terça-feira, 20 de outubro de 2009

Não há motivo para crer que os dons cessaram...

“O amor jamais acaba, mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão, havendo ciência, desaparecerá; porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte, será aniquilado”

“Porque agora vemos como que por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou completamente conhecido”

(Paulo, aos coríntios)

Se entendermos que, o que é perfeito, já veio; então, o que é em parte, já deveria ter desaparecido.

A profecia, as línguas, estão incluídos naquilo que está “em parte”.

Os tradicionalistas inferem daí que, tais coisas já desapareceram, pois, o que é perfeito, já veio; afinal, aquelas coisas só são “em parte”.

Entretanto, se assim o fosse, a ciência também já deveria ter desaparecido, porque ela também é “em parte”.

Mas ninguém diz que a ciência desapareceu.

Por isso, é uma exegese muito ruim, também no meu entender, a partir deste versículo, que os dons cessaram na igreja.

Entretanto, o entendimento de que os dons jamais cessariam durante o tempo da Igreja neste mundo, está em perfeita consonância com a própria Pneumatologia neotestamentária.

O Espírito Santo é Deus na terra, habitando na vida dos fiéis.

E Deus é o mesmo hoje, ontem e eternamente.

Se Ele quiser fazer milagres hoje, Ele é soberano para tanto, ainda que possa ter ficado por muito tempo sem os realizar.

Daí, não faz sentido limitar-se onde Ele não se limitou.

E, na verdade, não obstante podermos encontrar na história da Igreja opiniões no sentido de não mais existirem milagres, também pipocam na história desta mesma Igreja, seja na sua vertente ocidental ou oriental, relatos da existência destes mesmos milagres, ficando a crença em tal possibilidade uma questão de opção pessoal de cada qual.

O fato de existir, e de ter existido picaretagem em relação a este assunto (como sempre existiu na história da igreja) não pode fazer com que joguemos, com a água suja, fora também a criança.

É certo que aquela igreja, a de Corinto, apresentava muitos problemas, mas em nenhum momento Paulo infere que, por causa disso, os dons carismáticos ali deveriam cessar, ou que eram a causa de tais problemas. O apóstolo, na verdade, até elogia a existència de tais dons, desejando inclusive que superabundem neles, não obstante, advertí-los de que não deveriam se gloriar por causa daquelas coisas, pois seriam temporárias.

E, admitida a possibilidade da perfeição nesta terra, não há motivo para entender que este tipo de perfeição exclua a possibilidade dos dons.

Isto porque, no contexto do versículo sobre análise, Paulo diz que “agora vemos por espelho, em enigma, mas então veremos face a face”.

Por acaso, por mais perfeito que tenha sido um cristão, poderá ele admitir que já O viu “face a face”? ...

Daí, não haver motivos para entendermos que os referidos dons já tenham cessado, data vênia dos que acreditam em contrário. Assim como o passar do tempo não transforma uma mentira em verdade, também não é o passar do tempo que definirá tudo o que cremos quanto Deus possa ou não realizar.
De qualquer modo, se alguém não crer que Deus possa, através de santas pessoas, realizar algum milagre, faço minhas a palavra do Cristo: seja lhe feito conforme a sua fé.