sexta-feira, 2 de novembro de 2012

495 anos de Reforma Protestante

Há algum tempo, todos os anos faço uma breve reflexão acerca da Reforma Protestante em seu aniversário; e procuro esforçar-me para não ser nem ufanista, nem pessimista demais, tentando fazer uma ponderação equilibrada deste fato, se é que algo assim é possível, quando se narra de dentro da experiência histórica que se quer descrever.
 
Boa parte do cristianismo evangélico hoje, no Brasil, pouco se parece com o cristianismo dos tempos da Reforma. Somos, na maioria, pentecostais ou neopentecostais, arminianos, e temos poucas afinidades práticas, litúrgicas, e até mesmo teológicas, seja com Lutero, Calvino ou Thomas Crammer. A ver o rumo que os menonitas tomaram durante a história, é de se concluir também que pouco temos a ver com Menno Simons.

Do cristianismo da reforma, creio que pouca expressividade temos no Brasil. É bem verdade que parece estarmos passando por um tipo de despertamento reformado, com o apoio de diversas igrejas presbiterianas e batistas, realizando alguns importantes congressos, mas evidentemente, é um número muito baixo se comparado com os ajuntamentos realizados por qualquer igreja neopentecostal de maior porte. E fato é que estes congressos geralmente edificam a vida daqueles que já são evangélicos, não servindo de divulgação para novos adeptos, penso.

O fenômeno religioso evangélico brasileiro é notadamente pentecostal, e se não fosse por esse segmento, acredito que os ditos evangélicos pouco seriam lembrados em nossa sociedade (não estou fazendo nenhum exame de valor até aqui). Anglicanos, Luteranos, alguns Presbiterianos, Metodistas, entre outros, hoje possuem um diálogo respeitoso com a igreja católica. Já não possuem mais aquele impulso em converter pessoas, já não lhes interessa tanto combater a igreja romana, da mesma forma que foi a postura dos antigos. Esse trabalho acabou ficando para batistas, presbiterianos e outros históricos conservadores, e também para todos os pentecostais. Por essas e outras razões, são ainda os grupos que mais crescem.

Boa parte das igrejas pentecostais e neopentecostais (a maioria, tenho quase certeza) não faz muita menção, não comemora a reforma protestante. Boa parte dos evangélicos deste segmento sequer conhece os princípios da reforma (sola scriptura, sola gratia, solus christus, sola fides, soli de gloriae, sacerdócio universal de todos os crentes, etc...) e não sei se fazem muita questão de saber. Inegavelmente, são também muitas razões de ordem pragmática que faz com que muitos destes grupos cresçam (teologia da prosperidade, cura divina, etc).

Entretanto, há algo que se pode observar com otimismo. Evangélicos pentecostais e neopentecostais constroem suas igrejas encravadas em bairros pobres e humildes de todas as periferias do Brasil. Confrontam a população local com o evangelho (ou com uma versão do que consideram ser o evangelho, que, em minha opinão, pelo menos com o essencial) e atraem muitas pessoas, de todas as idades e classes sociais. Desta multidão toda, há sempre um grupo razoável de pessoas que se interessa por se aprofundar no estudo das Escrituras, e com o tempo, também por teologia e história da igreja. Homens como Augustus Nicodemus, Russel Shed, Ariovaldo Ramos, Hernandes Dias Lopes têm falado a multidões de jovens oriundos de igrejas pentecostais e neopentecostais. Ha também muitos líderes petecostais que têm estudado bastante, realizados seus bacharelados, mestrados e at´´e doutorados. Tem existido um contato entre todas as tradições, em que pentecostais procuram se aprofundar mais nos estudos (algo antigamente restrito majoritariamente aos históricos) e as igrejas antigas, ainda que não se tornem pentecostais, têm se aberto um pouco mais para o movimento carismático (fenômeno que ocorreu mesmo na igreja romana).

Entretanto, não deixo de ter a sensação que parece que são novidades que fazem com que haja certos avivamentos no meio evangélico, com novas igrejas, mensagens e até novas teologias, nem sempre tão ortodoxas assim. O movimento evangélico, de modo geral, parece nunca conseguir atingir uma maturidade institucional. E quando isso acontece com determinadas igrejas, muitas param de crescer, diminuem, ou, para o bem delas, voltam a crescer, ainda que de maneira muito lenta. Meu palpite é que isso não irá mudar tão cedo. Esta é talvez a grande força e a grande fraqueza do movimento evangélico. Força, pois prova ser um movimento que, desde os tempos da Reforma, consegue reciclar-se, adaptar sua mensagem, atrair as multidões. Fraqueza, pois nunca há maturidade institucional e sempre aumenta o fenômeno das intermináveis divisões entre nós.