segunda-feira, 2 de julho de 2012

Dar com uma mão, e com a outra tirar...

Até os dias de hoje, em minha curta existência, ainda não vi um grupo de recuperação social mais ativo e eficaz que as igrejas evangélicas inseridas em nosso contexto urbano, notadamente as de cunho pentecostal (ou neopentecostal).

Ouvi falar em diversos testemunhos, bem com vi pessoalmente (aliás, eu mesmo sou fruto disso), pessoas que viviam vidas completamente desgovernadas: são pais de famílias que passavam horas em bares, traiam suas mulheres, gente com abuso de álcool, drogas, desorganização de ordem financeira, etc. Sem dúvida nenhuma, isto foi um grande serviço para a sociedade, bem como para as famílias que viram seus membros serem completamente transformados, em um sentido positivo.


De fato, o discurso moralista destas igrejas é muito forte, fazendo uma transformação bastante efetiva em seus fiéis. O álcool e o cigarro são atacados com veemência. Prega-se radicalmente a moralidade sexual e familiar. A responsabilidade, enfim.

Entretanto, algumas destas organizações religiosas, a meu ver, dão com uma mão, mas tiram com a outra, e o principal bem, a meu ver, que é retirado destes novos membros que se associam a este tipo de religiosidade, é a liberdade.

Isto porque, estes novos membros acabam tendo que adaptar toda a sua forma de pensamento à liderança de sua agremiação religiosa. Aderem a um programa intensivo de reeducação mental diante de tais grupos. Passam a prestar contas de todos os aspectos da sua vida à tal liderança. E, em pouco tempo, a maior parte de suas relações, sejam sociais, sejam familiares, acabam sendo rompidas, seja pela própria imposição de tais grupos, ou seja por um processo natural de envolvimento em suas novas comunidades, em intermináveis atividades de cunho religioso.

Não tarda muito, e tais pessoas acabam sentindo o peso de tais atividades, entretanto, por medo de voltarem à “velha vida”, tendo em vista as excelentes melhoras que sem dúvida os beneficiaram, acabam, por conta da retórica religiosa do sofrimento passivo, suportando todo este peso que os consomem constantemente.

E na prática, acaba acontecendo isso mesmo. Como tais pessoas tiravam da comunidade toda a sua força e disciplina, quando abandonam o grupo, voltam à velha vida, ou ficam até piores. E o pior é que, o grupo abandonado acaba aceitando a tese de que tais dissidentes foram realmente castigados pela atitude de sair da comunidade. Daí, tais igrejas abusivas jamais admitirem que pessoas que os abandonaram possam estar melhores, sempre procurando, nas entrelinhas, discursar no sentido de que tais pessoas estão em um estado pior, ainda que aparentemente estejam bem.

Então, por um lado, tais grupos recuperam a vida de alguém, que certamente, estava um tanto quanto desorganizada, seja no nível emocional, familiar, financeiro, enfim, a maior parte do público alvo das igrejas evangélicas ou grupos cristãos similares; entretanto, tolhem sua liberdade de pensamento, social, impondo cargas pesadas em todos os aspectos. Isto demonstra que o legalismo, e não a graça, que fundamenta o modo de agir de determinados grupos.

O ideal, a meu ver, é que a ênfase evangelística de tais grupos seja associada a uma maior pratica da tolerância e da caridade, para que não se sobressaia, não o fundamentalismo de tais agremiações, mas sim o amor que deve caracterizar todo o seguidor do santo evangelho. E nunca se esquecer de que, é a graça de Deus, e não o legalismo, que nos torna seguidores do Nazareno.