quarta-feira, 15 de junho de 2011

Diálogo com um evangelical que pensou em se tornar cristão Ortodoxo

O trânsito religioso em nosso meio tem sido muito grande.

Foi comum, na história religiosa de nosso país, a migração de pessoas oriundas do catolicismo ao protestantismo, das mais variadas vertentes.

Entretanto, ultimamente, o contrário também tem ocorrido.

Fiz algumas entrevistas, estudos, neste campo, e lembro-me de um diálogo/debate que tive com um amigo de Recife, o Jeferson, que estava pensando, naquele momento, em deixar de ser protestante para se tornar cristão Ortodoxo.

Atualmente, ele mora no Canadá, e voltou a atuar no meio evangélico, mas sem em nenhum momento desrespeitar a Ortodoxia, pois esta enriqueceu bastante a sua cosmovisão cristã.

Com a permissão dele, eu passo a publicar neste blog um pouco do que conversamos por email (com os erros de concordância e gramáticas próprios de conversações informais).

Ressalto que é um diálogo muito enriquecedor. Quem tiver paciência para ler, verá informações valiosíssimas acerca da história da Igreja, informações sobre a Ortodoxia, Anglicanismo, Catolicismo Romano e Protestantismo. Verá questões críticas de ordem familiar quando alguém pensa em mudar de religião, ainda que seja cristã. Enfim, arquivo este texto pois fez parte de um momento muito importante de minha própria vida, em que eu também procurava por respostas.




From: carloseino@hotmail.com
To: jefsap@yahoo.com
Subject: Continuando...
Date: Sat, 22 Sep 2007 12:29:14 +0000


... Olá, Jeferson.

Conforme disse, entendo quando dizes acerca da "babilônia de doutrinas protestantes".

Entendo o alento que diz sentir também ao estudar a Ortodoxia, talvez mais precisamente os antigos padres.

Eu mesmo já considerei a possibilidade de migrar para a Ortodoxia, mas não o fiz precisamente por dois motivos, pelo menos:

O primeiro, é a distância cultural que nos afasta dos Ortodoxos, principalmente em seus aspectos litúrgicos. Ao meu ver, quando eles "congelam" aspectos litúrgicos bizantinos para todas as épocas e lugares, dogmatizando-os (isso mesmo, para eles não se pode haver alteração da liturgia), penso, criam um certo obstáculo para a propagação do evangelho.

É bem verdade que muitos protestantes têm se tornado ortodoxos, mas geralmente são pessoas de bom nível teológico e cultural. Ou seja, bem poucos farão este caminho.

Outro aspecto que me impediu, de certa forma, de me tornar cristão Ortodoxo, é que, pelo menos nas expressões que presenciei, são muito anti-ecumênicos. Não "rezam" nem comungam com outros cristãos. Suas vertentes mais radicais dizem que "não há graça verdadeira fora da Igreja Ortodoxa. Muitos não reconhecem nem as ordens romanas, não obstante a aproximação de alguns Patriarcas ao Pontífice Romano. Em relação ao protestantismo então, são ainda mais radicais. Vi exceção a isto nos "Ortodoxos" Armênios e, salvo melhor juízo, Coptas, mas estes não são considerados parte integrantes da Ortodoxia mundial.

Negar que não haja graça verdadeira fora dos limites da Ortodoxia seria negar uma aspecto muito importante de minha vida; neste sentido, penso que Roma é muito mais viável, visto que, após o Concílio Vaticano II, reconhece que o Espírito Santo atua nas "Comunidades Eclesiais" (ou seja, nós protestantes) e que somos dignos de sermos chamados de irmãos.

Também considerei a possibilidade de "voltar para Roma". Mas aqui também seriam inúmeros os obstáculos para tal atitude.

Uma delas, é que, entendo, se retroprojeta ao passado dogmas mais recentes, e tornam-os obrigatórios para todos os católicos. Para se ser um bom católico, tem que se acreditar em tais doutrinas (ex: imaculada conceição, assunção de Maria, infabilidade papal), ou então se viverá na marginalidade da Igreja, conforme têm vivido muitos católicos tachados de modernistas.

Por outro lado, aspectos da ética moral romana, como o celibato obrigatório, a proibição do uso de preservativos, a proibição de um novo casamento após o divórcio, independente do motivo, um rígido clericalismo que penso ainda imperar naquela igreja, são, pelo menos por enquanto, opções que não me agradam nem um pouco.

Por isso que optei em conhecer mais profundamente o anglicanismo.

Isto porque, há uma sincera tentativa de se viver aspectos plurais da fé, entretanto, mantendo-se sob uma mesma comunhão. Há uma clara tentativa, não sem dificuldades, é verdade, de se tentar viver juntos (compreensividade) mesmo se tendo visões diferentes acerca de questões de fé, a ponto de haver no anglicanismo uma versão evangelical, uma liberal e uma anglo-católica, que buscam viver em comunhão (não sem dificuldades, como eu disse).

Outro aspecto positivo é que procurou manter a catolicidade da Igreja (é hoje, denominacionalmente, a segunda ou terceira maior denominação mundial, se contarmos os patriarcados ortodoxos isoladamente) e, em presença em países, a segunda maior do mundo; manteve o epíscopado histórico (sucessão apostólica?), mas não deixa de reconhecer a eclesialidade dos demais protestantes, e sempre mostrou vanguarda ecumênica, já unindo sob o seu sistema episcopal diversas denominações ao redor do mundo.

Portanto, por mais importante que foram os concilios ecumênicos, por mais importante que seja a tradição, algo que prezo muito (e os anglicanos também) é a diversidade e a liberdade de pensamento. Isto causa muito escândalo a alguns ortodoxos de qualquer vertente cristã; mas penso que é algo que não se dá mais para abrir mão, principalmente a luz de novos estudos teológicos e exegéticos. Então, é uma igreja em que se convivem pessoas que, por exemplo, aceitam a literalidade do nascimento virginal, da ascenção de Cristo aos céus, dos milagres, etc, bem como de pessoas que entendem que tais coisas são simbólicas, formas de expressões religiosas da época, e que não precisam ser condenadas ou expulsas por pensar desta maneira.

Tenho a impressão que o protestantismo errou ao não preservar o sistema episcopal. Errou em não olhar para o Oriente. Em privilegiar a experiência subjetiva (Wesley?) em detrimento do consenso católico. Entretanto, mesmo a absolutização do consenso sobre o pensamento acerca da divindade não é a divindade em si, podendo tornar-se idolátrico, de modo que o princípio protestante precisa sobreviver junto à substância católica (Tillich).

Se você for o "fake" que eu estou pensando que seja, tenho alguma dúvida se conseguirá se tornar Ortodoxo ou Católico Romano por causa destas e de outras questões que abordei (não o digo que não consiga, mas é muito difícil, pois pode significar, em alguns momentos um "sacrificium intelectum" - não que isto seja negativo sempre - talvez possa ser o melhor em algumas situações). Por outro lado, há inegáveis e maravilhosas contribuições litúrgicas e espirituais em ambas as grandes tradições (hesicasmo, misticismo, filocalia, etc) que são sensacionais e "aquecem ao coração".

Tenho alguns amigos anglicanos aí em Recife (muito cultos, e bem católicos) que talvez você conheça. Talvez a falta de compromisso, seriedade e ardor de muitos anglicanos no Brasil não tenha tornado o anglicanismo uma atração viável aos evangélicos insatisfeitos (digo isso, pois me aproximei do anglicanismo pelo que estudei, não pelo que eu vi). Se quiser, podemos aprofundar o nosso diálogo acerca destes assuntos.

MInha filhinha está completando um ano e seis meses. Esta aqui tentando subir no meu colo (vou ter que atender). Espero sinceramente que possamos continuar o nosso diálogo. Que Deus nos auxilie em nossa eterna busca.

Carlos Seino.



Date: Mon, 24 Sep 2007 -0700
From: jefsap@yahoo.com
Subject: Re: Continuando...
To: carloseino@hotmail.com


Carlos,
 
Agradeço muito você ter me escrito. Sempre quis fazer debates a dois por e-mail porque aqui somos bem reais já que não existe platéia.
 
Bem, concernente ao que você falou da igreja ortodoxa e sua desistência de migrar para a ortodoxia devido a grande diferença cultural e ao anti-ecumenismo, o que eu tenho a dizer é que eu fui apresentado a uma ortodoxia diferente.
 
Meu primo é ortodoxo da Igreja da Sérvia, ele juntamente com um padre ortodoxo têm me apresentado uma ortodoxia bem diferente da que você se referiu.
 
A única igreja ortodoxa, e por sinal a maior, que é anti-ecumenica é a russa, por vários motivos históricos, mas os outros patriarcados, principalmente o patriarcado ecumênico de Constantinopla quer o ecumenismo, e visitam sempre o papa com o pedido de aceitação do titulo Patriarca do Ocidente e rejeitando os dogmas do VIII concílio em diante, concílios pós-cisma. Eles estão lutando para que Roma volte a ser um Patriarcado com a primazia de honra sobre os demais patriarcados.
O papa João Paulo com o Patriarca de Constantinopla se reuniram onde retiraram a mutua excomunhão e sentaram em tronos paralelos, simbolizando a igualdade de
autoridade.
A igreja ortodoxa estava até disposta a aceitar os dogmas romanos como teologumenas de sua jurisdição, mas a igreja mais adversa a essa idéia é a Russa, da qual os outros patriarcados temem surgir uma nova cisão se houvesse uma união com Roma.
 
Infelizmente aqui no Brasil algumas igrejas ortodoxas são do patriarcado russo, e algumas delas são bem xiitas (só algumas pessoas). No orkut, as comunidades ortodoxas também são xiitas, mas eles não representam os patriarcas.
 
 
Concernente agora a imutabilidade dos ritos, eu acho isso fantástico em termos, porque eterniza uma prática que vem desde os primeiros séculos.
Todavia, vale salientar que os patriarcados tem liberdade de “modernizar” suas reuniões extra-dominicais.

Nos Estados Unidos por exemplo, a liturgia durante a semana é bem “moderna”, deixando os ritos formais para as reuniões dominicais.
Veja o site oficial da diocese americana:http://www.goarch.org - assista aos vídeos do multimedia. Há inclusive uma banda de rock formada por monges (não sei se é americana).
 
Perguntei ao padre ortodoxo se eles consideram a igreja anglicana uma igreja genuína, e ele me disse que a Igreja Anglicana era considerada um atriarcado não oficial pela igreja ortodoxa, visto que ela tem sucessão apostólica de Pedro, que se junta a Romana no XI século, e também por ser uma igreja “avó” dela veio igrejas que já gerou outra igreja (dioceses). Fiquei muito feliz por isso, por ser eu anglicano.
 
Você também tocou no ponto de você “voltar à Roma”... bem, quanto a mim, eu não me tornaria romano porque na minha ótica o modelo de governo é sinodal e não ditatorial. Um homem só, não pode mandar em toda a Igreja de Cristo com seus pronunicamentos ex-cathedras. Também não pode ser o substituto de Cristo, e nem sucessor do príncipe dos apóstolos (não havia nenhuma autoridade máxima entre os apóstolos).
Tudo o que eu discordo da romana eu encontro respaldo na igreja ortodoxa. Ou seja, não é algo inventado pelos protestantes de 500 anos para cá.
 
Na ortodoxia que eu fui apresentado também o conceito de Igreja e de Salvação é bem diferente da apresentada pela romana e pela protestante. Eles não acreditam em purgatório, mas acreditam que a salvação se estende para o homem no inferno, crendo que da mesma forma que Cristo foi ao Hades após a morte, trouxe uma possibilidade de salvação. Mas isso não é dogma, apenas Teologumena.
 
Também acreditam que ninguém pode deter a Igreja de Cristo. A ortodoxia nada mais é do que a responsabilidade de repassar a doutrina reta que receberam dos apóstolos, portanto as divergências são resolvidas em sínodos ecumenicos. Todavia acreditam que uma igreja autônoma precisa pelo menos ter ligação à um patriarcado, por causa da sucessão, que para eles é essencial. E aí é que entra a dificuldade de aceitar os protestantes como Igreja, mas apenas como cristãos participantes da salvação da Igreja seja hoje ou no porvir.
 
Essa doutrina me atraiu muito porque eu sempre fui encucado com a cultura evangelical de julgar quem sobe e quem desce, e a terrível síndrome de urgência do evangelismo doa a quem doer. Algo que gera muitos julgamentos alheios. Hoje em dia eu vejo todo mundo como Igreja que será salva hoje ou no porvir, sentindo apenas a necessidade de antecipar a Graça de se viver na presença do Pai ao meu próximo.
 
Sobre a liberdade de pensamento que você se refere, eu o entendo e já lutei muito por isso considerando isso essencial. No entanto tenho visto que isso apenas tem levado o protestantismo a mais divisões. O problema da liberdade de pensamento no protestantismo está no conceito de “Sola Escriptura” e no fundamentalismo de se pregar “a verdade” doa a quem doer. Só que aí um encontra nas Escrituras o termo “pré-destinado” e outros o conceito de livre-arbitrio, e já que o “outro” está se “desviando” das Escrituras, então é salutar chamá-lo de “herege”.
 
Já na ortodoxia, os dogmas estão apenas nos sete primeiros concílios ecumenicos, e o resto é apenas teologumena (algo do tipo especulação teológica, ou “liberdade de expressão” como você colocou).
 
Os ortodoxos prezam tanto pela unidade que eles acreditam, que simplesmente por causa da saída de Roma da pentarquia, eles afirmam que não existiram mais dogmas de fé, “o que ligardes na Terra será ligada no céu”.
 
Carlos, é um prazer manter esse diálogo com você por inúmeros e-mails. Poderemos pesquisar juntos e crescermos juntos, pois creio que tenho muito a aprender contigo.
 
Aqui vão alguns sites ortodoxos que gosto:
1. Ecclésia (Site ortodoxo brasileiro oficial):
http://www.ecclesia.com.br/
2. Arquidiocese da America:www.goarch.org/
3. Metrópole Santa da América:www.hotca.org/
4. Programa Eurobizantino (Have Faith):
www.ehellenism.com/
5. Father Alexander:www.fatheralexander.org/
6. Pró-ortodoxia:www.geocities.com/pro_ortodoxia/
7. Patriarcado Ecumenico (Site oficial):
www.ec-patr.org/
8. Patriarcado de Antioquia (Site oficial):
www.antiochian.org/
 
 
Abraços, paz e unidade,
Jéferson Sá



From: carloseino@hotmail.com
To: jefsap@yahoo.com
Subject: RE: Continuando...
Date: Mon, 15 Oct 2007 21:47:57 +0000

 
Primeiramente, Jefferson, mil perdões por demorar para te escrever. Só arrumei um tempo no final de semana. É tudo muito corrido para mim.

Mas vamos lá.

De fato, ouvi falar sobre a Ortodoxia Sérvia aí de Recife. São bem ativos, fazem missão, não são voltados somente para os imigrantes. Tenho um colega aí em Recife, que é o dono da comunidade de Apologética católica, o Thiago, que participou de um seminário desta igreja em relação ao tema “Sola Scriptura”. Mas também ouvi dizer que há algum problema "jurídico" por assim dizer, com os Ortodoxos Sérvios ai de Recife com o patriarcado no qual estavam ligados, mas não tenho muitos detalhes sobre isso.

Sobre esta “liberdade” litúrgica dos Ortodoxos americanos, realmente, isto é novidade para mim. Não pensei que isto fosse possível. Mas como você mesmo disse, fui apresentando a uma ortodoxia mais fechada quanto a isso. Em São Paulo, conheci gregos, antioquenos e russos.

Também acho muito interessante esta “imutabilidade” litúrgica, se bem que, entendo que muito do que lá está reflete um pouco a cultura de Bizâncio (e reflete talvez um pouco do esplendor imperial), e um certo desenvolvimento dos cultos da igreja primitiva.

Em relação aos anglicanos, tenho o entendimento que, mesmo jurisdições mais ecumênicas não aceitam as ordens anglicanas, nem nunca a aceitaram, apesar de terem estado bem próximas disto, e bem como, alguns ortodoxos terem expressado inclusive a opinião pessoal de que elas eram válidas (penso que até patriarcas já expressaram tal opinião). A partir do momento que os anglicanos passaram a ordenar mulheres, qualquer chance de reconhecimento das ordens anglicanas tornaram-se muito remotas.

Tendo em vista o viés católico do anglicanismo, e por este considerar-se uma terceira força do catolicismo, ao lado do ortodoxo e romano, muitos anglicanos gostariam de ver suas ordens reconhecidas, mas não que tal coisa seja absolutamente relevante. Isto porque, o anglicanismo é um tipo de catolicismo reformado, de modo que o diálogo tende a ser muito frutífero com reformados e luteranos, com mútuo reconhecimento das ordens, sacramentos, ministros, etc.

Quando te conheci, salvo melhor juízo, você era presbiteriano, ou estou enganado? Você foi batizado no anglicanismo? Ou se tornou anglicano depois? Está em que jurisdição? Na IEAB? (a IEAB é a única jurisdição no Brasil em comunhão com Cantuária, as demais, sem nenhum demérito, são cismáticas, ainda que sob a alcunha de continuantes, ortodoxas, ou coisas do tipo). Está pensando em ir definitivamente para a Ortodoxia?

Em relação a Roma, concordo com as mesmas questões por ti expostas, sem nenhum embargo, nem correção. E também porque, penso, não dá mais para ficar excluindo pessoas por pensarem diferentes, e nem mesmo por não acreditarem em todos os dogmas, o que me aproxima um pouco da “tradição” liberal do protestantismo.

Também conheço um pouco desta soteriologia ortodoxa, e também sou bastante aberto para estas questões. E também verifico que há mais otimismo entre os ortodoxos em relação aos “heterodoxos”, não obstante serem radicais em sua defesa à ortodoxia.

Sobre o conceito de “Sola Scriptura”, penso que dentro do contexto reformado, ele é perfeitamente cabível. Isto porque, os reformados nunca pregaram “Nua Scriptura”, não desmereceram a tradição; entretanto, corretamente a meu ver, deram um “freio” ao que entenderam ser uma tendência romana em se ficar acrescentando dogmas necessários para a salvação. “Sola Scriptura” entendo como ser tão somente um limite para que não se venha a exigir do fiel alguma crença que não possa ser fundamentada nas escrituras, e que seja necessária à salvação”, conforme o artigo 7º dos artigos de religião da Igreja da Inglaterra.

É o individualismo norte-americano, que se “assenhorou” de tal conceito, distorcendo-o, fazendo com que houvesse mais divisões. Na verdade, é o fundamentalismo (contrario a tal liberdade) que causa divisões, e não a liberdade de pensamento. A teologia liberal nunca produziu sequer uma divisão. Geralmente são os fundamentalistas, com aquela visão de igreja pura, etc, que criam divisões. Correntes teológicas diversas existem, mesmo nas igrejas históricas, como batistas que crêem e os que não crêem na predestinação, etc. Anglicanos, Reformados, Metodistas e Luteranos europeus têm bem pouquíssimas divisões, e na verdade, estão em amplo consenso ecumênico.

 Em relação aos concílios, de fato, ouvi certo padre ortodoxo dizer que os concílios pós cismas são tão somente concílios locais, mas não universais.

 O problema, a meu ver, na ortodoxia, para a maioria dos evangélicos, cuja tradição pertenço, é a grande distância cultural que há entre eles e nós. Eu e você, somos estudantes de teologia e amante do cristianismo. Mas e nossos pais? Nossas esposas, filhos e primos? É uma questão muito complicada. E o catolicismo (lato sensu) tende a reproduzir os mesmos vícios de sempre (concentração de tarefas nas mão dos clérigos, rígida divisão entre clero e laicato, leigos pouco engajados, maior presença de fiéis em dias especiais, como casamentos, batismos, etc. Pelo menos, são estas, dentre algumas dificuldades que eu apontaria no catolicismo de modo geral, inclusive no anglo-catolicismo.

É um prazer conversar contigo, e tenho tentado arquitetar uma forma de ir qualquer dia aí para Recife. Espero fazê-lo em breve!!! Tenho alguns colegas aí, além do Thiago, o Marcos Bittenca (pastor Batista) e o Rev. Senomar (diácono da IEAB).

Um grande abraço.



> Date: Tue, 23 Oct 2007 -0700
> From: jefsap@yahoo.com
> Subject: RE: Continuando...
> To: carloseino@hotmail.com

Carlos,
 
Meu amado irmão, paz e bem. Terei muito o que aprender contigo. Sempre que leio teus posts na comunidade sempre tiro alguma coisa especial para mim.
 
Não se preocupe com sua demora, pois sei que precisamos de tempo para nossos afazeres prioritários, como família, trabalho, etc.
Agora eu que tenho que pedir perdão por não ter olhado direito no Bulk do Yahoo, porque seus dois e-mails estavam lá. Isso não vai mais acontecer, não se preocupe.
 
Sobre o problema jurídico em relação do patriarcado ao qual os Sérvios estavam ligados aqui no Recife, eu desconheço, mas vou perguntar ao padre Aléxis, padre ortodoxo.
 
Sobre a liberdade litúrgica dos norte-americanos. Você viu algum vídeo dos links que lhe passei? Bem, queria deixar claro que não se trata de liberdade litúrgica. Na verdade eles seguem a liturgia aos domingos de forma bem tradicional, no entanto durante a semana ficam livres para atividades da igreja, e nessas atividades eles fazem reuniões voltadas para os jovens, de uma forma bem contemporânea. Isso eu acho fantástico, porque tanto mantém a tradição milenar, como não afastam os jovens que necessitam de
contextualização.
 
O padre me falou que estão vendo a possibilidade de trazer um bispo americano para aqui, para que os bispos da América estejam ligados à diocese americana, a fim de unificarem.
 
Reflexão da cultura Bizantina. De fato a liturgia reflete a cultura bizantina, no entanto é de São João Crisostomo, e uma das mais antigas, se não a mais antiga, liturgia cristã.
 
Ordenação de mulheres e igreja Anglicana. De fato você tem razão. O maior entrave de reconhecimento do anglicanismo por parte dos ortodoxos é a questão da ordenação feminina que fere até um concilio ecumênico, não lembro qual.
Um padre me disse que eles consideravam a igreja anglicana como um patriarcado não oficial, e só bastava o arcebispo se tornar ortodoxo, para ele já ser considerado um patriarca. Todavia eu acho que isso implicaria na renuncia do Arcebispo em ordenar mulheres, algo que está muito enraizado no Anglicanismo.
 
Quanto a minha posição em relação à ordenação feminina. Creio que Deus levanta pastoras inquestionavelmente, mas não sei se o titulo e a ordenação é realmente necessária!! Manter-se fiel à tradição e aos concílios não é algo tão difícil assim e se fazer. Por amor a unidade, e por temer brechas para argumentos dos homossexuais afim de serem ordenados também, o melhor seria a renuncia de ordenação feminina. Sei que isso não é tão simples assim, mas é algo que deveria ser pensado melhor. Tendo em vista o foco nas doutrinas das Escrituras, as igrejas evangélicas e anglicanas poderiam rever essa doutrina que dá margem para uma série do outras doutrinas liberais.
 
Eu não sei se eu era presbiteriano quando você me conheceu, mas deixe-me falar sobre meu percurso. Eu me converti numa facção da igreja presbiteriana chamada Videira Verdadeira, que acabou. Fui batizado por asperção ao terceiro dia de conversão. Depois fui para a Assembléia de Deus, onde vi o pastor fugir com o dinheiro da igreja. Depois ficamos sem jurisdição e o presbítero formou uma outra denominação chamada Novo Viver. Fui batizado por imersão. Entrei no seminário pentecostal. Dessa igreja eu conheci muita gente da faculdade que era da Anglicana. Dali, eu fui convidado para tocar na IPB onde eu conheci minha esposa. Mas não fiquei na IPB, e acabei indo para a Anglicana. Fui crismado. Da Anglicana fui convidado para abrir uma IPU aqui em Recife. Entrei no Seminário Anglicano. Da IPU fui para uma igreja americana chamada Calvary Chapel para começar o ministério de louvor de lá. Formei-me no seminário Anglicano. Com o abandono dos missionários, eu voltei para a Anglicana. Da Anglicana comecei a me interessar pela ortodoxia.
 
Como cheguei à ortodoxia. Primeiro me interessei pela distinção do Cânon Bíblico e Apócrifos. O que me levou ao estudo do gnosticismo, que me levou ao Irineu de Lião, que me levou a patrística, que me levou a ortodoxia. Depois soube que meu primo estava na igreja ortodoxa, o que me deu acesso aos padres ortodoxos e a liturgia, o que clareou muito mais o que eu sabia superficialmente sobre a ortodoxia.
 
Roma e a “tradição” liberal inclusivista do protestantismo. Enquanto Roma exclui o protestantismo “inclui” dando liberdade de pensar, só que a liberdade de pensar e teologar dá margens às facções dos fundamentalistas, sem falar na babilônia de idéias e
interpretações bíblicas, algo que já me fez muito mal, e me levou ainda mais a olhar para a ortodoxia.

A ortodoxia chegou na minha vida como que enviada por Deus realmente. Porque eu estava completamente confuso com as inúmeras interpretações teológicas. Mas como eu
não era fundamentalista, e nunca serei, eu acreditava que deveria realmente haver liberdade de interpretação desde que não fosse nada imposto como verdade absoluta.

Isso me fez um mal sem tamanho, porque a fé precisa de fundamentos sólidos, caso contrário ela desaba.
Devo também ao abandono dos missionários. Como eu fiquei sofrendo nessa igreja sem o suporte dos missionários, eu comecei a questionar muitas coisas, e nesse momento precisava de coisas mais sólidas o que eu não encontrava no evangelicalismo. Na minha mente só tinha “babilonia, babilônia, babilônia”.

Como o meu conhecimento sobre a ortodoxia, antes do contato com os ortodoxos, ainda era superficial, eu imaginava a ortodoxia como um dos três ramos do cristianismo: ortodoxos, protestantes e catolicos.
Só que daí passei a estudar mais sobre o cisma. Foi a ortodoxia que saiu de Roma, ou Roma saiu da ortodoxia?? Percebi que era uma pentarquia (cinco patriarcados dominantes – Roma, Constantinopla, Antioquia, Alexandria e Jerusalém), e depois Roma saiu dessa comunhão em 1054. os concílios eram exatamente a reunião dessa pentarquia e demais bispos de outras regiões para tratar de divergências. Cada patriarcado da pentarquia tem uma sucessão apostólica diferente representando cada apostolo, e os concílios representavam os concílio de Jerusalém. A maioria dos pais da igreja eram patriarcas. E percebi que o cristianismo, o cânon e etc se baseavam na autoridade desses patriarcas em seus concílios.

Carlos, isso fez um sentido profundo para mim. Era como se eu houvesse reencontrado os apóstolos, uma vez que o protestantismo apagou a historia antes do séc XVI.
O período de trevas da igreja, foi na verdade no ocidente com o domínio de Roma longe da comunhão, mas no oriente não houve esse período. A igreja ortodoxa ficou intacta e sendo perseguida à semelhança dos apóstolos.

Desculpe minha superficialidade e pragmatismo, mas poderemos desenvolver o debate sobre esse assunto com documentos mais firmes.
 
Simpatia dos ortodoxos para com os heterodoxos. Sim, os ortodoxos é que procuram os heterodoxos. Há um pedido constante do patriarca de Constantinopla para o papa rejeitar seus títulos divisionistas de Sumo-Pontifice, Vigário de Cristo, Sucessor do
Príncipe dos Apóstolos, etc, e aceitar o titulo de Patriarca do Ocidente.
Os lideres dos dois ramos ficam em fogo-cruzado. Se Roma aceita o pedido do patriarca, a igreja ocidental se divide, e se o patriarca aceita o papa do jeito que
está, a igreja do oridente se divide. Então, por enquanto ficam apenas nos encontros do dialogo ecumênico.
 
A sola-Escriptura: Concordo com você, é um basta de Lutero contra os abusos do papa.

O problema do cisma é que os luteranos e reformados ficaram sem jurisdição, e inevitavelmente outros grupos iriam protestar seus lideres protestantes.
Os ortodoxos me falam que existe um documento onde os patriarcas tentam alertar Roma dos perigos de se afastar da comunhão. Os protestantes foram exatamente
esse perigo. O protestantismo ao meu ver se tornou na Babel ocidental trazida pela igreja de Roma. Sei que essa é uma visão fundamentalista, mas não consigo ter
outra conclusão. Todavia considero meus irmãos todos, protestantes, católicos e anglicanos. O problema é apenas jurisdicional.
 
Sobre liberdade de pensar. Os ortodoxos também têm. Eles chamam de teologumena, mas deixam claro que é apenas uma opinião ou especulação. Todavia por outro lado também tem os dogmas estabelecidos em unidade.
Eles afirmam que depois que Roma saiu a igreja nunca mais foi Uma e nunca mais houve dogmas. Por isso só aceitam os sete primeiros concílios. Eu considero isso
o mais coerente.
 
Problema da ortodoxia na cultura evangélica-catolica. Também sofro com isso. Meu primo sofre, e todos os ortodoxos de coração sofrem. Na cabeça da massa evangélica, o catolicismo romano e a ortodoxia é a mesma coisa. Alguns pensam até que a ortodoxia é
simplesmente o rito bizantino contido ou igrejas orientais da Católica Romana!!
Agora imagine! Meu bisavô já era protestante, e a grande maioria da minha família também. Quando o meu primo se tornou ortodoxo, foi um grande golpe no coração do meu tio avô. Os irmãos dele começaram também a se interessar pela ortodoxia, o que o deixou mais triste ainda. Um dos meus primos me disse que só não se torna ortodoxo por amor a tradição da família, mas ele já é de coração. Eu concordei, e disse que o
mesmo era comigo.
Quando falamos no nome “Maria” já sentimos um mal-estar na família, então estamos evitando ao máximo.
Por isso, sinto muito desejo de me tornar ortodoxo, mas minha esposa já me disse que ficaria muito decepcionada comigo. Ela é presbiteriana de terceira geração com avós presbíteros. (observação: este não é mais o desejo do autor, Jeferson, que me pediu talvez não publicar esta parte; entretanto, acho importante divulgar o dilema familiar que se impõe quando um dos cônjuges resolve mudar de religião, ainda que cristã – mas ressalte-se; Jeferson não quer mais, no momento em que faço esta postagem, se tornar cristão Ortodoxo).
Por isso, gosto de debater a respeito, para poder conversar sobre esse tema, e gostaria de poder me encontrar com pessoas como você, que admiram a ortodoxia, mas não é um (ainda?). Eu também sou anglicano, assim como você, e seria realmente uma benção poder me encontrar com você, ou ao menos continuar com este debate.
 
Caso queira vir ao Recife, você pode ficar lá em casa. Temos quarto extra lá. Caso viesse com a família seria uma benção porque minha filha poderia ter contato com
um amiguinho.
 
Deus o abençoe, amado irmão apaixonado por teologia,
Jeferson.


From: Carlos Seino
To: Jeferson de Recife
Sent: Mon, June 13, 2011 9:09:35 AM
Subject: RE: Continuando...

Olá, Jeferson.
Graça, paz e bem!
Estava limpando minha caixa de emails, quando me deparei com esta preciosa conversa que tivemos.

Eu estava pensando em publicar este diálogo em meu blog, para não perdê-lo de modo algum.
O que achas? Você me permite?

E aí, tudo bem com sua família? Alguma novidade? Continua cristão ortodoxo?
Um grande abraço.
Carlos.



Date: Mon, 13 Jun 2011 -0700
From: jefsap@yahoo.com
Subject: Re: Continuando...
To: carloseino@hotmail.com
Carlos, amado irmão,

Fico até emocionado em ver que você guardou essa nossa conversa durante esses anos e hoje quer publicá-la. Tantas águas já rolaram e tantas mudanças já ocorreram na minha vida, e imagino que na sua também. Estou hoje morando no Canadá, mais precisamente em Montreal, e estou atuante na igreja Calvary Chapel (da qual fiz parte antes da Anglicana e de onde tive uma péssima mais necessária experiência de abandono do qual desencadeou muitas dúvidas e confusões em minha mente). Considero esse regresso como uma cura completa e total perdão do passado. Sou líder de louvor, toco violão e canto. Até agora não senti que devo voltar a pregar ou ensinar, mas se for da vontade do Senhor, eis me aqui.

Em relação à Ortodoxia, ela com certeza foi um grande norteador na minha teologia e um basta na minha confusão sobre autoridade das igrejas (fruto do abandono que havia sofrido dos missionários e pastores), mas não me sinto mais tanto atraído como outrora. Com certeza continuo a admirando, mas nada que me faça querer me arrolar como membro, principalmente porque tenho a mais absoluta certeza que nenhum muro denominacional protestante ou católico possa deter a Igreja de Cristo. Como eu sempre relatava ao meu primo "Bebi muito do Espírito Santo no evangelicalismo" e isso me prova que Deus não levanta bandeira denominacional. 

Por outro lado, também não sei para onde Deus vai querer me levar no futuro, então não encerro o assunto aqui. No momento Ele me chamou para o Canadá e estou servindo aqui na Calvary Chapel, uma denominação que muitos teólogos não pisariam por ser uma igreja mais estilo milenista pré-tribulacionista sem patrística ou mariologia, mas que dá liberdade aos pastores de serem calvinistas ou arminianos. Conversar sobre patrística ou ortodoxia na minha igreja... nem pensar!! Acabei que estou meio enferrujado, rs. Nessa horas dá saudades dos nossos debates no Orkut... e por falar nisso, quem diria que esse site de relacionamento seria uma ferramenta tão útil para nosso crescimento?

Bem amigo, sem muitas delongas, pode sim publicar o nosso email, com um pedido de que corriga os erros de ortografia, acentuação ou concordancia.
Existe uma parte do email com uma palavra errada, em vez de oriente eu escrevi ocidente. Conserte isso, por favor.

"Os lideres dos dois ramos ficam em fogo-cruzado. Se Roma aceita o pedido do patriarca, a igreja ocidental
> se divide, e se o patriarca aceita o papa do jeito que
> está, a igreja do ocidente (oriente) se divide.  

Eu também não publicaria a seguinte parte... porque não condiz mais com o meu pensamento atual...
>Por isso, sinto muito desejo de me tornar ortodoxo,
> mas minha esposa já me disse que ficaria muito
> decepcionada comigo. Ela é presbiteriana de terceira
> geração com avós presbíteros.

Meu irmão, foi bom ter recebido notícias suas e espero que continue firme nesse seu chamado de teologar e edificar vidas. Grande abraço e que Deus o abençoe ricamente.

Em Cristo,
Jeferson S. Pires

PS> Depois me manda o link.