domingo, 24 de agosto de 2008

Não retire o amor que pertence a Deus

Por Carlos Seino*

Todo pecado tem raízes na carência de amor. Todo pecado consiste em retirar de Deus o amor e aplicá-lo a outra coisa. (Thomas Merton).


Quem se pode dizer perfeito ao ponto de ordenar corretamente todas as suas intenções?

Somente uma graça sobrenatural pode dar tal perfeição a seres tão limitados quanto nós. Isto porque, acostumamos desde cedo a aprender que pecado são coisas ruins que cometemos, mal que fazemos ao nosso próximo, violar os mandamentos, cometer crimes, e coisas do tipo.

Entretanto, o pecado pode ir muito além disso. Pode-se inclusive desejar e realizar coisas objetivamente aprováveis, mas com intenções reprováveis dentro de si. Isto porque, ao retirarmos o nosso amor por Deus para algo menor, estaremos já a partir daí, rompendo um pouco daquela santa comunhão, e aí, estaremos já cometendo pecado. A nossa sede de amor é infinita, e somente pode ser direcionado para algo infinito, eterno, e cremos que somente Deus possui tais qualidades.

Já ouvi falar de pessoas que renunciaram uma carreira brilhante por entenderem que, no exercício de tal labor, não obstante o sucesso profissional, sentiam que sua comunhão com Deus ficava um tanto quanto abalada. São advogados, jornalistas, profissionais liberais, etc, que de algum modo, perceberam que não poderiam agradar a dois senhores, e, “perderam suas vidas para ganhá-las”, conforme as abençoadas palavras pronunciadas por nosso Senhor. Por incrível que pareça, mesmo vocações religiosas podem ser obstáculos para a comunhão com o Pai. Muitos, ao amar demais suas carreiras aplicaram pouco amor a Deus, minguando seus frutos, tornando-se pouco frutíferos, ou até infrutíferos na obra. Entretanto, ouço muitos poucos falarem sobre a possibilidade de muitos não abraçarem, ou recusarem o sucesso profissional em nome do evangelho. É comum ver verdadeiros leões em suas carreiras, mas tímidos no evangelho. De modo algum quero dizer que cristãos devem ser profissionais medíocres, mas sim que, “só é legítimo amar todas as coisas e ir ao seu encalço quando elas se convertem em meios de amar a Deus” (Merton).

Às vezes interpretamos mal a graça, relativizando-a, tornando-a barata demais (Bonhoeffer). A uma excessiva ênfase na doutrina luterana na salvação pela graça única e exclusivamente pela fé, destituída do discipulado pode levar a tal equívoco e acomodação na caminhada cristã. Jesus sempre impôs condições para aqueles que quisessem caminhar ao seu lado. Seguir a Jesus sempre implicou em renúncia, em morte do próprio eu para que Cristo cresça em nós. Jesus chegou inclusive a impor condições particulares a determinadas pessoas, como a de que o jovem rico deveria vender seus bens e distribuir.

Não podemos nos descuidar da comunhão com Deus. Se nos dedicarmos demais, mesmo ao estudo, à escrita, etc, ainda que sobre temas cristãos, ainda assim corremos o risco de estarmos direcionando mais o nosso amor para as obras de nossas mãos do que para o autor de todo o bem. Já vi gente tão apaixonada por apologética, mas que parece ter se descuidado da mencionada comunhão. Portanto, cada um de nós deve examinar a si mesmo, se por acaso não estamos concentrando demais o nosso amor em determinada coisa e retirando-a de Deus.


*Carlos Seino é cristão evangelical, formado em Direito e Teologia.