quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A intenção do coração

“Porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém, o Senhor olha para o coração...” (o Profeta Samuel).

Segundo o profeta Samuel, o nosso interior, diante de Deus, é muito mais importante e relevante do que nossa aparência. O evangelista Mateus nos diz que Cristo ensinou que felizes eram os puros de coração. O apóstolo Paulo nos ensinou que, quer seja comendo, quer bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, que o seja para a glória de Deus. Jesus, quando esteve sobre a face da terra, disse aos fariseus que eles deveriam limpar primeiro o interior do copo, do que o exterior.

Por isso, ao meditar nestas e em tantas outras passagens bíblicas, convido a você que juntos aceitemos o desafio de, em todos os momentos de nossa vida, fazermos uma auto-análise de nossas intenções na presença do Senhor. Com que intenção nós temos vivido nossas vidas? Com amor? Com egoísmo? Com caridade? Com “vontade de aparecer?” Pois pecados não são meros atos que violam as leis exteriores como não roubar, não matar, etc; mas também aquelas coisas aparentemente boas, mas não feitas com boa intenção. Quando dermos a devida atenção à via mística, à possibilidade de Deus transformar os nossos corações, toda discussão sobre “fé e obras” perde o sentido, pois a deslocaremos para a transformação do ser diante de Deus e de toda a humanidade.


Certo filósofo disse que ter o coração puro era querer a Deus e somente a Ele (Kierkeegard); outros disseram que se buscássemos a Deus em tudo quanto fizéssemos, lá Ele estaria.


Portanto, fica este desafio a todos nós: o de, com transparência, refletirmos sobre toda a nossa vida e todos os nossos atos, para meditarmos se em tudo temos feito com a reta intenção e para a glória de nosso Pai. Eu tenho a sincera esperança que, se assim o fizermos, seremos todos felizes, ou seja, bem-aventurados.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Igreja e igrejas



por Jefferson Ramalho *

Na presente reflexão não pretendo ser crítico nem agressivo. Quero apenas convidar você a pensar comigo. Pensar a respeito do conceito cristão que envolve o termo “igreja”. Quando este vocábulo foi usado no Novo Testamento jamais existiu a intenção de que ele fosse um termo sagrado em si mesmo. Igreja, vindo do grego, era o mesmo que assembléia. Portanto, outro termo que trouxesse o mesmo significado poderia ter sido usado.

Mas sabemos que no decorrer da História da religião cristã, o termo igreja se tornou sagrado. Mas não apenas no sentido estritamente teológico do termo, como sendo aquilo que diz respeito ao Corpo de Cristo, a reunião invisível de filhos de Deus. Na verdade, com o passar do tempo, “igreja” se tornou o termo mais apropriado para se referir à instituição humana que sempre se identificou como Corpo de Cristo.

Infelizmente existe uma distinção enorme entre a igreja institucional que muitas vezes se resume a uma organização humana, a uma catedral medieval, a uma basílica, a uma firma aberta com CNPJ e Estatuto e a igreja invisível, o Corpo de Cristo, às pessoas que independentemente de onde se reúnem para cultuar a Deus fazem parte da Sua Comunhão.
O problema maior certamente talvez nem esteja em existir esta diferença, mas nas diferenças. A igreja institucional consegue se assemelhar de tal maneira a qualquer outra organização humana, a qualquer empresa, a qualquer coisa do tipo, que sua identidade espiritual acaba ficando em dúvida para aqueles que sabem o que de fato significa ser Igreja, não institucional.

A igreja institucional é a antítese daquilo que o Evangelho apresenta ser Igreja de Cristo, mas que poderia inclusive ter ganhado outro termo qualquer, pois neste caso, o significado essencial não se encontra no termo, mas na ação, na existência, na participação social, na evangelização desinteressada de qualquer outra coisa que não seja a conversão da alma do evangelizado.

Alguns, como o pr. Carlos Bregantim, mentor da estação do caminho de graça, em São Paulo, chamam a Igreja de Cristo de “Igreja Clandestina”. Seria aquela que está absolutamente descompromissada de qualquer possibilidade de status, desinteressada em barganhar com Deus, despreocupada com o crescimento numérico para evidenciar poder institucional. A Igreja de Cristo não quer jamais se tornar igreja. A Igreja de Jesus não precisa se tornar “igreja” para ser reconhecida como Igreja.

Pe. José Comblin disse em sua última vinda a São Paulo: “Chegou um momento em que a Igreja precisa optar entre crescer institucionalmente e simplesmente imitar a Cristo”. O maior problema é que a igreja não consegue existir sem o objetivo de crescer institucionalmente, enquanto a Igreja quer somente uma coisa: imitar a Cristo.

A igreja institucional quer crescer numericamente, enriquecimento financeiro, fama através de gravações e vendas de CD’s e DVD’s de seus grupos musicais, expansão denominacional por meio da fundação de igrejas locais (filiais), construção de mega-templos o que mostra ainda mais a sua mentalidade medieval de altos ideais que se evidencia de diversos modos como por meio da construção de grandes catedrais. Isso é a igreja.E a Igreja? O que é e onde está? A Igreja Corpo de Cristo é visível e invisível, mas está escondida, está verdadeiramente trabalhando pelo Reino incansavelmente e sem nenhum interesse em ser vista pelos homens, pelas câmeras. A Igreja de Cristo é a noiva de Jesus, é aquela que muitas vezes é rejeitada no ambiente da igreja humana, é aquela que não faz questão de acumular bens, riquezas, construir mega-templos, organizar passeatas com interesses políticos, gravar CD’s e DVD’s vislumbrando a fama e conseqüentemente o poder. A Igreja Corpo de Cristo adora Cristo, a igreja institucional diz que adora a Cristo, mas na essência adora o dinheiro, as riquezas, a teologia dogmática que segue por considerá-la teologicamente correta, o poder político, a fama, o crescimento numérico, o reconhecimento humano; ainda que todas essas coisas tenham um rótulo com o nome de Jesus escrito.

É assim que funciona e é assim que continuará sendo por muito tempo, infelizmente.

Minha oração é no sentido de que a Graça, a Misericórdia e o Perdão do Altíssimo atinjam a vida das igrejas assim como todos os dias têm atingido a vida da Igreja.
na Graça,
Jefferson

(texto escrito em novembro de 2007)


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Como você quer ver o mundo?


Por Sergio Ludovino Jr.*


Pensando em algo para compartilhar com meus amigos e leitores, pensei naquilo que me motiva e que me faz correr atrás todos os dias. Alguns talvez pensem que eu diria dinheiro, uma carreira promissora, meu casamento, filhos, uma intimidade com Deus. Tudo isso eu quero sim, mas o que eu busco a cada instante é ter bons olhos, ser simples no olhar como nos ensinou o mestre no sermão do monte no Evangelho de São Mateus capitulo seis, em que dizia sobre nossos olhos serem bons. Tudo começa como enxergamos as coisas.


Um deficiente visual pode não enxergar, mas pode ver com sua mente, e muitas vezes melhor que outros. A forma como vejo Deus irá determinar muitas coisas em minha vida. Será que a imagem que tenho de Deus não esta distorcida? Como vejo o meu próximo: será ele um aproveitador, um usurpador; e as pessoas que se aproximam de mim, qual é o interesse delas? Qual o proveito eu terei em te ouvir, e porque eu devo estar com você?


Somos projetados para ver o que queremos, mas muitas vezes queremos o que o outro tem, não o que ele é, mas sua felicidade, seu status, seu jeito. E assim nossa alma se torna doente visualmente, quer aquilo que não alcança, parecendo uma criança, e quando alcança não quer mais. Quando estamos com nossa visão distorcida, parecemos como o vovô que pela casa andava se queixando pelo horrível cheiro, ao sair do quarto bradou: “Que quarto imundo!” Chegou na sala e novamente retrucou: “Essa casa esta um verdadeiro lixão!”, abriu a porta e saiu na varanda e lá exclamou: “Esse mundo está podre, que fedor é esse?” O vovô esquecera que na noite passada havia comido queijo gorgonzola, e que em seu bigode havia ficado pedacinhos deste queijo que tem um cheiro muito forte, parecido com chulé. Achando o mundo podre não conseguia ver o que estava podre era o cheiro do seu bigode que exalava um odor e seu nariz logo detectava o problema, mas não via que era nele e não no mundo.


Assim somos parecidos com o vovô, não conseguimos ver o bem, o simples, não há pureza. Não agüentamos nem nós mesmos como poderemos acreditar, suportar, querer bem os outros? Comece entendendo e vendo que Deus maravilhoso é esse que sempre quer começar de novo, que tem um sim e o amém para você, quer te fazer como ele é, não mais como o filho pródigo que abandonou tudo e gastou seus bens e voltou devendo e nem como o filho que se achava no direito e tinha rancores em seu coração; quer que você seja como Ele, o Pai, que vê, enxerga e nunca perde a esperança no objeto de seu amor, o filho.


Adore a Deus sem ver, agradeça sem sentir, pois quer você queira ou não Ele te ama, e quer transformar seus olhos, para que veja. Comece a reparar mais na sua família, na natureza, na vida; isso tudo é um milagre, e é muito precioso, abra seus olhos e vai ter mais lugar para o bem. Não critique, não fale mal do seu próximo, não desista de seus sonhos. Acredite mais, não tenha medo de errar de não saber, seja simples, o Pai disse que você é filho e não há ex-filho, será sempre filho. Troque seus óculos, mude o seu foco, e verá o que está ao seu redor e não enxergava, adorará Ele que é digno antes de você e será sempre.


*O autor é membro da Igreja Evangélica Manain, e envolvido com a obra social e educacional da Comunidade.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Em Busca de Sentido.



Regis Augusto Domingues * 

Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento... Por isso, a vida começou a não valer nada para mim; ela só me havia trazido aborrecimentos. Tudo havia sido ilusão; eu apenas havia corrido atrás do vento. Eclesiastes 2: 11 e 17


Certa vez, uma pessoa desanimada e achando a vida empalidecida ficou por alguns minutos observando os livros que compõem minha biblioteca, passando os olhos de prateleira por prateleira perguntou-me: Para que e porque tantos livros? Pensei por um instante. Observei a gama de temas tratados naqueles livros e não pude deixar de responder o que refletia minha própria alma: Essa quantidade de livros e mais a inúmera quantidade de produções intelectuais e livros que são publicadas diariamente, é nada mais nada menos que o ser humano em busca de sentido. São homens e mulheres em busca de significado para a vida. Queremos respostas para contentar os desgostos de nossa frágil existência.

O psicanalista norte-americano Rollo May, um dos expoentes da Psicologia Existencialista, escreveu: “Pode surpreender que eu diga, baseado em minha prática profissional, assim como na de meus colegas psicólogos e psiquiatras, que o problema fundamental do homem, em meados do século XX, é o vazio.” (O homem à procura de si mesmo, Ed. Vozes). Também Carl Gustav Jung, pai da Psicologia Analítica, em um de seus escritos faz a seguinte citação: “O problema de cerca de um terço de meus pacientes não é diagnosticado clinicamente como neurose, mas resulta da falta de sentido em suas vidas vazias”. Parece-me que há uma insatisfação geral em nosso coração quanto a nossa existência. Por mais que corramos atrás de algo nesse mundo, por mais valoroso que seja, é, na reflexão do escritor do livro de Eclesiastes, como correr atrás do vento.

Especialmente neste tempo em que somos privados de valores, onde o absoluto se perde nas entranhas do relativismo, onde “tudo o que é sólido se desmancha no ar” (Karl Marx), onde há um “desencantamento do mundo” (Max Weber), onde o máximo que se tem de absoluto é a dissecação do cadáver de Deus pela Teologia. Parece que tudo se perde. É como se tentássemos segurar um punhado de areia que escorre por entre os dedos da mão. Nada permanece, tudo passa rapidamente, como o vento.

E aqui é necessário que se abra um parêntese na fluidez do texto para um esclarecimento: não nego ou sou contrário há uma realidade relativa, isso seria insensatez, esquizofrenia, alienação. O relativismo, e sua inevitável conseqüência, a pluralidade, no que tange a vivência humana, é um conceito mais do que claro, e compreendo que também positivo, no pensamento atual. Entendo que somos seres relativos e somente Deus é absoluto, e que, portanto, teremos sempre uma visão parcial do absoluto. O que critico é a tentativa reducionista de relativizar o absoluto, e é isso que chamo de dissecar o cadáver de Deus. Jogar tudo no campo do relativismo em detrimento do valor absoluto afasta as pessoas do essencial que é Deus. Relativas são nossas idéias, nossas formulações teóricas, o “objeto” de nossa conceituação é absoluto. Somos seres relativos e sempre teremos visões relativas ou parciais de Deus, mas o absoluto continua existindo independente do relativo. Deus em sua condição de absolutividade continua presente e passível de relacionamento, mesmo em nossa condição de relatividade. Não é necessária uma compreensão plena de Deus para conviver com Ele, em nossa visão relativa podemos nos relacionar com o absoluto, que por fim é, e continuará sendo, mistério para as nossas mentes relativas e, portanto, finitas. Não há o que temer, não é preciso relativizar tudo para conviver bem com o meu próximo, posso manter valores absolutos (absolutos por encontrarem sua fonte no absoluto, mesmo sendo, na verdade, valores parciais) que para mim são preciosos, e o mesmo pode ocorrer com o meu próximo, sem que haja conflito. Porque o que importa é o respeito mútuo, o diálogo e o amor. Afinal: “agora, vemos como em espelho, obscuramente, então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (Apóstolo S. Paulo – 1ª Carta aos Coríntios 13:12 e 13).

A humanidade encontra-se perdida e sem sentido. Buscamos a satisfação de prazeres no dinheiro, no sexo, no conhecimento, mas tudo é enfado e correr atrás do vendo. Trabalhamos exaustivamente. Cheguei há trabalhar 12 horas por dia em detrimento de minha saúde, da família, dos amigos e da participação na igreja. E o que isso resultou? Aborrecimento, foi como correr atrás do vento. Vejo muitos que procuram correr para acumular dinheiro, criar fortuna. E o que resulta disso? Vidas destroçadas, famílias arruinadas, relacionamentos partidos. É como correr atrás do vento. Testemunhei pastores que se dedicaram imperiosamente aos seus ministérios de sucesso. E o que resultou disso? Esposas amarguradas e frustradas, filhos desorientados, pessoas feridas. É como correr atrás do vento. Muitas pessoas apostam suas vidas nas mais variadas atividades e quando chega à velhice o que resulta tudo isso? Meu pai, já falecido, teve uma rica experiência de vida. Quando pequeno seus olhos presenciaram a revolução constitucionalista de 1932 e seu poucos comentados horrores. Integrou na década de 40 o efetivo do exército brasileiro em plena II Guerra Mundial. Casou e criou seis filhos. Bom esposo, bom pai. Gostava de ler muito, foi um homem inteligente, prático e participativo junto à comunidade. Teve uma história de vida no mínimo interessante, mas quando completava 78 anos de idade, e suas condições físicas já se encontravam debilitadas ele confessou: “É muito triste chegar a certa idade e ver-se como um inútil”. Em que resultou toda uma vida? Sentir-se inútil ao final. É como correr atrás do vento. Nossa vida pode ser riquíssima e proveitosa, desde que achemos o propósito e o sentido para tanto.

Corremos, corremos, corremos... Como se nossa alma não se aquietasse com nada. Seja qual for o êxtase pelo qual passemos parece que ao fim algo está faltando. O vazio permanece lá porque esquecemos do essencial. Somente Deus dará sentido ao prazer, somente Deus dará sentido ao trabalho, somente Deus dará sentido aos nossos relacionamentos, somente Deus dará sentido à nossa existência. Prazer pelo prazer, destituído de Deus, é pleno desgosto e vazio.

O que nos rouba o prazer, a satisfação, a alegria de viver e nos lança num abismo de frustrações é esta ausência de significado, que somente pode ser dado por Deus. Viver a vida como seres autômatos numa megamáquina (Erich Fromm), ou seja, viver numa formatação social onde os membros da sociedade são reduzidos a meras peças numa grande engrenagem é como encenar uma tragédia lúgubre da existência, algo enfadonho e morto. Nada transformar-se-á em vida se não houver uma real experiência no encontro de sentido na e para a existência. E esse sentido somente pode ser encontrado em Deus. Como reflete Santo Agostinho (Bispo de Hipona, 354 – 430) em suas Confissões: “Senti e experimentei não ser para admirar que o pão, tão saboroso ao paladar saudável, seja enjoativo ao paladar enfermo, e que a luz, amável aos olhos límpidos, seja odiosa aos olhos doentes”. Paladar enfermo e olhos doentes, ou seja, a existência longe de Deus. Santo Agostinho sintetiza no início de suas Confissões a angustia existencial pela qual passou, orando a Deus: “Criastes-nos para Vós e nosso coração vive inquieto, enquanto não repousas em Vós”.

Quero te convidar a encontrar sentido. Quero te convidar a uma experiência de fé, ou seja, a responder a iniciativa de Deus em oferecer o seu amor a nós. Meu convite é para uma experiência de fé que se traduz num relacionamento de confiança e compromisso com Deus. Voltar-se para os propósitos de Deus em Cristo Jesus. Repousar em Deus e encontrar nEle sentido. Libertar-se do cativeiro do vazio para a plenitude da esperança. Talvez fervilhem muitas dúvidas, mas isso não é motivo de preocupação, pois, creio que muitas vezes é no campo árido da dúvida que floresce a fé. O importante é não ter medo, mas confiar e repousar o coração em Deus.

“Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e de se resolver e esfregar na sarna das paixões. Entretinha-me em conversa convosco, minha Claridade, minha Riqueza, minha Salvação, Senhor, me Deus.”
(Santo Agostinho, Confissões)


*O autor é reverendo anglicano.
(publicado originalmente em dezembro de 2007)



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

E os que fracassaram?...


Tem sido a igreja espaço para os desafortunados e sobrecarregados, para os tristes e derrotados, para os pequenos e fracassados?

Ou será que tais pessoas se sentiriam envergonhados em nossos grupos? Com isso, não digo que nosso discurso não vise atrair este tipo de gente, que anda meio triste e desesperada, fracassada e derrotada. Não. Temos um discurso forte para atrair estes.

O questionamento que aqui se faz é como lidamos com cristãos, gente que está neste negócio de cristianismo faz tempo, e ainda assim fracassa.

Lembrei-me de muitos testemunhos em que se ouve nas igrejas; gente que prosperou materialmente, gente que tem se dado bem na família, gente que por causa destes testemunhos é efusivamente aplaudida e Deus glorificado.

E isto pode acabar criando uma cultura do fingimento. Gente que está fingindo que está tudo bem para não chamar muito a atenção dos irmãos.

Mas e aqueles que passam por momentos terríveis em suas vidas? Gente que por um ou outro motivo, fracassa? Gente que não conseguiu o emprego esperado, o carro do ano, a casa própria, gente que se divorcia? Estão estes se sentido a vontade em nosso meio? Ou por não terem uma "história de vitória" acabam se afastando?

Há um triunfalismo muito perigoso tomando conta de nossas igrejas. Uma ideia de que inexoravelmente a benção signifique prosperidade e sucesso em todas as áreas da vida. E tem gente que está se sentindo culpada, triste, por não conseguir sempre o que se proclama dos púlpitos das igrejas.

Foi num momento de muita tristeza e dor que Jó era aprovado por Deus. E em momento de certo triunfo, que Davi vacilava...

Mas Jesus é o Deus de consolo aos que são derrotados. E na derrota talvez esteja a benção de Deus também. E precisamos tentar construir espaços e relações em que as pessoas possam falar, não somente de seus triunfos, mas também dos supostos fracassos. Que possamos levar os fardos uns dos outros.




quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A Ação Libertadora do Servir

Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, deve ficar em último lugar e servir a todos. (S. Marcos 9:35)



Que o amor faça com que vocês sirvam uns aos outros (Gálatas 5:13c)



Regis Augusto Domingues*


Provavelmente um dos maiores conflitos da alma humana repouse no conturbado antagonismo entre o Ser e o Ter (Erich Fromm), entre o conteúdo e a forma. Principalmente na sociedade hodierna, movida pelo poder econômico e abertamente consumista. Onde a pessoa é levada a crer que seu valor está ancorado no que possui, no poder que exerce e no montante do que consome. Cultura essa que identifica, ou melhor, estigmatiza a pessoa pelo que veste, pelo carro que tem, pelo lugar que reside, pela conta bancária. Uma verdadeira coisificação da pessoa humana.

Nesse cenário sócio-cultural, onde predominam as relações de desigualdade e de poder, onde uns oprimem outros por meio do controle disciplinar (Foucault), do domínio político, econômico e ideológico (Marx), somos incentivados a abandonar o Ser, a essência relacional inerente a pessoa humana, para nos moldarmos as formas plásticas e artificiais do Ter, a ilusão construída a partir da posse, do poder e do status. Aprisionada pelos aspectos superficiais e efêmeros do Ter a alma enferma lança-se num espiral de ilusões. Seus principais sintomas são o isolamento, a competitividade, o egoísmo. Alimentada por ilusões a alma fragmenta-se, perde a integridade e a existência acaba resumindo-se num retalho de coisas que se tenta Ter. Assim como as coisas, nos tornamos descartáveis.

Nesse estado de transe inspirado pela ilusão somos tentados a nos ocuparmos exclusivamente das coisas terrenas e passageiras e abandonamos o que é perene. Entramos em conflitos e competições, lutamos e guerreamos para possuir. Haverá algum valor nisso? Aqui, então, invoco o testemunho de S.Mateus em seu evangelho: O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?(Mt 16:26).

Um agravante a toda a essa situação é que o próprio campo religioso encontra-se entregue as seduções do Ter. O local onde a alma humana deveria encontrar algum conforto, esperança e renovação de forças, acabou por se deixar contaminar pela moléstia do egoísmo consumista. As chamadas religiões de mercado têm apregoado o mesmo espírito de nossa época, tendo o seu discurso e prática fortemente dominados por relações utilitaristas, pelo poder ditatorial e ideológico pretensamente legitimado pelo divino, pelo incentivo na obtenção de lucros e vantagens a partir de uma barganha com Deus e a qualquer custo. As pessoas correm atrás de mensagens triunfalistas repletas de receitas de sucesso, enquanto líderes religiosos se utilizam das pessoas e seus recursos para viabilizarem seus ministérios.

O espectro do Ter ronda e influencia o campo religioso, estando o próprio cristianismo comprometido. Infelizmente, quando observo a igreja cristã pela perspectiva teológica e histórica concluo que muitos que elevam o estandarte de uma pretensa mensagem cristã não passam de uma grotesca caricatura do evangelho. Onde a pessoa humana deveria encontrar a redenção, ser valorizada e cuidada como obra prima de Deus, tem encontrado o oposto: um discurso coisificante e alienante.

É necessário despertar! Cuidar para que nosso coração não esteja aprisionado pelo Ter, atentar para que nosso tempo e talentos não estejam dominados pela intenção exclusiva de possuir e dominar. E é aqui que nos deparamos com a figura magistral que nos desperta desse sono profundo.

A mensagem e a vida de Jesus Cristo quebram com a estrutura social sustentada pelo Ter e suas implicações, ao anunciar o Reino de Deus e apresentar, limitado ao contexto que discutimos, a transformação das relações humanas injustas. Segundo o testemunho do evangelista S. Marcos, Jesus vinha pelo caminho falando aos discípulos sobre sua morte e ressurreição. Mas os discípulos não entendiam o que o Mestre falava, estavam entretidos numa discussão sobre quem seria o primeiro no reino. Estavam amarrados aos laços do Ter prestígio, do Ter poder, do Ter controle. Como poderia Jesus estar falando de morte e ressurreição, se eles aguardavam um Messias com grande poder político, um Rei triunfante que libertaria a nação do domínio Romano e voltaria a colocar Israel entre as maiores nações do mundo antigo? Jesus confronta essa visão triunfalista e dominadora ressaltando uma característica essencial dos que pertencem ao Reino: o servir.

Essa é a característica fundamental e libertadora do Reino de Deus: servir, doar-se ao outro. A mensagem do Evangelho é uma mensagem de liberdade profunda e integral, pois liberta do egoísmo e da independência, proporcionando uma entrega radical a Cristo, ao outro, no amor-serviço, conforme o apóstolo S. Paulo nos inspira na epístola aos Gálatas. A mensagem do Evangelho nos liberta para um novo relacionamento com o Criador e a criação.

Servir, doar-se, ser você mesmo, com os dons e talentos atribuídos por Deus, em benefício do próximo. O Servo é aquele que se doa, é aquele que perdoa, é aquele que ama, é aquele que caminha junto do desamparado, do aflito, do pobre, do enfermo, do pecador.

É na ação libertadora do servir que se quebram as cadeias do egoísmo, do individualismo, das relações de poder, das estruturas injustas, enfim do mal estrutural (Sponheim), e constroem-se pontes de relacionamentos, de amor, de comunhão e de preservação da vida.

Experimentamos do próprio Cristo o poder transformador do dar-se, quando Ele vindo como servo em forma humana, abriu mão da sua condição de Deus, vivenciou todas as mazelas humanas, sofreu os nossos sofrimentos, morreu em nosso favor e ressuscitou nos dando a vida. Alienados de Deus estávamos em estado de miséria, Jesus como servo, na unidade com o Pai e o Espírito Santo, compartilhou conosco da sua vida. Ao servir Cristo nos resgatou da morte para a vida e da destruição e do caos vez nova todas as coisas.

Quando nos conscientizamos da vida de Cristo em nós, dos dons de Deus em nós e de quem somos, aprendemos, então, a sermos servos e a construirmos novas relações, baseados no essencial da vida: o Amor. Para tanto, o servo necessita de uma mente renovada, destituída de todos os preceitos efêmeros da vida. Mente sem preconceitos, sem legalismos, sem moralismos, sem discriminações, mas inclusiva. O servo precisa estar apenas pronto a servir com o mesmo amor de Cristo.

O servo não busca seus próprios interesses, mas o dos outros, o servo não busca a fama e nem a visibilidade pública, mas o anonimato nas pequenas e grandes ações. O servo busca amar incondicionalmente e ter um coração compassivo como do Mestre. O servo é sal e luz. Influencia com seus atos e difundi esperança com suas palavras. É-nos absolutamente necessária essa entrega ao serviço, ao doar-se sem restrições, ao aspecto diaconal da vida cristã. Mas cabe aqui uma advertência sincera: nem sempre servir será gratificante.

Ao servir estamos nos expondo aos desapontamentos, as frustrações, aos erros, as perseguições, as rejeições, as dificuldades. Mas lembremos da parábola nos evangelhos quando o Senhor ensina: Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Venham, vocês que são abençoados pelo meu Pai! Venham e recebam o Reino que o meu Pai preparou para vocês desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam na sua casa. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na cadeia, e foram me visitar. Então os bons perguntarão: Senhor, quando foi que o vimos com fome e lhe demos comida ou com sede e lhe demos água? Quando foi que vimos o senhor com estrangeiro e o recebemos na nossa casa ou sem roupa e o vestimos? Quando foi que vimos o senhor doente ou na cadeia e fomos visitá-lo? Aí o Rei responderá: Eu afirmo a vocês que isto é verdade: quando vocês fizeram isso ao mais humilde de meus irmãos, foi a mim que fizeram. (Mt 25:34-40).

Quando servimos estamos nos lançando aos braços afetuosos e ternos de nosso Senhor. Seja essa a nossa oração:


Oração de São Francisco

Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio que eu leve o amor,
Onde houver ofensa que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia que eu leve a união,
Onde houver dúvida que eu leve a fé,
Onde houver erro que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver a tristeza que eu leve a alegria
Onde houver trevas que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais,
Consolar que ser consolado,
Compreender que ser compreendido,
Amar que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna.

http://br.youtube.com/watch?v=wlAsBbLAFcI

* o autor do texto é clérigo anglicano


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja e Missão


Por Wellington Pinheiro (*)

Muitas vezes, quando discutimos assuntos como o aumento ou diminuição da membresia de uma determinada comunidade, ou o compromisso ou a falta dele nos fiéis, acabamos sendo levados por uma lógica mercantilista, que nos leva fácil a um caminho cheio de equívocos e incompreensões.


Em nossas discussões e reflexões, em tempo de expressões como “missão integral”, de seminários para motivação, de receitas sobre como construir uma igreja com propósitos, sobre como fazer crescer a comunidade cristã, acabamos embarcando na lógica do número de fiéis como medida do sucesso de uma comunidade. Essa não deve ser o índice para se avaliar o sucesso de uma comunidade, mas sim o quanto essa comunidade é fiel ao Evangelho.A fidelidade ao Evangelho deve ser entendida como fidelidade à missão de Deus.

Portanto, é fidelidade aos quatro pilares da missão, digamos assim: martírio (testemunho), liturgia (adoração), diaconia (serviço) e comunhão (vida fraterna e em comunidade). É claro que, embora sejam desejáveis comunidades que exerçam todos os quatro pilares fundamentais citados, haverá algumas comunidades que serão mais marcadas por um do que pelos outros três. Sendo assim, podemos tentar sistematizar as experiências que nós conhecemos da seguinte maneira:

- Em geral, comunidades de tradição pentecostal podem ser consideradas exitosas no exercício da ênfase na adoração e na comunhão. São comunidades onde o louvor, os dons do Espírito, a música, a oração espontânea, são bastante valorizados. Na medida em que esses aspectos da adoração são conjugados à oferta de pertença a um grupo firme, moral e eticamente bem desenvolvido, o cristão se sente contemplado e se identifica com a comunidade. São portanto comunidades fiéis à adoração e à comunhão.

- Comunidades neopentecostais, apesar da manipulação psicológica e das influências da chamada Teologia da Prosperidade, têm demonstrado um tipo de ação voltado para a diaconia, que se mostra na forma de serviço e na oferta de soluções para a vida do crente, embora saibamos das limitações das ações desses grupos.

- As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais e populares, o trabalho missionário no meio popular, junto aos grupos que lutam por libertação ou em contexto de opressão e perseguição, são comunidades marcadas pela ênfase no martírio, ou testemunho, dado seu caráter profético.

Portanto, podemos considerar que algumas decisões podem ser tomadas, visando a fidelidade da Igreja ao Evangelho, expressa dos quatro pilares anteriormente citados:

1) Na eclesiologia anglicana e da Igreja Primitiva, a Igreja Católica é a Igreja local, a diocese, como já dizia Santo Irineu. Sendo assim, é preciso que os bispos pensem e planejem, junto com presbíteros, diáconos e fiéis, as formas de atuação da Igreja, buscando fidelidade ao Evangelho e à missão.

Assim, como a diocese exercerá o testemunho, a diaconia, a comunhão e a adoração dentro do contexto correspondente ao episcopado em vigência? E os centros diocesanos de formação estão levando essa preocupação com a fidelidade ao Evangelho para além do episcopado em vigência, por meio de uma formação consistente dos fiéis e dos futuros ministros da Igreja de Cristo?

2) Nas comunidades locais, é importante que os pastores reúnam e organizem seus fiéis para tentar descobrir as vocações presentes na comunidade. Que tipo de ação ou ações minha comunidade poderá exercer, no rumo da fidelidade ao Evangelho e explorando todas as suas potencialidades como comunidade? Que nível de compromisso devo esperar dos fiéis? A dimensão da comunhão está presente na minha comunidade a partir da união entre os fiéis que a freqüentam?

O pastor e a comunidade podem vir a decidir diversas coisas, totalmente diferentes. Podem descobrir juntos que a comunidade tem um caráter predominantemente de comunhão, e assim enfatizar o acolhimento fraterno, o aconselhamento pastoral, a escola bíblica dominical, a freqüência aos sacramentos e, por conseguinte, exercer a diaconia a partir dessas dimensões. Podem ainda se ver contemplados no exercício da adoração, com liturgias eucarísticas bem preparadas ou montando louvores, ministérios de música, corais, grupos de dança litúrgica, teatro de evangelização, grupos jovens, células, e a partir disso ir ao mesmo tempo enfatizando mais a comunhão.A comunidade pode ainda dar uma ênfase maior à diaconia, organizando pastorais, grupos para levar os sacramentos àqueles que não podem ir ao culto dominical, fundar ONGs a partir dos talentos individuais dos profissionais que sejam paroquianos e outros que podem, ao longo do movimento, ser ganhos para os objetivos determinados por essa busca de fidelidade evangélica. Há muitas possibilidades que não se esgotam aqui. Mas em geral a ênfase em um pilar da missão, por parte da comunidade, pode levar ao desenvolvimento dos outros três, desde que isso seja bem trabalhado pelo pastor e sua comunidade, organizada em grupos e com responsabilidades bem estabelecidas.É fato que essa abordagem por ênfases não está relacionada à quantidade de fiéis na celebração dominical, mas como disse antes, o tamanho da membresia não é uma boa medida do sucesso de uma comunidade, e sim a fidelidade ao Evangelho.

3) A última dimensão é a do cristão individualmente. É importante, na comunidade local, provocar os fiéis a uma reflexão:- Será que eu estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da comunhão, se não estou em verdadeira comunhão com meu pastor nem com meus irmãos? Semeio fofocas? Constranjo o pastor? Gero intrigas? Sou verdadeiro com meus irmãos? Busco aconselhamento com freqüência? Frequento os sacramentos? Participo das atividades da igreja? Contribuo para a sustentação material da minha comunidade? Qual o meu nível de compromisso com ela?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da adoração, se julgo o sucesso do culto pelas sensações estéticas ou psicológicas que a celebração pode gerar em mim, e não pela dignidade com que a Santíssima Trindade é adorada? Será que é certo ficar querendo que as coisas sejam da maneira que me apetece, com a cerimônia que me agrada, as músicas que aprecio, as pessoas que são minhas amigas e não estranhos, quando na verdade o culto é de adoração a Deus, e não amaciante psicológico para meu ego?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão da diaconia, se estou sempre ocupado para dar meu tempo pelos semelhantes? Tenho medo de entrar em comunidades carentes e uso meu preconceito como desculpa para não participar? Integro a pastoral apenas para ter um conforto moral por ter ajudado um irmão, ou mesmo por uma suporta obrigação, e não como resultado do amor pelo meu irmão, próprio dos que têm fé verdadeira em Jesus o Cristo?- Será que estou sendo fiel ao Evangelho, na dimensão do testemunho ou martírio, se não proclamo as maravilhas que Deus fez em minha vida? Estou sendo fiel quando condeno aqueles cristãos comprometidos com a dimensão profética da igreja, presentes nos movimentos sociais e populares, nas ONGs ou nos partidos políticos de esquerda, excluindo a dimensão do profetismo? Será que uma visão do Reino por demais espiritualizada não exclui o profetismo do meio da Igreja?

Essas foram algumas das reflexões possíveis sobre o tema. Elas não encerram o assunto, mas refletir sobre essas questões candentes nos ajuda a entender melhor o papel da Igreja no exercício da missão que não é dela, mas de Deus mesmo, que se encarnou como um de nós, lançando com sua prática as bases que podem nos orientar para o exercício da nossa missão como cristãos.

Um cristão é um outro Cristo. É esse o melhor paradigma para nos tornarmos mais fiéis e efetivos para realizar a missão.

(*) membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Diocese de Recife.

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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Reflexões de um Protestante sobre Maria



Por Rev. Carlos Eduardo Calvani[1]



Fui criado em uma Igreja Protestante tradicional. Como todos sabem, nessas igrejas a figura de Maria é, no mínimo, ignorada. Em grupos evangélicos pentecostais mais fanáticos, chega-se até ao ponto de ser mesmo hostilizada. Desse modo, a devoção a Maria nunca fez parte de minha espiritualidade. Porém, o trabalho pastoral nos coloca diante de pessoas que vivem essa fé de forma bastante sincera e isso se intensifica nas proximidades do dia 12 de outubro[2] com as romarias a Aparecida ou a outros santuários marianos. Isso sempre me chamou a atenção, pois o respeito à fé das pessoas é um princípio que está nas origens do cristianismo, embora não seja muito praticado pelos que seguem o Cristo. Agora, quando nos aproximamos de mais um feriado da Padroeira do Brasil, resolvi pensar um pouco mais sobre Maria até mesmo para tentar compreender o fascínio que sua figura exerce no mundo católico. Talvez, como protestante, o que eu possa oferecer é apenas o mesmo que Renato Teixeira na música Romaria: “como eu não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar...”O que significa parar para pensar em Maria nesses dias?


Geralmente a notícia de uma gravidez é motivo de alegria para muitas mulheres. Outras, porém, ao saber que estão grávidas reagem primeiramente com preocupação e medo: medo da gestação, do parto e das responsabilidades para com uma nova vida; outras ainda reagem em desespero porque são jovens demais ou por não serem casadas ou até mesmo porque engravidaram em circunstâncias inesperadas e sabem que terão que criar seu filho sozinha. Certamente o anúncio da gravidez de Maria a pegou de surpresa, pois se constituía em um grande problema: ela ainda não era casada e estava grávida. Se ainda hoje o anúncio da gravidez de uma jovem solteira é assunto de comentários maldosos, o que dirá naquela época... Coloquemo-nos em seu lugar e imaginemos o que não passou por sua cabeça: ouvir comentários maledicentes e ser humilhada... o casamento marcado... como explicar ao noivo o que aconteceu? Será que ele entenderia ou a rejeitaria?

O tempo da gravidez também foi turbulento. Teve que fazer uma longa viagem e teve seu filho em condições precárias, ao que tudo indica sem a ajuda de familiares (exceto o marido) que pudessem apoiá-la naquele momento. Após o parto, outra longa viagem. Conforme o evangelho de Mateus, toda família teve que se exilar no Egito para evitar que seu bebê fosse morto.O tempo passa, os meses e lá está ela vivendo a maternidade: a criança acorda aos gritos na madrugada querendo mamar, começa a andar, cai, se machuca e quando começa a descobrir o mundo, inevitalmente, como toda criança, quebra coisas em casa, e ela está lá...Papinha, comidinha, banho, lavar as fraldas sujas, limpar o bumbum, cortar as unhas, dar aquele beijinho de mãe quando a criança esbarra em algo e se machuca, tantas tarefas... e ela está lá...De repente, a criança começa a crescer... e como acontece com toda criança normal, faz suas artes... perde-se dos pais durante uma visita ao Templo (quantos pais e mães já não viveram isso quando em um passeio pelo shopping, mercado ou uma grande loja, o filho se perde...) e quando é encontrado já tem a ousadia de responder de modo consciente e até meio rebelde aos pais... mas ela está lá...


De repente, ele é um homem... crescido, com barba, pensa por si só e já não aceita opiniões que contradigam o que ele quer fazer... já é dono do seu próprio nariz... chega até a repreendê-la publicamente quando ela resolve interferir... mas ela está lá, acompanhando o ministério do filho, às vezes surpresa, outras vezes orgulhosa dele, outras vezes certamente preocupada com seu futuro... mas ela está lá...Até que um dia, seu filho é preso. Quanta dor para uma mãe saber que o filho está preso... aquela criança frágil, cuidada com tanto zelo, que várias vezes correu aos seus braços procurando consolo após uma queda, após um desentendimento com um amiguinho ou após um pesadelo noturno, agora precisava novamente dela e, embora ela estivesse por perto, nada podia fazer...Na condição de mulher, ela não podia entrar no Sinédrio onde seu filho estava sendo julgado e, de repente, vem a sentença: seu filho seria crucificado.


Imaginemos a dor dessa mãe ao ver seu filho naquela situação. Creio que naquela hora Maria sofreu como mãe, sem pensar em qualquer significado teológico que justificasse tamanha barbaridade e sofrimento. Não era o “filho de Deus” que estava sofrendo ali. Era o seu bebê, o seu filhinho que estava passando por humilhações públicas, sendo xingado e espancado... não era o “Verbo encarnado”, mas seu bebê que sangrava no meio da rua, e ela nada podia fazer... Não era “o Messias prometido, o Ungido, o Cristo” que estava pendurado no madeiro, era o seu bebê cuidado com tanto carinho que agora assumia o lugar de maldito perante todos e perante Deus... era o seu bebê que exclamava na cruz “Tenho sede...” e ela não podia lhe levar água; era o seu bebê que dava altos gritos de dor e sofrimento, e ela assistia a tudo com imensa dor e perplexidade... mas estava ali... era o seu bebê que, em total humilhação tem suas vestes rasgadas e é pendurado nu para agonizar até a morte, e ela ali, ao lado dele...Ah, Maria... o que se passou em sua mente aquela hora? Fui escolhida para isso? Maria foi escolhida para ser mãe do Redentor, mas não foi poupada de ser humana e sofrer como tantas mães-Marias da história. É juntamente a sua humanidade e a sua maternidade que a tornam santa e bem-aventurada entre as mulheres. É difícil acreditar que Maria assistiu à crucificação de seu filho como se fosse um momento necessário no plano divino de salvação. Não! Quem estava ali não era “o Cristo”, era o seu bebê, o seu filhinho...Não é difícil compreender porque a devoção a Maria ganhou peso na história do cristianismo. Não é difícil compreender porque todos os anos o santuário de Aparecida ou outros santuários marianos espalhados pelo mundo recebem tantos romeiros... porque nas carências e necessidades da espiritualidade popular, o santuário é a casa da mãe, da mãe que sofre por causa das opções de vida que o filho ou a filha fazem, mas que está ali, como diz a música de Chico César, Mama África: “filhinho tem que entender que Mama África vai e vem, mas não se afasta de você”.Após o feriado do dia 12 o comércio começa a se preparar para o Natal e as igrejas começam a recontar a história da salvação. Maria está grávida de novo... nascerá seu filho... e durante o ano litúrgico acompanharemos seu ministério até a semana da sua morte, e ela estará ali também, como sempre esteve, no coração de tantos sofredores que na hora do sofrimento a invocam: “Ave Maria, cheia de graça... rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”.Não é difícil entender porque tantos cristãos e cristãs, mesmo protestantes e evangélicos que nunca foram estimulados a refletir mais sobre Maria, possam agora se sentir mais perto de Deus e reconhecer: “Bem-aventurada és tu entre as mulheres”.


[1] Reverendo Anglicano e Coordenador do CEA - Centro de Estudos Anglicanos

[2] O texto foi produzido antes da referida data

(publicado anteriormente em outubro de 2007).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Honra o médico!

Honra ao médico por seus serviços, pois também ele o Senhor criou.
Pois é do Altíssimo que vem a cura, como presente que se recebe do rei.

A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes.

Da terra, o Senhor criou os remédios, o homem sensato não o despreza.
(Eclesiástico 38,1-4).

A verdade expressa nesse versículo é muito simples: a medicina é um dom! 

Este livro, o “Eclesiástico” faz parte daquele conjunto de escritos conhecidos como “Apócrifos”, pelos evangélicos, e “Deuterocanônicos”, pelos católicos. Pode-se dizer que para os cristãos é antiga a dúvida se tais livros deveriam ou não ser considerados inspirados, sendo que, São Jerônimo opinara que não deveriam ter o mesmo status que os demais livros; opinião esta que parece não ter sido acatada pelo catolicismo romano. Séculos depois, os Reformadores vieram a considerá-los literatura muito edificante, mas não inspirada.

Fato é que, tanto o posicionamento dos católicos, quanto dos antigos reformadores, foi ignorado pelos novos evangélicos. Talvez porque a América Latina ter sido fruto basicamente de missões norte-americanas, as versões evangélicas das Escrituras sequer contém os mencionados livros, sendo negado, portanto, a grande parcela dos cristãos a oportunidade de ler esta literatura que foi chamada por Lutero, Calvino e companhia, de literatura edificante. Ou seja, acabou sendo negado aos evangélicos a oportunidade para que tirassem suas próprias conclusões.

Durante muitos anos isto não fez muita diferença, visto que, protestantes históricos, geralmente mais cultos, supriram a ausência de tais livros com seu próprio bom senso e inteligência, além de, certamente, os terem lido em seus estudos privados.

O problema é que surgiu no meio evangélico alguns grupos pentecostais radicais que passaram a ensinar coisas, no mínimo estarrecedoras acerca de determinados assuntos, e, este é o motivo do versículo citado no início deste artigo.

Alguns começaram a ensinar que não se deveria procurar o médico, pois isto seria falta de fé; e que se deveriam fazer abstenções inclusive a remédios, pois isto demonstraria falta de confiança na capacidade de Deus em curá-las. Obviamente, se o fiel morresse ou padecesse, os propugnadores de tal teologia diziam que, foi o coitado que não teve fé. Pura picaretagem. Se pesquisarmos, veremos que não poucas pessoas perderam suas vidas, confiando nestas falsas promessas. Penso que, certamente, é o desespero e a desinformação que leva muitas pessoas a aceitem este tipo de engodo.

Interessante e trágico é, que há mais de dois mil anos, um sábio judeu disse que o médico era uma benção, que a medicina é dom de Deus, e talvez a mera leitura deste versículo e o seu assentimento teria evitado muitas mortes. Talvez, muitos dos defensores desta teologia teriam ficado constrangidos em criar uma doutrina destas se tal texto estivesse em nossas Bíblias, mesmo com um status inferior aos demais livros.

De minha parte, considero os “apócrifos” e “deuterocanônicos” como leitura bastante edificante, e não preciso considerá-los inspirados para tanto. Outras partes, nem tanto. De qualquer modo, penso que todos deveriam ler tais livros e tirarem suas próprias conclusões.

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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Unidos a Cristo

Aquele que se une a Deus é uma só alma com Ele. Não há alvo mais sublime a que um ser humano possa almejar. Ser um com Cristo, ser um com Deus. Gozar de uma intimidade tal que, aos leves toques do sopro divino cada qual possa guiar os seus próprios passos em sua caminhada. Quando o profeta proclamou que ninguém mais precisaria ensinar ao seu próximo (Jeremias), penso que é nesta intimidade em que estava pensando. Disse o filósofo certa vez que, ter o coração puro seria querer Ele, somente Ele (Kierkegaard). Talvez não haja realmente melhor definição para pureza de coração do que esta. Possuí-lo e ser inteiramente por Ele possuído. Ter o caráter e as mais profundas intenções transformadas pela influência divina.

Penso que é por isso, e tão somente por causa disso, tendo em vista a sublimidade de tal relação que somos convidados a deixar os caminhos de morte, de prazer desenfreado, de luxúria, etc, pois tais coisas maculam tal experiência. Quem não teve experiência, a sublime experiência de se ter tido, apenas por um instante, o sentimento da presença divina, não entenderá as mais severas, por assim dizer, exigências do evangelho. Há muitas comunhões no mundo, muitos convites, muitos desejos. Como poderá o jovem manter puro o seu caminho, perguntou o salmista. É observando-o segundo sua Palavra, ; mas há de ser uma observação viva, espiritual, que o remeta à realidade de Deus.

Quem assim agir, não terá mais necessidade de julgar, se medir através do outro, se impor, pois já alcançou tudo, conseguiu o seu tesouro, a paz que excede todo o entendimento, a alegria que não é como o mundo a dá. Não há mais espaço para o ódio. E, certamente, tal influência, tais rios de água viva fluirão de si para saciar a vida de outros.

Penso que não haja melhor alvo do que este na vida. Conhecer e prosseguir a conhecer ao nosso Deus. Entrar na experiência do Cristo e levar outros a ter tal experiência. Eis aí um grande desafio, e algo que certamente vale a pensa concentrar todos os nossos esforços, todo o nosso ser.

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