quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Comunhão cristã no pensamento de Dietrich Bonhoeffer


Gosto de compartilhar um pouco de minhas leituras em meu blog. Coisas que de fato influenciam em minha vida. Há poucas personalidades cristãs que me impressionam tanto quanto Dietrich Bonhoeffer.

Ele era alemão; entretanto, pastoreava uma igreja em Londres. Quando o nazismo assumiu o poder na Alemanha, ele fez questão de voltar à sua terra natal e fazer algo a respeito. Fundou uma comunidade da igreja confessante, aquela que não aderiu à doutrina nazista. Foi tal comunidade que inspirou o livro “Vida em Comunhão”, que vou postar alguns trechos por aqui. O livro é tão bom que quase nenhuma palavra cai por terra. Recomendo vivamente que, os que puderem e tiverem interesse, possam ler tal obra.

No trecho abaixo, Bonhoeffer nos adverte da necessidade de dependermos também da graça do Senhor para formarmos uma comunidade, e não dependermos de nossos próprios ideais.

“Numerosas vezes, toda uma comunhão cristã faliu porque vivia de um ideal. Justamente o cristão sério, aquele que pela primeira vez entra em contato com uma comunhão de vida cristã, muitas vezes trará consigo uma determinada imagem do tipo de vida em comum cristã e se empenhará em colocá-la em prática. No entanto, é a graça de Deus que logo levará tais sonhos ao fracasso. A grande decepção com os outros, com os cristãos em geral e, se correr tudo bem, também conosco mesmos, precisa nos vencer, tão certo como Deus que nos levar ao conhecimento da verdadeira comunhão cristã. Em sua imensa graça, Deus não permite que vivamos, nem por poucas semanas, em um sonho que nos entreguemos àquelas experiências embriagadoras e a essa euforia que nos assalta como um êxtase. Pois Deus não é o Deus das emoções, mas da verdade. Somente a comunhão que passa pela grande decepção, com seus maus e desagradáveis aspectos, começa a ser o que ela deve ser diante de Deus, começa a apossar-se na fé da promessa recebida. Quanto mais cedo a pessoa e a comunidade passarem por esta decepção, melhor será para ambas. Uma comunhão que não suporte e não sobreviva a uma tal decepção, que se agarre a seu ideal quando ele é para ser destruído, perde na mesma hora a promessa da comunhão duradoura, e desmanchará mais cedo ou mais tarde. Qualquer ideal humano, introduzido na comunhão cristã, impede a comunhão autentica e precisa ser destruído, para que a autêntica comunhão possa existir. A pessoa que mais ama mais seu sonho de uma comunhão cristã do que a própria comunhão cristã, destruirá qualquer comunhão cristã, mesmo que pessoalmente essa pessoa seja honesta, séria e abnegada”. (in Vida em Comunhão, p. 17, editora Sinodal).

Particularmente, entendo que podemos e devemos criar sistemas para a nossa comunhão cristã (não dá pra não ter sistema nenhum, comunhão nenhuma). Toda forma de organização é um sistema. Ela pode ser “pesada” ou “leve”. Entretanto, não podemos cair na ilusão de que o sucesso de nossa comunidade deve-se a tais sistemas. Tudo depende da graça de Deus. E mesmo os nossos “mecanismos de medição” são falhos. Não dá para dizer que uma comunidade cheia de problemas, como a de Corinto, por exemplo, não seja uma igreja repleta da graça de Deus. Muito pelo contrário. Cada cristão deve descansar na presença do Senhor em relação a isso, depender da graça d’Ele. Nada precisa o cristão fazer para ganhar o seu amor e a sua aprovação ao Pai, pois já foi amado antes de qualquer coisa.

Daí, o espírito de moderação, longanimidade e sabedoria estar entre as qualidades necessárias à elaboração e manutenção de qualquer comunhão cristã, e não uma agressividade que procure impor aos irmãos um sistema humano. Este não pode substituir o Espírito Santo, por mais bem intencionado que seja.