quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Metanóia: da Normopatia à Consciência de Cristo



Regis Augusto Domingues

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”
Apóstolo S. Paulo, aos cristãos em Roma

Parece-me que somos acostumados a formatações. Segundo já nos informava no início do século XX o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, nossos hábitos resultam de normas inconscientemente introjetadas. Essas normas resultam de um consenso coletivo e que determinam formas de viver, pensar, comer, etc. Mas nem todas as normas são positivas, pois, ao serem absorvidas “inadivertidamente” podem causar definhamento da identidade do sujeito, limitando seu real crescimento pessoal. As pessoas vivem com máscaras e enquadram suas mentes e emoções na parametrização coletiva, para serem aceitas, conquistarem status e uma pretensa felicidade. Mas que felicidade, sua ou dos outros? Uma real felicidade e realização ou ceder a uma pressão social? Para exemplificar a questão utilizarei o campo das profissões, que promove grande angústia na vida de muitos, por envolver aspectos pessoais, sociais e econômicos.
Cada época tem sua moda de profissões, em período recente as profissões mais valorizadas pelo mercado eram a medicina, o direito e a engenharia, hoje o quadro muda um pouco, essas profissões ainda têm seu fôlego, até porque estão inseridas no trato do dia-a-dia da vida das pessoas. Mas a tendência desloca-se atualmente para a área da administração, negócios e tecnologia. Há décadas passadas o médico era médico, o advogado era advogado e o engenheiro fazia prédios e projetava carros e motores, hoje o médico faz uma pós-graduação em administração para cuidar dos negócios de clínicas e hospitais, o advogado especializa-se em direto tributário, empresarial e internacional para cuidar dos interesses de empresas, consórcios e grandes fortunas. E o currículo acadêmico de engenharia voltou-se de disciplinas como a resistência de materiais, do cálculo diferencial e da teoria dos vetores para a liderança, o comportamento organizacional, a gestão de processos, a logística e a administração geral, com a nova sensação do momento: a engenharia de produção. E claro, não poderíamos esquecer que o profissional mais valorizado no mercado de trabalho, ou seja, aqueles com melhor remuneração, são os gestores e desenvolvedores da área de TI (tecnologia da informação). E num futuro próximo o foco nas profissões estará voltado para carreiras ligadas a biotecnologia, a engenharia biomédica, a nanotecnologia, a engenharia e gestão ambiental, a engenharia aero-espacial, a engenharia genética, a microbiologia, a robótica e a inteligência artificial (I.A.).

Em futuro próximo o cirurgião não precisará mais de auxiliares, instrumentistas e enfermeiros para realizar suas cirurgias, contará com o auxílio de máquinas de alta precisão em todo o procedimento cirúrgico. Nem mesmo o bisturi será necessário em procedimentos invasivos, pois contará com instrumentos ultra-sensíveis para isso, ou seja, o cirurgião não necessitará de tanta habilidade com as mãos para realizar seus procedimentos, antes terá que adquirir habilidade em operar máquinas que o ajudarão nisso. É o que vislumbra a engenharia biomédica. Já a engenharia genética surge com a promessa de cura para quase todos os males físicos com o avanço no estudo das células tronco, as células primárias do ser humano, através das quais há a possibilidade de reverter quadros graves de patologia, como no caso do câncer.

A vocação, os talentos, as habilidades inatas não importam, o que prevalece é a demanda de mercado. Todos correm atrás de suprir uma dada demanda de mercado, esquecendo-se do clamor interior em realizar suas vocações, buscam sucesso profissional e grandes salários. Só que temos um problema, a demanda tem limite e essa corrida acaba gerando um excesso de contingente nas profissões da moda. E isso acarreta, inevitavelmente, a diminuição nas oportunidades de colocação profissional e, conseqüentemente, uma redução na oferta salarial. O tão sonhado sucesso profissional e garantia de bons ganhos salariais, em prejuízo da vocação, pode ser frustrante. Atender ao apelo do mercado resultará numa normalidade patológica. O conjunto social conclama que é normal seguir uma profissão do momento, mas e o coração, e a consciência interior que tentamos abafar, silenciar?

Adoecemos fisicamente, mentalmente e espiritualmente como pessoas normais. A sociedade, consensualmente, adoece. Haverá aqueles que se sentirão vocacionados ou chamados a ocupar as posições das profissões da moda. Mas onde estarão os filósofos, os historiadores, os poetas, os contadores de história, os atores de teatro popular, os teólogos, os artistas plásticos, as bailarinas, os músicos? Serão poucos e continuarão há margem, batalhando exaustivamente para sobreviverem? È claro que atualmente observamos que alguns desses profissionais, ligados a filosofia, ao teatro, a música, têm adquirido destaque no mundo corporativo, mas trata-se de uma acanhada minoria. Há uma necessidade de maior reflexão e maior autoconhecimento no meio corporativo, e penso eu, que esse movimento surge como reflexo, alerta e resposta ao inevitável esgotamento da mentalidade pragmática e utilitarista que governam esse meio. Mas esses são poucos aventureiros que tentam desbravar a densa floresta de oportunidades voltadas as profissões da moda. Espero que não seja apenas mais um modismo, como tantos outros que já se apossaram dos executivos e que rapidamente foram descartados. Nesse contexto de exaltação de determinados meios de vida e formas de viver em detrimento de outros, talvez até mais virtuosos (sem receio de formar qualquer juízo de valor), surge a normopatia ou normose.

São os modelos prontos, as formatações, a moda do momento, o pacote fechado de idéias, as receitas, os passos eficazes para isso ou aquilo, o emolduramento, a robotização de um ser humano programável. Contexto esse que tende a agravar-se tendo alguns pensadores que vislumbram o surgimento de uma sociedade pós-humana. Sociedade essa totalmente pautada na técnica e na tecnologia, desprovida de valores propriamente humanos e, conseqüentemente, vazia de princípios cristão como o amor e a misericórdia.

A normopatia, segundo preceitos de estudos atuais da Psicanálise, ou a normose, conforme preferem nomear os adeptos da Psicologia Transpessoal, ou ainda, como indicam alguns psiquiatras, um fenômeno neropsíquico de super-adaptação humana, são classificações de um conceito recentemente cunhado.

A normopatia, como prefiro denominar, é definida como um conjunto de padrões e conceitos, como um modus vivendi, aceito em consenso, ou em maioria, por uma sociedade e que causam, individual ou coletivamente, dor emocional, culpa, exclusão, doença, alienação e morte. São os valores e comportamentos considerados normais por todos ou pela maioria, que, de maneira inconsciente, provoca o sofrimento, a perda de identidade, a formatação. A normopatia é a normalidade de natureza patológica. É a vivência que resulta da osmose do consenso social, que ocorre de maneira automática, sem que se tenha consciência. A normopatia é gerada a partir da introjeção iniciada na infância, principalmente no seio familiar, onde somos ensinados a corresponder a imagem que os outros têm de nós e não o que gostaríamos de ser. Na infância não somos ensinados a refletir, mesmo de forma rudimentar, sobre nossos atos, mas apenas aprendemos a receber e acatar ordens, pois, essa é a regra. Existem, basicamente, duas formas de educar crianças, uma é estabelecendo proibições e limites de comportamento à criança, seja para a preservação da mesma, seja para aplacar as frustrações dos pais, seja como uma mera repetição de modelo, mas sem qualquer explicação de motivos, lembrando que motivos nem sempre são claros para as crianças. Associado a isso um excessivo cuidado que não permiti à criança ter nenhuma autonomia. A segunda é estabelecendo proibições e limites que visão a real preservação e integridade da criança, sempre acompanhados de explicações, levando a criança a entender os motivos. Informando que um dia ela poderá realizar determinadas tarefas e optar por determinados comportamentos por adquirir capacidade de julgamento para tanto. Essa comunicação do nosso entendimento à criança é o que proporciona o que eu chamo de reflexão rudimentar. Associado com essa informação, permitir que a criança corra alguns riscos e que tenha, portanto, certa autonomia vigiada.

O primeiro método é tolhedor, cria adultos mental e emocionalmente dependentes, inseguros, inexperientes na observação e descobrimento do mundo, altamente sugestivos e facilmente formatáveis. São vítimas fatáis da normopatia.
O segundo método é estimulador, cria adultos mental e emocionalmente independentes, mais seguros, reflexivos, prontos a interagir com o mundo, sem perder sua identidade. Esse adulto dificilmente aceita passivamente padrões pré estabelecidos. Geralmente são pessoas esquisitas que buscam a razão das coisas. E certa esquisitice inteligente é necessária para não sermos fagocitados pela normalidade enferma que nos cerca.

Além de todo o peso social o campo religioso é um terreno fértil para o cultivo da normopatia. Uma prova disso é o esvaziamento do conceito de conversão, principalmente num meio que me interessa em particular, o evangélico. Conversão durante séculos foi associado ao arrependimento, a mudança de sentido na vida religiosa, a regeneração interna do convertido. Hoje o conceito de conversão não faz muito sentido. Quando as pessoas dentro da igreja cristã referem-se a outras de fora dizem que essas precisam se converter. Mas se converter a que? A um dado grupo ou comunidade que age de determinada maneira e buscam determinados interesses, em alguns casos claramente apoiados na lógica do mercado de consumo. Geralmente o termo “converter” está, atualmente, relacionado a questões de costumes, padrões morais, aspectos peculiares de determinado grupo. O conceito de regeneração monérgica foi abandonado, por isso, entendo que o melhor termo a ser usado é o de redenção. Primeiro porque ressalta um movimento que parte da iniciativa de Deus e não da nossa. Segundo, porque resulta num resgate não para a forma de um grupo, mas para Deus, que aprecia a diversidade, pois, criou todas as coisas com diversidade.

Jesus Cristo, o homem de Nazaré que caminhava pela Galiléia e dizia ser filho de Deus, subverteu todas as estruturas e normas do seu tempo. Utilize a hermenêutica que desejar na interpretação dos Evangelhos, o que não se pode negar, pelo testemunho ali descrito, é que Jesus Cristo marcou aqueles que o viram e ouviram com atitudes que quebraram com padrões, sejam religiosos, econômicos, socioculturais (costumes principalmente) e políticos. Metanóia é a palavra transliterada do grego utilizado pelos escritores do Novo Testamento e pretende exprimir a idéia de uma mudança radical de sentido, retornar 180º de uma direção a outra. Metanóia, por vezes traduzido como arrependimento, é esse processo de mudança radical de direção por meio do toque de Cristo. Libertação de normatizações escravizantes, de regimes opressores, das ideologias incapacitadoras, geradoras de enquadramentos enfermantes. Metanóia essa é a idéia, uma transformação profunda e radical da normalidade e da homogeneidade. Uma transformação de nossas idéias, conceitos e normas mortificantes pela renovação de nossas mentes pelo testemunho e toque de Jesus Cristo. Um verdadeiro abalo sísmico em nossas formas tão quadráticas de ser e pensar. É preciso despertar do conformismo desse mundo regido por lógicas e razões desumanas e aviltantes. Quem sabe quando abandonarmos essa “vida de gado” consigamos atender ao chamado (vocação) de Deus que tantas vezes pulsa em nosso interior, e aí vivenciar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, que se traduzirá, para lembrar o conceito agostiniano, na verdadeira satisfação e felicidade humana.