segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Da infabilidade das Escrituras II


Desde os meus primeiros anos em um seminário, ouvia falar muito mal de Karl Barth.
Isto porque, segundo meus mestres, Barth dizia que a Bíblia “contém” a Palavra de Deus, e não que “é” Palavra de Deus.
Obviamente, fiquei muito tempo sem ler Barth...
Ocorre que, passado um tempo, percebi que é Barth, na verdade, que se mantém fiel ao protestantismo, e não os meus mestres...
Isto porque, o mencionado teólogo, no meu entender, nada mais faz do que fazer reverberar os próprios ditos de Lutero, o grande reformador.
Lutero entendia que a Palavra de Deus é o próprio Cristo, que habitou entre nós, viveu vida de cruz, morreu por nós e ressuscitou.
E as Escrituras disso dão testemunho, apontam para este fato, mas não são o fato em si.
E Lutero não acreditava na infabilidade total dos textos bíblicos, tanto é duvidou da inspiração da epístola de Tiago do cânon, de trechos de Hebreus e Apocalipse, além dos livros apócrifos (deuterocanônicos, para os católicos).
Karl Barth, no meu sentir, tão somente retransmitiu tal ensino, obviamente, com contribuições a ele inerente.
Acreditar na infabilidade de uma lista de livros equivale a acreditar na infabilidade de quem fez tal lista, seja tal autor um teólogo católico, ou protestante, seja o concílio que a declarou católico ou protestante.
E aí, já se admite a infabilidade de uma autoridade fora das Escrituras, caindo portanto, no conceito católico.
Por isso, o conceito protestante admite a infabilidade absoluta única e exclusiva de Cristo, sendo a Escritura um meio, uma testemunha, um sacramento; não o fim em si, sendo a própria lista canônica um conceito satisfatório, recomendável, porém, aberta.


Daí, nunca foi o intuito do criador do conceito de "Sola Scriptura" defender, seja a infabilidade de uma lista de livros, nem a infabilidade "tim tim por tim tim" de tudo o quanto está descrito no conteúdo total das Escrituras.


Mas como definir o que é infalível ou não no conteúdo bíblico, ouço alguém perguntar?


É para isso que existe teologia e teólogos, em constante visitação dos textos bíblicos, da tradição e da cultura em geral...