sexta-feira, 17 de junho de 2011

Diálogo de um cristão com um ateu

O diálogo abaixo espelha com relativa exatidão um diálogo que tive com um amigo ateu, algum tempo atrás:

ATEU: Eu acreditaria em Deus caso Ele aparecesse e dissesse: “olha eu aqui, eu existo!”

CRISTÃO: Aparecesse... Como assim?

ATEU: Sei lá; abrisse um buraco no céu, viesse um “rostão”, uma “mãozona”, e dissesse “Eu sou Deus, eu criei vocês!

CRISTÃO: Mano. Acho que você está com saudades daquelas séries “ultraman”, “ultraseven”, ou coisa do tipo...


ATEU: Não, é sério cara. Tinha que ter uma prova empírica, real da presença dele para eu acreditar.

CRISTÃO: Cara. Eu acho que se aparecesse um gigante do céu, dizendo que é Deus.... Pensa bem. Você não iria acreditar. Rapidamente, seu ceticismo iria criar outras hipóteses, etc; e você duvidaria que seria Deus. Poderia ser um extraterrestre, um truque de luzes, etc.

ATEU: É verdade, cara! Você tem razão. Eu duvidaria mesmo.

CRISTÃO: Eu, particularmente, acho difícil que seja possível uma prova empírica de “Deus em Si”, pois, se consigo provar algo empiricamente, significa que este algo está de algum modo sujeito à minha manipulação, estando na mesma esfera de existência que eu. Portanto, creio não poder, por estes modos, provar a existência de Deus. Neste sentido, eu concordo com você. DEUS NÃO EXISTE.

ATEU: Hã?!!! Para um cristão evangélico, você tem idéias muito doidas.

CRISTÃO: É verdade, mano. Deus não existe em nosso plano de existência a ponto de poder ser provado empiricamente. Deus está “para além” da existência; é o Criador da própria existência. Então, de certa forma, concordamos quando você diz que Deus não existe. Entretanto, eu vejo a necessidade do que chamamos Criador, Deus, etc; e você, em princípio, nega tal necessidade.

ATEU: Sim; nego porque não há prova.

CRISTÃO: Talvez as provas estejam por aí. Talvez estejam em nós mesmos. Talvez sejam racionais, não empíricas. Mas provas empíricas, do modo como coloquei, não são possíveis de serem obtidas.

ATEU: Então, se não há provas, obviamente, não sou obrigado a crer.

CRISTÃO: Certamente, não é obrigado a crer. É uma questão de fé.

ATEU: E tua fé é cega, pois não necessita de provas para crer.

CRISTÃO: Não necessito de provas empíricas, conforme dizemos, mas é uma fé, que entendo ser razoável.

ATEU: E porque?

CRISTÃO: Muito já se discutiu a respeito deste assunto, em diversas obras filosóficas e teológicas, como as de Tomás de Aquino e René Descartes, entre muitos outros. Fato é que, neste universo, nada surge do nada, tudo tem uma causa primeira, uma causa anterior que por sua vez foi causada por outra anterior.

ATEU: E?..

CRISTÃO: E isto significa que a tese de que tudo surgiu por acaso sem a necessidade de intervenção de nenhuma espécie também é algo que não se pode verificar empiricamente em lugar nenhum. Ou seja, sua “crença” também não é empírica; também não é científica.

ATEU: Isso é verdade. Entretanto, se eu não sei de algo, não fico inventando respostas; e as religiões, a meu ver, são invenções.

CRISTÃO: Podem até ser invenções. Entretanto, se levarmos como verdadeira a tese de que, se há um Criador, ele está “para lá” da existência, significa que só podemos conhecê-lo se ele permitir-se ser conhecido, concorda?

ATEU: Não poderia ser de outra forma, se levarmos a sério seu raciocínio.

CRISTÃO: É isso. Daí, acreditamos no conceito de revelação, ou seja, de que seria impossível conhecer o Criador se Ele não se revelasse à humanidade, pois Ele, sendo o que é, não se confunde com a criação.

ATEU: Como assim?

CRISTÃO: Ora, como disse C. S. Lewis. Se construo uma casa, eu não me confundo com a casa construída. Você pode até conhecer algumas características minhas pela casa que construí, mas você não me conhecerá plenamente se eu não me apresentar à você.

ATEU: E obviamente, você vai dizer que a tal revelação se dá pela sua  religião, e não pelas demais. Vocês são muito arrogantes mesmo. É isso que eu detesto nos evangélicos. Seria um budista, mas jamais um cristão.

CRISTÃOS: Entendo sua indignação, amigo. Mas é que, no cristianismo, e na história mundial, Jesus foi o único que disse que era a revelação deste Deus invisível, segundo os evangelistas. Ele foi o único que disse: “quem viu a mim, viu a Deus”.

ATEU: Então ele era um louco arrogante também.

CRISTÃO: Este é exatamente o ponto. Ou ele era um completo doido varrido, ou ele é quem diz verdadeiramente ser. Isso, C. S. Lewis também falou.

ATEU: Então porque não considerá-lo um louco varrido, ao invés de um sábio, ou algo do tipo?

CRISTÃO: Por aquilo que viveu, por aquilo que ensinou. Acho muito difícil, mesmo pessoas que não tenham religião nenhuma não admirarem este Jesus, que nós chamamos de Cristo.

ATEU: Eu o admiro, embora não creia nas questões sobrenaturais relatadas nos evangelhos.

CRISTÃO: Entendo.

ATEU: E se ficasse provado, como eu acredito, caro amigo, que nada destas coisas sobrenaturais existissem você continuaria cristão?

CRISTÃO: Sim.

ATEU: E porque?

CRISTÃO: Porque a pessoa de Cristo e seus ensinamentos são tão atraentes, e seu projeto para a humanidade, tão arrebatador, e no meu sentir, tão irrefutáveis, que eu continuaria irremediavelmente cristão. Veja a vida que ele viveu, as coisas que ensinou, o amor ao próximo, a não vingança, etc. Se todos vivêssemos aquilo que ele determinou, é impossível não se chegar à constatação de que o mundo seria um lugar bem melhor.

ATEU: Seria o céu na terra!

CRISTÃO: Pode crer! É isso mesmo!

ATEU: Mas aí seria necessário uma raça de deuses. Ninguém vive o que ele manda viver. Nem sei se ele viveu realmente...

CRISTÃO: Aí é que está, meu caro. Quando apesar de saber que o que ele diz é certo, mas não consigo viver, vejo que há algo errado em mim, algo que, precisa de “conserto”, por assim dizer.

ATEU: Como assim?

CRISTÃO: Ninguém vive exatamente o que diz acreditar. Por exemplo. Se você pudesse escrever em um papel tudo o que acredita ser certo e que deveria ser feito, e, no final da vida, analisar-se à luz do que escreveu, você se veria deficiente em muitos pontos. Assim também um marxista, um budista, um islâmico. Todos se sentem em débito por não viverem plenamente o que acreditam ser o certo.

ATEU: Mas e se eu não acreditar existir certo ou errado?

CRISTÃO: Mas é possível viver sem acreditar em certo ou errado na prática? Fazer o que se quer, quando quiser, etc?

ATEU: Obviamente, não. Mas isso pode ser socialmente convencionado.

CRISTÃO: Concordo. Mas ao menos, o reconhecimento da necessidade de uma convenção para a vida social é necessária, não é mesmo?

ATEU: Isto, sem dúvida.

CRISTÃO: E isto, porque os seres humanos não vivem voluntariamente aquilo que são forçados a viver por convenção, não é?

ATEU: Sim, precisamos das leis por isso.

CRISTÃO: É por isso que eu disse que, em certo sentido, precisamos de “conserto”, pois observando a humanidade como um todo, em todo o tempo, ela não viveu o que sabia que deveria, sem as ditas convenções.

ATEU: E, obviamente, você acha que o cristianismo é o conserto para isso, né?

CRISTÃO: O cristianismo não; mas Cristo sim... Cremos que ele assumiu a nossa injustiça para que nos desse a sua justiça...

ATEU: Bom... sobre isso, conversamos depois. A hora do almoço já acabou. Estamos atrasados.