domingo, 7 de dezembro de 2008

Reflexões cristológicas (2)


Oi, amigos.
A paz do Senhor.

Vamos agora continuar o nosso bate papo sobre a pessoa de Jesus Cristo e a cristologia durante a história do cristianismo. Pretendo chegar pelo menos até Calcedônia (431 d.C.).

Muito bem.

O que temos de documentalmente mais antigo e confiável a respeito do que os seguidores de Jesus pensaram a respeito do mestre está contido naquela lista de documentos conhecidos como Novo Testamento. É difícil precisar exatamente a data exata de todas as epístolas e evangelhos, mas me parece ser um consenso razoável entre os estudiosos de que, realmente, os citados documentos são os mais antigos dentre os que falam acerca deste tema, qual seja, a pessoa de Jesus, sendo que, possivelmente, as epístolas paulinas são mais antigas que a maior parte dos evangelhos, somente para ficarmos em um exemplo. Mesmo a literatura gnóstica, com seus evangelhos e tratados, só surgem em um momento posterior, sendo talvez, o mais antigo, o Evangelho segundo Tomé.

E são nestes documentos, os contidos no Novo Testamento, que retratam um pouco sobre a vida e pessoa de Jesus. Dos evangelhos, por exemplo, vemos a notável vida que Jesus viveu (ou como preferem alguns para serem mais exatos, vemos a notável vida que outros atribuíram a Jesus). São tais documentos que nos falam dos milagres realizados por Jesus, de sua morte, e de sua ressurreição. São nestes evangelhos que temos alguma explicação sobre a pessoa de Jesus e o valor salvífico de seu sacrifício.

É pela leitura de tais obras que podemos aprender, por exemplo, que Jesus era um ser humano como nós, pois “aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu”. Estes evangelhos dizem que Jesus, muitas vezes, se cansou, chorou, aborreceu-se, etc. Mas também estes documentos nos dizem que Jesus era algo, por assim dizer, um pouco “maior”, que os seres humanos comuns. O evangelho de João, por exemplo, nos diz que Ele era o “Logos” por intermédio de quem tudo foi feito. Ou então, quando Paulo escreve aos colossenses, afirma categoricamente que em Cristo habitava a “plenitude da divindade”. Ou ainda, quando escreve aos filipenses, Paulo diz que Jesus não considerou o ser igual a Deus coisa que devia se apegar, mas antes, esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, e morreu morte de cruz. Portanto, do Novo Testamento, depreendemos que Jesus era um ser humano, mas também podemos sentir que Jesus era algo mais que um ser humano. E é ainda destes documentos que vemos a grande veneração que se forma em torno da pessoa de Jesus, chegando a ser chamado não poucas vezes de Mestre, de Senhor e de Salvador, e também de Rei. Entretanto, o Novo Testamento não nos dá explicações claras de como se dá esta relação entre a humanidade e a divindade de Cristo. Quem vai começar a fazer isso serão os primeiros intérpretes do Novo Testamento. E assim também é em relação à questão da Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo são constantemente citados em varias fórmulas neotestamentárias, mas não há uma explicação teórica, absolutamente detalhada ou teológica, de como se dá esta relação entre os três, ou de como é possível que todos eles sejam somente um Deus. Não é que tais conclusões não possam ser depreendidas do Novo Testamento, mas sim que elas não estão explicitamente explicadas.

Ocorre, que no solo gentio em que o cristianismo estava começando a se desenvolver, pareceu surgir uma necessidade de explicações, de formulações teóricas, de teologia bem elaborada; e, em nossa próxima conversar, vamos tentar entender o porque desta necessidade de conceituar estas questões no mundo neotestamentário.


fonte da foto: http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/historia_da_igreja/debates_sobre_a_natureza_do_cristo.html