domingo, 20 de setembro de 2009

O calvinismo e as fontes da Vida Cristã.

AS CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS DO CALVINISMO:

- O calvinismo destrói pela base a idéia de uma fraternidade universal.

Tenho ouvido muitas vezes tanto de ateus quanto de agnóstas e materialistas que a religião só tem servido para dividir as pessoas em grupos, castas e seitas.

Creio que se trata duma generalização infundada.

Pois quando Jesus de Nazaré revelou ao mundo que Deus estava disposto a adotar e a receber como filho seu a cada ser humano, lançou os fundamentos duma fraternidade universal.

Se Deus é ou pretende ser o Pai de todos os homens é certamente porque todos os homens de todas as raças são irmãos e se são irmãos devem ser amar, respeitar e auxiliar mutuamente.

Antes, no entanto, não era assim.

Pois cada povo julgava-se filho de seu deus, enquanto os outros povos, filhos de seus deuses eram considerados como inimigos ou rivais. Neste quadro politeista/henoteista a emergência da fraternidade era impossivel na medida em que a existência de um Deus único, espiritual, infinito e Pai de todos os seres humanos era supinamente ignorada.

O imortal nazareno afirma justamente isto: a existência de um único Deus, espiritual, infinito e Pai de todos os seres humanos, coroando a obra iniciada pelos profetas israelitas e pela filosofia estoica.

O calvinismo no entanto regeita a simples idéia de que Deus tenha pretendido ser um Pai para todos os seres humanos e afirma que reservou a graça da adoção filial a alguns homens apenas, excluindo aos demais.

Segundo a cartilha de Genebra e Dordt não existe nenhum propósito de filiação universal na mente divina.

E se não há nenhuma proposta de filiação universal nos evangelhos não há consequentemente nenhum tipo de fraternidade universal.

Pois se deus regeita parte dos homens, recusando-se a adota-la, como poderão ser eles, os homens todos irmãos?

Só se é irmão quando se é gerado ou adotado pelo mesmo pai.

Estando dividida a humanidade em dois grupos bem distintos: eleitos e réprobos, que fraternidade poderá haver entre eles?

Não foram encarados por deus do mesmo modo, nem dispostos para o mesmo fim, como poderão pois ser considerados irmãos daqueles que se salvam?

Faz-se mister distinguit entre os eleitos e filhos e entre as simples criaturas...

Eis irremediavelmente comprometido a grande mensagem da cofraternidade entre todos os seres humanos.

Eis mais uma vez a humanidade cindida entre aqueles que não são do deus, e os que pertencem ao deus...

Eis introduzido o veneno da discórdia no corpo mesmo do Cristianismo...

Por outro lado negada a evidência das obras com relação aos eleitos, abre-se precedente para que cada qual desconfie que o outro não está predestinado e consequentemente que não é seu irmão... desconfiança prenhe de significados e consequências...

Cumpre pois que nos perguntemos sinceramente: qual das duas doutrinas promove o amor em seu mais alto grau e com mais intensidade?

Aquela que fomenta o instinto de superioridade e a desconfiança mutua ou a que promove a igualdade?

Afinal se meu deus faz acepção de pessoas e acepção aprioristica - sem desejar saber quem elas são ou o que farão - como não haverei de faze-la eu também e de julgar e condenar as pessoas antes mesmo de conhece-las e independentemente de seus vicios ou virtudes?

Não é para menos que os EEUU sempre foram e são ainda hoje um forte reduto de preconceitos, especialmente contra os indigenas, negros e seus descendentes.

Tal e qual os antigos hebreus e os nazisraelenses os calvinistas fugidos da Inglaterra sempre sonharam em dar origem a uma pátria monoracial composta apenas e tão somente por predestinados e eleitos.



- O Calvinismo apresentando deus como autor do mal e do pecado promove a um tempo a indiferença moral e a outro a rebelião e a descrença.


Destruido o atributo da santidade divina, com grande dificuldade medrara a santidade no coração dos crentes.

Pois Deus é o último e o mais perfeito môdelo de perfeição para as criaturas.

As quais devem espelhar-se no cárater dele com o objetivo de construirem os seus.

Sendo a divindade a mais bela das idéias que a mente humana é capaz de conceber, posto está que a idéia que fazemos sobre a divindade penetrará de cheio nossas ações determinará as nossas vidas.

Uma idéia sã sobre deus produzirá uma vida sã, já uma idéia inadequada...

Por isso disse Jesus: Sêde perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito, conforme o sacerdote já havia escrito: Santos sêde, como ele (Deus) é santo.

Por Santo devemos entender aquele que é separado do mal, aquele que odeia e aborrece tudo quando á mal, aquele que sempre é fiel ao principio do imutavel do bem.

No Deus verdadeiro não pode subsistir defeito ou limitação alguma.

O calvinismo no entanto afirmando uma ordem natural, moral e espiritual na qual o mal não somente emerge e assoma, mas de fato triunfa comprometendo a felicidade eterna de milhões de seres racionais, supõe nesta ordem um grave defeito...

E assim supõe um deus defeituoso ou imperfeito.

Por ter sido incapaz de ter produzido uma ordem mais justa ou menos iniqua... ou por não ter produzido coisa alguma permanecendo feliz em sua auto contemplação solitária.

Pois se a criação não corresponde a uma necessidade, sendo um ato livre, deveria ser uma ato de poder e sobretudo um ato de generosidade e filantropria e não um ato de exclusão.

Nesta econômia predestinacionista na qual a liberdade e a vontade própria pouco ou nada significam as personagens de Adão ou Satanaz pouco ou nada podem fazer no sentido de livrarem a cara de deus...

Pois em que pese a soberânia da divindade Adão e Satanaz afetaram e detiveram a maior parte do gênero humano...

Deus no entanto pôde saber antecipadamente o triunfo de Adão e Satanaz, que é o triunfo do mal...

E se o pôde saber poderia te-lo evitado e duma maneira muito simples recusando-se a produzir o nosso mundo.

Acontece que a afirmação e o triunfo do mal na teologia calvinista não parte de Adão ou de Satanaz, mas de deus mesmo.

Pois sendo ele onipotente poderia ter resgatado todos os seres humanos sem consideração duma liberdade que não existe em estado natural ou decaido.

Todavia não lho quiz fazer contentando-se em resgatar meia duzia de privilegiados e deixando todos os demais em poder de Satanaz, da maldição e do pecado.

Portanto é deus em ultima analise que faz com que Satanaz, a maldição e o pecado lho vençam, quando poderia te-los humilhado pela pura e simples aniquilação do mal.

Agora pasmem o deus calvinista sendo eminentemente soberano não só não aniquila o mal por completo como entrega de bandeja em suas mãos a maior parte dos seres que produziu para que sofram eternamente.

Só nos resta concluir que sendo Sábio e Onipotente tal deus não é bom.

E não é bom porque produziu a maioria dos seres humanos para Satanaz e o sofrimento e não para a felicidade.

Ora se esse deus não é infinitamente Santo e absolutamente bom como haveremos de esperar que seus adoradores tornem-se Santos e bons?

Não quero dizer com isto que não hajam pessoas piedosas ou mesmo santas no calvinismo apenas e tão somente que ele é incapaz de inspirar tal santidade servindo mais como obstaculo do que de estimulo a seu cultivo. Quero dizer que um tal sistema teologico jamais será capaz de promover a santidade e a bondade em larga escala ou seja na escala em que precisamos para que a sociedade em que vivemos seja transformada.

Somente pensando em termos de calvinismo seremos capazes de compreeder os caminhos trilhados pela sociedade Yankee em já em termos de moral exterior ou farisaica ( a moral puritana ) já em termos do mais crasso imoralismo (por mais liberal que seja não posso deixar de pensar nas garçonetes com os seios a mostra e os fregueses babando em cima na Califórnia) ja em termos de revolta ateistica ou satanista(superstição bastante comum na terra do Mayflower) contra este modelo de divindade arbitrária e caprichosa...




- O fatalismo embutido no presdestiacionismo induz o homem a inação.


Como, se o industrial ou empresário calvinista promoveu com sua atividade a emergência do sistema capitalista???

Embora o Antigo Testamento, certos teologos calvinistas e as massas calvinizadas (calvinismo popular) chegem a sugerir que deus controla diretamente todos os atos humanos, a maioria dos teologos e os calvinistas de mediana inteligência compreendem que a predestinação seja relativa apenas a salvação da alma e que seu fôro seja no máximo moral e não material.

Reconhecem pois os calvinistas em sua maioria o que ja fora afirmado por Lutero no 'Servo arbitro': não falo a respeito de bois, cabras ou dinheiro mas apenas e tão somente da graça e da salvação.

Afinal como observou Weber, a atividade dos calvinistas não diminuiu, mudou de campo e mudando de campo até tornou-se mais dinâmica.

No frigir dos ovos isto quer dizer que enquanto o homem medieval consagrava a parte excedente do produto de seu trabalho a obras éticas ou eclesiásticas o calvinista passou a consagra-lo ao próprio trabalho convertendo-o em capital e no trabalho veio a mergulhar de cabeça - como todo sectário - tendo em vista escapar ao tortentoso dilema da presdetinação pessoal.

A inação verificada não se deu nem se observa na área da ação comum ou das atividades ordinárias, mas apenas e tão somente no terreno da moralidade extra-pessoal. Compreendendo que estava predestinado sem consideração de obras éticas ou morais o calvinista pouco a pouco foi deixando de po-las em prática conservando por um tempo apenas a moral pessoal/exterior ou seja a moral do corpo e da roupa.

Posteriormente o antinomiasmo e o imoralismo declarado também fizeram suas aparições.

A teoria da salvação facil associada ao quietismo ainda faz seus estragos no corpo Cristão enquanto o imoralismo absoluto implanta-se cada vez mais na sociedade secularizada.

Proclamada a novidade infame de que o homem mesmo depois de regenerado por deus continua fraco todo o heroismo cristão dos velhos tempos em que 'os valentes tomam a força o reino dos céus.' se acabou. A cristandade toda converteu-se num clube de maricas que se reune a cada domingo com o objetivo de observar a vestimenta e a vida alheia e de tecer os comentários mais descaridosos...

O homem adorou saber que pode viver pecando e depois de uma vida deploravel ser automaticamente santificado na hora da morte e assomar ao empíreo.

Foi esta inação para com o outro que serviu de base para a construção daquele tipo de paraiso idilico tão sonhado pelas burguesias sem fé: Uma grande vivenda, magnificamente decorada, cercada por jardins e servida por criados na qual a família vive feliz e segregada do mundo e de seus sofrimentos. Cada qual se isola em sua ilha de felicidade e o mundo que desmorone...

Calvino bem que tentou evitar todos estes futuros e inevitaveis desandes concebendo um aparelho inquisitorial nos termos da igreja romana, no entanto sua inquisição, tal e qual a inquisição romana, veio a desaparecer... a jaula foi aberta e os homens tirando suas conclusões lançaram as todas máscaras fora.

Assim o monstro engendrado por Calvino apareceu em público...

Outros chegaram a mesma praxis no momento em que reconhecendo seus pecados chegaram a estranha persuasão de que não faziam parte do número dos eleitos...

Desesperando do paraiso sem duvidar seriamente de predestinação não foram poucos os que concluiram pela incapacidade total de viver bem...

E lá se foi a vida Cristã...

Poucos seriam nobres o suficiente para viverem bem sabendo que depois despareceriam para sempre no nada, mas certamente ninguem praticaria o bem se soubesse que mesmo assim seria punido por deus após a morte com chamas eternas...

Qualquer pessoa que por um minuto duvida-se da eleição e imagina-se ter sido predestinada ao inferno, assumiria posturas nada agradaveis...

Eis o que acontece quando se ensina ao homem que deve duvidar de suas próprias forças e capacidades quando esta em comunhão com Cristo...

Tais os resultados de se restringir a doação da graça a alguns poucos apenas e de afirma-la como base da vida moral.

Ou de desvincular a posse da divina graça da condição moral do crente...

De um modo ou de outro, levados pos tais doutrinas os homens ou se desesperarão ou passarão a acalentar falsas esperanças e em ambos os casos deixarão de agir.

E deixando de agir ou seja de agir moral e eticamente, deixarão de viver a proposta que Cristo trouxe dos céus para nós.

A proposta duma vida autenticamente Cristã e não duma vida ficticia ou aparente.




Vida que não se coaduna nem se pode coadunar com:

- Divisões entre os homens.

- Guerras fatricidas.

- Preconceitos e exorbitâncias raciais.

- A adoção do padrão de força ao invés do padrão de justiça.

- A indiferença moral.

- A inanidade moral ou ética.

- A manutenção ou construção de estruturas sociais que oprimam os seres humanos.




Desvalores que já há alguns séculos teem marcado a 'sifilização' Ocidental e promovido não só a estagnação do Cristianismo, como seu recuo e morte na Europa e nas Américas.




Diante de um tal estado de coisas, diagnosticados os principios e idéias que lho engendraram só nos resta denuncia-los implacavelmente como venenos mortiferos que são.

Evidentemente que o exercicio efetivo do Cristianismo não se resume nisto, passa entretanto por isto, pois se amamos nosso Mestre amado e seu Evangelho estamos obrigados a denunciar todas as formas de injustiça que teem estiolado a personalidade humana e o calvinismo esta na base mesma de algumas delas.