quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O estado laico e as imagens religiosas



A União Européia decidiu tirar a imagem de Cristo das suas moedas. Você pode ler uma reportagem sobre o assunto clicando aqui. Isso tudo é decorrente da laicização do Estado, em que se procura desassociar do Estado qualquer imagem religiosa.

Entendo perfeitamente a laicização do Estado, e que este não deve promover nenhuma religião, embora eu também não seja contra um país ter uma religião oficial, desde que não proíba as demais. Há países que têm vivido perfeitamente assim, como a Inglaterra e outros países europeus.

Tentativas de tirar imagens religiosas de repartições públicas, como crucifixos do poder judiciário, e outras, também têm sido tentadas aqui no Brasil. Atualmente, acredito que somente edifícios tombados, como a sede do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo ainda têm crucifixos, com o Cristo crucificado em suas instalações. Novas instalações são construídas sem qualquer imagem religiosa.

Entretanto, será que é necessário tirar as imagens religiosas já existentes, por conta da laicização do Estado? Acredito que isso não é necessário, e isto por algumas razões:

Em primeiro lugar, não vejo, de modo geral,  no Ocidente, nenhuma minoria que se sente discriminada pela existência de tais imagens. Quando alguém de outra religião vem a um país ocidental, sabe que está entrando em um lugar com séculos de tradição cristã. E geralmente o estrangeiro respeita isso. Se ele está vindo para tal lugar, é porque entende que a nova localidade lhe oferece até melhores benefícios do que o lugar em que estava. Não vejo movimentos de minorias religiosas fazendo protestos para que tais imagens ou expressões religiosas deixem de existir, porque tais imagens, não têm o condão de ofender tais minorias, mas sim expressar um passado histórico. Geralmente os protestos para o fim de tais imagens não vem de outras minorias religiosas, e sim de laicistas radicais. Perguntei a alguns budistas se eles se sentiam ofendidos por existir na moeda brasileira a expressão refente a Deus, e eles simplesmente disseram que, onde está escrito "Deus" ele entendem Buda. Um muçulmano entenderá Alá, e assim sucessivamente.

Em segundo lugar, a maioria religiosa destes países que utilizam uma ou outra imagem religiosa também não as usam como pretexto para perseguir nem ofender ninguém. Na verdade, tais imagens simplesmente estão aí por conta de sua herança histórica, conforme já dito. E toda memória histórica deveria ser preservada, seja ela de origem religiosa ou não. Embora o país seja oficialmente laico, a grande maioria da população ainda está envolvida com algum tipo de cristianismo.

Em terceiro lugar, entendo que, nos locais em que há imagens religiosas, estas não precisam ser removidas, mas sim, elas mesmas podem ser "laicizadas" pela cultura (de certa forma, isso já acontece) por serem um patrimônio histórico muito importante. Dou exemplo:

Pensemos nas imagens de Cristo em um crucifixo, em uma sede do poder judiciário. Jesus foi vítima de um falso julgamento, historicamente falando. Porque não deixar tais imagens como uma constante lembrança para o julgador e população de que mesmo um poder constituído pode gerar uma  grande injustiça, por exemplo? A imagem do Cristo não precisa mais estar restrita ao seu campo religioso. A própria Themis (aquela mulher com venda nos olhos e uma balança na mão) era uma figura religiosa da Grécia, e hoje existe sua imagem em muitos tribunais. E ninguém pensa mais na imagem da Themis como uma questão religiosa.

Este mesmo raciocínio poderia ter sido aplicado na questão das moedas com a imagem de Jesus. Pensemos a figura deste judeu. Pensemos somente em sua figura humana. Jesus pregou a bondade, o amor, esteve ao lado das minorias (como muitos defensores dos direitos humanos), ele se preocupou com o cuidado, com a saúde, com a alimentação de famintos. A figura de Jesus, se formos pensar somente no aspecto humano, é maravilhosa. Por isso humanistas, comunistas e todas as demais ideologias fazem questão de tentar ter "Jesus ao seu lado". Não há pessoa que odeie o ser humano Jesus, ou que não o admire, seja ele budista, muçulmano, ou sem religião. A maioria pode discordar do catolicismo, do cristianismo, mas não rejeita o ser humano Jesus, ou pelo menos a ideia que se tem dele.

Por isso acredito que a própria imagem de Cristo pode ser desconectada de seu conteúdo religioso do que simplesmente rejeitada, abolida, excluída. Fará muito mal para o ocidente esquecer quem foi a figura de Jesus de Nazaré simplesmente pelo fato de não existir ninguém a altura dele, mesmo do ponto de vista unicamente humano. Claro que para um cristão, Jesus sempre será o Cristo, mas toda a sociedade perde por esquecer de Jesus, o filho do homem. O laicista radical não consegue perceber a tremenda bobagem de tentar desconectar o ocidente de suas raízes cristãs.