quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Serão eternos os castigos espirituais?

HOMENS DESPUDORADOS E SEM CORAÇÃO ATRIBUEM TAL MONSTRUOSIDADE AO DEUS DE AMOR ANUNCIADO POR JESUS CRISTO. MERECEM ELES ALGUMA CREDIBILIDADE?








Corria o ano de 1440, quando os gregos ortodoxos foram gentilmente convidados pelo Papa Romano, com o objetivo de assinarem a um formulário comum de fé, no qual estava registrado que o além túmulo é geograficamente cindido em três partes: céu, inferno e purgatório e que o lugar de cada ser humano é determinado imediatamente após a sua morte.


Após terem lido tal formulário os representantes das igrejas apostólicas do Oriente, recusaram-se a assina-lo, justamente por causa deste ensinamento do juizo particular e da eternidade das penas (além da afirmação da soberânia papal é claro).


Desde aquele momento ficou bastante claro para todos o que ainda hoje se encontra exposto nas mêdulas teologicas dos latinos: que as igrejas apostólicas do Oriente, não possuem qualquer idéia precisa - e muito menos dogma - sobre juizo particular ou imediato, três lugares e eternidade de penas... sendo demasiado arcaica sua escatologia.


Por arcaica querem os latinos dizer que nos conformamos com a simplicidade do Símbolo de fé e com aquela liberdade com que os padres antigos abordavam tal matéria, sem dogmatizar e sem traçar essa patética geografia do invisivel sempre presente nos catecismos ocidentais.


Cumpre-nos indagar antes de tudo quando este 'avanço' começou...


Até meados do século XII a maior parte dos teólogos latinos, professava que entre o dia da morte e o dia do Juizo, os Santos não estavam plenamente glorificados, havendo inclusive a possibilidade de que 'mudassem' de lugar...


Tal a opinião de S Bernardo de Clairvoux e S Amadeus de Laussane e ainda de Ricardo de S Lourenço, os quais em seus sermões afirmam em alto e bom som que as intercessões da Virgem eram capazes de livrar os condenados dos suplícios perpétuos - que assim revelam já sua natureza original i é não eterna - afirmações decalcadas na afirmação do Patriarca ortodoxo S Germano:


"Por tuas preces e rogos tu nos aproximas do Verbo encarnado nossa salvação e os libertas do tormento eterno." Homil. in Zoman.


Tal foi a opinião do papa romano João XXII ( + 1331) sustentada por ele como 'doutrina antiquíssima', é mister reconhecer todavia, que apartada da verdadeira videira pelo cisma, já a igreja romana e sua teologia rojavam pela senda da inovação e que um bom número de mestres e doutores latinos tinham já a audácia de afirmar o juizo particular e a eternidade das penas como artigos de fé ou constituintes da revelação divina, encarando inclusive o dito papa como herege e apóstata por ter se recusado a prestar fé nas novidades recém urdidas.


Em seu desespero os latinos chegaram a forjar uma fábula segundo a qual o dito Papa admitiu as verdades - do juizo imediato e da eternidade das penas - no leito de morte e morreu reconciliado, mas é certo que morreu adito a antiga doutrina, hora tida como herética...


E como tal disputa produzirá grande comoção em meio aos fiéis, a ponto de suscitar querelas bastante graves, o sucessor de João XXII, Bento XII, achou por bem exercer - pela primeira vez na História da Igreja - seu munus ex catedra e infalivel, definindo - através da constituição Benedictus Deus (1336) - a doutrina do juizo particular e da eternidade das penas como de fé:

"Definimos que conforme a vontade de Deus as almas dos que morrem em estado de pecado mortal atual descem, imediatamente após a morte aos infernos onde são atormentados com penas, e tal se sucede por juízo particular, imutável e eternamente duradouro."


Jamais em toda História da Igreja (até 1870) fizera o papado uma proclamação tão infeliz. Daí procede o 'dogma' do inferno e o sistema infernista, antes mera teoria privadamente sustentada por alguns teólogos. Tal confusão e precipitação deu-se principalmente pela completa ignorância dos latinos quanto ao Novo Testamento e a lingue grega...


Tal dogma foi erigido pela igreja ocidental há menos de setecentos anos, a revelia das escrituras santas e no entanto tem sido mantido por quase todas as seitas protestantes a custa de monstruosas falsificações. De fato a história deste dogma espúrio é uma das histórias mais escabrosas da teologia Cristã.


Pois na medida em que vamos regressando no tempo, na direção dos SS Padres, mártires e apóstolos até chegarmos ao Evangelho, vamos tomando consciência de que as primeiras gerações nada sabiam sobre juizo imediato, lugares estanques, penas eternas ou glorificação plena antes da ressurreição final...


Para nos atermos a igreja dos latinos - promotora da novidade infernista - temos diante de nós a narrativa de S Gregório Dialogos (+604) sobre a libertação de Trajano das chamas infernais, e outras Histórias do mesmo teor narradas Já por Sulpício Severo e por S Máximo de Turim. Não estamos a afirmar que tais fábulas sejam verdadeiras, mas que aqueles que lhas descreveram e que nelas creram certamente não criam na eternidade das penas, como não criam nelas a imensa maioria dos padres Orientais: Clemente Alexandrino, Origenes, Gregório Taumaturgo, Gregório Nisseno, Isaac de Ninive, etc


Outros tantos - os latinos Cipriano, Ambrósio, Agostinho e Jerônimo - embora acreditassem numa fixação de penas após o dia do Juizo final acreditavam na existência de um imenso purgatório ou estado intermediário, que se prolongava da morte até a ressurreição e no qual era possivel que as almas dos mortos mudassem de estado e entrassem na comunhão divina. Tal a doutrina sempre afirmada e até hoje mantida pela Igreja Ortodoxa, com exclusão da eternidade de penas, encarada por nossos teólogos como uma teoria apenas provavel, mas de forma alguma como artigo de fé.


Não havia pois doutrina oficial sobre eternidade de penas e menos ainda sobre juizo particular, lugares separados ou glorificação anterior a ressurreição. Alguns de nossos padres como S Teófilo de Antioquia e S Afraates, postulavam até mesmo um barzak - estado de topor da alma na sepultura (ela como que sonhava no túmulo com sua sorte futura) - e uma intercessão meramente jurídica ou memorial dos santos. (tal doutrina foi importada da sinagoga por influência do judaismo)


De qualquer forma não haviam dogmas escatológicos na Igreja primitiva, além dos que são espressos por estas palavras: Creio na ressurreição da carne e na vida eterna.


O dogma era posto no final e não se disputava sobre o tempo intermediário, como fazem as organizações religiosas ocidentais.


Para nós ortodoxos, as palavras juizo particular (mera percepção da consciência sobre seu estado moral após a morte), lugares ou eternidade de penas não fazem sentido algum.


Após este breve histórico cumpre passar as escrituras santas do Novo Testamento, para averiguar se tais 'dogmas' são de fato afirmados pelas penas apostólica e Evangélica ou se tudo não passa de 'traduções' humanas adrede preparadas com o intuito de suster a manobra inicada já a sete séculos pelo papado.