoso e demoníaco fosso de distância econômica que existe entre os mais pobres e os mais ricos deste país.

Por mais preparado, por mais estudado que seja, por mais “nobre” que alguém julga ser, com que cargas d’água um ser humano pensa que é tão mais importante assim que o outro, a ponto de se entender merecedor de uma indescritível quantidade de bens acumulados se for comparado com a maior parte dos cidadãos deste país?

Será que os tais precisam comer tão mais assim que os outros seres humanos normais?

Será que precisam vestir tantas roupas mais assim do que o dos demais? Será que sua casa precisa ser tão maior assim? Aliás, sua casa, não; suas casas!

Porque os tais pensam que podem juntar terreno a terreno, casa a casa, campo a campo como se fossem os únicos habitantes da terra, conforme disse e condenou o profeta, séculos atrás?

Estes possuem o suficiente para viver e morrer e viver e morrer e viver e morrer várias vidas, talvez indefinidamente.

Enquanto outros, mal têm para viver uma única vida!

Isto é um lastimável.

“Atendei agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão”.

A tinta das mansões, das casas, dos apartamentos da classe favorecida deste país é feita de sangue, de suor, das lágrimas, da dor, da miséria do povo brasileiro.
Não há suma riqueza justa; não há riqueza e extremo acúmulo de bens sem a exploração de alguém.

Negar tal verdade é não dar ouvidos àquele que declarou as riquezas deste mundo como as “riquezas iníquas”.

Mas esta classe de políticos, para o qual eles dizem nos governar e servir, parece não viver em nosso mundo! São alienígenas! Aliás, engano meu. Se o fossem mesmo, teriam uma desculpa! Mas desculpa, não tem.

A essência da liderança é o serviço. É o sacrifício! É identificar-se com o outro.
Que sacrifício faz estes que se banqueteiam e gostam de receber glória uns dos outros?

Como poderão escapar de tamanha condenação caso se mantiverem inertes e indiferentes a tanto sofrimento alheio?

Acaso não leram a parábola do rico e de Lázaro? De como este recebeu consolo e aquele, o fogo como paga de sua indiferença?

“As vossas riquezas estão corruptas e as vossas roupagens comidas de traça”;

Riquezas corruptas, roupagens comidas pela traça...

Só fica corrupto aquilo que apodrece pela falta de uso...

Só é comido pela traça aquilo que ficou guardado sem utilidade nenhuma...

Pois é da sobras de muitos que a fome de tantos outros poderia ter sido amenizada!
Gente que, como a gente, não precisa de muito para sobreviver, mas insiste em ter mais, e mais e mais, e mais...

E nem se diga que este é o discurso de gente ressentida, que se morde de ciúmes, e que deseja ter o que eles tiveram, mas por não conseguir, destila tais palavras... Deus o sabe!

Pois os tais, que recebem estas exortações também são dignos de misericórdia, pois necessitam também serem arrebatados do fogo!

Tenhamos cuidado, pois, para que a traça e a corrupção não consuma em nossas mãos o que poderia evitar a dor de tantos.

“e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos,”

E a ferrugem desta riqueza acumulada e não gasta dará testemunho contra os tais, que, em uma vida, sequer utilizaram um mínimo daquilo que acumularam, a ponto de tal riqueza enferrujar.

E é esta ferrugem que estará diante do Justo Juiz e será utilizada como prova no dia final, diante de tantas vítimas famintas.

“e há de devorar como fogo, as vossas carnes”

Tal ferrugem se apegará às carnes dos tais, e, assim como consumiu tais riquezas, consumirá as suas carnes, pois não acumularam bens eternos, mas desprezaram o Incondicionado para dedicarem-se única e exclusivamente pelo condicionado. Se apegaram tanto a estes bens, que naquele dia, serão os bens que dos tais não se desapegarão.

A igreja precisa recuperar a mensagem de que dificilmente um rico entrará no Reino de Deus. Tão somente com esta mensagem, com esta pregação, talvez alguns destes ricos, a exemplo de Pedro Valdo, a exemplo de Francisco, talvez possam se salvar, pois nada é impossível para Deus. Ou, ainda que ricos, possam ser ainda mais enriquecidos por boas obras.

Àqueles que sofrem, que esperam, que aguardam pacientemente no Senhor, poderemos dizer:

“Sede, pois, irmãos, pacientes até a vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas".

Mas, acima de tudo, que nós também aprendamos a ler tais textos evangélicos como que nos auto-examinando, deixando-nos ler pelos textos sagrados, para acaso nos perguntarmos a nós mesmos se não seremos contados entre aqueles que desprezaram o Cristo na face do pobre, do mendigo, do nu, do faminto, do preso e do oprimido.

Perdoa nossos pecados, Senhor. Perdoai os evangélicos que só labutam por aquilo que é de seu próprio interesse, que sequer tomam conhecimento da causa do órfão e da viúva, que utilizam da religião com fins de auto-enriquecimento. Perdoai-nos, Senhor, por nossa insensibilidade, porque sequer chegamos a ser bons pagãos, quanto mais cristãos! Tem misericórdia de nós, pois somos os mais miseráveis de todos os seres! Fazemos tantas coisas que Cristo não fez, e, ordenamentos tão claros que ele nos deixou, passamos de largo.

Amém.