quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O "Deus do Antigo" e o "Deus do Novo" Testamento

Séculos depois de Marcião (meste considerado herege pela igreja primitiva) ainda há muitos que entendem que o Deus do Antigo Testamento é um Deus mau, ruim, diferente, segundo eles, do Deus de amor preconizado por Jesus. Isso porque houve ocasiões em que Deus, no Antigo Testamento, matou, executou coisas, segundo eles, tenebrosas para um Deus de amor, por  isso, rejeitam este "Deus judeu".

Particularmente, entendo que, nem a história da Igreja, nem uma análise das próprias Escrituras, autorizam este tipo de constatação. Muitos exemplos poderiam ser mencionados.

Por exemplo, no livro de Levítico, temos o relato da história de Nadabe e Abiú, que trouxeram fogo estranho para o altar, e por conta disso, foram consumidos por Deus (Levítico 10.1-7). No Novo Testamento, temos o relato da história de Ananias e Safira, que morreram pelo fato de terem mentido ao Espírito Santo (Atos 5.1-11). Ora, mas não se trata do Espírito de amor tão preconizado por Jesus? Sim, certamente, mas também é o Espírito Santo, e com a santidade de Deus não se brinca.

Há muitos textos nas Escrituras que dizem que Deus é um fogo consumidor. Por exemplo, em Êxodo 24.17, no Monte Sinai, diz que "o aspecto da glória do Senhor era como "um fogo consumidor". No Novo Testamento, o autor da epístola aos Hebreus ensina que a santidade do monte Sião (simbolizando a nova aliança) é muito superior à do monte Sinai (símbolo da antiga aliança da lei), e ratifica que "nosso Deus é fogo consumidor" (Hebreus 12.29). Ou seja, não há diferença na natureza em Deus, seja no Antigo, seja no Novo Testamento.

Há um texto em I aos Coríntios que nos ensina a necessidade de nos aproximarmos com reverência das coisas santas, assim como era no antigo. No capítulo 11 de tal epístola, Paulo trata com aqueles que não tinham a devida reverência à Ceia do Senhor. Por conta de tal atitude, Paulo disse que não era a toa que, naquela igreja, havia muitos fracos e doentes, e "não poucos os que dormem" (I Co 11.30). No livro do Apocalipse diz que haverá muitos que tentarão se esconder da face daquele que se assenta no trono e da "ira do Cordeiro" (Apocalipse 6.16).

Foi o próprio Jesus quem ensinou que os discípulos não deveriam temer somente àqueles que matam o corpo, mas também Àquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma quanto o corpo (Mateus 10.28). E também o evangelista João nos relata que o que se mantém rebelde ao filho não verá a vida, mas sobre o tal permanece "a ira de Deus" (João 3.36).

Portanto, os que insistem em que existe tal diferença entre a natureza de Deus no Antigo e no Novo Testamento acabam tendo que rejeitar muitas porções de ambos, e também dos evangelhos, de ditos do próprio Jesus, que sempre anunciou a existência do inferno (Mc 9.45; Mt 23.15; Mt 23.33, Lc 10.5; Lc 12.15; e muitas outras passagens). E quem faz perecer no inferno não é o diabo, e sim Deus, se levarmos as Escrituras a sério. Embora, de fato, Deus seja amor, creio que temos que ter cuidado ao tentar adaptar as Escrituras, cortando inclusive grande parte delas, à nossa própria teologia.