domingo, 30 de março de 2008

A Ceia do Senhor e as Crianças



Por Bispo José Ildo Swartele de Mello

Não foi por acaso que Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo, morreu na semana da Páscoa judaica. Jesus, na véspera de sua morte, reuniu o seus discípulos para a celebração da Páscoa e a transformou na celebração da sua própria Páscoa, revelando que os princípios de redenção da Páscoa e do Êxodo do povo hebreu encontram pleno cumprimento em seu sacrifício na cruz. As crianças eram incluídas na aliança do Antigo Testamento, tendo acesso aos sinais do pacto tanto da circuncisão como da Páscoa. Toda a família, incluindo as crianças, se reunia ao redor da mesa para comer e celebrar a Páscoa. A aliança do Novo Testamento é superior a do Antigo e não pode ficar aquém no tratamento dado as crianças. Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11; Tg 2.9). "Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3:28). Seguindo o mesmo raciocínio de Paulo, podemos concluir também que não deve haver acepção entre adultos e crianças, pois todos devem ser um em Cristo. Jesus Cristo, querendo mostrar que veio dilatar antes que limitar a misericórdia do Pai, abraça ternamente as criancinhas a si trazidas, repreendendo os discípulos que tentavam impedi-las de acesso, afirmando que delas é o reino dos céus (Mt 19:13-15; Mc 10:13-16; Lc 18:15-17). As crianças estão incluídas no pacto de Deus. A ação de recebê-las, o abraço, a imposição de mãos e a oração de Cristo, demonstram que as crianças não apenas são dele, como também são por ele santificadas. A expressão usada pelos evangelistas em Mt 19:14; Mc 10:13; Lc 18:15, designa literalmente criancinhas de peito. Não se fala aqui de crianças já crescidas, portanto já aptas a vir por si mesmas. Vir, nestes textos, fala de ter acesso. As crianças podem vir a Cristo, pois das tais é o reino dos céus.

Os metodistas livres vêem a ceia do Senhor não apenas como ordenança, mas também como sacramento. Existem dois sacramentos: a Ceia e o batismo. Tais ordenanças são verdadeiramente meios de graça, ou seja, ainda que sejam rituais simbólicos, representam uma realidade espiritual. No caso da Ceia, os elementos não sofrem nenhuma alteração mística – o pão continua sendo pão, e o vinho continua sendo vinho. Não obstante, o crente, mediante a ação do Espírito Santo, é verdadeiramente nutrido espiritualmente em sua participação. A Ceia é "um banquete espiritual, onde Cristo é o pão vivo que desceu do céu (Jo 6:51), pelo qual são os crentes alimentados para a verdadeira e bem-aventurada imortalidade. A Ceia é um dos sinais da inclusão do cristão na realidade salvífica estabelecida pelo pacto da graça. Por último, a Ceia é também um sinal de nossa participação no Corpo de Cristo que é a sua comunidade de fiéis. A reunião da Ceia é a reunião da família em torno da mesa, partindo o pão e compartilhando de união e intimidade. As pessoas reunidas para essa refeição são diferentes uma das outras. Expressam diversidade, mas estão ligadas na unidade produzida pelo Espírito mediante o sangue da aliança, derramado em favor delas.

Questão histórica


Na Igreja Antiga era normal a participação das crianças na Ceia do Senhor. O batismo de crianças e sua participação na Ceia eram usuais. Naquela época o Batismo era a única condição para participar da Ceia. A partir do século XI outras exigências foram solicitadas para a participação na Ceia. O IV Concílio de Latrão, em 1215, fixou a idade entre 07 e 10 anos para poder participar na Ceia. Nesta idade as crianças já poderiam ver a diferença da Ceia com a presença da salvação em Cristo e a simples refeição. Assim, na Igreja Ocidental se colocam limites para a participação das crianças na Ceia. Na Igreja Oriental, até hoje, todas as crianças batizadas são convidadas para a Ceia.

Os Sacramentos foram ordenados por Jesus Cristo. Eles são obras d'Ele e não desta ou daquela denominação religiosa. Faz parte de um Sacramento a Palavra de Deus e os elementos visíveis. Os benefícios dos Sacramentos vêm de Cristo. Neste, todos os dons de Deus nos são concedidos por graça: fé/justificação, perdão dos pecados, Espírito Santo/santificação, vida eterna, fortalecimento na fé e no amor. Toda essa "graça" experimentamos na comunhão do corpo de Cristo (igreja = comunhão dos santos).

Lutero entendeu o Batismo como presente de salvação. Lutero utilizou a imagem do testamento: Uma pessoa à beira da morte faz seu testamento e a partir da morte desta, que seria a morte de Cristo, este testamento passa a valer. A pessoa que recebe as promessas do testamento, mesmo sendo indigna, tem o direito ao que a ela é presenteado gratuitamente. O mais importante não é o que a pessoa faz ou deixa de fazer, mas o presente que recebe. O peso do testamento está na obra de Deus, e não na dignidade ou mérito do ser humano. Esta obra de Deus em nosso favor vale para sempre, não precisa ser repetida (caso de rebatismo). Quando não colocamos total confiança na graça de Deus. Lei é exigência. Lutero afirmou que ser cristão é saber diferenciar entre lei e Evangelho. A negação da Ceia do Senhor as crianças batizadas é desprezar a graça de Deus, que é dada a todas as pessoas, independente da idade e maturidade. Pois ela é graça, é presente, e cada pessoa batizada tem o direito de participar e viver deste presente na comunhão da família. Todos somos pecadores e necessitamos da mão estendida de Deus.

Pode acontecer de pais crentes não apresentarem seus filhos para batismo, mas estarem trazendo-os à frente para participação na Ceia do Senhor. Depois, em particular, o pastor deve conversar com os pais mostrando pelas Escrituras a íntima relação entre os sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor, de modo que um está atrelado ao outro. Por que participar da Ceia e não também do batismo? O batismo é o sinal da salvação em Cristo, devendo, portanto, preceder a Ceia. O coerente é que aqueles que foram batizados participem da Ceia do Senhor.

Alguém poderia alegar que as crianças não são mencionadas na realização da primeira Ceia do Senhor. A isto respondemos que nem tão pouco as mulheres são mencionadas. Vamos examinar o seguinte texto: "Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo." (1 Co 10.1-4). Paulo estabelece este paralelo para que os cristãos da igreja de Corinto pudessem estar alertas para não incorrer no mesmo erro que levou a maioria do povo a perdição (v. 5-11). É interessante notar aqui algo relevante para o estudo que estamos fazendo sobre batismo infantil e participação das crianças na Ceia do Senhor, pois vemos que Paulo estabelece um paralelo entre os sinais da salvação do povo do Antigo Testamento com os sinais da salvação dos cristãos, o batismo e a Ceia do Senhor estão em foco. Há uma ênfase também na palavra todos. Todos, adultos e crianças foram batizados na nuvem e no mar e todos, incluindo as crianças, comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da rocha espiritual que é Cristo. O termo "todos" aparece também no verso 17 numa referência clara a Ceia do Senhor "pois todos participamos de um único pão".

Uma objeção que é feita a participação das crianças na Ceia do Senhor é que Paulo exorta os cristãos a examinarem a si mesmos antes de participarem da mesa do Senhor para não correrem o risco de comerem indignamente, sem discernir o corpo do Senhor, o que traria condenação. Mas pode-se conjecturar que esta exortação de Paulo não se dirigia às crianças, mas aos cristãos adultos que estavam cometendo diversos abusos durante as celebrações dos cerimoniais da Ceia (1 Co 11).

O cristão é filho de Deus e não existe filiação parcial, pois a graça é total. Não há cristãos pela metade, mas completos, tornados justos pela obra de Jesus e incorporados na comunhão dos santos, da qual as crianças fazem parte, desfrutando de todos as bênçãos e privilégios do Evangelho.



*a imagem refere-se à obra de Joey Velasco
fonte da imagem: http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EkpuFpEAplOgYrIxBM

3 comentários:

Anônimo disse...

Sendo das criancas o reino de deus ,nao e necessario participar porque examinar e discernir e coisa para adulto,faz sentido nao?

Carlos Seino disse...

Mas é justamente por delas ser o Reino de Deus que o autor do texto defende a sua participação. Quem já tem o mais (o Reino) pode participar do menos (o sacramento que aponta para o Reino).

Também entendo que a exigência de discernir o corpo, no contexto da carta paulina, é escrita para os adultos, que estavam agindo de modo egoísta naquela ocasião. Crianças não seriam tratadas pelo Senhor com o mesmo rigor.

Os cultos e a ceia, no contexto paulino, eram realizadas nas casas dos presbíteros ou de algum membro da congregação; daí, segundo nos atesta a história, as crianças sempre participaram, tanto do batismo quanto da ceia.

Foi no Ocidente cristão, que começou a privilegiar um certo tipo de racionalismo, que se passou a exigir a idade da razão para a participação nestes meios de graça, salvo melhor juízo.

Hermínia Nadais disse...

Gostei muito do que li. Crianças, para nós, são pessoas no início do crescimento físico e global, está claro.
Se pensarmos um pouco mais na dimensão espiritual, muitos de nós seremos realmente crianças: ou porque erramos inadvertidamente como crianças; ou na medida em que estamos ávidos de crescer cada vez mais como é próprio de crianças; ou porque acreditamos e seguimos em frente com a confiança própria de crianças.
Todos, sem excepção, teremos sempre um pouco de crianças!
Obrigada pela partilha dos ensinamentos!