quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sobre a relação do homem com o Deus pessoal

Ensinamento do Staretz Silouane
pelo Arquimandrita Sofrônio



O Senhor havia dito a Pilatos: “Eu vim ao mundo para testemunhar da Verdade”. Pilatos havia replicado, de forma curta: “O que é a verdade?”, e seguro de que não havia resposta a tal questão, nada esperando de Cristo, sai de Sua presença e dirige-se aos judeus que estavam do lado de fora. Em certo sentido, Pilatos tinha razão; se por verdade entende-se Verdade enquanto fonte de tudo aquilo que existe, a questão: “O que é a Verdade?” não pode ter resposta.

Mas, no entanto, referindo-se à Verdade primária ou a Verdade em si, se tivesse posto sua questão de forma como a qual deveria ter sido posta: “Quem é a verdade?”, ele teria recebido em resposta a palavra que, há pouco tempo então, prevendo a questão de Pilatos, o Senhor havia dito durante a Santa Ceia aos Seus Discípulos Bem Amados e, por eles, ao mundo inteiro: “Eu sou a Verdade” (Jo.14,6;18,327-38).

Enquanto a ciência e a filosofia põem em questão: “O que é a verdade?”, uma consciência autenticamente cristã está sempre orientada à verdade pessoal: “Quem é a Verdade?”.

Os representantes da ciência e da filosofia vêem, geralmente os cristãos como sonhadores e consideram-se, eles próprios, como fundamentos estabelecidos sobre uma base sólida, e, com isso nomeiam-se “positivistas”. Coisa estranha, eles não compreendem a que ponto sua concepção de verdade impessoal é negativa; eles não compreendem que a verdade autêntica e absoluta só pode ser uma Pessoa, um Sujeito, “quem?”, e não um objeto, “o que?”, porque a verdade não é uma fórmula ou uma idéia abstrata, mas a Vida em Si, “Eu Sou Aquele que é” (Ex.3,14).

De fato, o que poderia haver de mais abstrato e de mais negativo que uma verdade impessoal, um “que?” Nós encontramos esse paradoxo em todo o desenvolver histórico da humanidade após a queda de Adão. Fascinada pela sua razão, a humanidade vive uma espécie de vertigem. Desta forma, a ciência “positiva” e a filosofia não são, elas, as únicas a indagar, tal como Pilatos: “O que é a verdade?”, mas poderíamos observar esta mesma tendência na própria vida religiosa da humanidade. Mesmo lá, os homens estão constantemente inclinados à busca de uma verdade “objetiva”.

A razão humana presume que desde que ela tenha possessão desta verdade objetiva, desfrutará de poderes mágicos e tornar-se-á mestra da existência cósmica.

Na vida espiritual, o homem que emprega a via da busca racional cai inevitavelmente em uma forma de panteísmo. cada vez que um teólogo tenta conhecer a verdade sobre Deus pelas suas próprias forças, estando consciente ou não, ele cai fatalmente no mesmo erro que a ciência, a filosofia e o panteísmo; à saber: a busca de um princípio universal trans-pessoal.

A “Verdade-Pessoa” não pode, de forma alguma, ser conhecida pela razão. o Deus pessoal só pode ser conhecido por Revelação (Mt.11,27) e comunhão existencial, o que quer dizer, pelo Espírito Santo.

O próprio Senhor fala assim: “Se alguém Me ama, guardará a Minha Palavra, e meu Pai o amará, e viremos para Ele e faremos n`Ele morada” e ainda “mas aquele Consolador, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu Nome, Esse vos ensinará todas as coisas” (Jo.14,23e26). O starets Silouane reforçava constantemente isso.

A tradição ascética ortodoxa rejeita, como errônea, a via da contemplação abstrata. Aquela cuja meditação religiosa estaciona-se à contemplação abstrata do Bem, da Beleza, da Eternidade, do Amor, etc... Faz falsa rota, caminha por estrada falsa. Aquele que não rejeita todas as imagens e os conceitos empíricos ainda não encontrou a Via Verdadeira.

A contemplação ortodoxa não é uma contemplação abstrata do Bem e do Amor. Ela não é mais do que um simples rejeitar pelo intelecto todas as imagens e os conceitos empíricos. A verdadeira contemplação é concedida por Deus, pela Sua vinda à alma; e então a alma contempla Deus e vê que Ele Ama, que Ele é Bom, que Ele é Belo, que Ele é Eterno; ela vê Sua transcendência e seu caráter inefável.

A verdadeira via espiritual não se situa sobre o plano da imaginação. Ela é plenamente concreta e positiva. A verdadeira comunhão com Deus só pode ser buscada por uma oração pessoal dirigida ao Deus pessoal. A verdadeira experiência espiritual cristã é uma comunhão com um Deus absolutamente livre, ela não depende, então, somente dos esforços do homem, nem da sua vontade, tal como nas experiências não cristãs.

Nossas palavras eram impotentes a descrever aquilo que tanto nos tocava nos relacionamentos com o starets. Apesar de toda a sua simplicidade e a doçura da conversação, sua palavra era extremamente eficaz, tal como uma fonte que jorra de uma profunda experiência da existência, tal como a palavra de um homem que porta verdadeiramente o Espírito da Vida.

A aparição de Cristo ao starets Silouane foi um encontro pessoal, tal como sua orientação a Deus, tomou um caráter profundamente pessoal. Quando ele orava, ele orava com Deus face a Face. A percepção do Deus pessoal purifica a oração da imaginação e das especulações abstratas, e a faz penetrar ao interior de uma comunhão viva e íntima. Concentrando-se no interior, a oração deixa de ser um “apelo no espaço”, o espírito se recolhe e põe-se à escuta. Quando ele invocava a Deus pelos nomes divinos – Pai, Senhor e outros – o starets encontrava-se em um estado que “não convinha o homem falar” (IICo.12,4); mas aquele que já teve ele próprio a experiência da presença do Deus vivo, compreenderá.

Um venerável asceta do mosteiro, Padre Trófimo, observa este estado no starets Silouane; o que provocava nele tal temor e perplexidade, os quais ele nos fez saber após a morte do starets.

Tendo chegado a questão da oração “face à face”, que marca, à nosso parecer, o princípio da percepção no homem da “imagem de Deus”, parece-nos necessário aportar alguns esclarecimentos concernentes a este aspecto de nossa vida espiritual.

A última etapa da Revelação é aquela do Deus Pessoal, Hypostático. O Deus Hypostático só pode ser conhecido por Revelação, que toma forma através de uma manifestação de Deus ao homem em uma comunhão imediata “face à Face”. Normalmente, esta revelação é concedida ao homem em oração; na sua realidade, a mais profunda, uma tal oração é a energia do próprio Deus agindo ao interior do homem. É indispensável - a fim de retomar os termos do starets Silouane – que “Deus, é primeiramente quem nos procura e Se manifesta a nós”.
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