terça-feira, 27 de outubro de 2009

O elemento miraculoso nos primórdios da Reformação protestante e seu desenvolvimento.

Embora muitos aleguem a plena compatibilidade da crença em milagres com a Ortodoxia, é certo que a Ortodoxia não depende de milagres para a comprovação de sua divindade, pois ela conta com o testemunho da própria história segundo a qual seus Bispos atuais, são, por cadeia de sucessão legítimos herdeiros do mandato do Senhor:

"Ide e evangelizai a todas as nações fazendo discípulos em meu nome."

Nossos Bispos, enquanto sucessores dos santos apóstolos são aqueles que entraram pela porta do aprisco da ovelhas. Aquele que não possui a sucessão apóstólica é, e o Evangelho, o declara, ladrão e salteador.

Pois a ninguém foi dado conferir a sí mesmo a dignidade suprema de apóstolo, antes os apóstolos foram escolhidos pelo Senhor Cristo e em vida escolheram e sagraram sucessores dignos para si mesmos e lhos instruiram em toda doutrina.

Tal e qual o Senhor soprará a graça do Espírito santo e incorrupto sobre o colégio apostólico, os santos apóstolos estabeleceram jejuns e preces solenes em meios as quais comunicaram a graça do Espírito Santo, a homens sóbrios e responsáveis.

Este é o fundamento inabálavel da instituição Cristã. Não é coisa que se toque, veja ou sinta, mas coisa em que se crê pela fé. Pois é pela fé que o Cristão caminha e não pela visão, ou pela experimentação, ou pela emoção, mas pela fé viva e operante.

E sem embargo ao contrário da fé dos hebreus, dos agarenos e de todos os heréticos a fé da Igreja apostólica não é cega, mas esclarecida, firmada e fundamentada pelo testemunho da História.

Em nosso artigo sobre o Historicismo (vide Diário de um bôbo da côrte) já aludimos ao fundamento Cristão desta ideologia.

Pois a diferença crucial entre todas as outras pretensas religiões reveladas é seu cárater mágico, fabuloso e subjetivista enquanto que a marca distintiva de nossa instituição é seu cárater natural, concreto e objetivo.

Pois nem o Budismo, nem o Mazdeismo, nem o judaismo são capazes de demonstrar algo de positivo sobre o ministério religioso de seus fundadores: Buda, Zarates ou Moisés, permanecendo todos estes personagens envolvidos pelas brumas do fabuloso e do ante-histórico.

Nós porem, iniciamos nossa apologética perante os ateus, agnóstas, gentios e infiéis demonstrando através de documentos históricos a existência de Jesus e tecendo a crítica dos nossos Evangelhos... pois pretendemos comprovar objetivamente a existência do fundador do Cristianismo e a credibilidade dos Evangelhos e do corpus paulinum.

Completada a demonstração torna-se esclarecida e inabalável a fé do Cristão consciente de modo que não pode mais ser abalado por amofinações e crises - como se sucede ao Cristão alienado - pois sabe que tem motivos para crêr e a razão mesma o constrange a crer.

Isto se dá porque o fundador do Cristianismo não pretende ser um representante de Deus ou um medianeiro entre ele e os mortais como nas outras religiões.

Pois o fundador da instituição Cristã é a um tempo aquele Deus artífice dos mundos e a outro verdadeiro homem.

Afirma pois o Cristianismo a entrada do Criador na História por meio de sua encarnação.

E podemos afirmar que em última analise o Cristianismo é isto: a entrada de Deus na História ou Deus se fazendo conhecer e amar através da História de um homem...

E como este Deus e homem foi verdadeiramente visto, ouvido e tocado por testemunhas seletas, convinha que este contato se prolongasse concretamente através da História até os dias de hoje...

E um tal contato se efetua em nossos dias sempre que nos aproximamos de um Bispo, pois vendo e ouvindo ao Bispo estamos vendo e ouvindo a um sucessor daqueles que viram e ouviram o Cristo. Segundo os Bispos são escolhidos, instruidos e sagrados por seus predecessores até chegarmos aos apóstolos, pois foram os apóstolos mesmo que instruidos pelo Senhor da História escolheram, instruiram e sagraram os primeiros Bispos... e isto foi feito para manter a historicidade do testemunho e patentear a ligação direta da igreja com o mistério da encarnação e a pessoa de seu fundador.

As coisas não poderiam ter se dado de outra forma, pois a sabedoria divina exige que tudo na igreja siga o môdelo da encarnação de Cristo, como que expandindo sua historicidade.

Podemos pois afirmar sem medo de errar que cada Bispo é - por via de sucessão em cadeia - uma verdadeira testemunha da morte e ressurreição do divino Mestre.

Eu vos ensinarei de modo bastante simples o riquíssimo significado desta santa doutrina.

Imaginai que entre nós e Cristo há uma distância de mil metros e que não podemos ve-lo devido a distância.

Entretanto há uma fila indiana que vem dele até nós.

Agora imaginemos que Jesus diz algo em alto e bom som a testemunha que esta mais próxima de sí ordenando que a transmita este algo claramente e sem qualquer alteração a testemunha subsequente com a instrução de que ela por sua vez trasmita tais palavras a testemunha subsequente e assim sucessivamente até o fim da cadeia... certamente dali a algumas horas as palavras de Jesus, repetidas de um para outro membro da fila chegariam até o último elemento, isto é a vôce.

Pois bem a sucessão apostólica é esta fila por meio da qual a pregação e o correto significado dos Evangelhos chegam até nós.

Do contrário não fosse este ministério zelosamente mantido pelos Bispos, só haveria, como queria Nietschze, interpretação... opiniões e nada mais.

O Evangelho garante, de certo modo, que os Bispos não podesses acrescentar fábulas e teorias a divina revelação e os Bispos conservam a autenticidade da mensagem evangélica ou seja seu conteúdo. Por isso o Evangelho e a tradição apostólica não podem ser cindidos, como as duas naturezas de Cristo não podem ser cindidas...

A principio estes dois caminhos eram insuficientes por assim dizer - pois o Evangelho não havia sido escrito e a tradição não havia sido registrada permanecendo quase tudo no domínio da oralidade - e dependiam de certa forma do testemunho sobrenatural de milagres e dons carismáticos.

Pois já o platonismo e neo-platonismo haviam triunfado do aristotelismo e mergulhado a civilização clássica num lamaçal de crendices e superstições das mais grosseiras...

O Império romano havia dominado a todas as nações e se encontrava no auge de sua glória, de modo que os homens viviam como animais sob o jugo das paixões mais abjetas e rasteiras... salvo um punhado de filósofos aristotélicos e estóicos, os cidadãos do século I eram inacessiveis a qualquer tipo de argumentação racional, ética ou historicista...

Nem os raciocinios mais brilhantes, nem os mais elevados exemplos de virtude, nem as mais seguras lições da história soiam falar ao coração daquela gente materialista, grosseira e sensual, que só cuidava em satisfazer seus apetites e instintos sem cogitar de qualquer realidade espiritual...

Foi justamente devido a mente carnal daqueles povos aos quais os apóstolos haviam sido enviados, que o senhor lhe concedeu o poder de realizarem milagres semelhantes aos seus, logrando reunir, pela visão e pelos sentidos, um pequeno núcleo de fiéis em torno de cada um deles. Tal a semente das primeiras igrejas apostólicas... o poder miraculoso dos apóstolos.

No entanto após a ereção destes primeiros núcleos apostólicos, a confecção dos Santos Evangelhos e epistolas e a codificação de nossas leis - o que se completou por volta de 150/250 - a necessidade do testemunho miraculoso desapareceu, cedendo lugar a letra do Evangelho e do ministério efetivo dos Bispos enquanto interpretes seus e codificadores da lei cristã.

Foi assim que a fase miraculosa - a fase de criança ou do imperfeito - sucedeu-se a fase de adulto ou a fase perfeita, sob a égide do Novo Testamento escrito e da sucessão apostólica, enquanto orgãos ordinários da Igreja e seu padrão imutável. Foi então que vimos em face ou melhor face a face a igreja de Cristo, pois sem o evangelho escrito e as tradições codificadas a face da igreja era outra... pois era face de criança, face ainda em formação, face imperfeita...

A composição dos Evangelhos e a codificação de nossas leis todavia fizeram desaparecer esta face imperfeita e substituiram-na por esta face juvenil e bela que ainda hoje orna a esposa do Senhor.

Pelo Evangelho e a tradição apostólica a igreja alcançou sua plenitude, sua madureza, seu estádio de adulta, de modo que as manifestações vulgares de poder que tanto imprecionavam aos pagãos em sua carnalidade, já não tem razão de ser.



Tal econômia perdurou até os dias de Lutero.

Pois Lutero foi o primeiro que nos tempos modernos regeitou a doutrina na sucessão apostolica, do poder episcopal e da tradição eclesiástica, mantendo apenas o livro.

Pois já então os escritos dos judeus haviam adquirido a mesma autoridade que o Evangelho durante a tenebrosa idade média.

Do que resultaram grande número de interpretações e teorias sobre o sentido do livro e o protestantismo cindiu-se em grande número de partidos, deplorando o próprio Lutero, Melanchton, Calvino e Beza uma tal condição...

Pois já não havia orgão historicamente constituido e vigente que pudesse fornecer a interpretação correta dos oraculos do Senhor e a própria igreja papal estava repleta de erros e novidades profanas desde o século XIII quando havia se separado da Igreja Católica e Ortodoxa. Ficou assim o Ocidente totalmente retalhado em partidos e caminhos religiosos diferentes uns dos outros e ninguém sabia que rumo tomar...

Foi por isso que os teólogos papistas pediram sinais e prodigios que corroborassem verdadeiramente a missão de Lutero, segundo o Cristo lhos havia fornecido aos hebreus e os apóstolos aos gentios...

Lutero porém como não era capaz de realizar milagres não foi capaz de concentrar a autoridade e de evitar o cisma. No fim das contas Lutero apenas deu sua interpretação pessoal e depois dele cada qual se sentiu movido a dar também a sua...

Diante disto, ou seja, das variações das interpretações bíblicas, os papistas não só se sentiram confirmados em seu padrão como puzeram-se a rir dos sectários durante quase três séculos (foi quando Pio IX e depois João XXIII lhes fizeram engolir todos os escárnios).

Homens houve porém, e certamente dos mais bem intensionados, aos quais calou no coração o altivo desafio dos teólogos papistas e que desde então sonharam com a restauração dos antigos dons, carismas e milagres dos primeiros séculos, com o objetivo de opo-los a doutrina da sucessão apostólica revindicada por Roma.

E num determinado momento, por desejarem fortemente a tais dons e carismas acabaram por manifestar certos fenômenos paranormais ou por se auto-sugestionar, disto surgindo a matriz do movimento pentecostal.

E dos movimentos um Novo Ethós segundo o qual a demonstração da divindade do Cristianismo e da veracidade da igreja não se faz mais segundo o padrão convencional ou historicista ou por via de sucessão apostólica, mas segundo a ocorrência de manifestações carismáticas ou miraculosas.

De modo que a intrepretação correta não é mais aquela que é dada pelos padres ou pelos concilios, mas aquela que é referendada pelo próprio espírito santo através de profecias, linguas ou curas...

Foi portanto de alguma forma superada e até invertida a posição dos primeiros reformadores segundo a qual a Bíblia se bastava a si mesmo e já não aconteciam mais milagres no tempo presente, surgindo uma nova postura no campo protestante segundo a qual as interpretações deveriam ser aquilatadas pelas manifestações sobrenaturais do espirito santo, o que transformou, por assim dizer, tais manifestações numa necessidade constante e continua.

Ultimamente a opinião de Lutero, Calvino e dos primeiros reformadores subsiste quase que tão somente na Europa, entre os liberais, que por sinal já não são muitos porquanto teem passado ao agnosticismo, as formas apostólicas ou mesmo ao islan em número cada vez maior...

Disto tem resultado, ao menos nos EEUU e América Latina, numa prevalência da crença em milagres mesmo dentro das igrejas protestantes históricas, num reforço do fundamentalismo judaizante e numa expansão cada vez mais intensa do pentecostalismo. Nos EEUU porém ainda subsiste um grande número de liberais, alguns até bastante combativos...

No contexto brasileiro porém, a crendice, a superstição e o obscurantismo triunfam de ponta a ponta, dando perfeita continuidade as formas já anquilosadas do catolicismo popular e da pajelança, só mundam os nomes os quais em alguns casos tem sido até mesmo assimilados pelas agremiações neo pentecostais.

Assim o protestantismo - e por pricípios são verdadeiramente protestantes (a Bíblia JFA é seu livro e o Livre examinismo seu meio) - brasileiro tem mantido vivos os velhos encostos, caboclos, orixás, guias, etc do mesmo modo que o romanismo manteve diversas divindades menores do paganismo vivas em seus santos (como São Mercúrio, São Baco, etc).

Reconhecemos a boa fé e a piedade de tais pessoas, mas objetivamente tais fenômenos e experiência em nada se distinguem - pelo contrário são totalmente similares - uns dos outros, é só a presunção que faz ver Satanaz por trás das manifestações revindicadas pelos outros e o espírito santo nas que nos agradam, se bem que os contrários certamente devem encarar os fenômenos ocorridos nos templos pentecostais como provocados por espíritos vulgares e os que ocorrem em suas tendas como divinos...

Conclusão: A partir de tais fenômenos subjetivos e manifestações externas nada se prova de concreto quanto ao Cristo, sua missão, a interpreção correta da escritura ou a verdadeira igreja, ficando por isso mesmo ferida de morte a principal distinção do Cristianismo com relação aos demais cultos (parte dos quais também revindica milagres e manifestações sobrenaturais para sí - aumentando o pagode): sua historicidade.

Para nossa demonstração porém são mais do que suficientes dos milagres efetuados pelo Senhor ou por seus apóstolos.

Pois nossa fé não sendo humana não pode repousar sobre homens.

E conforme nossa opinião pessoal - formada sobre as constatações cientificas da parapsicologia ( que parte dos protestantes costuma a empregar contra o espiritismo) - tais manifestações inda que paranormais em alguns casos, são sempre produzidas pela alma ou pela mente humana.