segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Batalha Espiritual



Batalha Espiritual

Por Bispo José Ildo Swartele de Mello


1. Cuidado com fogo estranho no altar

1.1. Dualismo


A história da humanidade registra uma infinidade de guerras e na própria Bíblia temos o registro de muitas delas. Mas existe um tipo importante e especial de guerra que muitos desconhecem. Trata-se da guerra de natureza espiritual. O Apóstolo Paulo ensina que a nossa luta não é contra a carne e sangue, mas é, de fato, contra os espíritos malignos que atuam numa esfera espiritual (Ef 6.12). Quando Paulo ensina que nossa luta não é contra a carne e sangue, o que ele quer transmitir é que nosso adversário não é humano. Nesta luta espiritual não lutamos contra alguém de carne e osso, mas batalhamos contra o diabo (1 Pe 5.8; Ef 6.12), contra as influências negativas do mundo (1Jo 2.15-17) e contra as paixões desordenadas de nossa própria carne (Co 3.5; Tg 1.14 e 2Pe 2.18) .

A Bíblia não apenas nos fala a respeito da existência desta guerra espiritual, mas também nos ensina como combater. “Embora andando na carne, não militamos segundo a carne” (1Co 10.3). Mas existem aqueles que não se atém ao puro ensino das Escrituras Sagradas e se deixam levar por toda sorte de ventos de doutrinas pagãs. Quando se pensa em uma guerra do bem contra o mal, dos anjos contra os demônios, do céu contra o inferno, de Cristo contra o anticristo e da Igreja contra as trevas, não podemos cair na tentação do dualismo, pois, como bons cristãos, devemos crer e confessar a existência de "um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos" (Ef 4:6). Tal verdade por si só já bastaria para nos livrar de uma série de práticas e rituais místicos que nada tem a ver com o cristianismo e que revelam muito mais o assombro diante do maligno do que a paz e a alegria que são peculiares aqueles que confiam e esperam em Deus.

Não devemos, portanto, em nossa guerra contra o mal, dar lugar ao medo e nem ficar paranóicos e fissurados com os demônios e suas artimanhas, pois devemos saber em quem é que temos crido e estarmos bem certos e seguros de que Ele reina soberano sobre tudo (2 Tm 1.12; Jó 19.25). A posição do crente é muito privilegiada, pois nesta guerra, ele é mais do que vencedor em Cristo Jesus (Rm 8.37), e já está assentado juntamente com Jesus acima de todo principado e potestade nas regiões celestiais (Ef. 2.6). Temos uma aliança com o Todo Poderoso Deus, aliança esta que foi selada com o sangue do próprio Senhor Jesus Cristo! "O Senhor é a minha luz e a minha salvação! A quem temerei (Sl 27)?!" E "se Deus é por nós, quem será contra nós?!" (Rm 8.31).

O diabo tem uma certa liberdade de ação e influência sobre os homens, gerando um sistema corrompido de valores. É neste sentido que a Bíblia afirma que Satanás é o Deus deste Mundo, que jaz no maligno (Mt 4:8, 2 Co 4:4; 1 Jo 5:19; cf. Jo 12:31; 14:30; Jo1:5; 12:46). Mas isto não quer dizer que o Diabo seja Senhor da Terra, pois sabemos que, de fato, "do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam" (Sl 24:1 e ver também 1 Co 10.26) e concordamos com Jesus que declarou que todo o poder lhe foi dado sobre os céus e a terra (Mt 28.18). Portanto, o diabo não possui autonomia para agir como bem entende. Por exemplo, quando ele quis provar a Jó, precisou pedir o consentimento de Deus e foi o próprio Deus quem estabeleceu os limites desta provação (Jó 1.12). Satanás também precisou solicitar autorização para poder peneirar a Pedro (Lc 22.31). E, no episódio do espinho da carne de Paulo registrado em 2 Co 12, vemos como Deus, em sua soberania, pode se valer até mesmo dos demônios e das enfermidades visando um fim proveitoso e incomparavelmente superior a qualquer aflição. Deus se vale do diabo e do mundo para nos exercitar, experimentar, aperfeiçoar com vistas a extrair o melhor de nós para sua glória. Pense no livro de Jó.

O livro de Jó nos ensina que o que está em jogo na guerra espiritual não é quem é maior e mais poderoso, se Deus ou o Diabo, pois está fora de questão o poder e a soberania de Deus sobre tudo e todos, mas o que o diabo questiona é se Jó ama realmente a Deus sobre todas as coisas. O diabo levanta suspeitas sobre a integridade do amor de Jó por Deus. Ele insinua que ninguém seria capaz de amar a Deus sem segundas intenções. É interessante notar que, mesmo diante de tantas tribulações, Jó jamais se reporta ao diabo, mas vence a guerra espiritual falando com Deus e contando com a ajuda divina para permanecer ao lado de Deus mesmo diante da mais forte provação. Penso que esta foi também a guerra espiritual vivida por Pedro quando o próprio Senhor o chamou e disse: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo. Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos" (Lc. 22:31, 32). Note que quando Satanás pede para peneirar a Pedro, Jesus não responde como muitos costumam fazer, dizendo: "tá amarrado". Pelo contrário, Jesus disse apenas que iria orar por ele para que sua fé não desfalecesse, pois Jesus sabia que era necessário que Pedro passasse pela peneira visando seu crescimento e maturidade espiritual, para que, depois de tudo, Pedro pudesse confessar seu amor a Jesus de todo o coração.

Portanto, a batalha espiritual é uma questão que tem a ver com o grande mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas (Mc 12.30) e não com a questão sobre quem é mais poderoso, pois o diabo não discute o poderio de Deus, mas lança dúvidas a respeito da integridade do amor dos homens por Deus. Mas quando falamos da soberania de Deus e de todo o seu poder, logo surge uma importante questão: "se Deus é todo poderoso, por que é que permite o mal? Por que é que Ele não põe fim a toda espécie de guerra?" Pois, o Todo Poderoso poderia facilmente por fim a toda injustiça e sofrimento humano. Ele poderia até mesmo ter evitado o surgimento do mal no Mundo. Deus, com seu poder, poderia ter criado seres programados para obedecer à sua vontade; sim, poderia ter escolhido criar seres autômatos, algo assim como os robôs, que não tem liberdade de escolha. Mas, embora, um mundo de autômatos pudesse funcionar muito bem, sem guerras, sem injustiças e sem maldade, no final das contas, seria também um tanto sem graça, pois as próprias expressões de amor, devoção e serviço não seriam livres e espontâneas, também teriam de ser programadas, o que resultaria em algo artificial, algo sem graça e sem significado real. Ninguém, em sã consciência, se sentiria muito tocado em receber uma declaração de amor de um ser que foi programado para isto e que não pode dizer outra coisa a não ser aquilo que está na sua programação.

Deus quis que seus filhos fossem livres, mesmo sabendo dos riscos derivados da liberdade humana. Ninguém pode ser livre apenas para dizer sim. Alguém que é livre pode também dizer não, pode se rebelar e pode optar pelo mal. A história da humanidade revela as conseqüências do mau uso da liberdade, como o surgimento do pecado, egoísmo, inveja, ódio, crimes, doenças, injustiças, guerras, fomes, etc. Um alto preço tem sido pago para que possamos ter no mundo relacionamentos verdadeiramente significativos. Neste mundo temos muitas opções, somos livres para escolher, portanto, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto é cheio de significado. Este relacionamento entre Deus e o homem é cheio de afeto. É algo tremendo! O mesmo se pode dizer do relacionamento de amor e amizade entre os seres humanos. Alguém, certa vez disse: "Amo a liberdade, por isso deixo livres todas as coisas que tenho. Se elas permanecerem comigo será porque as conquistei, se partirem será porque, de fato, nunca as possuí". Mesmo tendo criado seres livres, Deus poderia ter se imposto aos homens pela força do seu poder. Mas não quis que fosse assim. Ele disse: “Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR” (Zacarias 4.6). Deus, como Pai, não quis se impor pela força, mas decidiu cativar pelo amor! Manifestou-se ao mundo na pessoa de Jesus, que sendo o próprio Deus, esvaziou-se de sua glória para identificar-se com nossa fraqueza, revelou-se como servo sofredor, que carrega a sua cruz e dá a vida pelos seus amados. Quando se apresentou como Rei em sua entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos, não entrou montado num cavalo portentoso e cheio de pompa e nem estava acompanhado de um forte e ameaçador exército, mas escolheu entrar de maneira humilde e mansa montado num jumentinho. O próprio estilo de liderança foi marcado pela cruz, pelo burrinho, pela água e a toalha, com que lavou os pés dos discípulos. Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a condição de servo. Não foi dominador e nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Não constrangeu os seguidores pela força, pois seus seguidores sempre foram livres para escolher e até mesmo desistir. Não quis se impor pela força, antes escolheu o caminho da graça e do amor. Na cruz, Deus revelou seu grande amor ao mundo e atraiu muitos a si.

Muitos crentes estão enchendo tanto a bola do diabo que acabam ficando com medo dele, esquecendo-se do ensino de Cristo: "não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28). Devemos temer somente a Deus, sabendo que "dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10.31). Os próprios crentes estão perdendo o devido temor a Deus. Tratam a Bíblia como um livro qualquer e vão à igreja como quem vai a uma reunião qualquer, sem expectativa de que Deus irá falar com eles e sem estarem prontos para obedecerem a voz do Espírito de Cristo. Não estão verdadeiramente conscientes de estarem na presença do Deus Vivo, daquele que é o único Senhor do Universo e que, por esta razão, detém em suas mãos todo o poder nos céus e na terra (Mt 28.18).

É interessante notar que há poucas referências ao diabo no Antigo Testamento. Era de se esperar muitas menções a ele no livro de Lamentações, por exemplo, pois o livro foi escrito após a calamitosa destruição do templo e da cidade de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor em 586 a.C. No entanto, Jeremias não atribui ao diabo nenhuma destas atrocidades, mas, pelo contrário, ele deixa claro que elas vieram como juízo de Deus sobre o pecado do povo. Observe o capítulo 3, onde lemos: "Eu sou alguém que provou a miséria sob a vara da sua ira... Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Que se assente ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobre ele. Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a sua face ao que o fere; farte-se de afronta. Pois o Senhor não rejeitará para sempre. Embora entristeça a alguém, contudo terá compaixão segundo a grandeza da sua misericórdia. Porque não aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens... Quem é aquele que manda, e assim acontece, sem que o Senhor o tenha ordenado? Não sai da boca do Altíssimo tanto o mal como o bem? Por que se queixaria o homem vivente, o varão por causa do castigo dos seus pecados? Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los, e voltemos para o Senhor" (Lm 3.1, 26-33, 37-40).

Ainda neste sentido, é curioso também notar dois registros paralelos do mesmo fato, um em 2 Sm 24 e o outro em 1 Cr 21. Na primeira descrição, lemos que foi Deus quem incitou Davi a levantar o censo. Na segunda, lemos que foi Satanás. Lembrando que Crônicas foi escrito bem depois do livro de Samuel, o que pode ajudar a explicar o porquê da mudança, pois, entre os hebreus, o conceito de Satanás foi sendo formado com o tempo através de uma revelação progressiva, sendo que, a princípio, o que bastava para eles era saber que Deus era soberano.

Jó também diz que Deus é quem dá e quem tira (1.21), quem dá o bem e também o mal (2.10), e o v. 11 diz que "em tudo isto Jó não ofendeu a Deus com palavras". Em Lm 3, como vimos acima Jeremias afirma o mesmo. E, em 2 Cr 7.13, é o próprio Deus quem diz: "Quando eu fechar o céu de modo que não haja chuva, ou quando eu ordenar aos gafanhotos que consumam a terra, ou quando eu mandar a peste contra o meu povo". Veja que aqui quem manda a praga é Deus. Aí não dá para "amarrar" ou "declarar" nada. Pois o caminho para a libertação dessa calamidade é a humilhação de um coração verdadeiramente arrependido que suplica por misericórdia diante de Deus, como vemos no versículo seguinte: "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e se arrepender dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra" (2Cr 7.14).

A Bíblia está repleta de registros dos juízos de Deus sobre a terra, povos, famílias, indivíduos e até mesmo sobre os crentes, pois o juízo começa pela casa de Deus (1Pe 4.17). Tais juízos incluem pragas, enfermidades, destruição e morte. E realmente, não dá para anular tais coisas com frases do tipo "tá amarrado" ou "eu rejeito", mas é somente através do arrependimento e da contrição de coração num retorno para Deus que o homem encontra misericórdia e livramento (2 Cr 7.14).

Notar aqui que a oração de arrependimento é coletiva e não individual: "Se o meu povo...". O que não significa dizer que não tenha nada a ver com o indivíduo, mas que Deus está tratando com o povo e não apenas com indivíduos. Vivemos numa sociedade muito individualista que tende a se esquecer de que estamos enraizados na sociedade e de que possuímos uma identidade grupal, que nos coloca numa relação de interdependência. Daniel orou pedindo perdão pelo pecado de seu povo, solidarizando-se com sua nação: "enquanto estava eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus" (Daniel 9:20). Quando algo de ruim nos acontece, devemos esquadrinhar os nossos caminhos de modo não apenas pessoal, mas também coletivo (Lm 3.40). O mal pode ser consequência natural dos erros humanos, tanto individual como coletivo, pois não estamos sós no mundo, pertencemos a raça humana, estamos ligados uns aos outros por distintos laços e temos responsabilidades sociais, de modo que nossas ações, quer sejam boas ou más têm alcance e repercussão que vão muito além de nós mesmos.

Como seres humanos partilhamos de muitas coisas em comum, como exemplo, envelhecemos, ficamos doentes e morremos em consequências do pecado de Adão e Eva, sofremos as consequências de guerra, da poluição, das injustiças sociais, da violência, etc. Caim mata o Abel e tenta se esquivar da pergunta de Deus: "Onde está o teu irmão?", respondendo: "sou eu o guardião de meu irmão?". Conclui-se do texto que Deus nos colocou como guardiões ou responsáveis uns pelos outros. Acã peca e Israel perde a batalha, pois a ira do Senhor se acendeu contra todo o Israel (Js 7.1) e Deus diz: "Israel pecou" (Js 7.11) e "... por isso os filhos de Israel não puderam subsistir diante de seus inimigos" (v. 12). Saul peca e não somente ele é afetado, mas todo o Israel, como também toda sua família, pois seu filho Jônatas morre, seu neto Mefibosete fica aleijado e pobre (2 Sm 4), mas pela virtude de Jônatas e sua amizade com Davi, Mefibosete acaba sendo grandemente abençoado (2 Sm 9). Não batalhamos sozinhos, mas uns pelos outros: "Pois quero que saibais quão grande luta tenho por vós, e pelos que estão em Laodicéia, e por quantos não viram a minha pessoa" (Colossenses 2:1, ver também o v. 24) e "Saúda-vos Epafras, que é um de vós, servo de Cristo Jesus, e que sempre luta por vós nas suas orações, para que permaneçais perfeitos e plenamente seguros em toda a vontade de Deus" (Colossenses 4:12). Jesus também santificava-se para o bem dos discípulos: "E por eles eu me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade" (João 17:19).

Então, precisamos entender melhor a complexidade da causas que podem estar por trás de uma adversidade, pois a questão não se resume a lógica simplista que diz: "Se é bom, vem de Deus; se é ruim, vem do diabo". Porque nem toda coisa boa é fruto da "sorte" ou do esforço pessoal e nem tão pouco toda coisa ruim é oriunda da falta de esforço pessoal, das escolhas erradas ou do "azar". Não quero dizer que não exista o elemento de causa ou efeito (Gl 6.7), mas apenas que isto não explica tudo. Pior ainda quando se pensa em causa e efeito apenas em termos individuais.

O sofrimento não pode ser interpretado apenas como um colheita do que se plantou, pois tem raízes muito mais profundas que chegam até Adão. O sofrimento pode ser um juízo de Deus sobre o pecado humano, pode ser algo pedagógico, "porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem" (Pv 3.12) e pode vir sobre nós para provar a integridade de nosso amor a Deus como no caso de Jó. Até mesmo quando algum mal não parece ser uma consequência natural de algum pecado específico que tenhamos cometido, precisamos reconhecer que, como pecadores que somos, já cometemos pecados que seriam suficientes para nossa condenação, razão pela qual já estamos no lucro pelo simples fato de ainda estarmos vivos, pois é pela misericórdia do Senhor que ainda não fomos consumidos (Lm 3.22).

Até quando sofremos em decorrência do erro dos outros e também quando somos perseguidos por fazer o bem, devemos entender que Deus está usando aquele drama para exercitar nossos espíritos. "Recebemos a graça de não apenas crermos, mas também de padecermos por Cristo" (Fl 1.29). "Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8.28). "Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores por intermédio daquele que nos amou" (Rm 8.37).

Deus se vale do mal para nos enriquecer e aperfeiçoar. Posso até encarar meus adversários e adversidades como instrumentos de Deus para a minha santificação! O espinho da carne de Paulo era obra de um mensageiro de Satanás que, consciente ou não, estava promovendo a humildade e a santidade de Paulo, servindo, assim, aos propósitos divinos ( 2Co 12.7). Neste caso, nem as 3 orações de Paulo foram suficientes para remover a chaga, pois a resposta de Deus foi: "a minha graça te basta e o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza", de modo que Paulo passou então a glorificar e dar graças a Deus por toda aquela adversidade, pois conseguia ver o propósito divino e o cuidado de Deus por sua alma: "e Ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Por isso, de boa vontade antes me gloriarei nas minhas fraquezas, a fim de que repouse sobre mim o poder de Cristo" (2Co 12.9).


1.2. Mapeamento Geográfico

Os demônios parecem estar organizados e distribuídos geograficamente em sua luta por influenciar a Terra (Dn 10: 13,20). Mas em nenhuma parte da Bíblia, somos ensinados a respeito da necessidade e da importância estratégica de se identificar os nomes dos demônios que atuam em determinado território combater contra eles em oração, procurando amarrá-lo, visando o sucesso obra de evangelização. Se um mapeamento territorial dos espíritos malignos fosse necessário e fundamental para o sucesso da missão da igreja, certamente haveria exortações, ensinos e registros disto na Bíblia.

Jesus não nos ensina a amarrar a Satanás, mas a expulsar demônios. O próprio Jesus já amarrou Satanás por isto podia saquear a casa do "valente" (Mt 12.22-29). Agora, uma vez amarrado, Satanás não pode impedir o avançar da Missão de Cristo e de sua Igreja (Mt 16.18; 24.14; 28.18s; Mc 13.10, At 1.8). e deu autoridade aos discípulos sobre os demônios. A Igreja, que é o Corpo de Cristo, segue na mesma missão sem poder ser definitivamente impedida pelas forças do inferno, pois sabemos que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16.18b) e João disse: "a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela" (Jo 1.5). Pois Jesus é o Rei e, como tal, tem todo poder no Céu e na Terra (Mt 28.18).

Existe um outro texto que, a semelhança de Mateus 12.28s, também está num contexto de expulsão de demônios, tratasse de Lucas 10.17-24, que descreve a alegria que os discípulos estavam experimentando por estarem sendo capazes de exercer autoridade sobre os demônios. E é interessante notar que aqui também, Jesus menciona algo sobre a derrota e perda de poder de Satanás, mas só que, em vez de dizer que Satanás está preso ou amarrado, ele o descreve como que caindo do céu, um sinal evidente de que seu poderio havia sido tremendamente abalado. E, para confirmar esta idéia, no v. 22, Jesus declara que tudo lhe foi entregue pelo Pai.

João 12.31,32 é outro texto que mostra como a queda ou aprisionamento de Satanás estão diretamente associados à atividade missionária dos discípulos, pois a expulsão de Satanás está associada com o fato de que não somente judeus, mas também gentios de todas as nações estarem sendo atraídos a Cristo. Para reforçar ainda mais esta interpretação temos textos como 2 Pedro 2.4, que falam dos demônios como já tendo sido lançados no abismo: "Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo" e Judas 6 fala dos demônios como já tendo sido presos e algemados sob trevas: "e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia". Notar também que o próprio livro do Apocalipse fala deste abismo em outros capítulos: "Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar" (Ap 9:2)... "e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom" (Ap 9:11)... "Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará" (Ap 11:7)... "A besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá" (Ap 17.8). Note que é dito que a Besta surge do Abismo para pelejar contra os santos, o que concorda com Ap 20.3 que diz que é necessário que seja solto do Abismo por pouco tempo (Compare com Ap 12.12, que fala da última investida de Satanás, tendo consciência de que pouco tempo lhe resta). Observar que a besta somente surge do abismo após o cumprimento do testemunho (Ap 11.7). Pois é necessário que primeiro o Evangelho seja pregado para testemunho a todas as nações, só, então, virá o fim. A Igreja será bem sucedida em sua missão e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mc, 13.10; Mt 16.18b; Jo 1.5).

Portanto, os Apóstolos não tinham que se preocupar com mapeamentos territoriais e oração de guerra para amarrar Satanás como preparativos para suas viagens missionárias e antes da obra de evangelização. Os Apóstolos ocupavam-se somente do cumprimento da missão de fazer discípulos que haviam recebido da parte daquele que tem toda autoridade no céu e na terra (Mt 28.18-20).


1.3. Oração de Guerra

É triste perceber que, em várias igrejas evangélicas, batalha espiritual deixou de ser a luta cotidiana do cristão por resistir as tentações, mantendo a fidelidade em busca de santidade e maturidade cristã, vivendo para a glória de Deus, buscando o Seu Reino em primeiro lugar (Ef 6.10-20), e tornou-se um espetáculo de confronto pessoal e direto contra os demônios, em que, reuniões de oração deixam de ser os momentos de buscar a Deus e suplicar a Ele (Ef.6.18,19), para transformarem-se nos momentos de falar mais com os demônios do que com Deus, onde Satanás acaba até tornando-se o centro das atenções.

O texto mais clássico da Bíblia sobre Guerra Espiritual encontrasse em Ef 6.10-20 e não existe nele nada que justifique tais práticas. Antes, o ensino do Apóstolo Paulo é de que os crentes vencem a Satanás revestindo-se de Cristo, colocando sua armadura que é composta de virtudes tais como: a justiça, a proclamação do Evangelho da Paz, a fé, a salvação, a Palavra de Deus e a oração. Nada lemos sobre a necessidade de se conhecer os nomes dos demônios que dominam determinada região geográfica para podermos travar batalha direta com eles e os expulsar. Não encontramos tal fascínio pelo adversário ou pelo oculto e místico, nem aqui e nem em outras partes da Bíblia. Vencemos o adversário de nossas almas nos ocupando com as coisas excelentes e boas que o Senhor nos proporciona para enfrentarmos os desafios do dia a dia. Jó, por exemplo, venceu sua grande batalha espiritual sem dirigir uma só palavra ao diabo que o atormentava. Vamos erguer os nossos olhos na direção daquele que é o nosso socorro bem presente na hora da angústia, olhando firmemente para o autor e consumador da nossa fé.

Nada de paranóia e esquizofrenia. Muitos cristãos ficam tão fissurados com tais conceitos de batalha espiritual que acabam ficando perturbados, passando a enxergar o diabo em tudo. Se é certo que não devemos subestimar o inimigo, é certo também que não devemos superestimá-lo, fazendo dele o centro de nossas atenções. Pelo contrário, Cristo deve ocupar o centro de nossa vida, o que já é nossa garantia de vitória. Nossos pensamentos devem estar ocupados com "tudo o que for puro, amável..." (Fp 4.8), "nossos olhos postos no autor e consumador de nossa fé" (Hb 12.2) e devemos "buscar as coisas que são do alto" (Cl 3.1-3). "Não devemos dar lugar ao diabo" (Ef 4.27) e nem devemos dar ocasião ao pecado, mas, pelo contrário, devemos tomar as seguintes atitudes seguindo o conselho do Apóstolo Paulo: deixar a mentira; não guardar rancor e ira; não falar palavras torpes; nada de gritaria, blasfêmias e malícia, etc... (Ef 4.25-31), buscando ser imitador de Cristo, andando em amor e santidade (Ef 4.32-5.2).

E se o mal ou a praga, como vimos anteriormente, for de procedência divina como um juízo sobre o pecado (2 Cr 7.13)? Aí não dá para "amarrar" ou "declarar" nada. Aí o caminho para a libertação dessa calamidade é a humilhação de um coração verdadeiramente arrependido que suplica por misericórdia diante de Deus como vemos no versículo seguinte: "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar e se arrepender dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra" (2 Cr 7.14). E se a praga possui um fim pedagógico visando nosso aperfeiçoamento espiritual como no caso do espinho da carne de Paulo? Neste caso, com já foi dito, nem as 3 orações de Paulo foram suficientes para remover a chaga, pois a resposta de Deus foi: "a minha graça te basta e o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2Co 12.9), de modo que Paulo passou então a glorificar e dar graças a Deus por aquela enfermidade, pois conseguia ver o propósito divino e a boa mão do Senhor Todo Poderoso sobre sua vida, convertendo a fraqueza em vigor (v.10).

2. Nossas armas

Deus nos concede armas especiais para batalhamos contra o diabo (1 Pe 5.8; Ef 6.12), contra as influências negativas do mundo (1Jo 2.15-17) e contra as paixões desordenadas de nossa própria carne (Co 3.5; Tg 1.14 e 2Pe 2.18). "As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas" (2 Co 10:4).


Nesta guerra contra o mal, somos protegidos e assistidos pelo Senhor. Dele vem a nossa força e vitória! “Ó SENHOR, meu Deus e meu Salvador, tu me protegeste na batalha” (Sl 140.7). "O Senhor me livrará de toda obra maligna e me levará a salvo para o seu Reino celestial. A ele seja a glória para todo o sempre. Amém" (2 Tm 4:18). “Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15.57). "Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês" (Tg 4:7).

Para decepção daqueles que são místicos e esotéricos, Paulo descreve a armadura de Deus em termos bem práticos de vida cristã que tem tudo a ver com nossa comunhão com Deus através da fé, da Palavra da Verdade, da oração, da salvação, da prática da justiça e da pregação do Evangelho:
"Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder. Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo, pois a nossa luta não é contra pessoas, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais. Por isso, vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, vestindo a couraça da justiça e tendo os pés calçados com a prontidão do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica; tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem na oração por todos os santos. (Ef 6:10-18).

Portanto, "combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1Tm 1.18,19).


3. A Batalha Espiritual em favor do Reino de Deus

Jesus veio trazer o Reino Deus à terra para por fim ao império das trevas. Jesus veio ao Mundo para desfazer as obras do diabo (1Jo 3.8). Jesus deixou claro que sua tarefa messiânica incluía mais do que evangelização, por envolver também a libertação dos cativos e oprimidos, com restauração da saúde e da justiça: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor" (Lc 4.18-19).

O Reino de Deus já foi inaugurado e está em conflito contra o mal. A expulsão de demônios era um sinal da chegada do Reino. Apocalipse 20 conta que o Dragão, Satanás, foi preso em correntes e lançado no abismo com o propósito de não mais enganar as nações. Jesus mesmo já havia dito que o ato de expulsar demônios pelo Espírito de Deus era um sinal claro de que já era chegado o Reino dos Céus, pois o "valente", uma clara referência a Satanás, havia sido primeiramente amarrado, no sentido de não poder mais impedir que sua casa fosse saqueada (Mt 12.22-29). É interessante notar que o mesmo termo utilizado em Mateus 12 para descrever o aprisionamento do homem valente é utilizado também em Apocalipse 20 para descrever o aprisionamento de Satanás, o termo grego dhshi. Este aprisionamento de Satanás deve ser entendido em termos da restrição de seu poder, no sentido de não poder continuar enganando as nações como vinha fazendo até a primeira vinda de Cristo (Ap 20.3). Agora, uma vez amarrado, não pode impedir o avançar de Cristo e de sua Igreja (Mt 16.18; 24.14; 28.18s; Mc 13.10, At 1.8).

A Igreja, que é o Corpo de Cristo, segue na mesma missão sem poder ser definitivamente impedida pelas forças do inferno, pois sabemos que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16.18b) e João disse: "a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela" (Jo 1.5). Pois Jesus é o Rei e, como tal, tem todo poder no Céu e na Terra (Mt 28.18).

Existe um outro texto que, a semelhança de Mateus 12.28s, também está num contexto de expulsão de demônios, tratasse de Lucas 10.17-24, que descreve a alegria que os discípulos estavam experimentando por estarem sendo capazes de exercer autoridade sobre os demônios. E é interessante notar que aqui também, Jesus menciona algo sobre a derrota e perda de poder de Satanás, mas só que, em vez de dizer que Satanás está preso ou amarrado, ele o descreve como que caindo do céu, um sinal evidente de que seu poderio havia sido tremendamente abalado. E, para confirmar esta idéia, no v. 22, Jesus declara que tudo lhe foi entregue pelo Pai. João 12.31,32 é outro texto que mostra como a queda ou aprisionamento de Satanás estão diretamente associados à atividade missionária dos discípulos, pois a expulsão de Satanás está associada com o fato de que não somente judeus, mas também gentios de todas as nações estarem sendo atraídos a Cristo.ii

Para reforçar ainda mais esta interpretação temos textos como 2 Pedro 2.4, que falam dos demônios como já tendo sido lançados no abismo: "Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo" e Judas 6 fala dos demônios como já tendo sido presos e algemados sob trevas: "e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia". Notar também que o próprio livro do Apocalipse fala deste abismo em outros capítulos: "Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar" (Ap 9:2)... "e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom" (Ap 9:11)... "Quando tiverem, então, concluído o testemunho que devem dar, a besta que surge do abismo pelejará contra elas, e as vencerá, e matará" (Ap 11:7)... "A besta que viste, era e não é, está para emergir do abismo e caminha para a destruição. E aqueles que habitam sobre a terra, cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e não é, mas aparecerá" (Ap 17.8). Note que é dito que a Besta surge do Abismo para pelejar contra os santos, o que concorda com Ap 20.3 que diz que é necessário que seja solto do Abismo por pouco tempo (Compare com Ap 12.12, que fala da última investida de Satanás, tendo consciência de que pouco tempo lhe resta). E os próprios premilenistas reconhecem que a manifestação da Besta se dará na era presente, ou seja, antes da Segunda Vinda de Cristo.

Não se pode negar que o Reino de Deus já foi inaugurado. Paulo diz que "é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte" (1Co 15.25-26). Neste texto, Paulo fala do Reino de Deus em termos da presente era, ao afirmar que é necessário que Jesus reine pondo de maneira gradativa um a um os inimigos debaixo de seus pés, e, falando ainda que o último inimigo a ser destruído será a morte, sendo que, neste mesmo capítulo, mais adiante, ele ensina que a morte será tragada pela vitória da ressurreição que se dará por ocasião da Segunda Vinda de Cristo. Sendo assim, a Segunda Vinda marcaria o fim e não o começo desta etapa do Reino de Deus em que Jesus reina até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés, pois será somente aí, na Sua Segunda Vinda, que se dará a destruição da morte que será o último inimigo a ser posto debaixo dos seus pés. Não há como escapar desta conclusão sem ferir o claro e real significado deste texto. E Paulo, ainda, afirma claramente que os cristãos já estão no reino de Jesus, dizendo: "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Cl 1.13). E não podemos esquecer que a mais básica e primitiva de todas as confissões cristãs é "Jesus é o Senhor". Tal afirmação possui muitas implicações pessoais, sociais, políticas e ecológicas. Tantos foram os cristãos que morreram por causa desta aparente "simples" confissão, que significa mais do que dizer que Jesus é o Senhor da minha vida, pois Jesus é o Senhor de todo os reinos do Mundo. Não existe um único grão de areia deste planeta que não esteja debaixo de seu senhorio, por esta razão Jesus é aclamado como sendo "O Rei dos reis e O Senhor dos senhores".

Temos também razões para crer que a Igreja será bem sucedida no cumprimento de sua missão, primeiro por que o Senhor Jesus ao comissionar seus discípulos fez questão de dizer que todo poder lhe havia sido dado tanto no céu como na terra e garantiu que sempre estaria com eles (Mt 28.18), disse também que eles receberiam o poder do Espírito para serem testemunhas do Rei em todas as partes do Mundo (At 1.8), e garantiu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja e que certamente o Evangelho seria pregado para testemunho a todas as nações antes do fim (Mt 16.18 e 24.14). A Bíblia também diz que "a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar" (Hc 2:14), o que o retrato de uma visão poderosa do futuro do Reino de Deus que deve inspirar e mover a Igreja ao cumprimento de sua missão. Jesus também cuidou de amarrar o valente e concedeu poder aos discípulos sobre os demônios e sobre todo o poder do inimigo (Mt 12.28 e Lc 10.18,19). Paulo disse que os cristãos que vivem neste mundo já estão assentados juntamente com Cristo nas regiões celestiais acima de todo principado e potestade e abençoados com toda sorte de bênçãos e graças espirituais (Ef 1.3, 20-23 e 2.6). Além disto, muitas parábolas do Reino mostram que o Reino crescerá aqui na Terra assim como o trigo, como o grão de mostarda e como o fermento que levada toda a massa (Mt 13).

O Reino de Deus foi inaugurado na Primeira Vinda. A batalha decisiva já foi ganha, mas a luta continua até a Segunda Vinda. Enquanto isto, o Reino de Deus na era presente é caracterizado pela tensão entre o já e o ainda não. O cristão caminha a sombra da cruz e a luz da ressurreição. A entrada triunfal de Jesus em sua primeira vinda foi montado num jumentinho (Mc 11.7) e seu estilo de liderança foi pautado em atitudes humildes de serviço, exemplificado no ato de lavar os pés dos discípulos (Jo 13.5) e quando ensinou aos seus discípulos que o maior no Reino dos Céus é aquele que é humilde, aquele se coloca como o menor, numa condição de servo de todos, numa radical inversão de valores (Mc 10.44, Mt 18.4). Jesus venceu na cruz (Cl 2). A cruz deve ser também uma característica marcante de seus seguidores (Lc 9.23). O Poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Co 12.9). O tesouro foi posto em vasos de barro (2 Co 4.7).

O Reino de Deus será plenamente manifesto na Segunda Vinda – Dia do Senhor, quando teremos a Batalha Final. Diferentemente da Primeira Vinda, Cristo regressará com grande poder e glória, vindo sobre um Cavalo, não mais sobre um jumentinho (Mc 11.7), e destruirá o inimigo com o sopro de sua boca (2 Ts 2:8).

O crente já vive tanto na era presente como na era futura, pois já está em Cristo e é um com ele. Paulo declara que os crentes em Cristo, que vivem neste mundo, já foram ressuscitados e estão assentados com Cristo nas regiões celestiais, onde está o trono de Deus: "e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus" (Ef 2:6). Paulo diz que isto já aconteceu. Não é futuro, é uma realidade presente. Jesus diz coisas aos seus discípulos que mostram em que sentido os cristãos estariam reinando aqui na terra: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus" (Mt 18.18). "Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano" (Lucas 10:19).

Jesus antes de subir aos céus proclamou que todo o poder lhe havia sido dado tanto no céu como na terra e nos deixou a missão de fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20). A Igreja é o corpo de Cristo e reina com ele, vivendo a serviço do Rei. Mas é preciso que se reconheça a natureza deste Reino de Cristo, pois se de um lado sabemos que Jesus já é o Senhor e que o seu reinado já foi inaugurado, por outro, ainda não vemos todas as coisas debaixo dos pés de Cristo, conforme lemos em Hebreus 2:8: "todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas" (ver também Hb 10.13). É preciso observar que, na parábola do Joio e do Trigo (Mt 13), que é uma das parábolas do Reino de Deus, paralelamente ao crescimento do trigo, observasse também o crescimento do joio. Portanto, realismo bíblico ajuda a evitar os extremos perigosos do ufanismo de uns e da acomodação de outros que postergam a inauguração do Reino para depois da Segunda Vinda de Cristo.

Existe um relacionamento estreito entre Escatologia, Espírito Santo e a Missão da Igreja. Sabemos que a promessa do Espírito é dom escatológico por excelência (At 2.16-21; cf.. Jl 2.28-32), sendo também amostra do futuro de Deus (Rm 8.19-23), sendo, mais do que adiantamento, parte do cumprimento. Sabemos ainda que quando os discípulos fazem uma pergunta escatológica (At 1.6) a resposta de Cristo inclui o dom do Espírito Santo equipando para a obra de evangelização mundial (At 1.8). Pedro ensina que há um propósito para o que encaramos como "demora" do retorno de Cristo, que é a longanimidade de Deus e seu desejo que nenhum ser humano pereça (2 Pe 3.9); Pedro ensina que podemos fazer algo para "apressar" a Segunda Vinda de Cristo (2 Pe 3.12), que depende, em algum sentido, das conversões (At 3.19-21). Jesus disse: "Mas é necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações" (Mc 13.10; cf. Mt 24.14). O livro do Apocalipse mostra que isto se dará ao descrever a multidão incontável de mártires cristãos procedentes de todas as tribos, povos, línguas e raças (Ap 7.9). O que concorda com a profecia de Jesus que fala que "muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus" (Mt 8.11, comparar com Ef 1.10). Conforme o ensino do apóstolo Pedro, a Segunda Vinda de Cristo depende da realização dos propósitos de Deus, que, por sua vez, estão vinculados à missão do Espírito e da Igreja. É desta forma que podemos entender o que o apóstolo quer dizer com esta incumbência dada aos cristãos de "apressar" a vinda do Senhor (2 Pe 3.12). De modo que o período antes do fim não é um tempo de espera infrutífera, mas é época da missão do Espírito e da Missão da Igreja.

Portanto, entendendo melhor a natureza e o propósito das batalhas espirituais tanto na sua dimensão pessoal quanto cósmica, busquemos a plenitude do Espírito, revestindo-nos de toda armadura de Deus, a fim de que possamos resistir e desfazer as obras do diabo, combatendo o bom combate da fé com muito amor e dedicação a Deus em nossa missão de difundir Evangelho do Reino de Deus, fazendo discípulos de todas as nações, por palavras e obras, como sal da terra e luz do mundo até que a plenitude venha no dia glorioso do Retorno do Rei.

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