segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sofrer sem murmurar

Segundo o bem aventurado Apóstolo Paulo, “somos como ovelhas entregues ao matadouro, todos os dias”. Jesus disse ao Pai “seja feita a sua vontade e não a minha”. O escritor aos Hebreus ensinou que "Jesus aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu". Além de tudo, temos a experiência do antigo testamento, quando o povo no deserto murmurou, suscitando o desagravo divino.


Certamente, é uma lição difícil, esta, a de sofrer sem murmurar, sofrer sem reclamar, principalmente por observarmos o evangelho, mas certamente, isto faz parte da imitação ao nosso Mestre, que foi entregue como uma ovelha muda ao matadouro.

Costumo escrever sobre sofrimento, pois este é parte intrínseca da existência humana. Sofremos desde o momento que nascemos até o momento em que partimos deste mundo. Sofremos em nossas relações pessoais, em nossos conflitos existências, em todas as fases de nossas vidas.

A diferença do cristão não está na ausência de tais sofrimentos, mas sim talvez na forma como os encara; e todo o ser humano que tente praticar a justiça evangélica, mesmo não sendo cristão, segundo as Escrituras, padecerá tribulação, de modo que é possível pensar que há um “plus” na vida dos verdadeiros discípulos em relação aos sofrimentos, que vai um pouco além da normalidade da existência.

Há tantas vertentes na questão do sofrimento, que é impossível enumerar todas. Tudo, no contexto da vida humana influenciará em relação a isso, desde localidade e época em que nasceu, e até mesmo herança genética. Uns sofrem mais, outros, menos, mas é impossível medir a dor da alma. É legítimo combater o sofrimento, tanto o nosso próprio como quanto os dos demais seres humanos; o que não dá para fazer, é negá-lo, pois assim fazendo, não há a cura, não há consolo.

O fato é que nós, que estamos acostumados a uma época em que o evangelho parece ter sido relativamente barateado, e as multidões colocadas mais como consumidoras do que como servidoras do evangelho, talvez precisemos meditar um pouco mais acerca do sofrimento, e se não é o caso, aprendermos a sofrer em silêncio diante dos homens, e elevarmos os motivos de nossa angústia somente a Deus. Fico a pensar se com nossas murmurações não afastamos a consolação divina (acho que foi Tomás de Kempis que sustentava tal opinião, embora eu entenda que o Senhor pode também nos consolar por intermédio da vida de um irmão). Será que não estamos buscando o alívio de nossos sofrimentos na conversa frívola, no consumo desenfreado, nos prazeres fáceis? Talvez tenha chegado o momento de aprender a se recolher só diante de Deus, e "jogar sobre ele as nossas aflições", crendo, conforme disse o bem aventurado apóstolo, que “Ele tem cuidado de nós”.


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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

OS PADRES DO DESERTO (séculos III a VI)


Quem eram: homens e mulheres em busca de uma espiritualidade autêntica, do encontro com Deus e conhecimento de si próprios. Fortemente inspirados pelas ideias de martírio e de celibato (Mt 19.3-12; 1 Co 7), mas o movimento não era composto somente por celibatários. Famílias inteiras iam para o deserto, e houve comunidades de homens e mulheres que inspiraram o monasticismo posterior. Os eremitas eram os que vivam mais isolados. Muitos destes padres e madres se tornavam conselheiros espirituais, praticando a caridade e vivendo de pequenos trabalhos manuais. Obra inspirativa: “Vida de Santo Antão”, de Atanásio de Alexandria.

Deserto: lugar de provação, amoldamento de caráter e análise do coração (Dt 8.2). Lugar de experiência com Deus e transformação (Jacó). Dependência de Deus (Elias). Habitação e anúncio profético (João Batista). Luta contra os demônios e busca do Pai (Jesus). Discipulado (Paulo).

Temas da espiritualidade do deserto:

Fuge (foge): em sentido negativo, fugir, deixar a cidade, deixar as futilidades, deixar as paixões, deixar aquilo que afasta de Deus, fugir do que arrasta para o pecado (pecado é hamartia – errar o alvo, o esquecimento do Ser; ao contrário de anamnesis – “fazei anaminesis de mim”). “O mundo é o mundo do esquecimento” (Marcos, o Eremita). O mundo é de morte, pois “jaz no maligno”.  Em sentido positivo, fuga é fugir para Deus e para tudo o que leva a Ele, “fugir para o Alguém, fugir para o Único, fugir unificado para o único Um”. Sair do mundo e o mundo sair de dentro de ti. Sentido psicológico e sociológico: fuga como necessidade vital do ser humano. Fuga da opressão, das relações senhor/escravo (fuga do Egito), das competições hierárquicas, da necessidade de “status”. Fugir para evitar os males psicossomáticos. “Fugir para fora do mundo para Alguém que não é deste mundo, para se perceber que o mundo não tem em si seu sentido e fim” (Arsênio). Fuga implica em movimento, saída. Figuras bíblicas: Abraão, Jacó, os israelitas, Elias, João Batista, Jesus, Paulo. Jesus “fugiu dos céus, dos seus pais, dos seus perseguidores, dos seus aduladores, do mundo e dos seus discípulos”.

Tace (cala-te): “quem domina a língua domina o corpo” (Tiago). “De toda palavra ociosa que o homem disser dela dará conta no dia do juízo”, “a boca fala do que está cheio o coração”, “pela tua palavra será justificado ou condenado”, “o que sai da boca é que torna alguém impuro” (Jesus). “Não é preciso fazer silêncio, pois ele já existe”. “Derrubar uma árvore faz mais barulho do que o crescimento de toda uma floresta”. Calar-se para ouvir a Deus. Calar-se para ser capaz de Deus. Calar porque Deus habita no silêncio. “O Senhor está no seu Santo Templo, cale-se diante d’Ele toda terra” (Hc 2.20). “O julgar pode ser uma inconsciente autoprojeção sobre o outro”. “Quando ninguém lhe parece impuro, então te tornaste puro” (Isaac o Sírio). “A oração surge do silêncio e ao silêncio retorna”. “Tua palavra surge do silêncio e ao silêncio retornará”. “Que teu verbo venha de Deus e retorne para Deus”. Os perigos do muito falar (Anselm Grun): a curiosidade, pois leva a falar demais dos outros. “Um monge nunca deve andar atrás de saber como é este ou aquele; tais perguntas apenas o afastam da oração e levam às calúnias e às conversas vãs; por isso, o melhor é calar-se inteiramente” (Apo 996). O julgamento. “Quando dois irmãos marcavam para conversar, Satanás enviava para aquele local o demônio da maledicência”. A vaidade. “A tagarelice é o trono da vanglória, onde ela senta-se em juízo sobre si mesma e toca o trombone sobre si para o mundo inteiro” (São João Clímaco). A dispersão interior. “Assim como as portas do banho quando ficam sempre abertas rapidamente deixam o calor escoar-se de dentro para fora, assim também quem muito fala, mesmo que fale coisas boas, deixa sua lembrança fugir pelo portão da sua voz” (Diádoco). “Assim como para comer carne é preciso matar, é impossível falar muito, mesmo sobre coisas boas sem tocar as ruins” (S. Bento). “Às vezes, deformamos uma coisa ao falar muito a respeito dela” (H. Nouwen).  Cuidado com o silêncio doentio: “o que torna os mortos tão pesados é o peso das palavras que não souberam dizer”. Pela terapia, “faça sair o veneno da goela da serpente”. “Que teu silêncio não seja irresponsável”.

Quiesce (tranquiliza-te): repouso, descanso, paz, hesychia, shalom. É a paz interior decorrente do casamento da alma com Deus. “Encontra a paz interior e uma multidão será salva ao teu lado” (Serafim). “Um ser de paz comunica sua calma ao mundo inteiro”.  “O verdadeiro homem espiritual não é o homem poderoso, e sim o homem manso”. “Deus busca entre os homens um lugar para o seu repouso”. “Deus não pode repousar em um coração agitado”. “E vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe e aos que estavam perto” (Ef 2.17). “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz, para os que exercitam a paz” (Tg 3.18). Jesus é o nosso Shabbat, daí, fugimos para estar com Ele e n’Ele. “Todo trabalho deve conduzir ao descanso” (Leloup). “Não trabalhar um dia é tão mandamento quanto não roubar ou adulterar”. “Fiz sossegar a minha alma” (Sl 131.1-2). “Não andeis preocupados por coisa alguma” (Jesus). “Colocai toda sua ansiedade sobre Deus” (Paulo). “A principal obra da hesychia (sossego da alma) é a ameriminia (despreocupação) perfeita de todas as coisas, razoáveis ou não” (João Clímaco). “Quem abre a porta às preocupações razoáveis, abre também às que não são”. A quietude interior é um estado de alma que não sofre nenhuma partilha: ou é total, ou não existe. “Um pequeno cisco atrapalha a visão, uma pequena preocupação faz a alma perder a paz”. Eliminar a preocupação passa pelo contentamento: “deseja tudo o que tens e tens tudo o que desejas”. “Não está em paz quem se compara com os outros”. “Onde há inveja, não há paz”. “Só os humildes vivem em paz”. “Só vive em paz quem se coloca como último de todos e servo dos demais”. Acima de tudo, a paz não é algo que se conquista, mas um dom recebido: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize (Jo 14.27).

Tratamento (terapeia) das paixões (pathos). A contemplação de si faz com que os padres dos desertos fossem os primeiros psicólogos. “Vou para o deserto para poupar o mundo de mim mesmo”. O ser humano em estado patológico identificado nos logismoi (pensamentos): gastrimargia (gula); philarguia (avareza); porneia (obsessão sexual); orgè (cólera, patologia do irascível); lupè (tristeza, melancolia, sentir-se um lixo); acedia (perda de entusiasmo pela vida espiritual, depressão, impulso de morte, tudo foi inútil, demônio do meio dia); kenodoxia (inflação do ego, vanglória); uperèphania (orgulho). O objetivo é alcançar um estado de “apathea” (ausência de paixões = patologias). Evágrio Pôntico escreveu sobre esse tema no Oriente, e foi trazido ao Ocidente por João Cassiano, em que a “apathea” foi traduzida por “puritas cordis” (pureza de coração).

Ascética: exercício, batalha, luta, renúncia, “usufruir o máximo do mínimo” (palavras, natureza, alimentação, bens, etc). “A verdadeira ascese consiste em saborear” (Anselm Grün). “Portanto, para alcançar a pureza de coração e o amor, é necessário que façamos tudo quanto realizamos por meio das obras ascéticas; pois elas são os instrumentos que podem libertar nosso coração de todas as paixões prejudiciais que nos atrapalham no progresso para a plenitude do amor. Assim, nós praticamos o jejum, as vigílias noturnas, o recolhimento, a meditação nas Sagradas Escrituras, etc., por almejarmos a pureza de coração, que consiste no amor. Assim, o que quer que façamos, devemos fazê-lo a fim de tornar-nos verdadeiramente amantes. É por isso que o amor é normativo em tudo. Atingi-lo é a finalidade de nosso agir...” (João Cassiano) “Se a humanidade não assumir uma postura ascética diante da existência, corre o risco de destruir o mundo” (dimensão ecológica, L. Boff). Mas também há a advertência contra a ascese exagerada, o que não era incomum: “Há alguns que desgastaram seus corpos por meio da penitência. Mas por ter-lhes faltado o discernimento, acabaram se afastando de Deus” (Antão, Apot 8).

Caridade: “ter o mínimo para que possa dividir o máximo com o meu próximo”.

Theosis: deificação; divinização do ser; Cristo vivendo em si (Gl 2.20); divinos por coparticipação (2 Pe 1.4); tornar-se semelhante a Ele (I Jo 3.2), é o objetivo de Deus na vida dos eleitos (Rm 8.29). Salvação é participação na natureza divina. “Deus se fez homem para que o homem pudesse se tornar deus” (Atanásio de Alexandria). Deus realiza estes atos na vida dos fiéis, na concepção oriental, por intermédio principalmente dos sacramentos, que em princípio, não tinham um número limitado, pois em Cristo, toda a realidade é sacramental. Sacramento é o meio natural pelo qual a graça sobrenatural de Deus se revela, ou o meio visível pelo qual a graça invisível se manifesta. Exemplos de sacramentos: a natureza (Sl 19.1); a eucaristia (1 Co 10.16); a Palavra (Ef 5.15); a oração (Tiago 5.14); a congregação (Mt 18.20).

Bibliografia

BARBOSA, Ricardo.  O caminho do coração: ensaios sobre a Trindade e a Espiritualidade Cristã. Curitiba: Ed. Encontro, 1996.
CAVALCANTE, Ronaldo.  Espiritualidade Cristã na História.  São Paulo: Paulinas, 2007.
GRÜN, Anselm. As exigências do silêncio.  Petrópolis: Vozes, 2004.
_____________. Os padres do deserto. Temas e textos.  Petrópolis: Vozes, 2009.
_____________. Tranqüilidade do coração.  São Paulo: Loyola, 2004.
LELOUP, Jean-Yves. Escritos sobre Hesicasmo. Uma tradição contemplativa esquecida.  Petrópolis: Vozes, 2006.
____________. Introdução aos verdadeiros filósofos. Os padres gregos: um continente esquecido
do pensamento ocidental.  Petrópolis: Vozes, 2004.
MERTON, Thomas. Homem algum é uma ilha.  Campinas, SP: Verus, 2003.
____________. O homem novo.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
____________. Na liberdade da solidão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sobre reconciliação



“...se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta ali diante do altar e vai e primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta”. (Mateus 5,23-24)



Salvo melhor juízo, é a única vez que Jesus manda que paremos o nosso culto: a necessidade de primeiro ir reconciliar-se com o nosso irmão. Uma das coisas que mais me marcaram negativamente nesta minha curta caminhada cristã é o fato de ver muitos amigos cristãos, pessoas que comungaram por muito tempo juntas, frequentaram as mesmas rodas de oração, e, por um ou outro motivo, acabam se desentendendo, se separando, e nunca mais voltam a se falar. Às vezes, por causa de motivos deste porte, igrejas se separam e até novas denominações são fundadas.

O fato é que cada qual acaba seguindo o seu próprio caminho, e, realizando os seus próprios “sacrifícios”, como que para apaziguar a sua própria consciência. Ocorre que obedecer é melhor do que sacrificar, conforme disse certa vez o profeta Samuel a Saul, e penso o princípio ser plenamente aplicado aqui também. E, se no momento de nosso culto, antes de comungarmos ou ofertarmos nossos sacrifícios de louvor e adoração, nos lembrarmos que o nosso irmão tem algo contra nós, deveríamos procurá-lo e tentar sanar a questão, “enquanto estamos no caminho com ele”. Tanto que, em uma antiga obra intitulada "Didaquê", não era permitido a cristãos comungarem caso estivessem brigados.

Esta frase, “enquanto estás no caminho com ele” (Mt 5,25), me faz ter uma breve meditação que pode me custar a alcunha de herege em alguns meios protestantes e ortodoxos. Será que alguém não reconciliado com seu irmão terá entrada automática no Reino de Deus? No Reino daquele que tomou a iniciativa da reconciliação conosco quando ainda estávamos em inimizade contra Ele? Daquele que manda sermos imitadores de seu Filho amado? Tenho minhas dúvidas. Não que eu ache que os tais não terão entrada no Reino; claro que terão. Entretanto, como “alguns serão salvos como que pelo fogo” será que alguns não terão que passar por um tipo de“estado intermediário de reconciliação”? Vamos imaginar a situação. Muitas pessoas quando brigam, nunca mais voltam a se falar, a se reconciliar. Aí, antes de ser permitida sua entrada na morada eterna, Deus coloca tais pessoas frente a frente em uma sala vazia, e não permitirá a sua saída de tais irmãos enquanto não se reconciliarem, pois, com tal amargura, ninguém será puro de coração o bastante para poder ver a Deus. Estar com alguém com quem se brigou e não se quer reconciliar, para alguns, seria um verdadeiro "purgatório" (risos).

Claro que isto é uma grande viagem, mas vá saber... De qualquer modo, não é o medo do juízo de Deus que nos deve levar a uma atitude conciliadora, mas sim a plenitude do relacionamento com seu Espírito, que só pode ser alcançada com um coração livre de amarguras, bem como que o estado de amizade é infinitamente melhor do que o seu contrário. É até melhor para a saúde. Quando tomamos a iniciativa da reconciliação, mesmo quando temos razão em determinada demanda, nos tornamos imitadores de Deus, que também tomou a iniciativa da reconciliação conosco, quando ainda éramos pecadores, e quando tinha toda razão do mundo para o não fazê-lo.

Mas alguém pode se perguntar: eu tomei a iniciativa, procurei o meu irmão magoado, mas tudo o que ele fez foi me desprezar mais. O que fazer? Bom, para isso, só posso imaginar uma solução. Você fez a sua parte, procurou tal pessoa, e, no que dependeu de você, procurou ter a paz com ele. Agora a questão é entre ele e Deus. Não dá para ficar se humilhando o tempo todo, pois isto também fará mal para sua auto-estima, e não será bom nem para a outra parte. Além do que, não convém ficar atirando suas pérolas de reconciliação para aqueles que somente a emporcalham. Entrega a Deus e espere no Senhor, como diz o salmista.

É muito difícil passar por esta nossa vida, e não ocorrer uma situação deste tipo. Entretanto, no que depender de nós, vamos manter uma atitude conciliadora, bem como ter paz com todos, pois isto é agradável a Deus, que todos tenhamos uma vida reconciliada, seja com Deus, com nosso próximo e com nós mesmos.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Sou um servo inútil"


por Rev Leandro Campos*



No Evangelho de S. Lucas, captítulo 17 versículo 10 podemos ler esta instrução que Jesus deu aos seus discípulos, que nos dá a todos nós que somos atualmente os seus discípulos: "Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer".

O Itinerário espiritual cristão é marcado por uma diversidade tremenda. Há alguns anos decidi para minha experiência de formação ministerial entrar numa comunidade de características monásticas. Estou falando da Ordem de S. Bento.

Como evangélico creio num encontro pessoal com Cristo. Para mim, isso aconteceu aos 10 anos num culto da Igreja Batista na periferia da cidade de São Vicente. Apesar de ter me preparado para primeira comunhão na Igreja Católica e freqüentado a catequese, nunca havia experimentado um contato pessoal com Ele.

Vinte anos após minha decisão por Cristo depois de uma formação, eu diria, tipo colcha de retalhos - católica, batista, anglicana, metodista fui levado ao ministério ordenado para servir em nome da Igreja ao povo de Deus.

Formado Assistente Social fui/sou chamado a dar ênfase em meu ministério a dimensão da diaconia - serviço. Esse é um imperativo para vida cristã.

Compartilhando mais de 50 anos de prática ministério o Pr. Ralph M. Riggs publicou "The Spirit-Filled Pastor´s Guide" onde trata do Ministério Integral do Pastor.


Do cuidado com a saúde física, mental e espiritual. A Formação teológica e de conhecimento geral continuado. O Planejamento diário, as relações pastorais com a sociedade, a igreja e com sua própria família.


Em suma: uma vida de "oração e trabalho".

O que Bento de Núrsia e o Pr. Ralph M. Riggs tem em comum? eu diria exatamente isso: uma vida dedicada a "Oração e Trabalho" reservados as diferenças de tempo, lugar, e cultura.

A vida cristã vivida por um ministro do evangelho é dinâmica e requer dele "Sacrifício". Ele está trabalhando 25 horas por dia, 8 dias por semana. E, acredite. Ainda, é pouco.

As pessoas precisam hoje mais do que em qualquer época da história humana de cuidado pastoral. Elas precisam sentir que Deus as ama.

Aqui na All Saints´Church nossa declaração de missão é:

"Restaurar todas as pessoas para a união com Deus, e uns com os outros em Cristo, através da Oração, do Culto, dos Sacramentos, da Proclamação do Evangelho e pela Promoção da Justiça, da Paz e do Amor!"

Neste primeiro ano de ministério foram 16 casamentos, 6 batismos, 50 Santas Comunhões celebradas, 2 Ofícios fúnebres, visitas domiciliares e hospitalares, ministração da Bênção da Saúde. Pregação da Palavra de Deus...

E, recordando o texto bíblico "Quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer".


Concluo: "Sou um servo inútil, fiz o que devia fazer!"

Deus quer que tenhamos como meta uma vida de santidade. Santidade que se desdobra no serviço a Palavra e a justiça. Se você desejar seguir este itinerário, saiba que há sacríficios, mas que Ele estará contigo em todos os dias da tua vida e ministério.


Oremos:

"Ó Senhor, mostra-nos a tua misericórdia. E concede-nos a tua salvação. Reveste de santidade os teus ministros. E cante o seu povo de alegria." (LOC, p. 36)




* O Rev. Leandro Campos é Presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Paróquia de Todos os Santos. (http://www.ptodosossantos.com.br/). Este texto foi escrito em dezembro de 2007.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

...e o "ruah" de Deus pairava sobre a face das águas...

No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava sem forma e vazia, e as trevas cobriam o abismo, e um “ruah” de Deus pairava sobre a superfície das águas. (Gênesis 1,1-2).


As Escrituras dizem que no início a terra era sem forma e vazia, e que as trevas cobriam o abismo. Entretanto, em meio a essa "desconstrução" pairava o Espírito de Deus, que, juntamente ao Pai e o Filho, a tudo deram forma, e, onde havia aparente desordem e caos, veio a existir a vida, a ordem, o sentido.

Assim também, muitos têm a consciência de que foram criados por Deus, são “terra” de Deus, mas se encontram, em certo sentido, “sem forma” e “vazios”, vivendo dia a dia de suas vidas, de forma mecânica e nada frutífera. Se sentem como "galhos secos de uma árvore qualquer". As trevas parecem cobrir a face do abismo de suas almas, em uma vida sem muito sentido, sem muita beleza, sem muito ânimo.

Mas o fato é que, o “ruah” de Deus, o “vento”, ou o Espírito do “Senhor” se encontra sobre a face de nossas agitadas águas. E assim como este Espírito, entendemos nós, ordenou a existência de um modo tal que cada qual, ocupando o seu legítimo espaço, coopera para o bem do todo, assim também este mesmo Espírito, que paira sobre as faces de nossas agitadas almas pode ordenar as nossas vidas de um modo tal que tudo possa voltar a  fazer sentido.

Entretanto, para que tal ocorra precisamos desejar o “ruah” de Deus, o “vento” de Deus soprar sobre nós, e, impregnados deste Espírito de Cristo, sentir os leves impulsos da alma nos direcionar para onde bem entender. Ora, quem é de Cristo tem a mente de Cristo, e os filhos de Deus são guiados pelo Espírito de Deus (Paulo aos romanos). E é sentindo este leve toque do sopro divino que vamos construindo as fases de nossa existência, primeiro ordenando as águas, depois, plantando as sementes para que deem os seus devidos frutos, para que ao final, tudo seja um belo jardim.

Isto feito, assim como o anjo ficou às portas do Éden para protegê-lo, assim também nós devemos tomar conta e cultivar este nosso jardim, e protegê-los dos inimigos que tencionam quebrar toda a harmonia, afinal, como disse o sábio, devemos “guardar os nossos corações porque dele procedem as fontes para toda a vida”. Assim também, devemos proteger os nossos corações, e o não permitir que o “ruah” de Deus em nós deixe de soprar e exercer a sua influência, ou, em outra metáfora utilizada pelo bem aventurado apóstolo, não devemos deixar “apagar em nós o Espírito”.

Que o Senhor possa nos abençoar todos os dias, e que todos nós possamos aprender, a cada dia, a permitir que o “ruah” de Deus possa frutificar em nossas vidas, para que possamos dar muitos frutos para a glória de Deus Pai.

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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Segurança e inconformismo - o paradoxo necessário

O que eu faço, não o sabes agora; compreenderás depois. (Jesus – em João 13.7).


Por Jefferson Ramalho

Amados,

A tônica da mensagem evangélica hoje tem sido o inconformismo. As pessoas são estimuladas a não aceitarem o simples fato de serem "gente", "seres humanos". E "gente" passa por problemas, dificuldades, enfermidades. Todos os seres humanos, pelo simples fato de serem o que são, estão sujeitas a toda sorte de problemas que possam existir. Com aqueles que são cristãos não é diferente.

Ninguém está isento de ser atingido por um câncer, de ficar desempregado durante meses ou mesmo anos, de passar por necessidades, de sofrer desilusões sentimentais etc. Portanto, não há diferença nesse sentido entre os que são e os que não são cristãos. A diferença, porém, é única e suficiente. O cristão autêntico tem a certeza de que o Altíssimo está no controle de todas as coisas.

Quando Jesus respondeu a Pedro: “o que eu faço, não o sabes agora; compreenderás depois”, o que Ele estava dizendo tem tudo a ver com essa convicção que o cristão deve alimentar dentro da sua alma. Não significa também que devamos ficar acomodados, de tal modo que não façamos absolutamente nada para combater as aflições da vida.

O Senhor, conquanto esteja no controle de todas as coisas, não nos desautoriza reagir contra as adversidades da vida. Devemos estar convictos de que Ele é nosso "Motor que tudo move" - para plagiar Aristóteles - mas também devemos buscar a genuína libertação de coisas que afligem nossa fragilidade humana.

A miséria, por exemplo, incompreensível e paradoxalmente não foge do controle do Senhor e ao mesmo tempo não pode ser aceita como um inimigo social que não deve ser combatido. Mas o segredo está em como deve se dar este combate à miséria, à fome, à prostituição, à aflição da alma, às enfermidades, à corrupção política, à violência urbana, à violência doméstica, ao desemprego e a tantos infindos problemas sociais.

As Escrituras, tanto no primeiro quanto no segundo Testamentos nos orientam acerca disso. O combate ao consumismo, a necessidade do desprendimento de bens fúteis, a não aceitação da exploração da fé exercida por pastores das mega-igrejas e mega-comunidades evangélicas que têm nestes últimos anos ensinado seus fiéis a cultuarem, servirem e buscarem um deus chamado Riquezas, mas que vem rotulado e disfarçado com os Nomes de Deus e de Jesus. Transformaram as Escrituras em um manual de prosperidade financeira, convertendo errada e escandalosamente determinadas passagens bíblicas que não têm nenhuma relação com o dinheiro, em um método de busca de riquezas financeiras e materiais cada vez maiores. Isso não é Evangelho. É qualquer outra coisa, menos Evangelho.

Que sejamos, com a Graça de Deus, simplesmente humanos, e que identificam o controlar de Deus em tudo, afinal Ele não deixou de ser o Senhor Soberano. Que sejamos humanos que descansam no chão da Graça do Senhor, mas que também não se conformam com as injustiças sociais, desigualdades, misérias, violências, corrupções, explorações religiosas em nome de Deus e toda sorte de “abuso cristão” que tem sido praticado no Brasil.

na Graça,

Jefferson


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Do amor uns pelos outros


“Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos. Se tiverem amor uns pelos outros” (João 13,35).



Cristo deixou uma marca muito profunda pela qual se poderia reconhecer se estamos ou não diante de um grupo de discípulos seus: o amor uns pelos outros. E tal amor foi descrito em palavras muito claras. É amor de quem dá sua vida pelo próximo. O amor com que ele nos amou. 

Obviamente, quando pensamos em “dar a vida”, já nos vem à mente o martírio, o morrer pelo outro. Sem prejuízo deste sentido, ele não esgota todo o significado do dar a vida. Dar a vida também é se doar, é acompanhar, é estar junto, e esta sim deve ser uma marca fundamental dos discípulos que formam a igreja de Jesus. 

Os reformadores disseram que, onde o evangelho é fielmente proclamado e os sacramentos (batismo e ceia) corretamente administrados, aí está a igreja. A igreja católica a define por sua unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade, e considera que tais elementos se concentram principalmente em seus bispos em comunhão com o papa. Interessante como que, as grandes definições sobre as marcas da igreja nada falem explicitamente sobre o amor. 

Obviamente, muitos dirão que nestas definições, o amor já está “embutido”, subentendido, seja por doutrina apostólica, seja por pregação do evangelho. Mas o fato é que são sinais mais institucionais, estruturais da igreja, podendo existir sem sequer haver o amor. Pode ser ter as quatro marcas da catolicidade da igreja, e não haver amor. Pode-se pregar o evangelho e se celebrar os sacramentos e não haver amor. Ou seja, foram os seguidores de Cristo, em meio a controvérsias históricas, que definiram tais sinais eclesiais para que uma autentica igreja fosse reconhecida. 

Entretanto, Jesus dá um único sinal para que seus discípulos fossem reconhecidos. E tal sinal é realmente o amor uns pelos outros. Onde houver amor, ali haverá discípulos de Cristo. E amor, dificilmente se define. Amor se vive. Jesus não definiu a ortodoxia como sinal de reconhecimento, a reta confissão, a correta estrutura e liturgia, rígidos usos e costumes. À medida que estes outros elementos vão sendo acrescidos à comunidade cristã, a impressão que se dá é que ela vai ficando “pesada”, fortemente institucionalizada, organizada. Aquela comunidade que dividiu os seus bens, em que tinham tudo em comum, em que não havia nenhum necessitado em seu meio, dificilmente a vemos hoje em dia, e sequer parecem serem desejados em nosso meio. 

Aqueles elementos mencionados (apostolicidade, universalidade, etc) não precisam ser desprezados, não precisam ser despercebidos, entretanto, pode-se possuí-los, e ainda assim, não se ser mais reconhecido como autentico discípulo de Cristo, justamente por não estar presente o amor. 

Portanto, penso que deveríamos nos ocupar deste tema, notadamente em nossa prática, vivenciando um vívido amor em nossas comunidades. Talvez falte um pouco de ortodoxia, talvez falte um pouco de reta doutrina, de liturgia elaborada, de organização, mas se faltar o amor, o restou de pouco valerá.

domingo, 3 de setembro de 2017

Sobre a Reparação a Deus por nossos pecados



Vejo muitos até hoje que se escandalizam mesmo nas fileiras do cristianismo, contra a doutrina pela qual Jesus se oferece a Deus em sacrifício para o perdão dos nossos pecados.

Dizem que tal doutrina é abominável, e que não são capazes de acreditar em um Deus que exige que o filho morra para que possa perdoar o pecador; que um Deus de misericórdia simplesmente perdoaria, não levando em conta os pecados cometidos; que este sim seria um ato digno de um Deus que merece ser adorado e propagado.

Entretanto, a meu ver, algumas coisas (dentre tantas outras) precisam ser levadas em consideração nesta questão, antes de descartarmos a doutrina da expiação feita por Cristo a Deus pelos pecadores.

A primeira questão é a doutrina da Santíssima Trindade. Deus não exige o sacrifício de seu Filho para a remissão de nossos pecados, mas é o próprio Deus, que no Filho, oferece-se a si mesmo, por nós os pecadores. Então, trata-se de um ato de entrega do próprio Deus, e não de alguém, que está sentado em um alto e sublime trono, assistindo desinteressadamente o espetáculo ocorrido na cruz. Não há Deus exigindo derramamento de sangue por si só, mas é Deus derramando o seu próprio sangue.

Em segundo lugar, é que se trata de um sacrifício vicário, ou seja, oferecido pela parte ofendida, e não pela parte ofensora, ao contrário do sacrifício pessoal. Neste segundo tipo de sacrifício, ou de expiação, a parte ofensora tenta fazer algo para reparar a parte ofendida pelo pecado que cometeu. Entretanto, à humanidade, era impossível fazer isto a Deus, de modo que, o próprio Deus se oferece em sacrifício, sendo este sim um ato de misericórdia. Portanto, não se pode acusar o Deus que nós cremos por falta de misericórdia, mas no seu ato, há puríssima misericórdia. Por isso, nas Escrituras, a entrega do Filho é um ato de puro amor (João 3.16).

A terceira questão que precisamos levar em consideração é que os atos de justiça de Deus são irrevogáveis. “A alma que pecar, esta morrerá”, já havia dito o Senhor, e a morte nada mais é do que a separação eterna da alma de Deus, e o pecado faz esta separação. Por isso, segundo as Escrituras, na cruz, Deus em Cristo, além de uma ato de misericórdia, realiza também um ato de justiça. Parece que não temos uma dimensão real das conseqüências do pecado na vida da humanidade, e de que os pecado precisam ser punidos por Deus.

E em quarto, o que precisa ficar claro, e também não é uma ideia envolta em um grande mistério, mas que aceitamos pela fé, é o fato de que, na cruz, Cristo toma sobre si os pecados de toda a humanidade. Somente um Deus poderia fazer isso. O pecado que está sobre nossas vidas é colocado sobre Jesus. Por isso, não se trata de somente uma expiação penal e jurídica (esta não está excluída), mas também real e existencial. O pecado da humanidade é realmente colocado sobre ele na cruz. Um mero ato de perdão sem derramamento de sangue não resolveria o problema do pecado, que permaneceria.

Portanto, são inúmeros os argumentos que podem ser levantados e favor da nossa fé, mas o que neste texto, eu gostaria de dar ênfase justamente no primeiro argumento, o de que, não há somente um Deus exigindo derramamento de sangue para perdoar, mas sim um Deus que oferece-se a si mesmo, que da e doa a sua vida para a salvação de todo aquele que crê.

sábado, 2 de setembro de 2017

Não retire o amor que pertence a Deus


Todo pecado tem raízes na carência de amor. Todo pecado consiste em retirar de Deus o amor e aplicá-lo a outra coisa. (Thomas Merton).


Quem se pode dizer perfeito ao ponto de ordenar corretamente todas as suas intenções?

Somente uma graça sobrenatural pode dar tal perfeição a seres tão limitados quanto nós. Isto porque, acostumamos desde cedo a aprender que pecado são coisas ruins que cometemos, mal que fazemos ao nosso próximo, violar os mandamentos, cometer crimes, e coisas do tipo.

Entretanto, o pecado pode ir muito além disso. Pode-se inclusive desejar e realizar coisas objetivamente aprováveis, mas com intenções reprováveis dentro de si. Isto porque, ao retirarmos o nosso amor por Deus para algo menos digno, estaremos já a partir daí, rompendo um pouco daquela santa comunhão, e aí, estaremos já cometendo pecado. A nossa sede de amor é infinita, e somente pode ser direcionado para algo infinito, eterno, e cremos que somente Deus possui tais qualidades. Mesmo nosso amor ao próximo tem que ter Deus como fundamento.

Já ouvi falar de pessoas que renunciaram uma carreira brilhante por entenderem que, no exercício de tal labor, não obstante o sucesso profissional, sentiam que sua comunhão com Deus ficava um tanto quanto abalada. São advogados, jornalistas, profissionais liberais, etc, que de algum modo, perceberam que não poderiam agradar a dois senhores, a Deus e ao dinheiro, e, “perderam suas vidas para ganhá-las”, conforme as abençoadas palavras pronunciadas por nosso Senhor. Por incrível que pareça, mesmo vocações religiosas podem ser obstáculos para a comunhão com o Pai. Muitos, ao amar demais suas carreiras aplicaram pouco amor a Deus, minguando seus frutos. Entretanto, ouço muitos poucos falarem sobre a possibilidade de muitos não abraçarem, ou recusarem o sucesso profissional em nome do evangelho. De modo algum quero dizer que cristãos devem ser profissionais medíocres, mas sim que, “só é legítimo amar todas as coisas e ir ao seu encalço quando elas se convertem em meios de amar a Deus” (Merton).

Às vezes interpretamos mal a graça, relativizando-a, tornando-a barata demais (Bonhoeffer). A uma excessiva ênfase na doutrina luterana na salvação pela graça única e exclusivamente pela fé, destituída do discipulado pode levar a tal equívoco e acomodação na caminhada cristã. Jesus sempre impôs condições para aqueles que quisessem caminhar ao seu lado. Seguir a Jesus sempre implicou em renúncia, em morte do próprio eu para que Cristo cresça em nós. Jesus chegou inclusive a impor condições particulares a determinadas pessoas, como a de que o jovem rico deveria vender seus bens e distribuir.

Não podemos nos descuidar da comunhão com Deus. Se nos dedicarmos demais, mesmo ao estudo, à escrita, etc, ainda que sobre temas cristãos, ainda assim corremos o risco de estarmos direcionando mais o nosso amor para as obras de nossas mãos do que para o autor de todo o bem. Portanto, cada um de nós deve examinar a si mesmo, se por acaso não estamos concentrando demais o nosso amor em determinada coisa e retirando-a de Deus.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Graça Preciosa X Graça Barata no pensamento de Dietrich Bonhoeffer (Obra: Discipulado)

Bonhoeffer nasceu em 4 de fevereiro de 1906, e desde cedo demonstrou interesse em se formar em Teologia, tendo sido bacharelado em 1927. Após estudou ainda um ano nos Estados Unidos, e se habilitou à docência na Universidade de Berlim.

Em 1933, se tornou pastor em uma igreja em Londres, Inglaterra. Interessante notarmos que toda a sua trajetória coincide também com o surgimento do nazismo. O partido nazista foi fundado em 1919, tendo contado com a aderência de Hitler em 1920, tendo se tornado um de seus principais líderes. Em 1923, o partido nazista tentou aplicar um golpe de Estado e derrubar a República, no que foi fracassada, sendo que, Hitler e mais alguns de seus partidários acabaram sendo presos. Isto deu a Hitler e ao partido nazista, projeção nacional. Foi na prisão que Hitler escreveu Mein Kampf, em que expunha as principais idéias nazistas. Com a terrível crise alemã daquele período, Hitler foi gradualmente sendo visto como uma alternativa para recuperar o prestígio alemão, sendo que, em 1932, foi nomeado chanceler, tendo amplos poderes. Um de seus primeiros atos foi colocar fogo no parlamento, mas jogar a culpa nos políticos de esquerda, jogando-os em um campo de concentração. Em seguida, fez uma limpeza interna no próprio partido, eliminando 70 líderes e cerca de cinco mil nazistas. Estava implantado o regime totalitarista, e, em 1933, proclamou a criação do terceiro Reich. Começou a partir daí a sua investida contra os judeus. Nas palavras de Paul Tillich, em 1º de abril de 1933, “as igrejas nada disseram quando os judeus foram atacados pela primeira vez e muitas vidas e propriedades foram destruídas”. 

Logo, percebemos que a igreja oficial não estava contra o regime nazista, estando, em larga escala, até a favor, pelo menos em um primeiro momento. Foi neste ano, por exemplo, que Tillich, um dos adeptos do socialismo cristão, foi exilado, indo para os Estados Unidos. Notemos que em 1933, Bonhoeffer estava em Londres, na, por assim dizer, tranquila posição pastoral, mas, em 1935, decidiu voltar à Alemanha. Ou seja, deixou um proeminente cargo na Inglaterra, para retornar ao caos em que tinha se transformado sua terra Natal. Somente uma pessoa imbuída de uma convicção fora do comum faria tal coisa. Bonhoeffer foi contemporâneo a diversos teólogos de renome, entre eles, Paul Tillich, que foi exilado em 1933, indo morar nos Estados Unidos, e só retornando em 1948. Karl Barth ficou durante muito tempo neutro, diante do nazismo, até passar para a oposição e conclamar a ação dos ingleses contra os nazistas. Bulltman não parecia ter interesses políticos, não tendo saído da Alemanha, nem sofrendo nenhuma perseguição por parte dos nazistas, visto que não entrava em assuntos políticos, não obstante sua genialidade teológica. 

Em 26 de abril de 1935, Bonhoeffer ajudou a fundar um seminário para pregadores, perto da região do Mar Báltico. Tal seminário foi transferido após para a região de Finkenwalde, estando, desde o seu nascedouro, na ilegalidade. Em fevereiro de 1936 perdeu sua licença para lecionar na Universidade de Berlim, sendo que, na época, ensinava os princípios expostos em seu livro Discipulado. Interessante tal fato, visto que, talvez, o regime tenha visto em tais ensinamentos algo com o que se preocupar. Em 1937 o governo determinou o fechamento do seminário, mas este continuou clandestino até 1940. Em 1939, Bonhoeffer escreveu "Vida em Comunhão", obra em que esboçou um pouco da experiência no dito seminário. Em 05 de abril de 1943, Bonhoeffer foi preso, e executado em um campo de concentração nazista em 9 de abril de 1945, quando o regime já estava falido e já se sabia derrotado para as tropas aliadas. Hitler se suicidou no dia trinta do mesmo mês, ou seja, quando Bonhoeffer foi executado, os nazistas já tinham consciência de que iriam perder a guerra.

Com isso, podemos perceber um pouco do contexto histórico em que o livro Discipulado e os conceitos de graça barata e graça preciosa foram escritos. Era um contexto de extrema decadência da religião oficial, em que se apoiava o nazismo, e que, em nome da própria segurança, não se opunha a tal regime, deixando-se assim de se conformar ao evangelho de Cristo. Por isso os conceito de graça barata e de graça preciosa em Bonhoeffer não podem se encontrados na ortodoxia. Se buscarmos nos compêndios de teologia sistemática, não encontraremos nenhum conceito de “graça barata”. Isto porque, de fato, por uma análise teológica do termo, veremos que não existe tal graça barata, por parte de Deus. Da parte de Deus, a graça é sempre preciosa. É dom imerecido dado a favor dos homens (Efésios 2.8-9). A graça de Deus é sempre preciosa, e Ele não tem oferece nenhuma outra graça que não seja essa. Por isso, o conceito da graça barata de Bonhoeffer não pode se encontrado na ortodoxia, mas sim na ortopraxia. Ou seja, a questão é de prática, e não apenas de teoria. A graça barata é uma resposta não condizente para com a graça preciosa oferecida por Deus, e, cujo padrão, estava no discipulado com Cristo. Para Bonhoeffer, o discipulado com Cristo era a oposto ao regime nazista bem como a uma religião oficial que via em si mesma a única finalidade para a existência. Bonhoeffer então faz um apelo ao retorno das raízes do discipulado cristão, única expressão de vida condizente com a graça preciosa que Deus oferece aos homens. A igreja oficial poderia até ter uma doutrina correta de graça, mas não uma prática condizente, fazendo da graça preciosa, uma graça barata, e tal comportamento distorcido acabaria também por criar uma teoria distorcida, na tentativa de justificar o seu mau comportamento, ou mesmo a sua omissão. A lógica da graça barata é o entendimento de que, “pelo fato da conta já ter sido paga”, não haver mais necessidade de compromisso, de posicionamento, próprio da igreja oficial do período, que se omitira frente aos desmandos do nazismo, sob a desculpa de que a religião não deveria influenciar na política, posição esta defendida até por Karl Barth, pelo menos em um primeiro momento. Portanto, Bonhoeffer fala da graça barata não através de um conceito fechado, mas sim através de suas amplas manifestações, sendo que iremos verificar algumas delas.

A graça barata é graça como refugo. Ou seja, é a graça oferecida sem nenhum preço a ser pago. É a promessa do perdão sem nenhum compromisso com o discipulado. Basta uma simples aceitação da graça, e já se está perdoado, sem nenhuma necessidade de arrependimento. É um assentimento meramente intelectual da idéia de graça.

A graça barata significa, portanto, graça como doutrina, ou seja, sem correspondência nenhuma com a existência. Fica meramente na cabeça. Não vai para o coração, nem para os atos.

A graça barata significa justificação dos pecados, e não do pecador. Ou seja, pode-se fazer de tudo, uma vez que já se está perdoado. Entretanto, a graça preciosa justifica o pecador, ou seja, o ser humano diante de Deus, e não os seus atos pecaminosos. A aceitação da graça preciosa implica em abandono do pecado, e não a sua justificação. Os defensores desta graça barata até atacam aqueles que tentam resgatar a originalidade das palavras de Jesus, chamando-os de legalistas.

Logo, a manifestação da graça barata, por assim dizer, se dá, primeiramente, em uma distorção da verdadeira doutrina bíblica e em segundo lugar em uma resposta inadequada ao chamado ao evangelho. É uma distorção, pois diz que o crente pode ficar inerte em tal graça, deixando que ela a tudo opere sozinha, e que, qualquer tentativa de se conformar às palavras de Jesus é a rejeição da própria graça. É uma resposta inadequada ao evangelho, pois não induz ao compromisso, ao discipulado, à real transformação de vida.


Contrariamente, a graça preciosa chama ao discipulado. É preciosa, pois custa a vida do próprio homem. Quem quiser desta graça tem que dar a própria vida. E é graça porque da vida ao pecador. O homem perde a vida, mas ao mesmo tempo recebe vida. É o caráter paradoxal do discipulado e da graça de Deus. Aqui também Bonhoeffer não dá um conceito fechado da graça preciosa, mas sim, faz uma séria de afirmações, ou de manifestações de com tal graça se manifesta na vida das pessoas que a aceitam verdadeiramente. Bonhoeffer cita o exemplo do apóstolo Pedro de como tal graça se manifestara em sua vida através do chamado ao discipulado. Cita também que, com a expansão do cristianismo, houve uma decadência em sua vida espiritual, perdendo-se gradualmente a sua graça, sendo o movimento monástico uma forma de protesto contra tal secularização da igreja. Ocorre que o movimento monástico foi tolerado pela Igreja, de tal modo que, se criou o conceito de dois tipos de cristãos: uns especiais, que, teriam capacidade de se conformarem ao severo discipulado de Cristo, e outro grupo compondo o restante da cristandade, que não precisavam se amoldar ao discipulado, visto serem cristãos “normais”. Para Bonhoeffer, foi Lutero que resgatou a idéia de que o discipulado de Jesus era para todos os cristãos, e não a realização excepcional de alguns. Sob esta perspectiva, o convento não passava de lugar para auto-afirmação de uma vida piedosa acima dos demais, de modo que, o mundo passava a fazer parte do convento. Lutero fez o caminho inverso. Saiu do convento para o mundo. “A obediência perfeita ao mandamento de Cristo deveria acontecer na vida profissional de todos os dias”. Entretanto, não demorou para a mensagem de Lutero acerca da graça também ser distorcida, de modo que, a graça, que era um resultado, uma conclusão lógica após todo uma vida de árduo discipulado, passou a ser visto como premissa que dispensaria o cristão de todo e qualquer esforço. “Desaparecera o conflito entre a vida cristã e a vida profissional de cidadão mundano. A vida cristã consiste em viver no mundo e tal qual o mundo, sem dele me distinguir, seja no que for, nem devendo – por amor da graça – distinguir-me dele, embora em determinadas oportunidades, eu saia do mundo para penetrar no âmbito da igreja, para ai me assegurar do perdão dos pecados (p. 15)”. Com este raciocínio, e a referência ao ensino luterano que fora distorcido, talvez Bonhoeffer tivesse em vista a igreja oficial, que, não raras vezes, se recusara em se envolver em “assuntos mundanos”, fechada em si mesmo, alegando uma certa neutralidade. Entretanto, para evitar certa jactância, Bonhoeffer faz questão de transmitir o ensino de Lutero, que, mesmo em meio ao discipulado exorta aos cristãos para reconhecerem que são sempre pecadores, não importa quanto esforço façam (pecca fortiter). Não há duvida de que Bonhoeffer lança em rosto do luteranismo oficial o fato de ter barateado o ensino de Lutero: “ser luterano seria deixar o discipulado de Jesus aos legalistas, aos reformados, aos entusiastas.... Cristianizara-se, luteranizara-se um povo inteiro, porém às expensas do discipulado, a um preço demasiadamente barato (p.17)”. Talvez, sob esta perspectiva, possamos verificar por que Bonhoeffer perdera sua licença para ensinar os princípios contidos no Discipulado na Universidade de Berlin. É um protesto contra a igreja organizada, inerte contra a mundanidade. “O preço que temos que pagar com o colapso da igreja organizada será qualquer outra coisa senão uma conseqüência necessária ao embaratecimento da graça?” Essa graça barata arruinou qualquer tentativa de discipulado com Cristo. Bonhoeffer chama-nos a uma reforma de nossas vidas, como se disse dantes, não da ortodoxia, mas da ortopraxia: “Simplesmente por não quereremos negar que já não estamos no verdadeiro discipulado de Cristo, que somos, é certo, membros de uma igreja ortodoxamente crente na doutrina da graça pura, mas não membros de uma igreja do discipulado”. O chamado de Bonhoeffer é para se procurar entender e viver de forma autentica a graça: “Por amor da verdade, essa palavra tem que ser pronunciada em nome daqueles de entre nós que reconhecem que, devido a graça barata, perderam o discipulado de Cristo, e, com o discipulado de Cristo, a compreensão da graça preciosa.” Para Bonhoeffer, “graça nada mais é senão o discipulado!”

Graça preciosa e graça barata
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