sábado, 13 de julho de 2013

Teologia da Espiritualidade: Espiritualidade Contemplativa I


E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não (Dt 8.2).


Conforme já abordamos, há muitas correntes de espiritualidade cristã na história, o que torna difícil estudar, neste curso, todas elas. Por isso, nos dedicaremos neste instante a estudar uma destas correntes, que pode ser chamada de espiritualidade contemplativa, cujo início histórico se dá no período abrangido entre o III e o VI sécs. da era cristã, mas que estende sua influência a toda espiritualidade cristã durante a história.

A Espiritualidade Contemplativa está bastante associada à tradição do deserto, ou mais precisamente o movimento que ficou conhecido como dos “padres do deserto”. Há um grande número de ordens contemplativas tanto no ocidente como no oriente, que têm sua inspiração neste movimento. Também tem existido um nítido reavivamento do estudo deste período mesmo entre autores protestantes modernos e contemporâneos, pois se trata de uma tradição bastante rica.
Também não pretendemos, e nem podemos, esgotar todos os aspectos deste movimento, entretanto, tentar esboçar algumas de suas características, algumas que se iniciaram no período mencionado, e outras que se abrangeram pela história do cristianismo.

Quem eram os padres e madres do deserto: eram homens e mulheres em busca de uma espiritualidade autêntica, do encontro com Deus e do conhecimento de si próprios, e de uma vida que verdadeiramente apostólica. Os padres do deserto inspiraram (e inspiram) todo movimento monástico posterior. Tal movimento se deu em um momento de acomodação da igreja ao mundo, e eles se retiravam para os desertos a fim de buscar uma vida mais evangelicamente autêntica, por assim dizer.

O Deserto: é, biblicamente falando, um lugar de provação, amoldamento de caráter e análise do coração (Dt 8.2). Os patriarcas tiveram boa parte de sua experiência espiritual na solidão do deserto. Foi em uma destas experiências de solidão que “Jacó se tornou Israel” (Gênesis 32.24-32). Também o povo de Israel passou pelo deserto, na sua experiência de saída do Egito, onde foram bastante provados em sua jornada. Profetas, como Elias e Eliseu tiveram boa parte de sua vivência nos desertos, sendo que a experiência de solidão de Elias inspirou bastante o movimento (I Reis 19.4-18). João Batista, “o maior dos homens nascido de mulher” (Mt 11.11), também habitava o deserto, e lá lhe foi dada a palavra de Deus (Lc 3.2). Jesus, levado pelo Espírito ao deserto, lutou contra as tentações e contra o demônio e sagrou-se vitorioso (Mt 4.1-11). Os padres viram na luta contra os demônios uma forma muito importante de crescimento na jornada espiritual. O apóstolo Paulo, provavelmente, também passou um período de treinamento nos desertos da Arábia. Deserto então é lugar de provação, de luta contra os demônios, de dependência de Deus, de amoldamento de caráter, de crescimento enfim.


Os padres e madres do deserto foram eles mesmos inspirados por dois movimentos que muito cedo se desenvolveram na história cristã, que foi a espiritualidade do martírio e a espiritualidade da virgindade. Muito foi feito e escrito no que tange ao martírio, que era o testemunho mesmo em meio ao sofrimento e à morte. O mártir era alguém que ia até as últimas consequências em seu testemunho cristão. Personalidades como Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Tertuliano de Cartago, Cipriano, e o próprio Jesus e os santos apóstolos e profetas inspiraram tal movimento. E a renúncia em se envolver em um matrimônio também foi um ideal que nasceu no cristianismo primitivo, a fim de, segundo eles, estar mais livre e desimpedido para se unir em matrimônio à Cristo. Palavras do próprio Jesus e do apóstolo Paulo inspiraram esta opção (Mt 19.3-12 e 1 Co 7), bem como a vida de alguns profetas. Embora celibatários, havia comunidades de homens e de mulheres, que posteriormente foram inspirando os movimentos monásticos. Também houve o exemplo de famílias que iam para os desertos. Eram em menor número os que viviam inteiramente isolados, os eremitas. Muitos destes padres (que não eram padres, propriamente ditos, ou seja, não faziam parte da hierarquia da igreja), depois de um período no deserto, viveram também como mestres e conselheiros espirituais, e se dedicavam também à caridade. Sustentavam-se, seja da caridade alheia, mas principalmente do seu próprio trabalho manual.