sábado, 5 de janeiro de 2008

Saber ouvir


Por Carlos Seino
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São raros os bons ouvintes hoje em dia. Queremos muito mais ser ouvidos do que ouvir. Ser compreendidos do que compreender. Repare nos momentos informais de nossa vida que praticamente disputamos para ver quem tem o melhor caso para contar, ou ver quem pode se gabar mais de um grande feito, ou ainda, para ver quem tem um problema maior e a vida mais sofrida. Raramente dispomos de nosso tempo e paciência para ouvir acerca das aflições de algum irmão. Na verdade, criamos um clima que, muitas vezes, sequer deixamos nossos amigos à vontade para abrirem o seu coração, ou desabafarem para conosco. Se quisermos bons ouvintes, acabamos por ter que pagá-los, na forma de psicólogos e terapeutas. Nas Igrejas Evangélicas, muitos fiéis não se sentem muito à vontade de se falar profundamente sobre suas intimidades com seus líderes, por diversos motivos, dentre eles, a falta de confiança mesmo, ou mesmo a vergonha de que tais líderes possam utilizar mal a informação que lhes é prestada. Na Igreja Romana, há muitos fiéis para pouquíssimos padres, nem todas paróquias possuem confessionário aberto todos os dias, algumas, dependendo da localidade, não possuem sequer clérigos, e algumas, que possuem tal confessionário, acabam mais por prestar um serviço (útil, é verdade), que pela grande quantidade de fiéis, acaba por haver uma certa impessoalidade. E não é somente sobre confessar pecados que estamos refletindo neste texto. Por isso, o “saber ouvir” tem que estar espalhado por entre o povo, e não concentrado sobre os profissionais da fé.

O maior requisito para quem quiser ser um bom ouvinte, certamente, é o amor. Tal amor que se porta pacientemente, sabendo ouvir as dores do irmão. É até mais importante demonstrar ao amigo aflito a certeza de que se estará ao lado nas circunstâncias difíceis do que a promessa de que irá resolver todos os problemas dele. Isto porque, às vezes, sequer temos paciência de ouvir o nosso irmão, e já vamos dando a solução para os seus problemas. E nem sequer ponderamos, apenas por um instante, que este nosso amigo já havia pensado em tal solução por nós proposta, já a aplicara, mas por algum motivo, mas não dera certo. Talvez, tudo o que ele esteja procurando seja solidariedade, companheirismo, compreensão. Quando ele finalmente se decide a abrir para com alguém uma questão sua, significa que para ele tal problema pode ser de uma dificuldade enorme. Quando damos uma solução simplista, corremos o risco de até ofendê-lo. Temos que ter muito discernimento nesta questão, talvez sugerindo, do que impondo soluções, talvez o levando a encontrar sua própria saída.

Em nossa vida cristã, saber ouvir é primordial, afinal, é uma forma de ajudarmosa carregar as cargas uns dos outros.