segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Reflexões Cristológicas (3)


Comentamos em nosso bate papo anterior que a teologia dita cristã irá se desenvolver principalmente em solo gentílico, e não judaico, e, conforme sabemos, as categorias principalmente gregas de pensamento, de certa forma, influenciavam a forma de pensamento de então. E é nesse momento histórico que nos parece que passa a existir uma necessidade de se entender os aspectos teológicos conceituais a respeito de Deus em seus mínimos detalhes.

Isto porque, em meu entender, diferentemente da religiosidade judaica, os conceitos teológicos gregos se dão através do raciocínio. Pensemos o seguinte:

Os hebreus não faziam teologia conceitual propriamente dita. Não que não haja teologia no Antigo Testamento. Ela existe, mas não em uma mesma dimensão que no pensamento grego. Para o israelita, Deus é principalmente “experiência”, é “evento”, é “acontecimento”. O “pensar” teológico não vem pela via meramente racional, abstrata, mas sim pela inter relação de Deus com o seu povo em sua história, em seu cotidiano. Então, quando ganhavam uma batalha, eles, os hebreus entendiam que Deus era o “Senhor dos Exércitos”; quando eram curados por Deus, este era o “Deus que cura”, quando Abraão levou seu filho para ser imolado e este pergunta onde está o cordeiro, o grande patriarca do povo hebreu respondeu que “Deus proverá”, e assim Deus era “nomeado” pelo povo a medida que estes tinham a “experiência” de Deus.

Já, na forma grega de se fazer teologia, esta se dava mais pela forma racional, ou abstrata, de pensamento. Não parece existir algo como a experiência de Deus (não que não pudesse haver alguma experiência), mas a teologia acontecia mais pelo raciocínio, pela apreensão teológica. Então, pela razão, pensadores gregos chegaram a conclusão que o monoteísmo, ou pelo menos uma divindade soberana que governasse o universo era uma coisa muito mais racional do que os inúmeros politeísmo, panteísmos, e outras mitologias de então. Grande ênfase era dada na questão da “impassibilidade” desta divindade, no sentido de que ela é completa, não sente paixões nem necessidades; ou ainda, a questão de sua atemporalidade, não podendo ser contido pelo temporal; ou sua imortalidade, perfeição, etc; tudo isso, conquistado pela teologia grega por meio, não de uma revelação, mas sim da razão (o que mais tarde vai ser chamado de teologia natural). E, conforme dito, é em meio a esta forma mais grega de pensar que se desenvolve a teologia cristã. A forma de experiência de Deus judaica está presente (afinal, os primeiros seguidores são judeus), mas a base pela qual se desenvolve toda a conceituação teológica posterior é grega (todo o novo testamento é escrito em linguagem grega), e, portanto, sou da opinião de que as controvérsias cristológicas já se instauram desde os tempos neotestamentários, havendo, provavelmente, não uma cristologia, mas sim, “cristologias” que se desenvolvem de acordo com a crença de cada grupo, de cada comunidade.

Entretanto, algo que quero deixar consignado, é a idéia de que uma interpretação que atualmente consideramos a mais ortodoxa a respeito de Jesus já estava presente desde aqueles primeiros tempos de desenvolvimento teológico. O Novo Testamento já nos demonstrava suficientemente a idéia de que Jesus fora humano, pois comeu, bebeu, cresceu, chorou, se cansou, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu, etc; mas também que Jesus era algo mais que ser humano, pois nele habitava a plenitude da divindade, era o Logos encarnado, etc. Obviamente, tais elementos não estão ali totalmente explicados; é a teologia que vai fazer isto posteriormente. Digo isto, pois quero afirmar que, os elementos que serviram de base para as posteriores formulações cristológicas já eram dados no Novo Testamento, e, de acordo com o meu pensar, não foram somente frutos de desenvolvimento posterior; mas sim que era uma interpretação ao lado de outras. Mesmo nos chamados pais da Igreja, como Inácio de Antioquia, Tertuliano, entre outros, já vemos esboçada de forma muito consistente a humanidade e a divindade de Jesus. Nas próximas postagens, vamos ver resumidamente algumas destas interpretações a respeito da pessoa de Jesus.

Um grande abraço a todos.
Carlos Seino.