segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dialogo entre Jesus e a alma fiel sobre a verdadeira natureza da Graça.



Após ter lido o belo dialogo entre o Cristão e o ateu, transcrito pelo Dr Carlos Seino, ocorreu-me por em prática uma idéia concebida já há algum tempo de compor e publicar um dialogo entre Jesus e a alma fiel a respeito de certas questões que costumam ser ventiladas a respeito daquilo que se chama graça.

Segue o esboço do dialogo imaginado por mim embora eu mesmo não ouse equiparar-me nem a Platão nem ao Dr Seino, reconhecendo as limitações e deficiências que me são próprias.


DIALOGO I - Entre Jesus e a alma fiel a respeito do que seja a graça.


Alma Fiel: Senhor, Senhor.

Jesus: Fala, querida filha, que teu Senhor escuta.

Alma Fiel: Mestre amado, muito tenho lido, pesquisado e analisado nos manuais de teologia a respeito do que se chama graça e no entanto quão pouco tenho compreendido, pois parece-me tudo tão complexo e dificultoso.

Jesus: No entanto quão útil seria para ti compreender perfeitamente o que seja a minha graça para poder frui-la com maior abundância e aproveita-la melhor. Convem para ti fazer empreender algum esforço com o intuito de assimilar a matéria e em seguida colher os frutos, frutos saborosos e suculentos para tantos quantos chegarem a um bom termo neste campo que diz respeito, em última analise, a minha pessoa.

Alma Fiel: Compreendo Mestre dos mestres pois nada do quanto diga respeito a tua pessoa pode ser qualificado como inutil ou ocioso, sendo antes sumamente proveitoso para todos aqueles que te amam e desejam conhecer-te ainda melhor para, se possivel, te amar ainda mais.

Jesus: Encara pois com toda seriedade a doutrina referente a minha graça.

Alma Fiel: Diz-me pois oh Senhor Generoso, o que é a tua graça.

Jesus: Antes de definir, em termos bastante claros, o que seja minha divina graça, conviria declarar, em termos não menos claros, o que minha graça não é.

Alma Fiel: Diz-me pois Abençoado Salvador, o que a tua graça não é.

Jesus: Abençoado aquele que tem ouvidos para ouvir e ouve minha instrução.

Alma Fiel: Eis-me aqui Senhor.

Jesus: Alguns tem ensinado, e com a melhor e mais elevada das intenções, que minha graça identifica-se com o assim chamado, estado de natureza e que não há qualquer outra graça. Digo-te no entanto, que embora, a natureza em si mesma, seja uma verdadeira graça, enquanto entidade e substância que de mim procede e que para mim se encaminha, nem por isso minha graça fica limitada ou contida pela natureza.

Alma Fiel: Esclarece-me com paciência Bom Senhor.

Jesus: Considera que embora a natureza seja em si mesma uma graça, aquilo que propriamente chamamos de Graça, comporta um nível ou uma esfera maior ou mais elevada de existência com relação a mim. Quero dizer com isto que a graça propriamente dita supera, ultrapassa, completa e leva a perfeição o Estado de natureza, e que pertence por assim dizer aos domínios da transcendência.

Alma fiel: Trata-se portanto de algo para além de toda natureza criada e visível?

Jesus: Certamente que minha graça é um lançar-se para além e um projetar-se para adiante da natureza sensível.

Alma Fiel: As coisa não poderiam ter se sucedido doutra forma.

Jesus: Filho meu, considera e reflete que a graça é o que deve ser e que fixei seus límites segundo a necessidade mesma.

Alma Fiel: Que devo entender por 'necessidade' meu Senhor?

Jesus: Compreende que a graça não poderia ser diferente ou doutra forma.

Alma Fiel: Explica-me e diz-me o porque Senhor Bondadoso.

Jesus: Caso minha natureza não correspondesse a Suprema, absoluta e infinita felicidade; caso a infinita felicidade dispensasse a comunhão com meu Ser, poderias crer ou conceber meu Ser como Perfeito?

Alma Fiel: Certamente aquilo que não é absolutamente necessário para a felicidade do ser racional não merece ser classificado entre aquele gênero de coisas que costumamos a designar como perfeitos.

Jesus: No entanto, admitido que eu, o Deus Vivente, existo; podes conceber que a perfeição não faça parte da minha natureza?

Alma Fiel: O Supremo absurdo seria conceber um deus imperfeito.

Jesus: Logo, sendo como sou, como poderia eu tornar minhas criaturas sumamente felizes sem qualquer tipo de relação ou comunhão comigo, ou melhor, como poderia aperfeiçoar o homem estando ele apartado de mim mesmo e sendo eu a fonte e o princípio de toda perfeição?

Alma Fiel: De fato não se justifica que vossa sabedoria concebesse a suma felicidade sem qualquer vínculo com vosso ser ou relação com vossa natureza, pois assim fosse e fosseis dispensável, estaria vindicado por vós mesmo o ateismo.
Uma felicidade independente de qualquer vínculo convosco só seria possível se vosso Ser fosse inexistente, no entanto como exisitis deveis ser necessário e não podeis ser desnecessário ou querer se-lo.

Jesus: Eis porque minha natureza mesma, que é o sumo bem, constrangeu-me a por as criaturas e os homens mortais em relação comigo para que atinjam seu verdadeiro fim que é a perfeição e a felicidade; perfeição e felicidade que jamais poderiam ser concebidas ou obtidas sem conexão com minha divina natureza ou independentemente dela.
Logo, estar em relação comigo, é condição necessária que parte de meu próprio ser e determina a condição do universo finito e da pessoa humana.

Alma Fiel: Agora estou convencida de que, se existis, deveis ser conhecido e amado num gráu ainda maior do que aquele que podemos obter por meio da natureza criada e cujo fim é estabelecer uma relação ainda mais intima contigo ou aprofundar a relação que obtemos por via puramente natural.

Jesus: Compreende ainda que minha graça não deve ser materializada ou comprendida como uma substância independente de mim mesmo.

Alma Fiel: Sê mais claro Salvador misericordioso!

Jesus: Desejo que saibas que minha graça não é uma coisa, objeto ou entidade material como certos mestres ímpios deram a entender e que tampouco é uma pessoa ou um ser dotado de compreenssão e vontade.

Alma Fiel: Hábil és Senhor para mostrar o que vossa graça não é.

Jesus: Pois agora te revelarei, revelarei e mostrarei em termos suficientemente claros e precisos, que seja minha graça.

Alma Fiel: Fala Senhor, que teu servo escuta.

Jesus: Eu mesmo, meu Ser divino, minha natureza, minha 'pessoa', sou minha graça. A graça nada mais é do que a posse do meu ser, quando entras em união comigo tomas posse da graça Suprema e Incriada e se efetua a comunhão ou seja a união comum entre tu e eu, entre o ser racional e seu Senhor, esta associação, fruição ou posse de mim mesmo pela alma fiel é a Graça.

Alma Fiel: Devo concluir pois que a graça é um estado de relação do ser racional face ao ser divino ou a união do homem com Deus?

Jesus: Melhor definição não existe.

Alma Fiel: E porque meio ou veículo se nos é comunicada ou transmitida vossa graça?

Jesus: Eu mesmo chamo, busco e procuro a ovelha perdida. Eu mesmo sigo em percalço de todo ser que se desviou e apartou de mim. Eu mesmo corrijo o que se desvio, fortaleceu o que se enfraqueceu, saro o que veio a adoecer e reconcilio o que se afastou quando me faço homem, vivo entre os homens, sofro por eles, por eles morro e venho a ressucitar dos mortos para não tornar a morrer.
Eu mesmo me dou e me ofereço ao gênero humano quando me encarno entre os homens e assim demonstro meu infinito amor por eles.
É através deste mistério da minha encarnação que comunico minha graça a todos os que desejam viver em comunhão comigo observando a Lei Suprema do amor que é a mais pura expressão de minha vontade perpétua e imutável.
A todo homem de boa vontade, que deseja viver bem praticando o bem e a virtude eu auxilio e comunico minha graça.
A todo que me deseja e busca e a tantos quantos aspiram por mim eu ajudo de bom grado para que atinjam a meta final para que foram dispostos.
A todo criatura que eleva seus pensamentos a mim eu recompenso com a posse do meu próprio Ser e a força necessária para fazer o bem.

Alma Fiel: A graça habitual e a graça atual?

Jesus: De fato a graça habitual e incriada é a comunicação de meu Ser a todo homem de boa vontade através do mistério de minha encarnação entre os homens enquanto que a graça habitual é aquela força produzida pela união entre tu e eu que te capacita a fazer sempre o bem, a cumprir meus mandamentos e preceitos, a honrar minha pessoa, a observar minha lei, a imitar meus gestos, a viver segundo meu exemplo, a evitar a tentação, a vencer o mal, a triunfar do pecado, a adquirir a santidade e a atinjir a perfeição na medida em que cooperas comigo mostrando-te dócil a meus ensinamentos e fixando toda tua atenção e afeto na minha vontade que é a suprema norma da felicidade. A graça incriada e habitual é comunicação de mim mesmo feita a tua pessoa e a graça atual ou criada o efeito produzido por essa comunicação tendo em vista firmar tua vontade na senda da obediência e da virtude.

Alma Fiel: Tenho ouvido dizer que a graça criada precede a graça incriada e que a fé ou a posse da verdade deve proceder a comunhão dos homens contigo.

Jesus: Muitas vezes o que se sucede é o contrário vindo o homem da graça para a boa nova do Evangelho, a santa doutrina, a fé justa e a posse da verdade, que de boa vontade e sem culpa própria ignorava.

Alma Fiel: Esta doutrina não menospreza a graça que vem pelos sacramentos, pela igreja e pela fé?

Jesus: De modo algum pois a posse da verdade, o exercício da fé, a adesão a Igreja e a recepção dos mistérios comporta uma efusão de graça muito maior, que aprofunda ainda mais a comunhão do homem com Deus e que representa um salto de qualidade na econômia espiritual da Encarnação se de fato acreditais que minha Igreja apostólica e visivel e o Evangelho que ela porta é como que uma continuação do mistério da minha Encarnação e um Sacramento divino e eficaz para conduzir o homem a perfeição numa intensidade ainda maior.
Noutros casos porém é a mensagem do meu Evangelho e a pregação apostólica, que informando o homem, formal e explicitamente, sobre o mistério da minha encarnação, introduzem-no na dimensão das coisas divinas, espirituais, transcendentes e sobrenaturais. Neste caso a fé e a verdade comunicam a graça incriada, no entanto, cumpre reconhecer, que nem sempre é assim e evitar a doutrina ministrada pelos sectários e fanáticos, e segundo a qual aqueles que não possuem a fé ou que ignoram sem culpa própria a mensagem do Evangelho estão como que abandonados pelo Pai e entregues ao domínio do mal e do pecado.

Alma Fiel: De fato és filantropo, benigno e amigo de todos os homens amados verdadeiramente por ti sem que haja qualquer excessão!!! De fato teu amor é infinito, tua misericórdia ilimitada e tua generosidade incompreenssivel... por isso te sirvo e te adoro Filho da Virgem!!!

Jesus: E eu te abençoo, te auxilio e coopero contigo para que sejas digna de mim pelo cumprimento da minha santa e soberana vontade expressa nas minhas bemaventuranças segundo as quais avaliarei todas as consciências quando este mundo chegar o termo final para que foi disposto por mim.
Tudo quanto fizeres a teu irmão, a teu próximo, a teu semelhante é aplicação da minha graça, os talentos divinos que te entreguei para que me devolvas no último dia e obtenhas uma santa e boa ressurreição com todos os meus santos amigos que viverão segundo minha vontade, conforme meu exemplo e de acordo com meus mandamentos e preceitos consignados no meu Evangelho que é a porta da verdadeira vida.