sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Igreja X Instituição

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Por Carlos Seino

Não é nova na história à crítica à Igreja como uma instituição. Principalmente, quando historicamente sabemos que ela causou abusos, tristezas em muitas ocasiões, com suas disputas, maus testemunhos, envolvimentos políticos e coisas do tipo. A crítica da Reforma foi tão mordaz que ressaltou a realidade eclesial como algo invisível (argumento retomado de Agostinho, provavelmente), ou seja, desassociou completamente a Igreja institucional, qualquer que seja, com o corpo místico de Cristo.

Esta crítica tem muitas virtudes, pois faz a Igreja institucional se lembrar de que ela não é um fim em si, mas um meio para que algo maior seja alcançado.

Hoje ninguém nega que todas as Igrejas oriundas da Reforma se institucionalizaram, ou melhor, já nasceram institucionalizadas, afinal, criar algo já é institucionalizar. Os que não se organizaram, não sobreviveram, e se hoje algo sabemos de sua história, foi porque alguma instituição, ainda que educacional a preservou. Mesmo os anabatistas, se estão hoje entre nós, devemos muito disso aos menonitas, que também se institucionalizaram.

Por tudo isso, aprendemos que, querer criar um corpo eclesial sem se institucionalizar parece ser uma grande ilusão. Cedo ou tarde, se tal grupo quiser sobreviver, terá que se organizar, “institucionalizar”, reconhecer uma liderança, um local de encontro, um fundo econômico; se quiser realizar algo juridicamente, terá que ter inscrição em cartório; se quiser sobreviver financeiramente terá que arrecadar dinheiro, abrir conta em banco, e logo terão que contar com a “impessoalidade” de uma personalidade jurídica (ou vão ficar eternamente alugando espaços no nome de uma pessoa física, ou depositando todas as arrecadações na conta de algum membro da comunidade?). Logo, institucionalizando-se, estará criada uma nova denominação, com característica própria, por mais que tente negar. Veja nos grupos dos que sustentam um grupo sem líderes, e, os que mais entusiasticamente defenderem tais movimentos, ali está o líder! E digo, com todas as letras, que isso não é ruim. Institucionalizar-se nada mais é do que demonstrar a seriedade do trabalho que está sendo feito. Agora, institucionalizar-se não significa necessariamente ser legalizado. Se lermos com honestidade os documentos dos antigos cristãos, veremos que, apesar de terem vivido no início sob a ilegalidade, já tinham uma respeitável organização (Clemente, Policarpo, Inácio, Didaquê, Pastor de Hermas, etc).

Dom Robinson ensinou em “Cristianismo e Política” que sustentar um corpo sem liderança é pura ilusão herética. Tillich, em “A História do Pensamento Cristão”, demonstra que, os que lutam contra a instituição, deveriam pensar melhor, pois, tudo o que temos em termos teológicos, nos foi preservado e conservado por ela. Teríamos tantas cópias das Escrituras se durante tantos séculos os monges católicos não tivessem manualmente as copiado, dia após dia? Teríamos um cânon da Bíblia se a Igreja, pelo menos quatro séculos depois da sua existência, não tivesse tentado entrar em acordo do que seria ou não canônico? Teríamos sustentado um pouco da identidade cristã se os grandes concílios não repelissem o que consideraram ensino herético, como o arianismo, entre outros, por melhores ou piores que fossem as decisões advindas dali?

Portanto, nossa luta não é declarar o fim da instituição, mas sim evitar o institucionalismo (a instituição quanto um fim em si mesma). É humanizar a instituição. Instituir, em seu sentido mais básico é criar, iniciar algo. Quando digo que comecei um grupo de oração em casa, posso dizer também que “institui” tal grupo, com dia certo e horário para se reunir. Não há contradição alguma nisso.

A igreja é e sempre será sagrada, pois foi comprada com o sangue de Cristo, e uma de suas expressões visíveis é a forma como se institui no mundo. Nossa luta é cuidar para que, a igreja como instituição e comunidade possam viver em harmonia, sem deixar de reconhecer que sempre haverá grandes tensões (como é própria da tensão que existe na luta da carne contra o Espírito), que sempre haverá gente com mais desejo de poder do que de pastorear, e que o santo e o demônico estão juntos em todo agrupamento humano, mesmo na igreja, mesmo dentro de cada um de nós. A igreja que incentivou as cruzadas (o que em si mesmo não foi um erro, a meu ver), a inquisição, também nos deu S. João da Cruz, São Francisco de Assis, Santa Tereza d’Ávila, Henri Nowen, Thomas Merton. O mesmo movimento que nos deu a supremacia branca, protestante e anglo saxônica, a matança de camponeses, o aparthaid, a escravidão, nos deu Wesleys, Knox, Spurgeon, Luther King, Desmond Tutu, entre tantos outros. Todas as vezes que tentamos “fugir” deste problema, na verdade, o levamos conosco, e corremos o risco de reproduzir com maior radicalidade aquilo que tanto criticávamos.

6 comentários:

Tiago disse...

Acredito q o texto peca em alguns pontos:

1- Criar a ideia de q, nao se institucionalizar requer exclusao obrigatoria de algum tipo de liderança (seja oficial ou nao oficial);

2- Criar a ideia de q, sem a instituiçao, as escrituras nao existiriam.

3- Criar a ideia de q, a institucionalizaçao é algo inevitavel;

4- Atribuir a palavra "instituiçao" um carater muito + amplo, para a partir dae, assumir q todos se institucionalizam de alguma forma.

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Sobre o ponto 1, cabe o onus da prova sobre tal afirmaçao, nao importando se ela é direta ou velada;

Sobre o ponto 2, esse tipo de indagaçao nivela as escrituras ao nivel naturalista/empirico, desconsiderando a mao q a move atraves dos tempos, sem falar q, ao meu ver, é uma dura indagaçao a soberania divina. Mas esse ponto é questao puramente de pressupostos, por isso nao da pra chegar a um acordo;

Sobre o ponto 3, eu poderia simplesmente objetar q a corrupçao tbm é algo inevitavel, o q deixaria elas por elas, ou seja, isso parece uma falacia de afirmaçao do consequente;

Sobre o ponto 4, eu acho engraçado como usam instituiçao de uma forma tao restrita no ambito geral, e para a apologetica, tomam o termo num sentido muitas vezes lato e diverso.

Sobre a questao de liderança, penso q temos bases tanto no VT, quanto no NT, para concluirmos q Deus, mto embora nao reprovasse, necessariamente tbm nao aprovava diretamente um regime onde o poder estivesse concentrado na mao de uma so pessoa. Se nao me engano foi assim no estado de Israel, quando queriam o poder estatal monarquico, quanto, por inferencia, ao fato de Jesus nao ter nomeado um substituto na liderança entre os apostolos.

Concluindo, me pergunto se vermos em termos de NT, teriamos + bases para uma igreja institucionalizada ou nao?

Carlos Seino disse...

Sobre o ponto 1.

Liderança é somente uma das características de um grupo institucionalizado, conforme citado no texto, e não a única. Pode haver uma liderança em um grupo não institucionalizado; mas se tal grupo quiser permanecer, provavelmente começará a exibir características próprias de uma instituição.

Sobre o ônus da prova, todo o grupo cristão que criou uma dimensão diacrônica de sua existência, se institucionalizou em algum ponto. Mesmo os quakers, menonitas; enfim, os que sobreviveram. Os grupos que não se institucinalizaram, deixaram de existir. A instituição pode ser “pesada, ampla”, ou “leve”, mas ela sempre existi em algum nível.

Sobre o ponto 2

A própria produção das Escrituras, judaicas e cristãs, se deram no nível da instituição, ainda que nascente. Foram formas institucionalizadas de cristianismo que nos legaram o atual cânon, quer sejam católicos ou protestantes.

Isto não é nivelar as coisas em um nível empírico, mas reconhecer a mão de Deus por trás dos acontecimentos históricos. Eis aí a soberania de Deus, movendo a história pelas mãos dos homens.

Sobre o ponto 3

Se um grupo quiser permanecer, irá se institucionalizar, caso contrário, terá a conotação de movimento, e deixará de existir. Penso que isso é objetivamente verificável. Sua comparação com “corrupção é inevitárel” é incorreta, a meu ver, pois se trata de algo no âmbito moral, e nós estamos falando dos aspectos sociológico da organização e permanência de um determinado grupo.


Sobre o ponto 4.

Entendo que não há caráter amplo, mas sim constatação de características verificadas empiricamente (não estamos falando, neste texto, de personalidade jurídica; algo próprio do nosso século).

Sobre sua indagação apologética, ela não ficou clara para mim.

Institucionalizar-se não é concentrar necessariamente o poder na mão de uma pessoa. Na verdade, não se institucionalizar que o é. Instituições pouco maduras que geralmente concentram demais o poder nas mãos de uma só pessoa. Basta ver, por exemplo, o caso das igrejas neopentecostais. Apesar de institucionalizadas, concentram o poder nas mãos de seus líderes; o que já é mais difícil de ocorrer nas igrejas históricas.

Antes de existir estado monárquico em Israel, já havia a instituição dos juízes; antes dos juízes, de chefes de tribos, de grupos menores, de mandamentos, punições, etc...

No novo testamento, em Atos, já vemos uma igreja institucionalizada (obviamente, não no sentido moderno do termo, de pessoa jurídica que só existe no papel), mas com as características mencionadas. Já há liderança, já há supervisão (quando Felipe abre novas igrejas, posteriormente, os apóstolos vão supervisionar); já há uma doutrina que se deve seguir, sem a qual não se poderá fazer parte do grupo, sob pena de condenação; já há um ritual de iniciação (batismo) e de continuidade (ceia), já há arrecadação, já há congregação e incentivo para que deste não se afaste. E quando tal grupo passa a existir no mundo, precisará estar de acordo com a legislação de seu país para permanecer na legalidade, e assim sucessivamente. Harnack, ogrande historiador protestante, reconheceu no novo testamento o que chamou de protocatolicismo.

Francisco disse...

Os cristãos são nascidos do Espírito e não da vontade do homem (Jo 1: 13).
Uma vez que a instituição é obra humana não pode ser responsabilizada pela existência de qualquer cristão ou de sua contribuição à igreja.

Carlos Seino disse...

Francisco.
Obrigado por comentar por aqui.
O Espírito pode inspirar, na minha opinião, um ajuntamento organizado de pessoas. Esta visão que desassocia completamente a instituição da igreja, ao meu ver, é mais platônica que cristã. A igreja é espiritual, mas também está instituída no mundo (obviamente, sujeita à falhas).

Guilherme Santana Alencar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
avivamento disse...

MUITO ESCLARECEDOR OBRIGADO QUERIDOS MESTRES! PRECISAMOS MUITO DE VOCÊS.

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