terça-feira, 5 de setembro de 2017

Do amor uns pelos outros


“Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos. Se tiverem amor uns pelos outros” (João 13,35).



Cristo deixou uma marca muito profunda pela qual se poderia reconhecer se estamos ou não diante de um grupo de discípulos seus: o amor uns pelos outros. E tal amor foi descrito em palavras muito claras. É amor de quem dá sua vida pelo próximo. O amor com que ele nos amou. 

Obviamente, quando pensamos em “dar a vida”, já nos vem à mente o martírio, o morrer pelo outro. Sem prejuízo deste sentido, ele não esgota todo o significado do dar a vida. Dar a vida também é se doar, é acompanhar, é estar junto, e esta sim deve ser uma marca fundamental dos discípulos que formam a igreja de Jesus. 

Os reformadores disseram que, onde o evangelho é fielmente proclamado e os sacramentos (batismo e ceia) corretamente administrados, aí está a igreja. A igreja católica a define por sua unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade, e considera que tais elementos se concentram principalmente em seus bispos em comunhão com o papa. Interessante como que, as grandes definições sobre as marcas da igreja nada falem explicitamente sobre o amor. 

Obviamente, muitos dirão que nestas definições, o amor já está “embutido”, subentendido, seja por doutrina apostólica, seja por pregação do evangelho. Mas o fato é que são sinais mais institucionais, estruturais da igreja, podendo existir sem sequer haver o amor. Pode ser ter as quatro marcas da catolicidade da igreja, e não haver amor. Pode-se pregar o evangelho e se celebrar os sacramentos e não haver amor. Ou seja, foram os seguidores de Cristo, em meio a controvérsias históricas, que definiram tais sinais eclesiais para que uma autentica igreja fosse reconhecida. 

Entretanto, Jesus dá um único sinal para que seus discípulos fossem reconhecidos. E tal sinal é realmente o amor uns pelos outros. Onde houver amor, ali haverá discípulos de Cristo. E amor, dificilmente se define. Amor se vive. Jesus não definiu a ortodoxia como sinal de reconhecimento, a reta confissão, a correta estrutura e liturgia, rígidos usos e costumes. À medida que estes outros elementos vão sendo acrescidos à comunidade cristã, a impressão que se dá é que ela vai ficando “pesada”, fortemente institucionalizada, organizada. Aquela comunidade que dividiu os seus bens, em que tinham tudo em comum, em que não havia nenhum necessitado em seu meio, dificilmente a vemos hoje em dia, e sequer parecem serem desejados em nosso meio. 

Aqueles elementos mencionados (apostolicidade, universalidade, etc) não precisam ser desprezados, não precisam ser despercebidos, entretanto, pode-se possuí-los, e ainda assim, não se ser mais reconhecido como autentico discípulo de Cristo, justamente por não estar presente o amor. 

Portanto, penso que deveríamos nos ocupar deste tema, notadamente em nossa prática, vivenciando um vívido amor em nossas comunidades. Talvez falte um pouco de ortodoxia, talvez falte um pouco de reta doutrina, de liturgia elaborada, de organização, mas se faltar o amor, o restou de pouco valerá.