sábado, 17 de outubro de 2009

Considerações sociais em torno do pentecostalismo.












Antes de examinar-mos as raizes históricas do movimento que convencionou-se chamar de pentecostalismo, cumpre examinar, ao menos de passagem, seus fundamentos ou bases sociais.

Como licenciado e docente que sou nas áreas de História, Geografia, sociologia, psicologia e pedagogia, tenho, sempre que posso empreendido pesquisas pessoais em torno da problemática religiosa e especialmente quanto a suas relações com as estruturas psiquicas, sociais, políticas e educacionais.

Sem embargo como não sou bacharel ou pesquisador titulado, cingir-me-ei duma bibliografia sumária com o objetivo de corroborar minhas constatações pessoais.

Remeto pois o amado leitor, a Formiga 2000 (ed UNIPE) - Verbo da Vida, etnografia do neo pentecostalismo.

E aviso desde já que as divergências internas entre os pentecostais e neopentecostais, referentes a teologia e culto, não me importam nem um pouco já porque minha analise é meramente externa, interesando-se apenas pela visão de mundo, que no caso de pentecostais e neopentecostais é bastante similar. Importa-me apenas e tão somente a idéia que os sectários fazem sobre o mundo, o homem e a sociedade...

Nestes campos o ideário é praticamente o mesmo.

Conservadores, pentecostais e neopentecostais são quase que em sua totalidade criacionistas.

Naturalmente que esta 'visão' encaminha-os diretamente ao fetichismo e ao imediatismo.

Se deus criou imediatamente do nada todas as coisas, posto esta que pode continuar produzindo novas coisas ou dádivas para seus servidores. Afinal quem ao invés de planejar, dirigir e consumar, intervem uma, duas ou três vezes, pode intervir milhões ou bilhões de vezes...

Ambas as correntes continuam a encarar o homem sob o prisma gracista, segundo o qual sua natureza humana é totalmente corrompida havendo necessidade de que haja uma moção interna, iluminação, chamamento, unção, etc para que o homem possa converter-se a compreender os mistérios divinos...

De minha parte ignoro supinamente que alguma organização pentecostal dê espaço ao ensinamento Wesleyano referente a impecabilidade e a perfeição Cristã. Segundo minha experiência pessoal e pesquisas o pentecostalismo permanece adito aos grandes símbolos luteranos e calvinistas segundo os quais mesmo regenerado pela graça o homem permanece fragilizado e capaz de pecar e de pecar repetidamente ou como dizem de cair...

E de fato muitos vivem caindo, como um funcionário público de minha amizade muito devotado a organização a que pertence. Tão devotado que sempre que arranja uma nova amante, promove um grande evento religioso com o intuíto de obter o perdão de seus pecados...

Se por um lado tenho ouvido com bastante interese a satisfação noticias segundo as quais alguns pastores teem ousado afirmar a necessidade de obras e de obediência para a salvação, não tenho podido deixar de observar que o velho anti-nominiasmo, meu conhecido de infância, ainda permanece vivo e operante, apresentando-se por sinal como plenamente ortodoxo.

Passando ao dominío da sociedade - que é o que mais nos interesa - fale por nós a referida pesquisadora:

"A teologia neopentecostal... baseia-se na defesa da prosperidade como algo legítimo e desejável, no estímulo ao consumo e progresso individual e acentuado materialismo... tal teologia é pró capitalista, tendo em vista que não tece uma única crítica seque ao capitalismo, nem a injustiça e desigualdade sociais, nem aos desequilibrios de um mundo globalizado. (in Mariano, 1999)" pp 81

Em abono ao pentecostalismo poder-se-ia dizer talvez que não endossa o consumismo, ao menos no mesmo gráu em que o neopentecostalismo o faz.

Não entraremos no mérito desta questão, quase bizantinesca.

O que importa e que perante o sistema econômico vigente, as desigualdades e injustiças a postura é a mesma: nenhuma crítica, nenhuma censura, nenhuma maldição...

O capitalismo - com todo seu imenso cortejo de iniquidades - é encarado com a maior naturalidade pelos Cristãos conservadores, pentecostais e neopentecostais, isto quando não é, vez por outra, francamente glorificado como parte que é da pseudo civilização Yankee da qual o pentecostalismo procede...

A diferença entre a postura dos líderes pentecostais e a postura de Nosso Senhor Jesus Cristo é marcante: Cristo posicionou-se claramente contra o culto de adoração ao dinheiro, contra o acumulo de riquezas, contra a profanação do templo pelos mercadores e a favor dos pobres e da justiça.

Daqui procede a distinção capital que fazemos em nossa analise seja social ou religiosa, distinção que não é feita nem pelos tradicionalistas da igreja papólica, nem por nossos tortodoxos na medida em que estão comprometidos com os mesmos poderes sustentados pelos lideres pentecostais: o poder do dinheiro, das riquezas, do lucro e do capital...

A nossos fariseus não convem superar a analise puramente religiosa ou religiosista passando a uma analise tanto mais profunda que englobe as dimenssões sociais e econônicas do problema.

Nossa analise muito pelo contrário nos obriga a distinguir perfeitamente as vítimas dos algozes, os prejudicados dos beneficiados, os fiéis dos lideres...

Impedindo-nos de lançar todos no mesmo balaio e a todos anatematizar como heréticos e ímpios.

Daí o imenso respeito e simpatia com que encaramos aos adeptos do pentecostalismo - especialmente os que se opõe a TP e denunciam-na como ímpia - reconhecendo que muitos deles não deixam de dar a sua maneira e dentro de suas limitações um testemunho digno de nosso Verbo Bendito.

E sem embargo encaramos toda construção ideologica do pentecostalismo como falsa e perniciosa. Numa palavra> como uma das mais nocivas formas de alienação produzidas pela sociedade contemporânea...

Por outro lado não é menos verdade que o alienado não tendo consciência alguma de sua situação, não possui culpa ou responsabilidade alguma. Sua condição é como a de uma criança, uma condição de inocência.

Longe de nós denunciar ou condenar tais pessoas, longe de nós ofende-las ou melindra-las, longe de nós acusa-las ou maldize-las, longe de nós erguer o dedo em riste em direção delas!

A idéia que fazemos da maior parte do povo pentecostal é a mesma que fazemos quanto aos catolicos folclóricos (adeptos do catolicismo popular), uma idéia de cofraternidade.

Afinal, alguém já o disse e só faço concordar, como esperar que um católico criado na roça ou um pentecostal criado na favela, construam uma visão de mundo nos moldes críticos de Marx ou Gramsci?

Antes esperassemos que a cortiça afundasse ou que o bronze flutuasse...

Cada qual constrói sua visão de mundo com o material de que dispõe e os referênciais que possui... daí a visão dos miseráveis e analfabetos, ser sempre magica, fetichista e imediatista sejam eles protestantes, romanistas, espiritistas ou pagãos...

Daí o florescimento dos baixos catoliscismos, protestantismos, espiritismos e paganismos. Refiro-me ao catolicismo popular e visionário (centrado em Lourdes ou na Fátima, em peregrinações, amuletos, etc), ao pentecostalismo e ao neopentecostalismo, a umbanda e quimbanda e ao wicanismo...

Tudo isto é fruto da miséria, da ignorância e da alienação.

E sem embargo tais sistemas não foram codificados pelo povo, mas quase sempre por lideres tanto mais instruidos, líderes que não deixaram em certa medida de tornar seus sistemas mais ou menos permeáveis a alienação...

Neste sentido os líderes pentecostais e fundadores de seitas teem obtido bastante sucesso construindo sistemas extremamente permeáveis a alienação e extremamente servis ao sistema...

É pois a eles e as doutrinas por eles forjadas que dirigimos nossas objurgatórias, na medida em que tais doutrinas servem apenas e tão somente para disfarçar as verdadeiras causas dos males que afligem o gênero humano e para manter tais seres agrilhoados com cadeias de ferro ao carro triunfante de Mamom... carro cujas rodas foram feitas com o objetivo de esmagar as personalidades e as consciências...

Portanto nosso ofício não é maldizer dos pentecostais ou escarnecer publicamente deles, que isto não aproveita em nada a caridade e ao aperfeiçoamento da alma, mas desmascarar aos líderes, seus falsos testemunhos e suas falsas doutrinas estabelecendo a falsidade das mesmas segundo o critério fornecido pelo Evangelho: as obras> por suas obras lhos conhecereis...

Afinal quem são os pentecostais ou neopentecostais neste país?

"No que tange ao protestantismo brasileiro, as igrejas históricas ocupam um patamar superior, entre as classes mais altas, enquanto as pentecostais ocupam um maior espaço entre os pobres." iden 85

Um artigo publicado pela folha se S Paulo a cerca de oito anos expressava-se mais ou menos assim:

"Apesar das mirabolantes promessas feitas pelos pregadores aos dizimistas, segundo as quais deus lhos fará milionários da noite para o dia, a realidade - abaixo seguiam estatisticas e tabelas - nos mostra que tais pessoas continuam ocupando a camada social mais baixa da população, praticamente na linha da miséria, enquanto que as camadas mais altas continuavam sendo ocupadas por agnóstas, espiritas, romanistas e até mesmo ateus..."

(Afinal a realidade sempre foi irredutivel a preces e vãs promessas...)

E que são estes favelados, excluidos, oprimidos e miseráveis senão analfabetos e desinformados?

Assim no jogo dos poderes econômicos que eles ignoram e entre os nuances dum mercado que desconhecem era de se esperar que se agarrassem as fantasiosas promessas dos demagogos religiosos como a única tábua de salvação ou o único fio de esperança...

Inconscientemente o miserável, o alienado, o fanático acaba regeitando todos aqueles padrões de cultura, de ciência, de estética e religião, dos quais as elites tem se utilizado com fins excludentes e discriminatórios, visando constrange-lo. É assim que não podendo vencer as elites e seu jogo ele se torna rebelde e inconoclasta voltando-se contra os valores e principios afirmados pela elite e produzindo novas formas e tipos de cultura que satisfaçam seus anseios...

Assim a sorte da ortodoxia, do romanismo e do protestantismo histórico é serem regeitados na medida em que servem aos anseios da burguesia e fazem seu sórdido jogo... E caso a religião tradicional não desperte de seu estado de topor e não se ponha a serviço da justiça social e do bem comum, haverá de morrer e de morrer miseravelmente.

Quem ousará condenar tais pessoas porque a fé professada por elas é rude, ingênua e mau orientada?

A caso a fé verdadeira tem sido melhor orientada?

É forçoso reconhecer que não...

Na medida em que os sistemas religiosos mais grosseiros e mitologicos se alimentam de ignorância, as verdadeiras responsáveis por sua expansão são aquelas instituições todas que promovem a ignorância na medida em que lucram com ela ou que não se esforçam ao máximo para instruir e elevar a qualidade de vida das massas...

Dentre elas cumpre salientar o capitalismo - cujos fins são incompátiveis com a educação das massas e a instrução do proletariado - a igreja papista ou melhor o clericalismo reinante em seu meio (o qual teme igualmente que as massas passem a pensar por si mesmas) e o Estado, cujo aparelho educacional e o currículo, ao menos durante as últimas décadas, deixam muito a desejar.

Durante décadas o Estado brasileiro não investiu o necessário na área da educação e da cultura deixando de cumprir com as graves responsabilidades que lhe cabiam, o mesmo podemos dizer da igreja papólica (pois ao menos parte dela se opos tenazmente a expansão da educação feminina) e com mais propriedade ainda dos patrões e capitalistas. O resultado de tanta má vontade foi um crescimento cada vez mais acentuado da ignorância e do analfabetismo em nosso meio, até a subida de Vargas ao poder... afinal a república do café com leite necessitava de marionetes que se deixassem conduzir ao cabresto pelos coronéis.

Em pleno século XXI - terceiro milênio - não vimos parte do senado federal opor-se a inserção das disciplinas de Filosofia, Sociologia e psicologia ao currículo da escola pública e o sr FHC, então presidente da República, vetar a dita lei após sua aprovação...

Como pois culpar aos miseráveis e analfabetos... como pois increpar as massas?

Já há dois séculos os liberais - com receio de que o socialismo se expanda - vão soprando a chama do fanatismo religioso e brincando com o fogo, desde o Oriente... e já lá nas terras do Leste o incêndio vai se espalhando como na própria república dos Yankees...

Em sua vã tentativa de paralizar o fluxo histórico e se manter no poder o liberal tem conjurado forças que talvez não logre conter e que venham a cobrir de ruínas nossa civilização, dando inicio a uma Nova Idade Média - tal o significado da expressão Idade da fé - talvez pior que a primeira na medida em que seu padrão tende mais ao pentateuco que aos Atos dos Apóstolos.

Entre Cila e Caribde dorme o nosso liberal.

Nós porém apostamos na instrução com o intuito de conter a alienação religiosa, de depurar a própria religiosidade e de volta-la para a justiça social, o bem comum, a promoção humana e a construção duma personalidade tanto mais equilibrada e sádia.

De tudo quanto foi dito concluimos a favor dos pentecostais, mas contra suas crenças e visão de mundo, das quais pretendemos salva-los e salva-los através duma educação humanista, que não hesite em denunciar e desmascarar os mitos.

Concluimos pela total inocência e boa fé do pentecostal - i é daquele que não se alinhou a TP - na mesma proporção em que concluimos que o pentecostalismo ou melhor seus lideres abusam e tripudiam desta boa fé fazendo dela uma 'galinha dos ovos de ouro'.

Esta é nossa constatação a respeito da generalidade pentecostal sem negar com isto que hajam excessões e situações bastante distintas como soí ocorrer nos pódromos do protestantismo.