domingo, 1 de junho de 2008

O pecado capital da Acídia

Por Gederson Falcometa Zagnoli Pinheiro de Faria

A inofensiva preguiça, entrou na lista dos 7 pecados capitais através do novo catecismo. Considerada, tal como ela é, não é e nem pode ser um pecado capital. Para ser um pecado capital, ela deveria gerar outros pecados, mas é um pecado onde não existe ação. Deste modo, não pode gerar vicíos, pode sim ser efeito de outros pecados, mas nunca causa. E só pode ser considerada um pecado capital em relação a filosofia da ação que predominou nos ambientes modernistas católicos do Século passado.


O pecado capital que lhe cedeu lugar, chama-se acídia, que é uma aversão aos bens e a vida espiritual. Trata-se do pecado capital de nossos tempos, a doença da humanidade. Há Acídia e suas filhas, são assim definidas pelo Prof. Jean Lauand:

"A primeira das filhas da acídia é o desespero. Este ponto foi especialmente analisado por Pieper (a quem sigo de perto neste parágrafo), que liga diretamente o desespero à outra filha da acídia: a pusilanimidade: paralisado pela vertigem, pelo medo das alturas espirituais e existenciais a que Deus o chama, a acídia não encontra ânimo nem vontade de ser tão grande como realmente está chamado a ser; abdica do "torna-te o que és", a famosa sentença com que Píndaro resume toda ética, que, como a de Tomás, está centrada no ser. Quando passamos ao plano da graça, a acídia é uma "tristitia de bono spirituali inquantum est bonum divinum" (II-II 35, 3), um aborrecer-se de que Deus o tenha elevado ao plano da filiação divina, à participação em sua própria vida íntima. Queimado por essa tristeza - existencialmente suicida - e movido pela queimadura de sua acidez, surge a evagatio mentis, a dispersão de quem renunciou a seu centro interior e, portanto, entrega-se à importunitas: abandonar a torre do espírito, para derramar-se no variado, buscando afogar a sede na água salgada das compensações e prazeres de uma atividade desenfreada: num falatório inócuo (verbositas), o agitar-se, o mover-se (instabilitas), a incapacidade de concentrar-se em um propósito (instabilitas) e a um afã desordenado de sensações e de conhecimento (curiositas). " O pecado capital da Acídia na análise de Tomás de Aquino - Prof. Luiz Jean Lauand


A consequência direta da Acídia, serão exatamente o hedonismo e o nihilismo que geram por sua vez, o relativismo, o secularismo, o agnosticismo e como efeito destes "ísmos", o ateísmo. Em termos teológicos, a verbositas, a instabilitas e a curiositas, soam como conteúdos das teologias evolucionistas. Disto, pode se dizer que o "Evangelho" de nosso tempo, é o Evangelho da Acídia, aquele que tem por trindade a matéria, o mundo e a evolução.

Antes de dizer que "Deus não existe", a modernidade doente de acídia, desejou que Ele não existisse. Isto é nitído em toda filosofia e nos valores modernos. E o que fez a Igreja pós-conciliar, senão substituir a monstruosa acídia pela inofensiva preguiça?

Ora, o "populorum progressio", só pode se dar exatamente tendo como força motriz, a acídia. Talvez seja por esta razão que Josef Pieper diz a respeito da substituição:

'O fato de que a preguiça esteja entre os pecados capitais parece que é, por assim dizer, uma confirmação e sanção religiosa da ordem capitalista de trabalho. Ora, esta idéia é não só uma banalização e esvaziamento do conceito primário teológico-moral da acídia, mas até mesmo sua verdadeira inversão." Pieper, Josef Virtudes Fundamentales, Madrid, Rialp, 1976, pp. 393-394.

Conhecendo a mentalidade "Populorum Progressio" e "Gaudium et Spes", pode se dizer que trata-se de uma mudança "pastoral." Digamos que a simples menção da Acídia é como um ícone para a Idade Média, onde ela praticamente não existia. Um contraste bem claro entre a luz e as trevas. Deste modo não haveria progresso das coisas externas ao homem, como se desejou e se deseja com a elevação da preguiça ao nível de pecado capital. Haveria o progresso do homem para a imagem e semelhança de DEUS, como ocorreu na Idade Média.

Em nosso tempo, somente as coisas externas a nós progridem. O homem mesmo não tem progredido, mas regredido. Para se ter esta constatação, basta se ver a família e os relacionamentos influenciados sumamente pelo materialismo. Evidentemente neles não há bem espiritual, são famílias e relacionamentos acidiosos. Desfazem-se fácilmente, porque dependem de bens transitórios que passam.

Fica aqui registrada um pouco da monstruosidade da Acídia, que é o pecado responsável pela maioria das mazelas modernas. Eu não conhecia essa maldita desconhecida, mas conhecê-la foi bom, porque assim posso evitá-la e agora vocês também.

Os clérigos deveriam nos alertar sobre isto, mas estão mais preocupados com as coisas materiais. Estão eles também doentes de Acídia, basta que se veja a Evangelização acidiosa da CNBB. Sentem imensa tristeza dos bens espirituais e uma enorme alegria em se tratando de bens materiais. Nosso Senhor Jesus Cristo nos proteja e nos guarde!

Um comentário:

Tadeu Giatti disse...

O conceito e os desdobramentos de "acídia" foram bem trabalhados. Especialmente porque você ligou-os a São Tomás de Aquino e ao ensinamento da Santa Igreja. Parabéns!! Texto esclarecedor e necessário nos tempos atuais.

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