segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobre reconciliação




“...se estiveres para trazer a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta ali diante do altar e vai e primeiro reconciliar-te com teu irmão; e depois virás apresentar a tua oferta”. (Mateus 5,23-24)

Por Carlos Seino



Salvo melhor juízo, é a única vez que Jesus manda que paremos o nosso culto: a necessidade de primeiro ir reconciliar-se com o nosso irmão. Uma das coisas que mais me marcaram negativamente, nesta minha curta caminhada cristã (mais ou menos uns treze anos) é o fato de ver muitos amigos cristãos, pessoas que comungaram por muito tempo juntas, freqüentaram as mesmas rodas de oração, e, por um ou outro motivo, acabam se desentendendo, se separando, e nunca mais voltam a se falar, a freqüentar os mesmos lugares. Às vezes, por causa de motivos deste porte, igrejas se separam e até novas denominações são fundadas.

O fato é que cada qual acaba seguindo o seu próprio caminho, e, realizando os seus próprios “sacrifícios”, como que para apaziguar a sua própria consciência. Ocorre que obedecer é melhor do que sacrificar, conforme disse certa vez o profeta Samuel a Saul, e penso o princípio ser plenamente aplicado aqui também. E, se no momento de nosso culto, antes de comungarmos ou ofertarmos nossos sacrifícios de louvor e adoração, nos lembrarmos que o nosso irmão tem algo contra nós, deveríamos procurá-lo e tentar sanar a questão, “enquanto estamos no caminho com ele”.

Esta frase, “enquanto estás no caminho com ele” (Mt 5,25), me faz ter uma breve meditação que pode me custar a alcunha de herege em alguns meios protestantes e ortodoxos. Será que alguém não reconciliado com seu irmão terá entrada automática no Reino de Deus? No Reino daquele que tomou a iniciativa da reconciliação conosco quando ainda estávamos em inimizade contra Ele? Daquele que manda sermos imitadores de seu Filho amado? Tenho minhas dúvidas. Não que eu ache que os tais não terão entrada no Reino; claro que terão. Entretanto, como “alguns serão salvos como que pelo fogo” penso que talvez devam passar por um “estado intermediário de reconciliação”. Vamos imaginar a situação. Muitas pessoas quando brigam, nunca mais voltam a se falar, a se reconciliar. Aí, antes de ser permitida sua entrada na morada eterna, Deus coloca tais pessoas frente a frente em uma sala vazia, e não permitirá a sua saída de tais irmãos enquanto não se reconciliarem, pois, com tal amargura, ninguém será puro de coração o bastante para poder ver a Deus. Só assim poderão “purgar” (afastar) a culpa...

Claro que isto é uma grande viagem, mas vá saber... De qualquer modo, não é o medo do juízo de Deus que nos deve levar a uma atitude conciliadora, mas sim a plenitude do relacionamento com seu Espírito, que só pode ser alcançada com um coração livre de amarguras, bem como que o estado de amizade é infinitamente melhor do que o seu contrário. Quando tomamos a iniciativa da reconciliação, mesmo quando temos razão em determinada demanda, nos tornamos imitadores de Deus, que também tomou a iniciativa da reconciliação conosco, quando ainda éramos pecadores, e quando tinha toda razão do mundo para o não fazê-lo.

Mas alguém pode se perguntar: eu tomei a iniciativa, procurei o meu irmão magoado, mas tudo o que ele fez foi me desprezar mais. O que fazer? Bom, para isso, só posso imaginar uma solução. Você fez a sua parte, procurou tal pessoa, e, no que dependeu de você, procurou ter a paz com ele. Agora a questão é entre ele e Deus. Não dá para ficar se humilhando o tempo todo, pois isto também fará mal para sua auto-estima, e não será bom nem para a outra parte. Além do que, não convém ficar atirando suas pérolas de reconciliação para aqueles que somente a emporcalham. Entrega a Deus e espere no Senhor, como diz o salmista.


É muito difícil passar por esta nossa vida, e não ocorrer uma situação deste tipo. Entretanto, no que depender de nós, vamos manter uma atitude conciliadora, bem como ter paz com todos, pois isto é agradável a Deus, que todos tenhamos uma vida reconciliada, seja com Deus, com nosso próximo e com nós mesmos.