sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um dogma abominável...

Em quase que todas as exposições protestantes ou papistas a respeito das penas eternas, depara-mo-nos geralmente com desabafos deste jaez:

"Trata-se certamente de um dos maiores desafios lançados a consciência Cristã, conciliar a existência de castigos eternos com a idéia de um Deus que é Pai e sobretudo amor."

Eu mesmo não encontraria melhores palavras com que exprimir minha perplexidade diante duma Cristandade que vive tentanto conciliar, baldadamente Polinices com Eteócles ou Esaú com Jacó...

Pois certamente ou temos dum lado uma vida muitas vezes curta e miserável, um juizo particular, dois lugares e chamas eternas; e do outro um ser abominavelmente mau ou diabólico produtor deste universo... ou temos penas medicinais e corretivas ou a aniquilação da personalidade dum lado e um Pai de amor e bondade do outro.

Eu apósto fervorosamente na segunda opção.

Mesmo sob a forma mais arrojada - enquanto mero afastamento de Deus - a doutrina do inferno parece-me assaz cruel para corresponder a vontade divina e a realidade, pois estar eternamente separado de Deus ou seja de Tudo, comporta necessariamente um sofrimento indizivel uma verdadeira tortura... Não posso crer que o Deus de Jesus Cristo tenha consentido em produzir criaturas que acabariam optando por uma tal vida, eternamente infeliz e tormentosa.

Julgo que em sua misericórida este Ser magnânimo, benevolente e infinitamente superior a tudo quando á humano e mortal, jamais permitiria a existência de seres eternamente separados de sí e por assim dizer separados de todo bem e de toda felicidade...

Sou obrigado a admitir que a existência dum tal inferno - nos termos duma separação eterna de Deus que parte da vontade livre do réprobo - não me parece incompativel com a fé, e no entanto uma tal idéia ou possibilidade me parece demasiado escabrosa e prefiro não inserir tal possibilidade em minha fé...

Portanto prefiro crer - como veremos no próximo artigo - ou que todos os seres serão de fato restaurados em Cristo ou que uma parte deles, após um determidado tempo ou prazo será pura e simplismente aniquilada, o que me parece bem mais misericordioso que a continuação infinita duma existência alienada de Deus...

Retornando ao esquema tradicional de inferno, segundo qual basta um único pecado ou a pura e simples ignorância da econômia Cristã, para fazer de um homem réu do inferno, julgo que admiti-lo implica nesseçariamente em abdicar-mos de nossa natureza racional...

Afinal como um homem poderia ser condenado a uma penalidade eterna por um pecado que cometeu em alguns minutos?

Mesmo que se trata-se duma vida inteira de pecados, onde ficaria a proporcionalidade entre os crimes e a punição?

Aqui os senhores teologos geralmente apelam a um sofista dos mais desonestos, asseverando que as punições devem ser eternas porque Deus é eterno...

Mas o que tem a ver os alhos com os bugalhos?

Acaso é Deus quem peca ou que peca...

Compreende-se que Deus por ser eterno, fosse condenado - por quem não o sei - a tormentos eternos caso viesse a pecar.

A condição do homem ou seja do pecador, no entanto, é temporal.

Ele não peca fora do tempo ou do espaço mas inserido neles. As categorias todas que fazem parte de sua natureza são finitas, como pois pode ser réu de punições infinitas que transcendem a finitude de suas categorias existênciais?

Voltando a carga o teólogo explica que todo pecado atinge e/ou afeta a Deus que é um Ser eterno, merecendo pois uma punição eterna...

É a velha história segundo a qual nossas boas obras fazem o papai do céu feliz enquanto nossos crimes fazem-no infeliz a ponto de chorar nos dias de tempestade...

Neste caso, com tanto crime e tanto pecado - todos, todos conhecidos por deus - ele já deve ter perdido sua beatitude a muito tempo e levar uma existência bastante soturna...

Jamais engoli tais pílulas...

Afinal para que Deus haveria de produzir tantas e tantos seres capazes de afetar sua felicidade e porem-na a perder?

Prefiro crer que Deus seja um Ser transcendente e impassivel e que produziu aos seres todos para que encontrem, cada qual sua felicidade numa comunhão entretecida livremente com ele...

Custa-me muito crer no deus vitimizado dos teologos, que pune com punições perpétuas aqueles todos que lho atingem com seus pecados...

Os derradeiros vigias das Termópilas sagradas por fim tiveram de ir a moderna psicologia pedir algumas teorias emprestadas com que suster o velho mito...

Então se põe a discorrer sobre a intensidade das más intenções dos pecadores.

Já deu para perceber que segundo tais expositores as punições são eternas porque a malícia do pecador é infinita.

E no entanto o pecador é capaz de cometer muitos pecados...

É que cada um deles é inspirado pela mesma malignidade infinita...

Por aqui se vê que nossos teólogos não são completamente destituidos de engenho.

Admitamos porém que a maioria dos santos tenha cometido um pecado, ao menos durante a flor da juventude, ou que todo canalha tenha cometido uma obra de virtude...

Nestes casos teriamos de admitir que subsistem no homem concomitantemente, duas intenções de intensidade infinita?

(dois infinitos...)

O simples fato de que todo ímpio já foi capaz de cometer alguma obra virtuosa em algum ou alguns momentos de sua vida, depõe contra a possibilidade duma intensidade infinita ou duma maldade constante que parta da sua natureza.

Afinal sendo o homem contigente e finito, mesmo sua santidade e perfeição são contigentes e finitas, quanto mais seus crimes, pecados, intenções e mesmo intensidades.

Não nego que as intensidades das intenções e dos deleites podem ser bastante longas ou mesmo intensamente longas caso lhas traduzamos em termos temporais. Agora que possoam ser eternas é impossivel, pois ninguém pode dar o que não possui...

Logo sendo o homem finito no tempo, no espaço e na estrutura humana não pode ser capaz de engrendar categorias e valores que são específicos da divindade.

Logo também as suas sensações e deleites por intensos que sejam são necessariamente finitos, devendo a penalidade corresponder a tal finitude para ser justa.

Só resta a alegação de que alguns homens ou almas resistirão ao amor até o fim ou os limites da eviternidade (do estado intermediário) e que tal fim - constituindo uma espécie de penetração do finito e contingente no infinito e necessário - afetará de tal modo suas condições que serão como que fixados para sempre em seus sentimentos e intenções pecaminosas sem possibilidade de alteração.

Neste caso o grande problema não estaria na eternidade mas nessa espécie de tempo que medeia a criação e a consumação das coisas e que de algum modo esta vinculado ao estado intermediário e a condição de todos os falecidos que ainda não recobraram seus corpos. Será este tempo ou espécie de tempo suficiente para que todos os ímpios se convertam a Cristo?

Estende-lo-a o Senhor pelo tempo que for necessário até obter a conversão de todos ou o ímpio será capaz de endurecer seu coração enquanto durar este período?

Está ou não fixada esta fase e com que objetivo?

Nada podemos saber de positivo sobre tal mistério, apenas e tão somente especular ou conjecturar com base nas santas e divinas escrituras.

E no entanto a Cristandade tem apresentado péssimas conjecturas como dogmas de fé...

E nós também apresentaremos as nossas, mas como pura e simples teorias ou possibilidades no próximo artigo sempre respeitando os límites traçados pelos antigos.