domingo, 6 de maio de 2018

A Ceia do Senhor e as Crianças



Por Bispo José Ildo Swartele de Mello

Não foi por acaso que Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo, morreu na semana da Páscoa judaica. Jesus, na véspera de sua morte, reuniu o seus discípulos para a celebração da Páscoa e a transformou na celebração da sua própria Páscoa, revelando que os princípios de redenção da Páscoa e do Êxodo do povo hebreu encontram pleno cumprimento em seu sacrifício na cruz. As crianças eram incluídas na aliança do Antigo Testamento, tendo acesso aos sinais do pacto tanto da circuncisão como da Páscoa. Toda a família, incluindo as crianças, se reunia ao redor da mesa para comer e celebrar a Páscoa. A aliança do Novo Testamento é superior a do Antigo e não pode ficar aquém no tratamento dado as crianças. Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11; Tg 2.9). "Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3:28). Seguindo o mesmo raciocínio de Paulo, podemos concluir também que não deve haver acepção entre adultos e crianças, pois todos devem ser um em Cristo. Jesus Cristo, querendo mostrar que veio dilatar antes que limitar a misericórdia do Pai, abraça ternamente as criancinhas a si trazidas, repreendendo os discípulos que tentavam impedi-las de acesso, afirmando que delas é o reino dos céus (Mt 19:13-15; Mc 10:13-16; Lc 18:15-17). As crianças estão incluídas no pacto de Deus. A ação de recebê-las, o abraço, a imposição de mãos e a oração de Cristo, demonstram que as crianças não apenas são dele, como também são por ele santificadas. A expressão usada pelos evangelistas em Mt 19:14; Mc 10:13; Lc 18:15, designa literalmente criancinhas de peito. Não se fala aqui de crianças já crescidas, portanto já aptas a vir por si mesmas. Vir, nestes textos, fala de ter acesso. As crianças podem vir a Cristo, pois das tais é o reino dos céus.


Os metodistas livres vêem a ceia do Senhor não apenas como ordenança, mas também como sacramento. Existem dois sacramentos: a Ceia e o batismo. Tais ordenanças são verdadeiramente meios de graça, ou seja, ainda que sejam rituais simbólicos, representam uma realidade espiritual. No caso da Ceia, os elementos não sofrem nenhuma alteração mística – o pão continua sendo pão, e o vinho continua sendo vinho. Não obstante, o crente, mediante a ação do Espírito Santo, é verdadeiramente nutrido espiritualmente em sua participação. A Ceia é "um banquete espiritual, onde Cristo é o pão vivo que desceu do céu (Jo 6:51), pelo qual são os crentes alimentados para a verdadeira e bem-aventurada imortalidade. A Ceia é um dos sinais da inclusão do cristão na realidade salvífica estabelecida pelo pacto da graça. Por último, a Ceia é também um sinal de nossa participação no Corpo de Cristo que é a sua comunidade de fiéis. A reunião da Ceia é a reunião da família em torno da mesa, partindo o pão e compartilhando de união e intimidade. As pessoas reunidas para essa refeição são diferentes uma das outras. Expressam diversidade, mas estão ligadas na unidade produzida pelo Espírito mediante o sangue da aliança, derramado em favor delas.

Questão histórica


Na Igreja Antiga era normal a participação das crianças na Ceia do Senhor. O batismo de crianças e sua participação na Ceia eram usuais. Naquela época o Batismo era a única condição para participar da Ceia. A partir do século XI outras exigências foram solicitadas para a participação na Ceia. O IV Concílio de Latrão, em 1215, fixou a idade entre 07 e 10 anos para poder participar na Ceia. Nesta idade as crianças já poderiam ver a diferença da Ceia com a presença da salvação em Cristo e a simples refeição. Assim, na Igreja Ocidental se colocam limites para a participação das crianças na Ceia. Na Igreja Oriental, até hoje, todas as crianças batizadas são convidadas para a Ceia.

Os Sacramentos foram ordenados por Jesus Cristo. Eles são obras d'Ele e não desta ou daquela denominação religiosa. Faz parte de um Sacramento a Palavra de Deus e os elementos visíveis. Os benefícios dos Sacramentos vêm de Cristo. Neste, todos os dons de Deus nos são concedidos por graça: fé/justificação, perdão dos pecados, Espírito Santo/santificação, vida eterna, fortalecimento na fé e no amor. Toda essa "graça" experimentamos na comunhão do corpo de Cristo (igreja = comunhão dos santos).

Lutero entendeu o Batismo como presente de salvação. Lutero utilizou a imagem do testamento: Uma pessoa à beira da morte faz seu testamento e a partir da morte desta, que seria a morte de Cristo, este testamento passa a valer. A pessoa que recebe as promessas do testamento, mesmo sendo indigna, tem o direito ao que a ela é presenteado gratuitamente. O mais importante não é o que a pessoa faz ou deixa de fazer, mas o presente que recebe. O peso do testamento está na obra de Deus, e não na dignidade ou mérito do ser humano. Esta obra de Deus em nosso favor vale para sempre, não precisa ser repetida (caso de rebatismo). Quando não colocamos total confiança na graça de Deus. Lei é exigência. Lutero afirmou que ser cristão é saber diferenciar entre lei e Evangelho. A negação da Ceia do Senhor as crianças batizadas é desprezar a graça de Deus, que é dada a todas as pessoas, independente da idade e maturidade. Pois ela é graça, é presente, e cada pessoa batizada tem o direito de participar e viver deste presente na comunhão da família. Todos somos pecadores e necessitamos da mão estendida de Deus.

Pode acontecer de pais crentes não apresentarem seus filhos para batismo, mas estarem trazendo-os à frente para participação na Ceia do Senhor. Depois, em particular, o pastor deve conversar com os pais mostrando pelas Escrituras a íntima relação entre os sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor, de modo que um está atrelado ao outro. Por que participar da Ceia e não também do batismo? O batismo é o sinal da salvação em Cristo, devendo, portanto, preceder a Ceia. O coerente é que aqueles que foram batizados participem da Ceia do Senhor.

Alguém poderia alegar que as crianças não são mencionadas na realização da primeira Ceia do Senhor. A isto respondemos que nem tão pouco as mulheres são mencionadas. Vamos examinar o seguinte texto: "Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo." (1 Co 10.1-4). Paulo estabelece este paralelo para que os cristãos da igreja de Corinto pudessem estar alertas para não incorrer no mesmo erro que levou a maioria do povo a perdição (v. 5-11). É interessante notar aqui algo relevante para o estudo que estamos fazendo sobre batismo infantil e participação das crianças na Ceia do Senhor, pois vemos que Paulo estabelece um paralelo entre os sinais da salvação do povo do Antigo Testamento com os sinais da salvação dos cristãos, o batismo e a Ceia do Senhor estão em foco. Há uma ênfase também na palavra todos. Todos, adultos e crianças foram batizados na nuvem e no mar e todos, incluindo as crianças, comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da rocha espiritual que é Cristo. O termo "todos" aparece também no verso 17 numa referência clara a Ceia do Senhor "pois todos participamos de um único pão".

Uma objeção que é feita a participação das crianças na Ceia do Senhor é que Paulo exorta os cristãos a examinarem a si mesmos antes de participarem da mesa do Senhor para não correrem o risco de comerem indignamente, sem discernir o corpo do Senhor, o que traria condenação. Mas pode-se conjecturar que esta exortação de Paulo não se dirigia às crianças, mas aos cristãos adultos que estavam cometendo diversos abusos durante as celebrações dos cerimoniais da Ceia (1 Co 11).

O cristão é filho de Deus e não existe filiação parcial, pois a graça é total. Não há cristãos pela metade, mas completos, tornados justos pela obra de Jesus e incorporados na comunhão dos santos, da qual as crianças fazem parte, desfrutando de todos as bênçãos e privilégios do Evangelho.


*a imagem refere-se à obra de Joey Velasco
fonte da imagem: http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EkpuFpEAplOgYrIxBM

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A difícil questão do divórcio.

“...todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por motivo de prostituição, faz com que ela ‘adultere’; e aquele que se casa com a repudiada comete adultério...”

Eis aqui um texto claríssimo, porém dificílimo sobre os ensinos de Cristo. Claro, porque é evidente que Jesus ensina que seus maridos não devem repudiar suas mulheres, salvo, segundo pensam alguns, uma exceção, e que desaprova também um novo casamento da repudiada, estendendo a qualidade de adultério até mesmo para aquele que ficar com a repudiada. Mas é dificílimo, pois deste texto, e demais do mesmo tema nas Escrituras, tivemos diversas posições diferentes na história.

A primeira, que podemos citar, é a católica romana, no sentido de que o casamento é para todo o sempre. Novo casamento, somente com a morte de um dos conjuges. Uma simples proibição, e não se fala mais nisso. Esta respeitável posição tem o mérito de espelhar de modo mais perfeito o casamento como analogia da relação Cristo e Igreja, que deve ser uma relação eterna, fiel, compreensiva. Também motiva aos fiéis a tal posição que não coloquem o divórcio como uma opção de solução para as dificuldades conjugais. Estimula o perdão, em caso de adultério, por parte do cônjuge inocente, que acaba vivendo, na prática, o exemplo de Cristo, que dá a outra face, que não julga, e que perdoa sempre. Além do que, é um foco de resistência a uma sociedade secularizada que reduziu o casamento a uma mera questão contratual.

A segunda, protestante e ortodoxa, é a de que, caso tenha havido prostituição, adultério, o cônjuge inocente é livre para casar novamente. Não se realiza o novo casamento do cônjuge adúltero (na época de Cristo, isto era possível, caso contrário, não faria sentido a observação de que “o que casa” com a repudiada comete adultério). Mas na prática, é provável que os ministros religiosos não fiquem questionando estas coisas antes de realizar um casamento de alguém que já fora casado. Ao que parece, também o apóstolo Paulo deu permissão para a separação do irmão cristão de seu cônjuge não cristão, quando este quiser ir embora (I Co 7,15). Alguns entendem que neste caso, o cristão está livre para um novo casamento, como é o caso do comentarista da Bíblia de Jerusalém.

Mas esta segunda posição terá outros desdobramentos que não parecem ter sido tratados no texto bíblico. Por exemplo, aceita a segunda posição, se o cônjuge inocente se casar de novo, o adúltero ainda assim não é livre para casar? Leia-se “cônjuge inocente” como o homem traído, no contexto das palavras de Cristo. Isto porque, se a esposa trair, é adúltera. Mas se for repudiada (traída?) e casar de novo, também é adultera, segundo tal ensino, e quem com ela casar também comete adultério. Vejamos isso com um exemplo: digamos que hoje, eu expulse minha esposa de casa, coloque outra mulher em seu lugar e diga para a anterior não volta mais. A sociedade de modo geral não entenderá que a minha ex-mulher cometerá adultério caso se case novamente. É seu direito, pois foi expulsa de casa. É inocente. Mas, se aplicarmos literalmente as palavras de Cristo, ela não poderá casar, pois estará cometendo adultério, mesmo tendo sido inocente. Mas se aplicarmos tal posição, a da proibição, que é a católico romana, não estaremos forçando uma pessoa inocente e viver sozinha o resto de sua vida? Imaginem uma sociedade patriarcal (não tão distante de muitas realidades atuais), em que a mulher é totalmente dependente da ajuda, da manutenção masculina, forçar a uma mulher que fique desamparada não seria duro demais? Teria sido este o ensino de Cristo? Uma pessoa querer, por livre e espontânea vontade, sofrer tal “martírio”, é uma coisa; mas impô-la sobre seus ombros, seria algo, ao meu ver, bem diferente.

Alguns dizem que o ensino de Jesus deveria ser devidamente contextualizado, e aplicado literalmente somente em seu contexto. Observem que ele só se dirige aos homens (“aquele” que repudiar a sua mulher...). Ou seja, no momento histórico de Cristo, juridicamente falando, somente os homens tinham tal poder. Não se poderia falar em “mulher repudiar o marido” e dar-lhe carta de divórcio, pois estamos diante de uma sociedade patriarcal (a mulher que assim agisse, estaria condenada à morte por adultério). Os defensores desta posição então, entendem que Jesus está atacando aquele costume em que os homens aproveitavam a “brecha” jurídica dada por Moisés, utilizando-a para repudiar suas mulheres quando bem entenderem. Ou seja, o marido enjoava da mulher, lhe dava uma carta de divórcio, e a mandava embora, e ficava com outra. Não deixa, a meu ver, de ser uma respeitável posição. Os defensores desta posição entendem então que, em nosso contexto, o ensino de Jesus seria outro. Já vi alguns dizerem que o ensino de Jesus não condenaria aqueles que, sendo cônjuges, honestamente decidissem terminar o seu próprio casamento, por acordo de vontades, por entender que isso seria melhor, sem traição, sem adultério, colocassem fim à própria sociedade conjugal. Obviamente, os defensores da posição católica romana diriam que a vontade de Deus, que é a indissolubilidade da relação conjugal, não pode ser revogada pela vontade das partes, o que, conforme já mencionei, é uma posição respeitável também.

Penso que a vida oferece casos concretos que talvez não possam ser resolvidos somente com uma radical proibição. Que dizer da jovem mulher, abandonada pelo seu marido, que deseja contrair novo casamento? Estará condenada a viver sozinha, ou com um monte de filhos o resto de sua vida? Que dizer do casal que não encontrou forças para salvar o próprio casamento e acabaram se separando e que, neste processo, acabaram contraindo um novo relacionamento? Alguns dizem que, caso tal casal queira ser fiel a Deus, deverá terminar o novo relacionamento e reatarem o casamento. Entretanto me ocorre que, quando eu era advogado, peguei um caso em que um jovem casal evangélico havia se separado, e que a mulher, pouco tempo depois, já estava grávida do novo relacionamento. E agora? Ela deveria, segundo tal visão de fidelidade, abandonar o novo companheiro, e levar o seu filho para o antigo relacionamento? Tal mulher estará condenada a ser adúltera o resto da vida? Deverá, tal casal, conforme o ensinamento católico romano ficar afastada o resto da vida da santa mesa da comunhão? E o que dizer da mulher espancada, ou explorada constantemente por um marido que não tem pretensão de mudar? Deverá sofrer o martírio por amor à idéia casamento? Deve-se pedir a Deus que de algum modo “leve seu marido embora” para casar novamente? Conheci um homem que viveu por anos em um relacionamento abusivo por parte de sua esposa, e que esta o expulsou de casa; e por anos, tal homem esperou por uma reconciliação, até que conheceu alguém e juntos ficaram. Vivem hoje uma ótima relação e todos os filhos, hoje já adultos, do antigo relacionamento estão com o pai e sua companheira. Ele deveria esta até hoje esperando sua antiga esposa? Ou seja, devemos impor o “martírio” ao cônjuge inocente indefinidamente, conforme já questionado? Por isso, digo que a mera proibição não seja talvez a melhor forma de resolver a solução, e os dados da realidade isto comprovam. É preciso muita compaixão, amor, misericórdia ao lidar com estas questões; e não podemos nos esquecer também que Deus também é misericordioso e perdoa o casal que “fracassou”, segundo minha opinião. Alguns pensam inclusive em incorporar na liturgia um pedido de perdão, um “descasamento” por parte de tal casal que se separou. Mas permitir o divórcio também é um problema. Quantas vezes se poderão permitir o divórcio? Uma, duas, três, sempre? Em qualquer caso, em qualquer aspecto?

De qualquer modo, independentemente das posições que tomemos, penso que todos concordamos que o ideal é que o casamento dure “até que a morte os separe”, e que os cônjuges têm que ter isto como um ideal, qual seja, lutar sempre pelo próprio casamento. A possibilidade do divórcio não deve servir para afrouxar a intenção de viver para sempre com o seu cônjuge, pois o casamento é uma analogia do relacionamento Cristo e Igreja. No catolicismo, a questão “está resolvida” (se bem que, na minha opinião, na prática não parece estar; basta ver as estatísticas acerca do divórcio nas nações majoritariamente católicas). Para os demais, somos desafiados a pensar cada questão em cada caso concreto, com ponderação, amor, humildade e caridade; não colocar uma carga deveras pesada nos ombros de outras pessoas, não impor proibições, mas ensinar cada qual a agir de acordo com a própria consciência, não deixando de advertir que “bem aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova”, e que todos seremos julgados por Deus em nossos atos. E incentivar as nossas comunidades eclesiais a que apoiem a instituição casamento, esta coisa maravilhosa, que é potencialmente fonte de tanta felicidade, alegria e humanidade. O casamento é parte da “Vida Cristã”, e convido a todos que, seja neste blog, sejam em suas comunidades e igrejas, grupos de discussão, pensem bem sobre este assunto.


Publicado originalmente em agosto de 2007.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Da Invocação do Nome do Senhor

Tenho estudado um pouco a espiritualidade cristã antiga. Li alguma coisa sobre a tradição "Hesicasta", ou seja, a espiritualidade ortodoxa, bem como a "invocação do nome de Jesus". Penso que, se no catolicismo romano não se ouve falar muito disso, quanto mais no protestantismo, onde tem havido alguma falta de movimentos mais contemplativos.

Bom, fato é que, uma destas formas de orações que tenho estudado se refere à "oração de Jesus", ou "invocação do Nome". É algo simples (aparentemente), em que o fiel recita o nome de Jesus repetidas vezes. Um livro que trata bastante desta prática é o “Peregrino Russo”, clássico da tradição Ortodoxa Russa. O fiel, em estado de contemplação, ou em seu cotidiano, vai repetindo o nome de Jesus, podendo utilizar de diversas expressões, sendo a mais clássica o Kyrie, dizendo “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim; Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim” (se reparar, nas ditas invocações estão explícitas a natureza humana e divina do Salvador). Poderá somente dizer “Jesus”, ou “Jesus Cristo” conforme preferir. Os grandes mestres desta prática chegam a sugerir que, a partir de determinado momento, o nome de Jesus está inserido na própria respiração da pessoa, como que se as batidas do próprio coração “dissessem” “Jesus”.

Certamente, muitos protestantes lembrarão da passagem do Sermão da Montanha em que Jesus ensinava que não devemos utilizar “vãs repetições”. Mas nos perguntamos: será que invocar o nome do Senhor é uma “vã” repetição? Penso que não.

Tenho uma filhinha que amo, e lembro-me que quando esta estava começando a balbuciar as primeiras palavras, ela se deitava algumas vezes em meu colo, olhava nos meus olhos e, com sua voz delicada dizia: papa... papa... papa... papa.... Repetindo “papa” dezenas de vezes. Meu coração se enchia de alegria e de orgulho. De modo algum aquilo me incomodava. Ora, se eu, miserável homem que sou, me encho de alegria quando minha filhinha dizia “papa”, quanto mais Deus, todo Santo, não deverá estender conosco sua comunhão quando, com coração de crianças, invocamos o seu nome, ainda que, de certa forma, somos todos crianças, não sabemos orar como convém, e ainda por cima, apenas “balbuciamos” palavras espirituais?

Bom. Sei que a analogia não seja bem exata, mas penso que ela acaba por ter o condão de demonstrar que, a invocação do nome, de coração, não pode ser tida como uma mera repetição sem sentido. Obviamente, ela não é para todos; cada um de nós tem que encontrar os modos pelos quais sente que melhor entra em comunhão com Deus. Eu, particularmente, não me atrevo a tentar ser um “místico cristão”, no sentido hesicasta do termo, e, não obstante ter praticado algumas vezes a invocação do nome, estou a milhas e milhas distante da descrição da experiência de seus maiores propagadores (no Brasil, pode-se encontrar algo nos escritos de “Jean-Yves Leloup”, em seu livro “Escritos sobre Hesicasmo”, da Editora Vozes, além de duas obras sobre “O peregrino russo”, que foram editados pela Editora Paulus). Pessoalmente, penso ter maior facilidade para entrar em maior comunhão com Deus na contemplação da natureza, da criação. De qualquer modo, como creio na bondade e misericórdia de Deus, bem como na liberdade do Espírito Santo, penso que, na mística cristã, ou na espiritualidade, está um caminho em que cristãos de todas as tradições se encontram com Deus, e em Deus, todos se encontram. Pela via do diálogo e do debate doutrinário, acho muito difícil se chegar a tal encontro, mas pela espiritualidade e prática cristã, podemos todos estar muito próximos. Por isso, fico fascinado com tanta riqueza sobre a espiritualidade cristã, e faço a proposta para que todos os que tiverem interesse, pesquisem sobre o tema.
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Enfim, que todos possamos de fato invocar no nome do Senhor, pois, todos os que o invocarem, serão iluminados, serão salvos.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sobre a (im)parcialidade de Deus. Deus é injusto?

No evangelho de João há um relato em que Jesus vai diante do chamado poço de Betesda.

Nestas localidade havia muitos enfermos, incontáveis.

Segundo o relato, Jesus curou apenas um, e os demais ficaram como estavam.

Muitas outras passagens existem assim na sagrada escritura...

O que dizer diante de tal fato? Deus é injusto por curar alguns, e outros não?

Alguns dizem: Deus é soberano, faz o que quer e ponto. É a resposta mais simples. É a resposta do crente.

Outros dizem: Deus não existe. Bobeira perder tempo com isso! Ou se existir, não é desse jeito que essas escrituras narram. É a resposta do ateu, do agnóstico.

Há que diga: Deus não pode ser injusto, curar uns e outros não. Logo, estes relatos são míticos, e querem comunicar outra coisa, mas não a possibilidade de cura. Eles, apesar de crerem em Deus, querem "limpar sua barra" e justificar sua crença de forma inteligente. Logo, elaboram uma teoria no sentido de que Deus não interfere neste mundo de forma nenhuma, e que estamos por conta de nós mesmos. Os que assim creem são mais difíceis de serem classificados, e acho que eles preferem assim mesmo.

Quem dá a primeira resposta não quer muito diálogo. Já está seguro do que diz, e não está a fim de discutir.

Quem dá a segunda resposta, já se posicionou de alguma forma. 

Quem dá a terceira, me parece que se encontra em uma crise de fé um pouco maior. 

Muito bem, o que penso?

A segunda resposta, não vou discutir. A pessoa já negou tudo, não há base comum.

Penso que quem dá a terceira resposta se afastou um pouco da tradição bíblica, não tardará, e rejeitará todos as doutrinas (ou dogmas) históricos acerca de Cristo, da Trindade, dos milagres, da ressurreição física, etc. Respeito tais teólogos, mas não sigo esse caminho (já tentei, confesso, mas achei muito árido). 

Penso também que não basta dizer Deus é soberano e ponto. Precisamos ir um pouco além disso.

Dentro da tradição bíblica, existe a ideia de queda do ser humano, pecado original, ou seja, pecado das origens. Isso afetou profundamente todo o modo como a humanidade se relacionou com Deus, nos deixando com uma tendência muito ruim, que em linguagem teologicamente técnica pode ser descrito como "totalidade da depravação humana" Isso não significa que o homem seja tão mau quanto pode ser, mas que frente a um Deus santíssimo, está irremediavelmente perdido.

Nesta perspectiva, Deus poderia ter acabado com a humanidade desde o momento em que esta pecou. E Ele continuaria sendo quem Ele é, com todos os seus atributos.

Mas Ele assim não o fez, e vem durante todos estes séculos, permitindo a existência humana, ao ponto de querer resgatá-la. E o mais exuberante ato de amor foi dar o melhor de Si, ou seu próprio Filho, para redimir toda a humanidade.

Ou seja, o que quero dizer é que, se Deus quisesse, poderia ter colocado um fim na história humana desde o seu início. E se ele agisse somente baseado em sua justiça, é isso que poderia ter feito. Entretanto, como está escrito, a misericórdia triunfa sobre o juízo. Logo, se continuamos por aqui, TODOS nós vivemos e existimos por misericórdia divina, pura graça, dom imerecido, não importa que uns recebam um pouco mais, outros menos. E todos nós vivemos em um mundo em que há determinada esfera de liberdade para cada um de nós, e vamos vivendo, ora nos machucando, ora nos ajudando, e todos nós sofremos as consequências do que outros a nós fizeram e vice versa, sem necessariamente isso ou aquilo ser culpa divina.

De fato, isso não significa que tenho todas as respostas. Do porque alguns são curados, outros não. Mas, se posso dizer assim, é precisamente neste ponto que prefiro colocar uma "pitada" de agnosticismo. Confessar minha ignorância e continuar caminhando. Isso faz parte da fé, confessar que não entendo tudo, mas CONFIAR que há um Senhor sumamente amoroso, e bom (como nos dizem as Sagradas Escrituras) e justo, que seja com sua providência, seja com sua permissão, conduz e conduzirá a história de um modo tal que eu não posso conceber. Mas em tudo isso, se as Escrituras forem verdadeiras, também me consolo com o fato de que o Senhor não é um Deus distante, mas em nós, que sofre em nós, e que, no Filho, Aquele que tudo deixou, se esvaziou, e se tornou um de nós, feito pecado sem ter pecado, e foi o que mais sofreu e padeceu com toda a condição humana, e padece até os dias atuais por meio de seu corpo, que é a igreja. 


Sobre a (im) parcialidade de Deus

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Pastor, não domine os que lhe foram confiados

Um ministro deve, com todo o seu coração, estudar a Palavra.

E uma vez estudada, deve transmitir o que aprendeu aos seus ouvintes.

E esperar no Senhor para que Ele dê o crescimento de cada qual.

Não cabe a um ministro do evangelho querer dominar sobre a vida do seu rebanho.

Deve dar espaço para o agir da Palavra.

E não pode usar o púlpito da igreja para mandar recados indiretos para alguns dos membros. Por isso, o ideal é que sua pregação seja expositiva, e diga somente aquelo que as Escrituras dizem.

É muito comum também determinadas lideranças gerarem uma série de atividades eclesiásticas e fazerem pressão, muitas vezes de forma autoritária, para que todos participem.

Isso, a meu ver, pode se constituir em um abuso de autoridade.

Pastor deve propor, não impor.

Tenho observado inclusive que, é interessante o ministro ordenado realmente se ater à pregação da Palavra, propor alguns ministérios, e aguardar também algumas manifestações da comunidade.

A própria igreja trará propostas: "pastor, podemos entregar comida nas ruas"? "Posso fazer uma cantata com as crianças"? E assim sucessivamente.

Claro que a liderança de uma igreja acabará por propor, de forma mais organizada, as atividades da igreja, os horários dos cultos, mas deverá sempre se esforçar, no sentido de que tais atividades sejam atraentes, para serem realizadas com amor, mas não com base em injetar sentimento de culpa e pressão sobre seus membros. Não acredito sinceramente que um pastor tem a mesma autoridade de Jesus, pois este é o verdadeiro mestre interior e Senhor de cada membro da comunidade.




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Igreja X Instituição


Não é nova na história à crítica à Igreja como uma instituição. Principalmente, quando historicamente sabemos que ela causou abusos, tristezas em muitas ocasiões, com suas disputas, maus testemunhos, envolvimentos políticos e coisas do tipo. A crítica da Reforma foi tão mordaz que ressaltou a realidade eclesial como algo invisível (argumento retomado de Agostinho, provavelmente), ou seja, desassociou completamente a Igreja institucional, qualquer que seja, com o corpo místico de Cristo.

Esta crítica tem muitas virtudes, pois faz a Igreja institucional se lembrar de que ela não é um fim em si, mas um meio para que algo maior seja alcançado.

Hoje ninguém nega que todas as Igrejas oriundas da Reforma se institucionalizaram, ou melhor, já nasceram institucionalizadas, afinal, criar algo já é institucionalizar. Os que não se organizaram, não sobreviveram, e se hoje algo sabemos de sua história, foi porque alguma instituição, ainda que educacional, a preservou. Mesmo os anabatistas, se estão hoje entre nós, devem muito disso aos menonitas, que também se institucionalizaram.

Por tudo isso, aprendemos que, querer criar um corpo eclesial sem se institucionalizar parece ser uma grande ilusão. Cedo ou tarde, se tal grupo quiser sobreviver, terá que se organizar, “institucionalizar”, reconhecer uma liderança, um local de encontro, um fundo econômico; se quiser realizar algo juridicamente, terá que ter inscrição em cartório; se quiser sobreviver financeiramente terá que arrecadar dinheiro, abrir conta em banco, e logo terão que contar com a “impessoalidade” de uma personalidade jurídica (ou vão ficar eternamente alugando espaços no nome de uma pessoa física, ou depositando todas as arrecadações na conta de algum membro da comunidade, geralmente do líder?). Logo, institucionalizando-se, estará criada uma nova denominação, com característica própria, por mais que tente negar. Veja nos grupos dos que sustentam um grupo sem líderes, e, os que mais entusiasticamente defenderem tais movimentos, ali está o líder! E digo, com todas as letras, que isso não é ruim. Institucionalizar-se nada mais é do que demonstrar a seriedade do trabalho que está sendo feito. Agora, institucionalizar-se não significa necessariamente ser legalizado. Se lermos com honestidade os documentos dos antigos cristãos, veremos que, apesar de terem vivido no início sob a ilegalidade, já tinham uma respeitável organização (Clemente, Policarpo, Inácio, Didaquê, Pastor de Hermas, etc).

Dom Robinson ensinou em “Cristianismo e Política” que sustentar um corpo sem liderança é pura ilusão herética. Tillich, em “A História do Pensamento Cristão”, demonstra que, os que lutam contra a instituição, deveriam pensar melhor, pois, tudo o que temos em termos teológicos, nos foi preservado e conservado por ela. Teríamos tantas cópias das Escrituras se durante tantos séculos os monges católicos não tivessem manualmente as copiado, dia após dia? Teríamos um cânon da Bíblia se a Igreja, pelo menos quatro séculos depois da sua existência, não tivesse tentado entrar em acordo do que seria ou não canônico? Teríamos sustentado um pouco da identidade cristã se os grandes concílios não repelissem o que consideraram ensino herético, como o arianismo, entre outros, por melhores ou piores que fossem as decisões advindas dali?

Portanto, nossa luta não é declarar o fim da instituição, mas sim evitar o institucionalismo (a instituição quanto um fim em si mesma). É humanizar a instituição. Instituir, em seu sentido mais básico é criar, iniciar algo. Quando digo que comecei um grupo de oração em casa, posso dizer também que “institui” tal grupo, com dia certo e horário para se reunir. Não há contradição alguma nisso.

A igreja é e sempre será sagrada, pois foi comprada com o sangue de Cristo, e uma de suas expressões visíveis é a forma como se institui no mundo. Nossa luta é cuidar para que, a igreja como instituição e comunidade possam viver em harmonia, sem deixar de reconhecer que sempre haverá grandes tensões (como é própria da tensão que existe na luta da carne contra o Espírito), que sempre haverá gente com mais desejo de poder do que de pastorear, e que o santo e o demônico estão juntos em todo agrupamento humano, mesmo na igreja, mesmo dentro de cada um de nós. A igreja que incentivou as cruzadas (o que em si mesmo não foi totalmente um erro, a meu ver), a inquisição (que diga-se de passagem, talvez nem tenha sido sempre injusta), também nos deu S. João da Cruz, São Francisco de Assis, Santa Tereza d’Ávila, Henri Nowen, Thomas Merton. O mesmo movimento que nos deu a supremacia branca, protestante e anglo saxônica, a matança de camponeses, o aparthaid, a escravidão, nos deu Wesleys, Luther King, Bonhoeffer, Desmond Tutu, entre tantos outros. Todas as vezes que tentamos “fugir” deste problema, na verdade, o levamos conosco, e corremos o risco de reproduzir com maior radicalidade aquilo que tanto criticávamos.

Da impossibilidade da igreja não se institucionalizar
Adicionar legenda



(publicado pela primeira vez em fevereiro de 2008)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Saber ouvir


São raros os bons ouvintes hoje em dia. Queremos muito mais ser ouvidos do que ouvir. Ser compreendidos do que compreender. Repare nos momentos informais de nossa vida que praticamente disputamos para ver quem tem o melhor caso para contar, ou ver quem pode se gabar mais de um grande feito, ou ainda, para ver quem tem um problema maior e a vida mais sofrida. Raramente dispomos de nosso tempo e paciência para ouvir acerca das aflições de algum irmão. Na verdade, criamos um clima que, muitas vezes, sequer deixamos nossos amigos à vontade para abrirem o seu coração, ou desabafarem para conosco. Se quisermos bons ouvintes, acabamos por ter que pagá-los, na forma de psicólogos e terapeutas. Nas Igrejas Evangélicas, muitos fiéis não se sentem muito à vontade de se falar profundamente sobre suas intimidades com seus líderes, por diversos motivos, dentre eles, a falta de confiança, ou a vergonha de que tais líderes possam utilizar mal a informação que lhes é prestada. Na Igreja Romana, há muitos fiéis para pouquíssimos padres, nem todas paróquias possuem confessionário aberto todos os dias, algumas, dependendo da localidade, não possuem sequer clérigos, e outras, que possuem, acabam mais por "prestar um serviço" (útil, é verdade), mas pela grande quantidade de fiéis, acaba por haver uma certa impessoalidade. E não é somente sobre confessar pecados que estamos refletindo neste texto. Por isso, o “saber ouvir” tem que estar espalhado por entre o povo, e não concentrado sobre os profissionais da fé.


O maior requisito para quem quiser ser um bom ouvinte, certamente, é o amor. Tal amor que se porta pacientemente, sabendo ouvir as dores do irmão. É até mais importante demonstrar ao amigo aflito a certeza de que se estará ao lado nas circunstâncias difíceis do que a promessa de que irá resolver todos os problemas dele. Isto porque, às vezes, sequer temos paciência de ouvir o nosso irmão, e já vamos dando a solução para os seus problemas. E nem sequer ponderamos, apenas por um instante, que este nosso amigo já havia pensado em tal solução por nós proposta, já a aplicara, mas por algum motivo, mas não dera certo. Talvez, tudo o que ele esteja procurando seja solidariedade, companheirismo, compreensão. Quando ele finalmente se decide a abrir para com alguém uma questão sua, significa que para ele tal problema pode ser de uma dificuldade enorme. Quando damos uma solução simplista, corremos o risco de até ofendê-lo. Temos que ter muito discernimento nesta questão, talvez sugerindo, do que impondo soluções, talvez o levando a encontrar sua própria saída.

Em nossa vida cristã, saber ouvir é primordial, afinal, é uma forma de ajudarmos a carregar as cargas uns dos outros.

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domingo, 26 de novembro de 2017

Dia de Cristo Rei.


Tronos, Soberanias, Principados, Autoridades, tudo foi criado por Ele e para Ele... (Colossenses)



Para os que seguem o calendário litúrgico, o último domingo de novembro é dia de Cristo Rei, último dia do calendário litúrgico do ano; encerramento hoje o ano eclesiástico.

Muitos não parecem ver muita importância no calendário litúrgico, ou em segui-lo, sob o argumento que é coisa de um tempo ultrapassado, coisa da Igreja Romana, enfim... Muitos sequer sabem que existe um calendário litúrgico, e o pouco que conhecem, se dá por via feriados nacionais.

Curiosamente, estive conversando hoje com uma adolescente que ficou bastante chateada quando foi a um país em que o Natal não era sequer mencionado, ficando a cargo de uma ou outra família somente no âmbito privado... Talvez seja este o destino que aguarda todos os cristãos diante de um estado radicalmente laico, que talvez só não esteja assim ainda no Brasil e em outros países tendo em vista desejos mercantilista...vai saber... Ou quem sabe, alguns prefiram que cada denominação eleja seu próprio dia de Natal ou Páscoa, faça seu próprio calendário... Já pensou?

Bom, feita esta pequena digressão sobre datas cristãs, fato é que, no calendário litúrgico, hoje é dia de Cristo Rei. E a pergunta óbvia é a que ponto ele tem reinado em nossas vidas? Será que, em tempos de tanto antropocentrismo, consumismos, e outros “ismos” queremos ainda um Rei governando sobre nossas vidas? Damos total atenção às palavras d'Ele? Não só no âmbito privado, mas também no público, estamos sendo o povo do Rei? Em meio a tantas divisões, ainda conseguimos sustentar que servimos ao mesmo Rei, e que seu reino não está dividido? Em um mundo em que falar de santidade saiu de moda, podemos dizer que Cristo realmente é o nosso Rei?

Fato é que por mais que lamentemos, e nos entristeçamos, o Reino não vem em aparência externa. Ele está no meio de nós. Em locais que menos esperamos, ele se manifesta; e em locais que pensamos que ele deveria se manifestar, já se foi faz tempo... Mas não deveríamos nos assustar, pois assim é todo o que é nascido do Espírito, sopra onde quer... Onde há o orgulho humano, não pode estar o reino de Deus; onde está a pompa dos homens, Cristo não pode reinar. Penso que o Reino de Cristo ainda é o Reino dos humildes, dos mansos, dos santos, dos carentes da graça de Deus; e é curioso como, tantas vezes com uma roupagem cristã prometeram, e ainda prometem, tantas vezes os reinos deste mundo. Cristo é o Rei do Universo de Fato e de Direito. Mas dá liberdade a que cada ser humano se coloque ou não a disposição deste reino.


Jesus é Rei, pois é da descendência de David, da tribo de Judá. Mas é Rei também, pois é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, e todos os adjetivos que foram utilizados para IHWH no Antigo Testamento, são utilizados em relação a Jesus, no Novo. Ele é o nosso Rei, porque é o nosso Deus, o nosso Criador, aquele por meio de quem nada do que foi feito se fez. E ele é um Rei tão justo, tão bondoso e misericordioso, que humilhou-se até a condição humana, e como homem, viveu a vida de servo, e como servo, morreu a morte de cruz por todos nós; e hoje, está assentado ao lado do Pai, e é um com Ele. Impossível não amar este Rei verdadeiro.

Para os cristãos, Cristo não é somente Salvador. É Senhor também. Ele não vê os nossos corações como o homem o vê. E a grande questão que somente cada um de nós pode se perguntar é: o quanto realmente Cristo tem sido o Rei de nossas vidas. Peçamos todos a Deus para que Cristo venha reinar a cada dia sobre os nossos corações.

Somos tão falhos, Senhor.
Tem piedade de nós, bondoso rei!
Tuas Palavras deveriam ser normativas para nós, mas vivemos tão pouco o que ela nos determina.
Nos ajuda Senhor, a honrarmos o teu nome em nossas vidas!
Reina sobre nós, Senhor.
Venha nós o teu Reino!
Hoje, e para todo sempre!
Amém!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A intenção do coração

“Porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém, o Senhor olha para o coração...” (o Profeta Samuel).

Segundo o profeta Samuel, o nosso interior, diante de Deus, é muito mais importante e relevante do que nossa aparência. O evangelista Mateus nos diz que Cristo ensinou que felizes eram os puros de coração. O apóstolo Paulo nos ensinou que, quer seja comendo, quer bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, que o seja para a glória de Deus. Jesus, quando esteve sobre a face da terra, disse aos fariseus que eles deveriam limpar primeiro o interior do copo, do que o exterior.

Por isso, ao meditar nestas e em tantas outras passagens bíblicas, convido a você que juntos aceitemos o desafio de, em todos os momentos de nossa vida, fazermos uma auto-análise de nossas intenções na presença do Senhor. Com que intenção nós temos vivido nossas vidas? Com amor? Com egoísmo? Com caridade? Com “vontade de aparecer?” Pois pecados não são meros atos que violam as leis exteriores como não roubar, não matar, etc; mas também aquelas coisas aparentemente boas, mas não feitas com boa intenção. Quando dermos a devida atenção à via mística, à possibilidade de Deus transformar os nossos corações, toda discussão sobre “fé e obras” perde o sentido, pois a deslocaremos para a transformação do ser diante de Deus e de toda a humanidade.


Certo filósofo disse que ter o coração puro era querer a Deus e somente a Ele (Kierkeegard); outros disseram que se buscássemos a Deus em tudo quanto fizéssemos, lá Ele estaria.


Portanto, fica este desafio a todos nós: o de, com transparência, refletirmos sobre toda a nossa vida e todos os nossos atos, para meditarmos se em tudo temos feito com a reta intenção e para a glória de nosso Pai. Eu tenho a sincera esperança que, se assim o fizermos, seremos todos felizes, ou seja, bem-aventurados.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Igreja e igrejas



por Jefferson Ramalho *

Na presente reflexão não pretendo ser crítico nem agressivo. Quero apenas convidar você a pensar comigo. Pensar a respeito do conceito cristão que envolve o termo “igreja”. Quando este vocábulo foi usado no Novo Testamento jamais existiu a intenção de que ele fosse um termo sagrado em si mesmo. Igreja, vindo do grego, era o mesmo que assembléia. Portanto, outro termo que trouxesse o mesmo significado poderia ter sido usado.

Mas sabemos que no decorrer da História da religião cristã, o termo igreja se tornou sagrado. Mas não apenas no sentido estritamente teológico do termo, como sendo aquilo que diz respeito ao Corpo de Cristo, a reunião invisível de filhos de Deus. Na verdade, com o passar do tempo, “igreja” se tornou o termo mais apropriado para se referir à instituição humana que sempre se identificou como Corpo de Cristo.

Infelizmente existe uma distinção enorme entre a igreja institucional que muitas vezes se resume a uma organização humana, a uma catedral medieval, a uma basílica, a uma firma aberta com CNPJ e Estatuto e a igreja invisível, o Corpo de Cristo, às pessoas que independentemente de onde se reúnem para cultuar a Deus fazem parte da Sua Comunhão.
O problema maior certamente talvez nem esteja em existir esta diferença, mas nas diferenças. A igreja institucional consegue se assemelhar de tal maneira a qualquer outra organização humana, a qualquer empresa, a qualquer coisa do tipo, que sua identidade espiritual acaba ficando em dúvida para aqueles que sabem o que de fato significa ser Igreja, não institucional.

A igreja institucional é a antítese daquilo que o Evangelho apresenta ser Igreja de Cristo, mas que poderia inclusive ter ganhado outro termo qualquer, pois neste caso, o significado essencial não se encontra no termo, mas na ação, na existência, na participação social, na evangelização desinteressada de qualquer outra coisa que não seja a conversão da alma do evangelizado.

Alguns, como o pr. Carlos Bregantim, mentor da estação do caminho de graça, em São Paulo, chamam a Igreja de Cristo de “Igreja Clandestina”. Seria aquela que está absolutamente descompromissada de qualquer possibilidade de status, desinteressada em barganhar com Deus, despreocupada com o crescimento numérico para evidenciar poder institucional. A Igreja de Cristo não quer jamais se tornar igreja. A Igreja de Jesus não precisa se tornar “igreja” para ser reconhecida como Igreja.

Pe. José Comblin disse em sua última vinda a São Paulo: “Chegou um momento em que a Igreja precisa optar entre crescer institucionalmente e simplesmente imitar a Cristo”. O maior problema é que a igreja não consegue existir sem o objetivo de crescer institucionalmente, enquanto a Igreja quer somente uma coisa: imitar a Cristo.

A igreja institucional quer crescer numericamente, enriquecimento financeiro, fama através de gravações e vendas de CD’s e DVD’s de seus grupos musicais, expansão denominacional por meio da fundação de igrejas locais (filiais), construção de mega-templos o que mostra ainda mais a sua mentalidade medieval de altos ideais que se evidencia de diversos modos como por meio da construção de grandes catedrais. Isso é a igreja.E a Igreja? O que é e onde está? A Igreja Corpo de Cristo é visível e invisível, mas está escondida, está verdadeiramente trabalhando pelo Reino incansavelmente e sem nenhum interesse em ser vista pelos homens, pelas câmeras. A Igreja de Cristo é a noiva de Jesus, é aquela que muitas vezes é rejeitada no ambiente da igreja humana, é aquela que não faz questão de acumular bens, riquezas, construir mega-templos, organizar passeatas com interesses políticos, gravar CD’s e DVD’s vislumbrando a fama e conseqüentemente o poder. A Igreja Corpo de Cristo adora Cristo, a igreja institucional diz que adora a Cristo, mas na essência adora o dinheiro, as riquezas, a teologia dogmática que segue por considerá-la teologicamente correta, o poder político, a fama, o crescimento numérico, o reconhecimento humano; ainda que todas essas coisas tenham um rótulo com o nome de Jesus escrito.

É assim que funciona e é assim que continuará sendo por muito tempo, infelizmente.

Minha oração é no sentido de que a Graça, a Misericórdia e o Perdão do Altíssimo atinjam a vida das igrejas assim como todos os dias têm atingido a vida da Igreja.
na Graça,
Jefferson

(texto escrito em novembro de 2007)