domingo, 22 de fevereiro de 2009

Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos (Mateus 5.6).


Vejo toda a espécie de revolucionário citar este versículo para tentar “chamar Jesus para a sua própria causa”. Legitimam todas as formas radicais de atitude revolucionária ou social, sob a bandeira de que estão fazendo justiça, estão sedentos por ela; seja a distribuição forçada de bens e propriedades, seja o fim de um governo opressor, etc.

Entretanto, se analisarmos o sermão da monte, veremos que Jesus não é este tipo de revolucionário. Qual destes seria capaz de “dar a face ao que o fere”, ou, caso alguém queira lhe tirar a túnica, dar-lhe também a capa?

Aqueles que têm fome e sede de justiça, em minha opinião, são aqueles que reconhecem que não possuem nenhuma justiça própria diante de Deus. Reconhecem-se como injustos diante de Deus, e clamam, para que, diante d’Ele e por Ele, sejam justificados.

O aspecto objetivo desta questão é o sacrifício de Cristo que foi feito em nosso favor, e o acesso que temos a esta graça é a nossa fé. Subjetivamente, isto se expressa em uma atitude de confiança em nosso Redentor. É por isso que, juntamente com a Igreja antiga, continuamos continuamente a clamar “Kyrie Eleyson”, ou seja, “Senhor, tem piedade de nós”, “tem misericórdia de nós. Pois é somente a presença de Deus em nossas vidas que nos justifica, e que também nos torna justos (em nosso caráter). É a justiça que nos livra dos laços da maldade e da injustiça que, não raras vezes, começa dentro de nós mesmos.

Com isso, não se quer dizer que o cristão não se deva envolver nas causas que demandem o cumprimento da justiça, principalmente no que tange à sua voz profética na sociedade. Mas o que o discípulo precisa saber é que a sua luta não é contra a carne e o sangue, por isso, não trata os homens como inimigos. De qualquer modo, é a presença interior de Deus nele que lhe dá a certeza de que está justificado. Por isso, cristão nenhum pode descansar enquanto não obtiver esta certeza real de que, agora, justificado em Cristo, pode ter paz com Deus (Rm 5.1). E é neste sentido, o da justificação diante de Deus, que os cristãos poderão ser, ainda neste mundo, fartos; mesmo que a injustiça ainda prevaleça no mundo.


Mas quero enfatizar que, não obstante esta análise sistemática, que está de acordo com a doutrina protestante da justificação, fato é que não quero isentar também a interpretação mais ampla no sentido de que o discípulo deve ser alguém sedento para ver a justiça se cumprir neste mundo. Justiça por melhores condições sociais, mínimas para a sobrevivência de todos. Que a ética e o amor possam prevalecer em toda a sociedade. Isto deve angustiar o cristão, que de modo algum virará as costas para tais questões, pois vive o seu discipulado no mundo. Os protestantes criticam o monasticismo, mas de modo geral, criaram um outro tipo de modo de retirar-se do mundo. Fazem isso em forma de "gueto", de forma "igrejeira". As coisas do mundo para eles não importam muito. Basta serem bons frequentadores de igreja, estarem de acordo com a doutrina de sua denominação, ou com as ordens de seus pastores. Mas se esquecem que até João Batista, que vivia no deserto, exortou o hipócrita governante acerca de sua conduta matrimonial pecaminosa, bem como instou aos soldados para que não fossem corruptos, e aos cobradores de impostos que não tomassem mais do que lhes era devido. Ou seja, alguém que, embora no deserto, influenciou a vida na cidade, não se isolando do mundo. Assim também Jesus, diante dos políticos da época, os fariseus, não deixou de proclamar a justiça do reino. Assim também nós devemos estar envolvidos, na medida da força que tivermos, nas causas de nosso mundo, de nossa sociedade, com verdadeira sede para criar um ambiente mais justo e acolhedor, para que vivamos todos em paz, pois isto é agradável, tanto a Deus quanto a nós mesmos. O exemplo dos profestas vétero-testamentários a isso nos leva. A lutar por justiça social, a causa do pobre, do órfão e da viúva, é sempre agradável a Deus. É este o jejum que Ele escolheu...