quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Da Invocação do Nome do Senhor

Por Carlos Seino.

Tenho estudado um pouco a espiritualidade cristã antiga. Li alguma coisa sobre a tradição "Hesicasta", ou seja, a espiritualidade ortodoxa, bem como a "invocação do nome de Jesus". Penso que, se no catolicismo romano não se ouve falar muito disso, quanto mais no protestantismo, onde tem havido alguma falta de movimentos mais contemplativos.

Bom, fato é que, uma destas formas de orações que tenho estudado se refere à "oração de Jesus", ou "invocação do Nome". É algo simples (aparentemente), em que o fiel recita o nome de Jesus repetidas vezes. Um livro que trata bastante desta prática é o “Peregrino Russo”, clássico da tradição Ortodoxa Russa. O fiel, em estado de contemplação, ou em seu cotidiano, vai repetindo o nome de Jesus, podendo utilizar de diversas expressões, sendo a mais clássica o Kyrie, dizendo “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim; Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim” (se reparar, nas ditas invocações estão explícitas a natureza humana e divina do Salvador). Poderá somente dizer “Jesus”, ou “Jesus Cristo” conforme preferir. Os grandes mestres desta prática chegam a sugerir que, a partir de determinado momento, o nome de Jesus está inserido na própria respiração da pessoa, como que se as batidas do próprio coração “dissessem” “Jesus”.

Certamente, muitos protestantes lembrarão da passagem do Sermão da Montanha em que Jesus ensinava que não devemos utilizar “vãs repetições”. Mas nos perguntamos: será que invocar o nome do Senhor é uma “vã” repetição? Penso que não.

Tenho uma filhinha que amo, e lembro-me que quando esta estava começando a balbuciar as primeiras palavras, ela se deitava algumas vezes em meu colo, olhava nos meus olhos e, com sua voz delicada dizia: papa... papa... papa... papa.... Repetindo “papa” dezenas de vezes. Meu coração se enchia de alegria e de orgulho. De modo algum aquilo me incomodava. Ora, se eu, miserável homem que sou, me encho de alegria quando minha filhinha dizia “papa”, quanto mais Deus, todo Santo, não deverá estender conosco sua comunhão quando, com coração de crianças, invocamos o seu nome, ainda que, de certa forma, somos todos crianças, não sabemos orar como convém, e ainda por cima, apenas “balbuciamos” palavras espirituais?

Bom. Sei que a analogia não seja bem exata (mas se fosse, não seria analogia), mas penso que ela acaba por ter o condão de demonstrar que, a invocação do nome, de coração, não pode ser tida como uma mera repetição sem sentido. Obviamente, ela não é para todos; cada um de nós tem que encontrar os modos pelos quais sente que melhor entra em comunhão com Deus. Eu, particularmente, não me atrevo a tentar ser um “místico cristão”, no sentido hesicasta do termo, e, não obstante ter praticado algumas vezes a invocação do nome, estou a milhas e milhas distante da descrição da experiência de seus maiores propagadores (no Brasil, pode-se encontrar algo nos escritos de “Jean-Yves Leloup”, em seu livro “Escritos sobre Hesicasmo”, da Editora Vozes, além de duas obras sobre “O peregrino russo”, que foram editados pela Editora Paulus). Pessoalmente, penso ter maior facilidade para entrar em maior comunhão com Deus na contemplação da natureza, da criação. De qualquer modo, como creio na bondade e misericórdia de Deus, bem como na liberdade do Espírito Santo, penso que, na mística cristã, ou na espiritualidade, está um caminho em que cristãos de todas as tradições se encontram com Deus, e em Deus, todos se encontram. Pela via do diálogo e do debate doutrinário, acho muito difícil se chegar a tal encontro, mas pela espiritualidade e prática cristã, podemos todos estar muito próximos. Por isso, fico fascinado com tanta riqueza sobre a espiritualidade cristã, e faço a proposta para que todos os que tiverem interesse, pesquisem sobre o tema.
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Enfim, que todos possamos de fato invocar no nome do Senhor, pois, todos os que o invocarem, serão iluminados, todos os que o invocarem, serão salvos...